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Mentes doentias

Se não é possível saber de onde veio toda a inspiração de J.K. Rowling, nossa equipe de colunistas tenta, submersa a livros e pesquisas, ao menos encontrar um vínculo de “Harry Potter” com outras obras. Hoje quem estabelece o diálogo é Igor Silva, e seu livro proposto é “Precisamos falar sobre o Kevin”, de Lionel Shriver.

Nele, nos deparamos com a história de Eva, que é mãe de KK, um menino que matou seus colegas na escola. Onde Lorde Voldemort poderia entrar no meio disso? Leia a resenha e levante suas ideias nos comentários!


Por Igor Silva

Entendo Harry Potter como uma obra que extrapola as barreiras da mera literatura fantástica infanto-juvenil, um livro que discorre sobre vida, morte, bem, mal e detentor de uma profunda camada psico-filosófica encoberta por uma simplicidade enganosa.

Nesse contexto, sempre me fascinou explorar o lado B dos personagens, compartilhar de seus dramas e seus dilemas e vasculhar o passado de cada um como forma de provar que cada indivíduo envolvido na história é produto de um meio que, positiva ou negativamente, contribuiu em demasia para formação de um caráter desviado ou não.

Por isso, talvez, “Enigma do Príncipe” seja o segundo livro na lista dos que mais gosto na série (o primeiro é “O Cálice de Fogo). A forma como a autora “desconstruiu” e desmistificou o vilão, temido por todos, a um simples ser humano solitário me fascinou. Pela primeira vez cai a máscara do Lord das Trevas, uma figura que incita medo, para dar lugar a Tom, um jovem moralmente fraco, abandonado e que se vale de maldade para suprir sua carência inconsolável de afeto.

O mesmo acontece com Severo Snape, mas não pretendo me demorar muito nesse personagem em especial, visto que já preparei uma Caricatura sobre ele que vocês poderão ler em breve.

De certa forma, as mentes doentias do mundo potteriano são interrogações para quase todos. É necessário compreender conceitos em psicologia e sociologia, avaliar o desvio de cada um, para finalmente chegar-mos a um perfil que, ao menos até agora, considero dissimulado.

Foi na busca por obras que versassem sobre assunto que encontrei um livro interessante: “Precisamos falar sobre o Kevin” da americana Lionel Shriver.

“Precisamos falar sobre o Kevin” é um retrato de uma família americana “modelo”, onde nada é o que parece ser. Uma superficialidade tomada por alguns como comum na sociedade americana é responsável por destruir a vida de muitas famílias, inclusive da narradora, Eva.

Kevin Khatchadourian, ou KK, é um jovem que aos 16 anos realizou um massacre na sua escola responsável pela morte de sete colegas, uma professora e um servente, além de duas outras pessoas da qual não posso falar por constituírem a verdadeira surpresa no final do livro.

Eva, sua mãe, escreve cartas ao ex-marido e pai de Kevin, Franklin, e conforme vai desenrolando toda a trama, assume uma posição de quero-saber-onde-eu-errei. No entanto, a obra não se resume na tentativa pela busca dos responsáveis por uma pessoa tão cruel, mas sim em confissão da parcela de culpa por parte da mãe.

Não se trata, portanto, de algo que se possa ler em um dia e esquecer no outro. Shriver vai além do óbvio: constrói um enredo perturbador que, por vezes, desperta no leitor um ímpeto em abandonar a leitura tamanha a repulsa não só por Kevin, mas também por Eva.

A cada carta, Eva relata a história do seu filho que, por conseqüência, se entrelaça com a sua própria. Narra os medos quando recém-casada, a angústias, uma gravidez indiretamente indesejada, um nascimento penoso e o desenvolvimento de uma criança que dá, ao longo de sua infância, todas as pistas de uma mente doentia.

Ao contrário de Tom, Kevin não tortura com atos e sim com gestos, olhares e palavras, ou seja, a sua tortura é sentimental. Desde a recusa a ser amamentado pela mãe, até o aparente fingimento quando bebê, passando por um vocabulário moldado às bases do “num gosta”, a maldade em cada falsa lágrima derramada e a crueldade por detrás da coleção de vírus de computador e aulas de arco-e-flecha, Kevin é o que se possa nomear de assassino em formação.

A cada parágrafo, Eva assume a culpa e deixa de lado a pose de “mãe sofredora” para assumir o fato de que ela tem sim uma parcela de contribuição na formação do primogênito. Ela, por sua vez, é egoísta, egocêntrica e em algumas ocasiões, até malvada.

A forma como Eva Khatchadourian descreve friamente os diálogos com o filho quando este último não sabia nem andar é repugnante. Em uma passagem, ela diz para a criança: “[…] você tanto berrou e vomitou que ela se foi. Qual é o problema com você, seu merdinha? Está satisfeito, agora que arruinou a vida da mamãe? Você pode até poder ter enganado o papai, mas a mamãe sabe muito bem qual é a sua. Você é um merdinha, não é? […] A mamãe era feliz antes que o Kevin mijão viesse ao mundo, você sabia disso? E agora a mamãe acorda todos os dias querendo estar na França. A vida da mamãe agora é uma droga […] Você sabia que em certos dias a mamãe preferia estar morta […] para não escutar você guinchar nem mais um minuto, tem dias em que mamãe gostaria de se jogar da Ponte do Brookyn…”.

Contudo, não se exclui aí o fato de Kevin já nascer com uma péssima índole e uma inteligência usada para práticas condenáveis.

Quando se chega ao final do livro, no qual Eva finalmente narra com detalhes tudo o que aconteceu na quinta-feira, a vontade de quem está lendo é jogar o livro pela janela para nunca mais ter de encarar aqueles olhos terríveis da capa.

Impossível não destacar aqui as semelhanças e as diferenças entre Voldemort e KK. Para ambos, a crueldade é apenas uma ferramenta para conseguir seu objetivo. No entanto, Kevin a sua como prazer enquanto o vilão da nossa saga só a considera como mais uma etapa na purificação da sociedade bruxa.

Mais uma vez, fico me perguntando: seres diabólicos, conforme demonstra Lionel, nascem assim? Eu desafio você a ler. “Precisamos falar sobre o Kevin” até o final e tirar suas próprias conclusões.

Igor Silva é dono de uma mente muito sã.