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A morte é apenas a aventura seguinte

Quem é você? De onde você vem? Qual é seu sexo? Sua sexualidade? Sua idade? Sua religião? Você é fã de “Harry Potter”, ou nunca leu o livro na vida? Não importa. Para todos nós, únicos e diferentes, só existe uma resposta certa na vida: um dia, morreremos. E isso nos mata de medo.

Para mostrar que a morte não precisa ser tratada com tanto tabu, Igor Silva disseca o assunto (até onde lhe cabe, claro) em sua nova coluna. E se um Avada Kedavra não lhe der tanto medo assim, leia e comente.


Por Igor Silva

Um dos maiores acertos de J. K. Rowling foi abordar a morte em livros infanto-juvenis. Um prólogo para esse assunto é iniciado com a morte de Cedrico em CdF, é abordado com mais ênfase em OdF (e aí, se observa uma ruptura do Harry adolescente para um Harry mais adulto e maduro) e chega ao seu ápice em RdM.

Nunca consegui entender o eufemismo que certos autores que escrevem para essa faixa etária se valem para tratar do assunto: afinal, falecer não faz parte do ciclo natural de todos nós? Não estamos todos fadados ao mesmo fim?

A imortalidade não é um devaneio exclusivo de Lord Voldemort. Está presente nos mais íntimos sonhos da humanidade, em diferentes época, por diferentes motivos e diferentes formas. Há registros de rituais de ressurreição que remontam à Idade da Pedra.

Os egípcios mumificavam seus faraós (e, posteriormente, os sacerdotes) com o propósito de conservar-lhes os corpos para que, ao final do julgamento de Osíris, os mesmos retornassem do além. Os alquimistas da Idade Média dedicavam suas vidas em busca do Elixir da Longa Vida. Cientistas britânicos estão fazendo suas primeiras experiências de congelamento de corpos em semi-vida, na tentativa de reanimá-los no futuro.

De onde vem esse desejo humano de tentar vencer o que não pode ser vencido? Afinal, a morte é a única certeza que temos sobre a vida desde que nascemos. Será que existe a morte realmente?

Sou suficientemente humilde para admitir que não sou ninguém para desmistificar esses mistérios da vida. Como pobre mortal que sou, arrisco-me a dissertar minhas divagações.

Recordo-me de uma frase do Nick-Quase-Sem-Cabeça, em “A Ordem da Fênix”, na qual ele diz mais ou menos: Eu tive medo da morte… Preferi ficar. Às vezes me pergunto se não deveria… […] Não conheço o segredos da morte, Harry, porque escolhi uma fraca imitação da vida. Imagino que os bruxos cultos estudem essa questão no Departamento de Mistérios…

Nos livros, King’s Cross era a passagem de cá para lá (e vice-versa). Imagino que seja essa passagem o objeto de estudo dos Inomináveis.

O mistério em morrer está justamente no fato de desconhecermos como esse processo se dá. É um instinto humano ter medo do que desconhecemos e a prova mais viva que temos dessa afirmação é o medo do escuro. A escuridão oculta a verdade, não sabemos que coisa pode emergir dela. Esse trauma é superado assim quando alguém de nossa confiança nos mostra que não há nada a temer.

Depois vem o medo dentista, o medo dos primeiros dias na escola, o temor sobre a vida em outra cidade ou país. Conseguimos vencê-los um a um, completando assim a nossa evolução.

Com a morte não é diferente. Talvez ela seja mesmo a aventura final, o último obstáculo, a prova, a mais assustadora porque estamos sozinhos. Não temos, em grande maioria, nossos pais do lado para dizer que não tem nada demais. Não temos aqueles amigos que desde sempre seguraram em nossas mãos, suadas pelo medo, e seguiram conosco durante as fases difíceis. Só existe o eu, o “o que eu fui” e a essência que máscara nenhuma consegue encobrir.

Tenho certeza que Tom, ao receber a maldição Avada Kedavra ao peito, percebeu o quanto foi inútil a sua jornada pela busca da eternidade. Afinal, enquanto houver um coração que ame determinada pessoa, ela será eterna.

Espero que não interpretem essa coluna como um mero texto meloso, repleto de frases grudentas e repetitivas. Pensem nessa coluna como um convite para pensar, seja qual for a sua crença. Talvez seja hora de abandonarmos a (falsa) superficialidade da série e parar para refletir nas reais mensagens que Jô deixou nas entrelinhas de suas obras…

E, como diria Kardec: nascer, morrer, renascer ainda uma vez, tal qual é a lei.

“Do outro lado ainda há vida, Harry

O despertar de uma nova vida

Siga seu coração, pequeno Harry

Ainda que ele tenha cessado há muito suas batidas…”

Igor Silva também tem medo da morte. Mas é um medo saudável.