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8 dicas de como usar Harry Potter na redação do Enem

Além de sucesso literário e cinematográfico, Harry Potter conquistou importância enquanto fenômeno cultural. Pode ser utilizado, portanto, até mesmo na redação do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio).

A história faz parte do imaginário popular. Seja baby boomer ou membro da geração Z, é difícil encontrar alguém que não conheça as casas de Hogwarts, por exemplo, mesmo não sendo fã da obra.

Além disso, a história cruzou a porta das universidades, por abordar temas de relevância educacional, social, política e filosófica. Estas referências cabem na redação do Enem, cujas provas serão realizadas presencial e digitalmente.

Guia sobre como usar Harry Potter na redação do Enem
(Imagem: Warner Bros. Pictures/Reprodução)

8 referências de Harry Potter que cabem na redação do Enem

No Brasil, pesquisadores estudam a construção de caráter dos personagens, similaridades da fantasia com a realidade, compostos alquímicos usados nas poções, escolha linguística para criação de feitiços e nomes, entre outros assuntos.

Estas referências podem ser usadas na redação do Enem. Veja dicas:

  1. Preconceito de raça e classe

Talvez este seja um dos temas sociais mais gritantes de Harry Potter. O preconceito contra “os sangues-ruins” é bastante presente no discurso dos Malfoy, que também se consideram superiores por pertencer à aristocracia bruxa e ter poder aquisitivo.

Guia de como usar Harry Potter na redação do Enem
(Imagem: Warner Bros. Pictures/Reprodução)
  1. Escravidão

A lógica por detrás do trabalho escravo a que os elfos domésticos são submetidos é apresentada ao leitor e ganha desdobramentos com a fundação por Hermione Granger do Fundo de Apoio à Liberação dos Elfos (F.A.L.E).

Este tema possui interlocuções com as questões escravagistas do passado e do presente, permitindo que o candidato crie boas pontes entre Harry Potter e sua argumentação na redação do Enem.

Guia de como usar Harry Potter na redação do Enem
(Imagem: Warner Bros. Pictures/Reprodução)
  1. Ascensão de regimes políticos totalitários

Não é segredo que as semelhanças dos ideais de Voldemort e Grindelwald são próximas do fascismo e do nazismo. A busca pela pureza do sangue, a submissão dos trouxas aos bruxos, a caça aos traidores de raça e àqueles que discordam desses ideais inundam o discurso político de figuras do passado e do presente.

Guia de como usar Harry Potter na redação do Enem
  1. Imprensa e fake news

A imprensa bruxa tem problemas parecidos com a trouxa. A jornalista Rita Skeeter, do Profeta Diário, cobre o Torneio Tribruxo de forma enviesada. Sua distorção da imagem de Harry possui pontos de contato com o fenômeno das fake news.

Os livros também discutem os perigos da imprensa que se vende por interesses políticos, como ocorre quando o Profeta Diário vira fonte da disseminação dos interesses do negacionismo de Cornélio Fudge para o retorno de Voldemort.

Há ainda o jornal do pai de Luna Lovegood, O Pasquim, que é contrário aos valores de Voldemort e encontra pontos de diálogo com O Pasquim brasileiro, que circulava como um jornal de oposição à ditadura militar brasileira (1964–85).

Guia de como usar Harry Potter na redação do Enem
(Imagem: Estúdio MinaLima/Divulgação)
  1. Bullying

Hogwarts é uma escola que, a despeito de sua aura mágica, apresenta situações próximas da realidade de qualquer estudante. Entre elas, o bullying praticado por Malfoy contra colegas que ele considera “inferiores”, como Hermione e Neville.

Guia de como usar Harry Potter na redação do Enem
(Imagem: Warner Bros. Pictures/Reprodução)
  1. Lições sobre amizade

Harry Potter apresenta temas sociais importantes, como os mencionados acima, mas também aborda temas de cunho filosófico, que também podem aparecer como proposta na redação do Enem.

A amizade, assunto amplamente estudado desde Aristóteles (384 a.C–322 a.C), é um deles. É uma das relações mais importantes para a manutenção da sociedade, pois prevê o estabelecimento de ideais de igualdade e fraternidade.

A amizade entre Harry, Rony e Hermione, entre os Marotos, entre Harry e Hagrid, entre os membros da Ordem da Fênix, com todos seus ganhos, perdas e aprendizados podem render boas reflexões na hora da escrita da redação do Enem.

Guia de como usar Harry Potter na redação do Enem
(Imagem: Warner Bros. Pictures/Reprodução)
  1. Lições sobre justiça

A justiça também é amplamente estudada pela filosofia desde a Grécia Antiga. A forma desigual com que Dolores Umbridge trata seus alunos pode ser usada como exemplo de como não exercer a justiça.

Além disso, o lema de que “Hogwarts sempre ajudará aqueles que merecerem” mostra que a lógica mágica que ronda o castelo nunca favorecerá aqueles que são injustos e desleais.

Guia de como usar Harry Potter na redação do Enem
(Imagem: Warner Bros. Pictures/Reprodução)
  1. A importância da leitura

O tema não está dentro dos livros de Harry Potter, mas em sua importância para a formação de leitores, já que a série, que vendeu centenas de milhões de cópias no Brasil, foi quem apresentou a literatura a crianças e jovens brasileiros. 

O poder de Harry Potter para formar leitores é relevante em um país onde somente 52% da população, o equivalente a 100,1 milhões de pessoas, têm a leitura como hábito, segundo pesquisa realizada pelo Instituto Pró-Livro em 2020.

Guia de como usar Harry Potter na redação do Enem
(Imagem: Warner Bros. Pictures/Reprodução)

Exemplos de como usar Harry Potter na redação do Enem

Ao analisar propostas de redação do Enem de anos anteriores, é possível ver na prática como Harry Potter poderia ter sido usado como obra referencial.

  • Em 2004, a redação do Enem teve como tema “Como garantir a liberdade de informação e evitar abusos nos meios de comunicação”, que dialoga com a questão da imprensa bruxa. Veja os textos motivadores e exemplo de introdução potteriana:

Famoso por seus feitos, um garoto de 15 anos presencia a volta de uma figura maligna que ameaça o funcionamento da sociedade a que pertence. Na tentativa de alertar a esfera governamental que regula os direitos e deveres dos cidadãos, ele é desacreditado pelos políticos, uma vez que sua denúncia poderia colocar em cheque o status quo que seu ministro tanto lutara para manter. Assim, o governo vende à imprensa a imagem de que o garoto não passa de um falastrão mentiroso, forçando os cidadãos a acreditarem que a ameaça latente da força maligna é mero fruto da imaginação de um adolescente pirado. As consequências das mentiras propagadas pela imprensa local resultaram em perseguições, tortura e prisões injustas. A narrativa acima resume o enredo de Harry Potter e a Ordem da Fênix (2003), livro escrito por J. K. Rowling, mas poderia facilmente descrever os abusos nos meios de comunicação propagados como “liberdade de informação” que são vinculados na sociedade brasileira – e não somente nela. Valendo-nos do exemplo dado e dos incisos previstos pelo artigo quinto de nossa Constituição, faz-se necessário discutirmos como a liberdade de informação não pode e nem deve recair nos interesses particulares da imprensa, dos políticos e de outras instituições que regem nossa sociedade.

  • Em 2007, o tema da redação do Enem foi “Como conviver com as diferenças”, que dialoga tanto com a questão do bullying quanto com a questão da amizade nos livros de Harry Potter. Veja os textos motivadores e outro exemplo de introdução potteriana:

O artigo primeiro da Declaração Universal dos Direitos Humanos prevê que “todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São dotados de razão e consciência e devem agir em relação uns aos outros com espírito de fraternidade”. A fraternidade é um conceito filosófico que prevê que o homem estabeleça com seus pares sociais uma relação de igualdade, onde não há hierarquia entre um e outro e onde as diferenças sejam respeitadas em prol do bem comum. A ficção traz um caso bastante exemplar e de respeito às diferenças para a manutenção da fraternidade: Harry Potter, Rony Weasley e Hermione Granger, trio de protagonistas da série de livros Harry Potter, aprendem a conviver com o conhecimento que cada um possui a respeito da sociedade bruxa para que juntos, em uma relação não-hierárquica, possam combater a ameaça prenunciada por Voldemort. Ainda dentro dos limites da narrativa de Harry Potter, o não respeito às diferenças – principalmente à de classe e raça – é visto como algo que, além de não ser encorajado, resulta na ruína tanto de personagens que prezam pela hierarquia quanto da sociedade bruxa em si. Trazendo o exemplo da ficção para nossa realidade, os seguintes questionamentos merecem ser discutidos: quais as consequências sociais de não sabermos conviver com as diferenças? Como podemos pensar em alternativas para o desenvolvimento de uma sociedade igualitária e, portanto, mais fraterna?

Guia sobre como usar Harry Potter na redação do Enem
(Imagem: Warner Bros. Pictures/Reprodução)

Cuidado na redação do Enem!

Harry Potter possui pontos interpretativos que podem – e devem! – ser utilizados na redação do Enem. Além de praticar a habilidade de escrita e argumentação, o Enem considera importante um repertório cultural que ajude a defender seu ponto de vista.

O candidato, porém, precisa saber articular as referências aos seus argumentos. Escrever é como costurar uma roupa. Cada parte do tecido precisa funcionar em conjunto, para que nenhum fique “mal costurado” e, por consequência, “defeituosa”. 

É preciso cuidado, mas, se existe a possibilidade de trazer algo tão legal como Harry Potter para sua redação do Enem, por que não?

Edição: Pedro Martins

*Beatriz Masson é professora de redação e literatura na rede particular de ensino. Além disso, é mestre em Teoria Literária e Literatura Comparada pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da Universidade de São Paulo (USP), com a dissertação “Leitores e leituras de Harry Potter”. Também foi a idealizadora do curso “Harry Potter: Caminhos Interpretativos”, que teve três edições na USP entre 2018 e 2020.

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Em 14 anos, muita coisa mudou. Menos nossa vontade de discutir Harry Potter e suas complexidades. Os livros e os filmes foram lançados há anos – alguns, há décadas –, mas ainda há muito o que se discutir.

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