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Os vôos mais altos do Potterish

De modo a comemorar os mais de 2 anos da editoria, a nova editora de Colunas, Isadora Cecatto, comenta os dez textos que considera o ponto alto da produção potteriana na web.
Leia as análises completas aqui!

Desde 11 de julho de 2006, data onde teve início a área de Colunas do Potterish, foram postados 84 textos, uma média de 3,3 colunas por mês. Com características peculiares, cada coluna passa um pouco da forma como escrevem os integrantes de nossa equipe, além de discorrer acerca de temas populares ou esquecidos, polêmicos ou unânimes da saga Harry Potter e da literatura em geral. Opinar sobre o trabalho de um grupo tão bem articulado e incrivelmente apto na arte de prender seus leitores, não é nada encorajador. No entanto, seguindo a idéia do nosso querido editor “aposentado”, o ilustre Luis Nakajo, cuja ajuda foi indispensável para a seleção que deu origem a esta coluna, resolvi tentar.

Aqui, vocês verão citados e comentados os 10 vôos mais altos do Potterish. Longe de inferiorizar alguns e elevar outros, o Top 10 – o qual não está em ordem classificatória – é como uma retrospectiva, uma relembrança de edições marcantes da história da editoria do site. Lembrando que ele não inclui todos os incríveis colunistas do Ish, o que não significa que estes não tenham voado alto também. Selecionar apenas dez foi difícil, não tenham dúvidas quanto a isso.
Boa leitura. E não se esqueçam dos pára-quedas como prevenção – o pessoal aqui alcançou alturas perigosas!

Potterish :: Harry Potter, o Ickabog, Animais Fantásticos e JK Rowling Os vôos mais altos do Potterish

Harry Potter inglês ou brasileiro?

Falar de um tema polêmico e complexo como a tradução de uma obra pode ser arriscado. Em sua extensa coluna “Harry Potter inglês ou brasileiro?”, que discutiu a já bastante discutida questão da péssima ou excelente tradução da saga Potter, a colunista e tradutora Bruna Moreno faz uma manobra perigosa e, no entanto, excelente em seu vôo: ela toma a postura de defender a pobre tradutora sem – veja bem – ignorar os horrores de suas versões.

Dotada de uma escrita magicamente informal e puríssima, freqüente antítese, a coluna é um dos vôos mais altos não só pela forma como se unem as opiniões e rancores dos leitores e da própria Bruna no concernente às traduções de Lia. Há também a torrente infindável de informações detalhadas e técnicas, óbvias novidades ao fã comum, sem especialidades na arte de traduzir. A visão romantizada da tradução, como quando vemos a colunista falar que cada obra traduzida tem seu caráter individual, por mais próxima que chegue da original, é inspiradora e nos faz repensar o conceito de “péssimo” ou “maravilhoso” diante do Harry Potter brasileiro. Um dos vôos mais altos do Potterish, sem dúvidas, pela opinião nada ignorante de Bruna Moreno e pela maneira cativante com que ela nos ensinou que leitores teimosos e intolerantes nem sempre – quase nunca, aliás – estão com a razão.

Potterish :: Harry Potter, o Ickabog, Animais Fantásticos e JK Rowling Os vôos mais altos do Potterish

As Casas de Hogwarts

A coluna de Pâmela Lima foi quase digna de uma explicação lógica de Hermione Granger. “As Casas de Hogwarts” é um documento valioso sobre o tema em questão, contendo informações conclusivas e racionais acerca de cada uma das quatro casas da Escola de Magia e Bruxaria. Com uma análise completa de personagens pertencentes a cada um dos grupos, Pâmela mostra ao leitor um novo conceito de Grifinória, Lufa-Lufa, Corvinal e Sonserina: o conceito da prática, abrindo mão do teórico pré-conceituoso.

Sem estereótipos e definições pré-concebidas, comuns ao leitor antigo e habituado à visão precipitada, a colunista ajuda-nos a arrancar a venda superficial que sempre permeou as opiniões do pottermaníaco em geral. É considerado um grande vôo por ter, através de argumentos e exemplos bem explicados, mostrado ao leitor pouco crítico o valor de casas esquecidas como Lufa-Lufa e Corvinal, além de tirar o brilho superior – e injusto – com o qual sempre enxergamos as famosas Grifinória e Sonserina. Com ou sem intenção, além da reflexão sobre a que casa realmente pertencemos, Pâmela nos deixa uma possibilidade: qual a distância entre quem somos de verdade e quem tentamos ou queremos ser?

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A Pedagogia de Hogwarts

Em meio a temas comuns e retratados em todos os tipos de discussões e textos potterianos, o escolhido para a coluna de Sheila Vieira vieira fala de um assunto pouco destacado que é do interesse de todos: a pedagogia ideal, tecnicamente conhecida como construtivista, baseando-se nos estudos do brilhante Paulo Freire. O paralelo traçado entre o perfil dos professores de Hogwarts e o comum aos mestres da vida real, faz da coluna fonte de uma interessante reflexão sobre os conceitos de um bom ou ruim professor.

Além da reflexão e do conhecimento teórico proveniente de sua leitura, o texto de Sheila traz consigo também uma análise agradável e retrospectiva em torno das estruturas pedagógicas da nossa conhecida Escola de Magia, lembrando o tato de professores admiráveis e citando as falhas dos menos ricos de saber didático. “A Pedagogia de Hogwarts” é, então, um dos vôos mais altos do Potterish, pela forma útil como julga um grupo fictício enquanto nos faz refletir sobre os mestres reais e encoraja a autonomia educacional com embasamento sólido e fontes de grande crédito.

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Você-Sabe-O-Quê

Mais um texto fantástico de Bruna Moreno merece ser listado aqui. As linhas espirituosas da colunista tornam a coluna agradável e dotada de um humor extremamente inteligente. Embora usado o termo técnico “tabu lingüístico” e referências históricas para adentrar o tema, o tom descontraído e de simples absorção é mantido até o final. Bruna não só explica o conceito de tabu e especifica os atribuídos a Vol… bem, ao Você-Sabe-Quem, como também exemplifica, de maneira igualmente divertida e irônica, termos – tabus, aliás – comuns ao nosso dia-a-dia.

Bruna Moreno voou alto com “Você-Sabe-O-Quê” não só por ter destruído a imagem soberana e amedrontadora de Voldemort (o que, aliás, foi muito bem feito) mostrando o lado lastimável dos históricos tabus. Também e principalmente o fez por dar uma lição de coragem e superação ao lembrar-nos, quase ao nível de Dumbledore, que concretizar algo ou alguém muitas vezes elevado à superioridade por convenção, tornando o objeto de medo algo combatível, é o primeiro passo na destruição de tudo o que nos amedronta. É Voldemort, sim, Bruna!

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Natal a la Hermione

“Natal a la Hermione” foi uma brilhante idéia. A coluna, composta pelos colunistas Camila Galvez, Pamela Lima, Victor Martz, Luis Nakajo e por mim, Isadora Cecatto, permitiu que falássemos de nossos gostos no concernente à literatura além de Harry Potter, mostrando um caminho de leituras alternativas à saga, na época recém terminada. Longe de uma simples lista de dicas, a biblioteca que montamos constituiu o ponto de partida para que o pottermaníaco assíduo, o qual muitas vezes adquiriu paixão por leitura através da história de J.K. Rowling, mantenha-se um amante dos livros.

A coluna conjunta merece o título de um dos vôos mais altos, não resta dúvida, por seu papel de incentivo e seu acervo de indicações cuidadosamente escolhidas por pessoas que obviamente têm a arte de ler como parte da própria vida.

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Olhares da Plataforma

Essa é quase indescritível, mas não pode ficar de fora. “Olhares da Plataforma”, um texto conjunto do qual participou toda a equipe de colunistas, foi o projeto de despedida do nosso “aposentado” editor, Luis Nakajo. A coluna contou com depoimentos simbólicos da forma como cada um leva Harry Potter no coração, além de mostrar o que a saga significou na vida pessoal dos pottermaníacos do Potterish.

Com trechos de “A Pedra Filosofal” os quais nos remetem a uma melancolia sem fim e imagens incríveis, a coluna está entre os vôos mais altos por motivos diversos: além de relembrar a magia a que tanto devemos, tratou também de encher os olhos dos leitores com isso, como vimos nos mais de cem comentários por eles deixados. Com a história de cada um, Luis montou um quebra-cabeça de cenário memorável, fazendo alusão à plataforma de embarque do Expresso de Hogwarts, onde tudo começou. Um vôo em grupo que ficará na história da editoria, sem dúvidas.

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O Pasquim – Imprensa livre também acerta

Embora breve, a coluna de Camila Galvez, antiga editora, é bastante interessante. O tema em si já é polêmico, não só na ficção potteriana como na vida real: o papel da imprensa, no caso, é claro, em Harry Potter. Camila analisa “O Pasquim”, do pai de Luna Lovegood, demonstrando o que a revista representa para o público da ficção de Rowling. Além disso, diferencia a postura do “O Profeta Diário” com relação às publicações de Lovegood, ao definir o público-alvo de cada meio.

Inevitável, o texto traz à mente as revistas de fofoca e assuntos banais que as mães e avós costumam folhear desesperadamente, e em seguida o jornal sério que seu pai lê de óculos no sofá. A coluna encaixa-se na categoria de alto vôo não por ter explicado a diferença entre artigo e notícia, invisível a muitos, mas sim por seu papel esclarecedor no que diz respeito à possibilidade de uma imprensa liberal como a de “O Pasquim” ter, por vezes, interpretação séria por méritos. Ao traçar um paralelo com a nossa realidade, a jornalista Camila chega mais longe: cita o próprio Potterish como exemplo de imprensa livre e esclarece a importância desse tipo de publicação para o mundo real também. Ponto para Xenofílio, por fim.

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A Melodia que Encanta

Um tema raramente abordado surge na coluna de João Victor, cujos apontamentos e comentários trazem à tona a necessidade de se valorizar não só as imagens e atuações de um longa-metragem. Enquanto cita “Cantando na Chuva” e ressalta a importância do mestre John Williams, Victor conta a história resumida do cinema, especificamente falando do início do som nos filmes da telona. Além de explicar o papel das melodias cinematográficas, o colunista relembra embalos sonoros marcantes de produções que conhecemos bem. Gera, aliás, um arrepio com a última lembrança: o famoso tilintar que acaricia os ouvidos de qualquer fã de Harry Potter quando o logo da Warner surge na tela.

Em meio a diversos textos que tratam dos atores, dos personagens, das imagens e dos diretores de cinema, da saga Potter ou não, o vôo de João Victor é alto e nada efêmero, bem como o do ídolo citado, John Williams, cuja importância traduz-se no fato de que é este homem o responsável por todas as conhecidas melodias dos filmes que tanto idolatramos, entre eles Harry Potter. Por fim, João deixa-nos uma dica: ler os nossos amados livros ao som da trilha sonora original de seus filmes. Testado e aprovado!

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Bodes Expiatórios

Que religiosos caíram com força em cima da saga Harry Potter, todos sabemos há tempos. Em sua coluna sobre o tema, Luis Nakajo mostra a forma extremista e fanática com que eles, em especial a Igreja Católica – em certos casos -, encaram e apontam a saga e tantas outras obras polêmicas comparáveis. O interessante do texto é que Luis não se preocupa em atacar a crença do catolicismo como costumeiramente fazem: ele aponta, com certa ironia, fatos históricos e momentos memoráveis, provando ao leitor sem esforço que a repreensão dos adeptos intransigentes – lembrando, não todos – da religião é ignorante e reprovável.

Impossível deixar de notar a camada crítica da coluna, o que faz dela um vôo alto não só por sua posição tão apoiada pelo pottermaníaco em sua maioria. Luis lembra sem cerimônias que o conteúdo rotulado como “herege” de tantas obras, entre elas a de Rowling, é nada menos que um reflexo da nossa sociedade cada vez mais incrédula e superficial. E faz mais: afirma ser medo o que impulsiona a revolta contra uma literatura a qual, segundo o colunista, não passa de uma oportunidade transformativa às mentes abertas em geral. Longe de desrespeitar os adeptos do catolicismo e religiões como um todo, “Bodes Expiatórios” espeta apenas os acomodados e pré-históricos fanáticos, desprovidos de uma racionalidade necessária e da capacidade de absorver uma sociedade cheia de divergências opinativas e conceituais. Com um tom disfarçadamente áspero, Luis decola ao alertar, nas entrelinhas: intransigência e fé cega são tiros que podem “sair pela culatra”, nas palavras do próprio. Um grande vôo, Luis!

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A Geração Mágica de Potter

Por último, embora não menos importante, uma bonita coluna a qual, por mais que breve e simples, se encaixa no tipo raro de texto que emociona com facilidade e faz pensar de forma natural e inevitável. Larissa Almeida fala da geração Potter, essa que tanto vemos citada em jornais e revistas que retratam a saga, essa da qual fazemos parte, fato que traz orgulho quando lembrado. Mas Larissa não retrata o conceito da maneira como ele surgiu: a colunista fala da geração que viu nascer e crescer a saga d’O Eleito. Lembra-nos da questão importante de que somos parte efetiva da história do bruxinho e mostra que, por mais que essa história vá às próximas gerações, a força com que fez parte da nossa é incomparável e única.

Em tempos como os atuais, onde a espera relativa à série se faz possível apenas no que diz respeito aos filmes tão criticados e inferiorizados, uma coluna como a de Larissa é uma injeção de magia extra. O vôo da moça foi alto, sim, apesar das linhas poucas e da linguagem sem frescuras – uma qualidade, eu diria. Um dos mais altos do Potterish, ao passo que colocou em foco a importância de Harry Potter para a nossa vida, o nosso mundo e, acima de tudo, para um tempo que é só nosso. Como disse sabiamente a própria Larissa, o que destaca a geração Potter como irrecuperável depois que for embora é bonito e simples: nós fomos e seremos, para sempre, lembrados como uma geração de leitores capazes de sonhar. “E uma vez parte disso, parte disso para sempre”. Amém, Larissa.

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Isadora Cecatto é pseudo-escritora e, agora oficialmente, editora dessa sessão.