#31: Os desafios de traduzir obras como Harry Potter, com Regiane Winarski

#31: Os desafios de traduzir obras como Harry Potter, com Regiane Winarski

Semanário dos Bruxos

Episódio 311h 01min20 de jul de 2021

🎙️ Episódio 31 · 1h 01min · 20 de jul de 2021

A tradução de Harry Potter sempre gerou discussões acaloradas entre os fãs. Mas, além de concordar ou discordar com as traduções, você sabe como um livro é traduzido? Quanto tempo demora, como é a rotina de um tradutor, por quantas mãos a tradução passa antes de ser impressa? A tradutora Regiane Winarski conversa com os apresentadores do Semanário dos Bruxos, Pedro Martins e Marina Anderi, para explicar os bastidores da profissão.

Ouça o Episódio

Transcrição do Episódio

A transcrição abaixo foi gerada automaticamente e pode conter pequenos erros.

Ver transcrição completa

Sejam muito bem-vindos ao Semanário dos Bruxos, o podcast do Poteiriste, que vai ao ar toda terça-feira nas plataformas de streaming. Eu sou o Pedro Martins, editor-chefe do site. Eu sou Marina Umberi, gênero de marketing. E o tema do podcast dessa semana, gente, é um tema que, assim, vocês, especialmente se vocês forem fãs mais velhos que acompanham o Harry Potter há muitas, quase que décadas, né, leram os livros conforme eles iam sendo lançados, vocês com certeza já leram muito sobre isso, já barracaram muito na internet sobre isso, que é a tradução de Harry Potter, né, gente?

Você é dessa época, né, Marina? Sou, sou velha, amigo. Pois é, eu sou um pouquinho mais novo, mas eu participei dessas discussões todas, porque eu acho que vez ou outra elas ressurgem na internet, né? Não, de cada 10 palavras, 15 do Pedro são, nossa, não, porque eu sou mais novo, mas assim.

É isso, gente, hoje a gente vai falar sobre a tradução de Harry Potter e a gente vai falar sobre como que é trazer livros estrangeiros para o Brasil. E para falar sobre esse assunto com a gente, a gente recebe aqui no Seminário dos Bruxos a tradutora Regiane Wienarski, a Regiane que com certeza vocês já leram alguma coisa traduzida por ela, ela já traduziu todos aqueles livros lindíssimos da Galera Record, que, enfim, são sobre os bastidores dos filmes, dos personagens, das criaturas, mas também vários outros livros do Stephen King, do Rick Ray Ordon, enfim. Regiane já traduziu de tudo, né, e aí ela vai vir falar um pouco com a gente sobre isso. Muito obrigado por ter aceito o convite, viu, Regiane?

Oi, Pedro, Marina, obrigada pelo convite de vocês. Muito bom poder falar de tradução, falar de Harry Potter e falar de coisas que eu amo. Obrigada. Antes de mais nada, então, inclusive, eu queria te perguntar, Regiane, queria que você contasse um pouquinho para a gente como começou a sua carreira de tradutora.

Eu tive um caminho meio louco, né, quando eu terminei o colégio, eu fui estudar Engenharia Química, eu achei que eu queria ser Engenharia Química. E aí, quando eu descobri que eu não queria ser Engenharia Química, eu achei que eu queria ser Editora, daí eu fui estudar Produção Historial. Eu sempre amei livros e foi assim que eu comecei a ir para o lado dos livros. Mesmo assim, eu ainda dei uma volta, fui dar aula de inglês durante um tempo.

E só quando a minha filha nasceu, eu já tinha mais de 30 anos, foi que eu parei o trabalho de professora e fui estudar tradução. E aí eu estudei por conta própria. Naquela época, 13, 14 anos atrás, a gente não tinha tanto acesso a cursos e material de tradução, hoje em dia é muito fácil encontrar. E aí eu estudei por conta própria e ao mesmo tempo eu tinha as amigas que formaram comigo em Produção Historial, que já tinham contato em editoras e assim eu comecei a enviar meu currículo.

Quer dizer, eu fiz o caminho normal de enviar currículo e pedir teste. Mas o fato de eu conhecer algumas pessoas me facilitou descobrir os e-mails de contato, que hoje em dia também é mais fácil porque na internet você consegue muita coisa, tem LinkedIn, pois é. Mas aí eu consegui meus primeiros testes e assim eu comecei a trabalhar. Eu comecei a fazer legenda para a TV a cabo e comecei a trabalhar com aqueles romances de banca, tipo Sabrina, Júlia.

E a partir daí eu fui conseguindo as minhas oportunidades. Ah, que legal. E eu acho que assim, se a gente falar sobre tradução, né, com os fãs de Harry Potter, era muito frequente quando os livros eram lançados em inglês lá em 2000, 2000 e… O último foi em 2007, né, gente, faz muito tempo, meu Deus.

Os grupos de fãs assim se reuniam, né, para traduzirem o texto do livro inteiro. E como eles eram dezenas de pessoas, eles traduziam muito rapidamente, né, sem qualidade, é claro, mas de alguma maneira isso saciava a curiosidade dos fãs sobre o que aconteceria na história, né. E era um trabalho também que creiu e impactava pouco a editora, né, já que todos esses fãs compravam o livro oficial para reler depois, né, e relia, relia e comprava várias edições, enfim, acho que Harry Potter é um fenômeno muito fora da curva nesse sentido. Mas fato é que ninguém tinha paciência para esperar o processo de tradução, né, que é um processo muito mais complexo do que muita gente sabe, né, do que não só fã de Harry Potter, mas muitos leitores, de modo geral, imaginam, né, Regiane.

Aí eu queria que você explicasse um pouquinho para a gente também, por favor, quais são as principais etapas pelas quais uma edição brasileira de um livro estrangeiro passa até chegar às livrarias, assim, sabe, além da tradução, é claro. É, é muito boa essa pergunta que você fez, Pedro. Eu acho importante a Bessa a gente falar disso, porque realmente as pessoas acham que traduzir um livro é uma coisa muito rápida, é uma coisa meio mágica, assim, né. Se a gente tivesse um universo de Harry Potter eu acho até que seria, o processo que costuma acontecer é, depois que a editora recebe o original e envia para o tradutor, e a gente estipula um prazo, e a gente pode até falar dessa questão de prazo mais para frente, depois que o tradutor trabalha no livro e envia o texto traduzido para a editora, o livro ainda tem várias etapas para ser trabalhado.

A primeira coisa que acontece é um processo que chama copy desk ou preparação, que é uma pessoa que vai cotejar, vai comparar cada linha, cada frase, cada parágrafo entre o original e o texto traduzido. O objetivo disso é primeiro ver se o tradutor não saltou nenhum pedaço, porque a gente é humano, a gente às vezes faz isso, né. Pula uma linha, pula uma palavra, pula um parágrafo, então isso pode acontecer, o copy desk ele vai verificar isso, e ele vai verificar também fluidez do texto, se tem alguma coisa, sabe aquela frase que às vezes você lê e você fica assim, tipo, ficou truncado, ficou esquisito, o copy desk ele vai ser responsável por dar uma mexidinha nisso também, e ele vai olhar se tem erro de tradução, que também pode acontecer, erro por desconhecimento ou por escorregão, vamos dizer assim. Depois que o copy desk termina esse trabalho, o texto volta para a editora, porque tem uma pessoa responsável na editora que vai olhar tudo e dizer se está ok ou não, tem uma pessoa supervisionando, assim como o tradutor não é autoridade o revisor não é autoridade, é um processo que tem uma pessoa gerenciando ou uma equipe, então a pessoa da editora vai olhar aquilo tudo e ver se o copy desk também pode errar, então vai dar uma olhada em todas as alterações para ver se está tudo ok.

Feito isso, o livro vai ser diagramado, quer dizer, ele vai ficar com aquela cara de livro, vamos escolher a fonte, a margem, se vai ter enfeitezinho nas páginas, se vai ter desenho, ilustração, ele vai ser todo arrumadinho para ficar com aquela cara de livro, porque é isso? Como o livro vai em seguida para a revisão, a revisão não vai trabalhar só no texto, a revisão vai trabalhar também com a parte visual, quer dizer, ela vai olhar assim, imagina um parágrafo inteiro de 10 linhas e uma palavra sobrou na página seguinte, fica feio, então a revisão vai sinalizar, olha, escapou uma palavrinha só aqui na outra página, então vamos consertar isso aqui, ele vai olhar ortografia, pontuação, gramática, acentuação, vai olhar todos esses detalhes de texto que é o que a gente faz tipo quando a gente escreve um texto em português e relê para consertar os errinhos, e aí quer dizer, ele vai fazer essas duas coisas, ele vai olhar o texto em si e a formatação do texto, e aí volta para a editora, depois vai ter um segundo revisor para fazer isso de novo, e aí depois volta para a editora, e toda vez que volta para a editora, quando a pessoa responsável dá o ok, tem alguém que vai incluir essas alterações no texto digitado, quer dizer, tudo isso é muito demorado, se você parar para pensar em cada etapa, é um processo muito longo. A gente acha inclusive que a revisão, acho que muitos ouvintes nossos nem sabem que existe esse copdesk, que é antes do revisor, muito antes do revisor. Isso, o copdesk tem em mente o texto original, o revisor tem em mente o texto final em português, é bem comum que o revisor nem olhe o texto original em inglês, é muito raro que o revisor trabalhe com o original, a não ser que ele tenha alguma dúvida ou que apareça alguma coisa muito gritante, mas em geral não, o revisor está só olhando o texto final e a parte visual também que é super importante, por isso que o livro tem que ir diagramado para o revisor.

É muito interessante como é um processo que passa por diversas pessoas, porque obviamente somos humanos, então a gente pode cometer erros, mas também você fica com o olhar viciado depois de um tempo. Exatamente. Mesmo que você possa, tipo assim, beleza, terminei de fazer isso aqui, vou reler tudo, sei lá, tem coisa que você vai ser meio incapaz de ver, porque você já está acostumado com o texto, até assim, em coisas tão básicas, às vezes no poteiriste a gente posta uma imagem, passa para mim, passa para o Pedro, passa para o designer, passa para não sei quê, e a gente não viu, porque a gente está tão acostumado a olhar o negócio, que aí só depois que o negócio já foi, e aí tipo, é um processo bem amador, aí tipo, nossa, numa editora tem que ser, realmente, muita gente bem a fundo. É, e mesmo assim, se você parar para pensar, quando você tem um processo longo, com muita gente trabalhando nele, seria um erro depois.

Por isso que eu sempre falo assim, quando você vê um erro num livro, pode ser um erro de ortografia, pode ser um erro gramatical, nem sempre foi o tradutor que fez aquele erro, esse erro pode ter aparecido numa dessas alterações, porque imagina, eu escrevo um negócio, aí o copdesk vai lá e altera, aí o revisor não gostou, achou que não ficou legal, alterou de novo, você vai mexendo em pedaços de frase, e às vezes passa uma concordância, você troca um nós por a gente, a gente escapa uma concordância, e sai um agente fomos, por exemplo, porque às vezes na pressa, quem está trabalhando no texto final o deixa escapar, porque a gente é humano mesmo, a gente erra, não tem muito jeito, por mais que a gente se esforce para fazer perfeito, não tem muito jeito, acaba passando alguma coisa. Então se vir um erro, gente, num livro, não surta, sabe? É só avisar a editora com carinho que eles vão mexer na próxima edição. Isso, é sempre bom avisar, eu acho legal.

Ah, aqui é isso, né? São todos humanos que estão fazendo aquilo, é claro que você tem o trabalho mal feito, a gente sabe que em qualquer categoria, de qualquer profissão, você tem profissionais ruins, o mundo dos livros não está livre disso, também tem profissionais ruins e profissionais bons, mas também tem a questão do sem querer mesmo, e é normal, não existe livro sem erro nenhum, às vezes a gente nem percebe, mas todo livro tem algum erro. E aí, Regiane, falando da tradução especificamente, qual o tempo médio que um tradutor profissional, tipo com experiência, leva para traduzir um livro de, sei lá, 500 páginas, por exemplo? Eu sei que depende muito da complexidade do texto, então seria um prazo médio, sim.

É, assim, existe uma outra coisa aí que é a questão da produtividade, da rapidez. Eu sou bem rápida, eu digito rápido, eu tenho assim uma produtividade relativamente boa. Nem todos os tradutores são assim, então também tem essa coisa pessoal, é importante o tradutor conhecer sua produtividade para poder negociar os prazos. Falando de mim, se uma editora me faz uma proposta de um livro de 500 páginas, e pergunta para mim assim, ah, Regiane, que prazo você quer para fazer esse livro?

Eu vou pedir uns três meses, três meses e meio, mais ou menos, porque eu preciso ter tempo de revisar no final também, eu não vou só traduzir as 500 páginas, mas eu vou reler tudo no final. Então eu costumo pedir um prazo assim, eu peço para mais, assim, quatro meses, aí se a editora fala, não, quatro meses não dá, aí eu vou enxugando, mas isso para fazer sem pressa, sem correria, é bastante tempo, mas é para fazer bem feito. É tipo o salário, né? Você joga pra cima para bater mais ou menos o que você quer, assim.

É, a negociação de prazo é exatamente isso, assim, com a diferença de que às vezes, muitas vezes eu já recebo o prazo, a editora me escreve e fala, eu tenho esse livro, o tamanho dele é tal e eu preciso para a data tal, você consegue fazer? É mais comum que seja assim do que eu dite o prazo, porque a editora já tem um cronograma, né, de lançamento dos livros, principalmente se for um livro muito esperado, um livro de um próprio Stephen King da vida, um Rick Jordan e os próprios Harry Potter na época que saíram, mas na época era um outro processo, era bem diferente. Mas, assim, são livros que você acaba tendo uns prazos menores e aí a editora já chega com o prazo para você. No caso de um livro que não tem tanta pressa, não é um livro famoso, não é esperado, aí a gente tem esse espaço de negociar.

Eu acho que, assim, uma curiosidade, né, então, assim, gente, vocês que estavam lá traduzindo os livros, sem maldade, é claro, a gente entende, mas, enfim, cobrando ali o Eiler, daquele jeito, né, nossa, mulher, traduz mais rápido, enfim. Ali, ela contou numa das entrevistas que ela deu para o Potteriche, ela dava bastante entrevista para o Potteriche, ela tinha uma relação muito próxima com a gente, ela era muito fofinha. Que ela levou cerca de, acho que, 60, 62 dias, se não me engano, para traduzir as Relíquias da Morte, que foi o último livro da franquia. Gente, isso me parece um prazo apertado, né?

É um livro de 600 páginas, não é? É. É um prazo bem apertado, sim. É o tipo de prazo que eu costumo fazer quando eu tenho esses livros urgentes.

Os do Rick Riordan foram todos corridos assim, por exemplo. Mas é uma ocasião especial, vamos dizer assim, dentro da rotina do tradutor. A gente não, eu nem consigo viver de traduzir assim. Você faz isso para um livro, para um momento especial, não dá para viver de fazer isso sempre, se não a gente morre de exaustão assim.

Exaustão física e mental, que é muito cansativo. É porque é um processo que exige muito da cabeça, né? Meu Deus. E dos dedos também, dos pulsos, porque tem a digitação, é uma loucura.

Assim, as pessoas nunca pensam no quanto é difícil a gente estar assim, nessa movimentação de ficar sentado numa cadeira, né? Aquela coluna parada e os dedos e os pulsos só na digitação. É difícil pra caramba, é bem cansativo. Eu imagino.

Acho que isso puxa, inclusive, uma outra pergunta que eu queria te fazer, Regiane, que tem também os livros que são lançados simultaneamente em inglês e português, né? E os que são lançados não simultaneamente, mas muito próximo, né? Esse foi mais ou menos o caso da Cantiga dos Pássaros e da Serpente, né? Que é aquele prequel de Jogos Horários, acho que nossos ouvintes devem todos conhecer, que você traduziu o ano passado para Roko, né?

A mesma editora de Harry Potter, inclusive, que lançou, se não me engano, com um mês de diferença da versão em inglês. Aí quando isso acontece, muito a mesma editora, você vê, assim, nas redes sociais, que acha que você traduziu o livro em um mês, assim, né? Tipo, que foi tudo nossa, a tradutora tá vendo? Quando ela quer, quando o tradutor quer, ele se esforça e consegue, sabe?

Mas não foi assim, né? Pois é, não é questão de esforço. Mas é, as pessoas acham que é assim. Assim, a gente tem algumas coisas aqui na jogada.

Uma coisa que a gente precisa lembrar é que a gente, o tradutor só pode começar a traduzir o livro quando o agente do autor enviar o original. O que isso quer dizer? Isso quer dizer que, às vezes, a gente não recebe tão cedo assim. Quando os agentes enviam cedo, o autor termina cedo.

É uma maravilha, porque a gente pode fazer sem o estresse, sem a correria. Mas, às vezes, eles demoram muito, porque eles ainda estão fazendo a alteração na edição original e não estão com o texto final pronto. E eles só vão mandar pra gente quando estiverem com o texto final pronto. Então, assim, a primeira coisa é que a gente depende de receber esse original.

Não é uma vontade de demorar pra começar. O Stephen King, por exemplo, houve uma época alguns anos atrás que eles nunca enviavam o original antes do lançamento lá nos Estados Unidos. Os agentes dele não sei por que motivam, mas eles só enviavam depois que o livro saía nos Estados Unidos. Então, era impossível lançar simultâneo.

A gente tinha que esperar. E aí, com o tempo, a editora conseguiu negociar e tal. Agora, o livro que vai sair em agosto, Billy Summers, eu já terminei de traduzir há um tempão, porque eles conseguiram enviar cedo e a gente pôde fazer um trabalho mais tranquilo na tradução e a editora tá fazendo o trabalho mais tranquilo no processo editorial todo. Então, essa é a primeira coisa que a gente tem que lembrar.

Demora pra chegar pra gente. E isso faz toda a diferença. E aí, quando chega, a gente tem que fazer uns cronogramas malucos. A Cantiga dos Pazes da Serpente foi meio doida, assim.

A gente teve que fazer um planejamento bem puxado. E aí, acaba ficando muito cansativo. Mas, assim, a gente faz, vamos dizer assim, um sacrifício pelo livro, né? E esse é um gigante, né?

Ele tem 600 páginas, eu acho? Ele é bem grande. Eu não lembro quantas páginas ele tem, mas ele é bem grande. E, assim, você tem uma exaustão.

É tipo você correr uma maratona. Você não vai correr uma maratona atrás da outra, né? Você vai treinar pra uma maratona, você vai fazer uma maratona e você vai ter um período de descanso. A tradução desses livros corridos, assim, acaba sendo isso.

É tipo uma maratona de trabalho e depois eu tenho que descansar. Eu continuo trabalhando, obviamente, mas num ritmo normal. Porque eu não consigo manter esse ritmo de maratona direto. É muito cansativo.

E essa, pelo que você comenta até, acho que de modo geral os leitores já sentem, assim, que hoje em dia acaba sendo um pouco mais comum o lançamento simultâneo, ou mais próximos. Mas, assim, isso não me parecia ser uma possibilidade na época de Harry Potter, né, gente? Se vocês voltarem lá no site de notícias de 2005, 2006, vocês vão achar notícia, gente, de que, assim, o esquema pra não vazar Harry Potter, os livros, era assim, era coisa de outro planeta, né? Tipo polícia da Inglaterra envolvida, umas coisas assim, meu Deus, tipo, não tinha a mínima possibilidade, eu imagino, da Rocco, receber esses originais antes deles lançarem, né?

Quem tinha, enfim, eram as duas editoras que trabalham em inglês, muito provavelmente. É, é, e aí não tinha o processo de tradução no meio, porque o texto já tá em inglês. Então, já facilitava o lançamento. Pra gente, nunca que eles iam mandar tão antes assim.

O prazo acaba ficando muito pequeno. E sobre a data do lançamento, que você comentou que é um pouquinho depois, em geral, não é no mesmo dia que lá fora, porque tem uma questão de logística de distribuição. O Brasil é um país muito grande e a nossa logística de distribuição não é tão boa. Os Estados Unidos é um país bem diferente nesse sentido da gente.

Então, assim, pra você garantir que você vai ter o livro no Rio de Janeiro, em São Paulo, mas também em Recife, em Manaus, em Porto Alegre, em Cuiabá, quando você vai lançar o livro, você tem que ele disponível no país inteiro. Então, a gente precisa de um tempo a mais pra fazer esse processo. E esse, em geral, pelo que eu já ouvi das editoras, é o motivo de não ser exatamente no mesmo dia. Uhum.

E isso também eu lembro que assim, eu lembro que eu li algumas notícias que, no caso de Harry Potter, às vezes rolava, né, de algumas livrarias furarem embargo, não sei se é embargo, a gente que é jornalista que trabalha com embargo, mas enfim, furarem, enfim, a data, né, começar a vender dois, três dias antes, enfim, aí virava todo aquele bafafá, né. É um processo muito complicado, né. Muito. E isso tudo tem a ver com a distribuição, porque você tem que garantir que todo mundo vai receber pra poder vender.

E daí o livreiro, ele tem que cumprir a parte dele, deixar a caixa fechada, até a data certa, né. Deveria, pelo menos. Mas eu lembro dessas histórias também. Eu também acompanhei o lançamento de cada Harry Potter na época.

Eu não era tradutora ainda, eu era só leitora, mas eu acompanhei tudo. E eu lembro dessas histórias. Não, legal. E no caso dos livros sobre os bastidores dos filmes, né, Regiane, que você traduziu, eu vou até ver aqui na minha estante quantos são.

São quatro. É, são quatro. Fora os outros também de Animais Fantásticos, né, enfim, que são até um pouco menores, mas enfim. Esses que a gente tá falando, que são os da galera Record, eles são enormes, né, com várias imagens, inclusive legendas.

Isso. Quanto tempo, assim, você costumou levar média pra traduzir esses volumes? Porque eles são todos meio parecidos, né, que são de tamanho até? É.

Esses livros foram uma loucura. O prazo deles era muito pequeno. Era coisa tipo 15 dias. Nossa.

Foi muita loucura. Porque… O motivo disso, na verdade, era que eles tinham uma cláusula contratual, de que alguém lá fora tinha que olhar tudo antes de aprovar pra impressão. É.

Uma curiosidade, gente, assim, quem trabalha de alguma maneira, seja uma pessoa que tá traduzindo, uma editora, ou seja, até mesmo nós, assim, nós, o pessoal dos youtubers, quando você tá trabalhando com o pessoal da marca Harry Potter, o negócio é muito complicado, né, Marina? Não, exato, é um processo, porque tem que passar por eles, assim, muita coisa. A ideia, o texto, a imagem, tudo tem que ser aprovado certinho, não foi, você tem que alterar. É uma coisa, assim, tipo, é um cuidado muito grande, eu acho, pra manter, tipo, coeso, né, tipo, o universo.

Inclusive essa parte de tradução, né? É. Esses livros tiveram isso. E esses livros tinham uma questão do tamanho do texto também.

Porque, justamente, como eles têm as imagens, aí você tem aqueles, né, retângulos de texto e tal, as legendas tinham que caber direitinho embaixo da imagem. Eu não tenho acesso a essa parte quando eu tô traduzindo, eu faço o texto livremente, então depois eles ainda tem que ajustar e isso tudo tinha que passar pelo crivo pra ser aprovado. Então o prazo era realmente, o prazo foi muito louco, assim. Facilitou muito porque eu já conhecia totalmente o universo de Harry Potter.

Então, assim, todos os nomes traduzidos, os nomes das criaturas, eu já sabia praticamente todos, um ou outro eu precisei consultar pra lembrar. Mas, então, assim, agilizou muito o fato de eu conhecer. O pessoal lá da editora sabia que eu gostava de Harry Potter e que eu conhecia. Então, quando eles me escolheram, a gente também conversou sobre isso.

Acaba ficando mais fácil do que você botar uma pessoa que não conhece nada do universo, né? Que essa pessoa vai ter muito mais trabalho, vai levar muito mais tempo. E que, inclusive, depois os fãs vão perceber e vão ficar, né? É bem provável.

Então, assim, os prazos foram muito loucos. Era tipo assim, larga tudo pra fazer isso. Foi uma baita duma aventura, assim. Eu só aceitei porque era Harry Potter.

Mas muito louco isso, né? Tipo, realmente faz todo o sentido, né? Enfim, tradutora com experiência e fã de Harry Potter porque, nossa, uma pessoa que não conhece tem que ficar ali procurando nome por nome, né? Tipo, mesmo que seja na internet, né?

Assim, demora muito tempo se você já não tiver noção. Você já tem um prazo pequeno. Se você for perder muito tempo olhando isso tudo, assim, vai ficar difícil tornar esse prazo factível, né? Eu ia te perguntar até qual que é a foi a principal dificuldade de traduzir esse texto, mas eu imagino que também além dos nomes, que era uma coisa com a qual você já era mais familiarizada, esses livros têm muitos termos também, às vezes, sobre, sei lá, moda, né?

A gente tá falando sobre figurino. Isso. Essa parte foi bem difícil. A parte de algumas coisas de cinema, ângulo de câmera, umas coisas que eu não sei.

Sobre cenário e tal. Então, assim, essa parte foi difícil também. Mas foi divertida, assim. Foi um difícil bom.

Não foi aquele difícil que desanima, não, porque é um universo que eu gosto. Não só o Harry Potter, mas a coisa do cinema eu gosto também. A parte, acho que o das criaturas foi o mais difícil, por causa de efeito especial. Falar de efeito especial é muito difícil.

Encontrar os termos certos. E o texto também é muito interessante, né? Pra quem é fã, eu que li esses livros posso te dizer pra todo mundo aí. Eu adoro esses livros.

Eles ficam, assim, na minha estante da sala, expostos. Eu adoro eles. É tipo a gente foi o que fez. Ah, pô, mas é muito legal mesmo, né?

Tipo, acho que a gente sempre sonha, né? Tipo assim, eu fui cinema, né? Na faculdade. E aí eu fico imaginando, tipo assim, eu sendo fã de Harry Potter, do jeito que eu sou, se algum dia eu pudesse trabalhar em Harry Potter.

Sabe? Tipo, ia ser uma coisa surreal. E você conseguiu fazer isso dentro da sua profissão, né? É muito emocionante, assim.

É muito legal. Todas as oportunidades que eu tive de trabalhar com qualquer coisa de Harry Potter, eu fiz esses da galera. Tem um de animais fantásticos da galera também. E eu fiz uns livrinhos da Roku.

Pequenininhos, assim, que eram dos personagens. Eram do Harry, do Ron, da Hermione e do… Acho que era do Dumbledore, não tenho certeza. E os de animais fantásticos também da Roku, né?

Uns guias, assim. E de animais fantásticos também. Isso, os dois guias de animais fantásticos da Roku também. Bem gostosinho, assim.

Um trabalho divertido. Sim, sim. E agora que a gente, né, explicou pro pessoal como é que funciona essa logística de prazos, de tradução. Queria falar um pouquinho tanto com Regiane, é claro, que é especialista, mas também com Marina, que é muito boa e acompanhou muito de perto essas discussões, né, quando elas eram muito acaloradas na internet sobre, enfim, como traduzir pode ser uma tarefa difícil quando você está trabalhando com universos fictícios, né, como é o caso de Harry Potter.

Como você avalia, Regiane, as traduções de Harry Potter para as palavras criadas pela J.K. Rowling, assim? Você acha que tinha mesmo que traduzir tudo, não precisava? É algo comum a se fazer hoje em dia nas editoras, não é?

Como é que você avalia isso tudo? É, assim, a primeira coisa que a gente tem que ter em mente, olhando para Harry Potter especificamente, é que quando o primeiro livro foi lançado, ninguém sabia que Harry Potter ia ser o sucesso que foi, ninguém sabia que ia ser sete livros, ninguém sabia que ia ser aquele processo da adolescência inteira, a gente não sabia nada disso. O primeiro livro é muito despretensioso, né, ele é muito leve, ele é muito, ele é um infanto-choverio mesmo. Então, a editora, quando ela recebe aquele material aqui para traduzir, o olhar dela é, é um livro para né, pré-adolescente, de 11, 13 anos, mais ou menos.

Então, ela traduziu a visão editorial, assim, a meu via, ninguém me falou isso, isso é como eu interpreto. A visão editorial foi traduzir um livro para 11, 13 anos, mais ou menos. Então, o que que você faz? Você puxa para ficar adequado a essa idade.

Como no caso do Harry Potter foi uma série que se desenvolveu e os leitores cresceram junto com os livros e tal, que é uma coisa muito legal, isso acabou criando um certo ruído com a abordagem mais infanto-juvenil dele no começo, para a tradução de algumas coisas. Que isso acabou sendo um problema, mas assim, eu acho que a gente tem que dar um desconto pelo fato de que ninguém sabia que ia ser assim. Foi assim, esse sucesso estrondoso. Quem imaginou que aquele primeiro livro ia ser tão importante até hoje, né?

Tanto tempo depois. Quando a Roko comprou, né, a história toda que o Paulo Roko, o dono da editora Roko conta e tudo mais, é que quando ele comprou o Harry Potter ele comprou os dois primeiros e só tinha os dois primeiros e não tinha nenhuma informação de que teria uma série, né? Exatamente. E aí você tem que traduzir com o material que você tem em mãos.

E aquilo parecia uma coisa muito pré-adolescente, assim. Eu não gosto muito da palavra infanto-juvenil porque ela abrange um espectro muito grande de idade, né? Eu acho que, eu tô assim, falando coisa de 11 a 13, talvez 10, não sei. Mas é uma coisa mais focada pra essa idadezinha assim de pré-adolescência, que é a idade do Harry no livro, né?

Então a editora trabalhou com o que eles tinham que era aquilo. E aí, falando de editoras de um modo geral, o padrão da gente é quando você tem uma palavra criada que tem alguma espécie de significado ou alguma espécie de valor a gente tenta traduzir. A gente faz isso até pra fantasia adulta, não é só pra livro jovem não, pra livro adolescente e jovem. Quando você tem um livro de fantasia e você tem palavras criadas que tem algum peso, algum significado que vai fazer diferença pro leitor, se ele tiver algum entendimento do que que é aquela palavra, a gente tenta traduzir.

Tenta assim, né? Usar um pouco a criatividade, fazer uma coisa legal. Porque senão você acaba tendo um resultado, se você deixa no inglês, que o leitor brasileiro que não sabe inglês, ele perde. E a gente não quer que ninguém perca, né?

Então a gente, assim, a ideia é a gente tentar traduzir o que tem significado. Agora tem outras coisas que realmente não precisa. Total, né? Tipo assim, é porque eu vejo, por exemplo, a tradução de outros países, né?

Em comparação, pensando principalmente nos termos, né? Dos nomes a gente vai falar daqui a pouco. Mas é porque tipo, Portugal, por exemplo, né? Nossa, é a mesma idioma que a gente.

Eles não traduziram quase nada, né? Eles falam quidditch, né? É, não. Não traduz o esporte, não traduz o nome de casa.

E aí, tipo, eu nem sei se esse é pior ou não. A questão é que, tipo, eu acho muito legal a gente ter a nossa versão e o mais fácil de falar, o mais fácil de escrever. Tipo, a tradução meio que varia de país pra país, né? Não sei se tem a ver com o tradutor, com a editora, com o jeito que o país faz.

Tipo, em francês eles traduzem muita coisa também, que eu li recentemente. Nossa, até Hogwarts eles traduziram em francês, né? É, exato. É Poodler.

Olha, eu não sabia. Legal. Exato. E uma curiosidade, é que varinha mágica é Baguette Magique.

Ah, que legal. É perfeito, né? Então, no Brasil, não é exclusivo, assim, de traduzir esses termos, essas coisas. E eu acho legal.

Eu acho que ajuda muito na imersão, você ter aquilo no seu idioma, né? E também a preocupação de não só ser uma coisa que você consegue falar, mas que signifique algo próximo, né? Do original, que você não perca isso, não seja uma palavra vazia. Eu gosto muito disso.

Ainda mais que a gente tem uma população que não tem tanto acesso ao conhecimento do inglês. Eu acho que você pega um país como Portugal, já que você usou de exemplo. Eu acho que os jovens de Portugal têm um acesso a uma formação de inglês mais forte do que o que a gente tem nas escolas, assim, tomando como base a escola pública brasileira, né? Eu acho que lá eles têm uma formação mais forte de inglês para fazer essa ponte um pouquinho mais fácil, para entender os termos.

Aqui a gente realmente acho que a gente tem que pensar no leitor médio, que não vai saber o inglês. Eu gosto disso. Eu gosto de você conseguir aproximar o livro estrangeiro para o leitor. Eu acho um pouco arrogante você supor que todo mundo vai saber ou que não precisa saber.

Poxa, se o autor botar um significado ali, por que não? Eu acho que é muito importante, até, assim, de alguma maneira, eu acho que a Lia Weiler tentou até trazer, se a gente pega, por exemplo, Slytherin, né? Tem, assim, na pronúncia em inglês, tem de alguma maneira como se fosse uma cobra rastejando, enquanto em português você tem som serina também, né? Tipo, foi um trabalho muito bem feito, né?

Eu achei, os nomes das casas eu acho a coisa mais brilhante da tradução de Harry Potter inteiro. Eu achei que ficou excelente no nome das quatro casas. E são nomes que no original ficariam muito difíceis para a gente falar em português. Não, eu penso em mim assim, quando eu comecei a ler, eu comecei a ler Harry Potter com oito anos.

Então, assim, foi o primeiro livro que eu li na minha vida, né? Sem ilustração e tudo mais. Então, assim, eu não teria mínima condições de falar Quidditch. E também, enfim, nem saberia o que isso significa.

Não, é, essa coisa do Quidditch, né? Eu acho que pegar, né, essa coisa de terminar com um bolo, né? Que é muito como termina as coisas do Brasil, tipo, de esportes que tem com bola, tá ligado? E, tipo, Quidditch tem várias, né?

É um que faz muito sentido, é muito legal essa conexão, tá ligado? Eu gosto bastante também. Eu acho que algumas das coisas que ela fez ficaram muito boas. E uma das traduções eu acho que mais gera discordância, né, entre os fãs, e talvez a Regina também tem uma opinião sobre isso, é a tradução de alguns nomes, né?

Você tem coisas assim, Ron foi traduzido para Rony, né? O que eu, particularmente, acho muito interessante, porque, enfim, eu, quando criança, não ia saber falar Ron, né? Eu falava Ron, basicamente. Mas a gente tem algumas traduções, né, de James para Tiago, por exemplo, que é o pai do Harry, pra quem não lembra, e algumas outras até, né, que é o Gellert, do Gerardo, né?

Pra quem não lembra, é o primeiro nome do Grindelwald, gente. E aí, Regiane, você é a favor de traduções de nomes próprios, não só em Harry Potter, mas de Maldirá, o que você acha sobre isso tudo? Não, eu, essa eu tenho que concordar com o pessoal que reclama, eu também não gosto, não. Eu acho desnecessário.

Eu acho que, é, são nomes que não tem significado, né? James, todo mundo já ouviu o nome James em português, a gente tem acesso aí a tantos artistas estrangeiros, cantores, atores, não é um nome, até tem em português, algumas pessoas chamadas James. Eu acho que podia ter deixado. Mesmo os que não são tão comuns, tipo Gellert, eu acho que podia deixar.

Eu não vejo problema, eu acho que a gente não deve traduzir o nome. Mas aí eu faço paralelo, por exemplo, com os apelidos dos Marotos, que eu acho que tem que traduzir. E eu achei ótimas as traduções também, o Mooney, aluado pra Mooney, eu acho bacana isso. Esses aí tem significado, são apelidos com significados, aí eu acho que vale traduzir.

Agora, nome por nome como Tiago, eu acho desnecessário, não precisava, não. E você pensa, por exemplo, talvez, sei lá, um Severus, de Severus Nape, assim, de alguma maneira, que você acha que Valery vale, enfim, não vale? Eu acho que não precisa, Pedro, eu acho que não precisa, assim, só se você tiver, você gerar alguma estranheza no nome, assim, eu tô falando isso porque eu tô lembrando de um livro que eu traduzi uma vez, era até um livro adulto, mas o sobrenome do personagem terminava com C-U, e ficava esquisito, assim, e aí a editora trocou por C-O, só pra tirar aquele aquela carga que ficou, porque dava muita atenção a última sílaba do nome. Era uma coisa boba, aí eu acho ok, assim, né, mas você, cara, fora isso.

É porque, assim, eu penso que tem coisa que se perde, né, por exemplo, eu, quando eu era criança e tava lendo lá Harry Potter, eu nunca pensaria que a professora Pomona, que não foi traduzido, né, Sprout, é porque Harry Potter é isso que você falou, ele começa sendo um livro muito infantil, então Sprout, gente, talvez tem gente que não se tocou disso ainda, mas Sprout é do verbo germinar. É. E você perdeu, nem a Lea Waller, ninguém traduziu Sprout pra professora Pomona germinar, assim, tipo, não existe isso, né, então mesmo assim, tem muita coisa que se perde, né, e eu acho que isso é uma coisa de aceitar também, de alguma maneira, que vai se perder mesmo, né. É, a gente que trabalha com tradução tem isso, a gente tem que aceitar a perda e tentar compensar quando dá, isso vale pra tudo, pra piada, pra trocadilho, a vida da gente é aceitar a perda, mas mesmo assim, ia ficar esquisito você traduzir, a não ser que a pessoa tivesse fazendo a tradução, tivesse uma ideia, assim, muito brilhante pra tradução desse sobrenome sem ficar forçado, porque ficaria forçado Pomona germinar, fica forçado, fica esquisito, aí, assim, a não ser que a pessoa tenha aquele estalo, às vezes a gente tenha uns estalos brilhantes, encontra uma solução muito legal e aproveita, mas, de um modo geral, fica difícil.

E eu acho que se a Lia, né, que era uma pessoa que teve alguns vários desses em Harry Potter, não teve, é porque provavelmente não tinha como ler, e tava traduzindo os nomes, inclusive, provavelmente porque não tinha como, né. É, eu acho que foi bem difícil. É, eu acho que, tipo, o sobrenome, por exemplo, ela estabeleceu pra ela mesma de que ela não ia traduzir, né, porque nenhum deles é traduzido, acho que uma coisa meio assim, talvez nos fundadores, né, mas é porque é o nome das casas, então… É, ela falava inclusive que ela não sabia que essas os nomes das casas seriam nomes de pessoas, mas eu acho que foi uma escolha que, mesmo que não foi consciente, deu certo e funcionou.

É, exato, tipo, eu, geralmente, quando eu me refiro a casa, eu falo em português, quando eu me refiro a personagem, eu falo sobrenome em inglês. Eu acho que esse é o padrão também, né. É, exato, essa é a diferenciação. É, agora, uma coisa que eu preciso dizer também, algumas editores, elas têm diretrizes pra como você lidar com isso.

Eu não sei se esse era o caso da Roko nessa época, mas às vezes você vai trabalhar com um editor e a editora te diz olha, você não pode traduzir isso, você tem que traduzir aquilo. Então, algumas vezes a gente recebe essas orientações. Eu não sei até que ponto decidi botar Tiago pro James, foi só uma decisão da Lia, se foi uma decisão que veio depois, se foi uma diretriz editorial, eu não tenho ideia disso. Que isso é uma coisa que eu tava falando antes e que eu acho que é importante a gente lembrar.

Nem tudo é o tradutor, a gente não é o rei do livro, assim, o rei da tradução. O livro passa por muita gente e essas pessoas vão opinar também. Às vezes um livro fica pronto e houve uma alteração que eu nem sabia que tinha sido feita, assim, tipo, decidiram depois mudar um nome ou mudar, ou traduzir uma coisa que eu não tinha traduzido. E às vezes eu só fico sabendo quando o livro fica pronto.

Porque muitas vezes quem bate martelo não é, muitas vezes não, acho que quase sempre quem bate martelo no texto acaba sendo o editor, né, não o tradutor. É, é o editor, o editor vai olhar tudo aquilo depois e vai decidir. Às vezes assim, eu, com a experiência, com um tempo de trabalho, eu já mando o recado pros editores, quando eu acho que precisa traduzir um nome, teve, assim, teve um livro do King que tinha um personagem que tinha um nome que ela fazia uma brincadeira com o nome dela. E eu consegui pensar numa ideia legal.

Aí eu mandei um recadinho, olha, eu sei que a gente não costuma traduzir nome, a gente tem essa piadinha, será que a gente pode deixar assim? Então assim, você vai fazendo essa comunicação com o editor pra achar as soluções. Mas às vezes a gente não tem essa escolha, às vezes você só me recebe, olha, tem que fazer assim. Eu acho que isso é uma questão muito importante, porque eu acho que o nome que fica muito público, né, é o do tradutor.

Ninguém sabe, então a culpa cai sempre no tradutor. Pelo erro que não foi ele que inseriu, pela tradução que às vezes não foi ele que escolheu fazer ou deixar de fazer. Ou até pela glória também, né? Tipo, acho que fica pro bem pro mal.

Isso aconteceu comigo uma vez, uma pessoa me mandou um… escreveu no Twitter pra eu falar assim, olha, eu adorei essa solução que você achou pro apelido da personagem. Aí eu tive que falar, olha, essa solução não foi minha. Eu não tive uma ideia legal, e às vezes quando eu não tenho uma ideia legal, eu mando um recado pra editor e falo, olha, eu quebrei a cabeça, mas eu não consegui achar a solução pra isso.

E alguém no editorial achou, então eu também não vou colher o louro pela coisa que eu não fiz, né? Não tinha sido eu que tinha tido a ideia, então eu falei, olha, eu também achei a apelida excelente, mas a ideia não foi minha. Foi na editor e eu nem sei quem foi, assim, foi no processo editorial que veio depois. E conversar com o autor é muito difícil, né?

Porque assim, a gente sabe que a Lia, no início, ela conseguia, né? Dizem que no início da tradução, o pessoal da Roku conta, a Mônica, né, que era preparadora, coapdesce, conta que no início, nos dois primeiros livros, né? Quando ela ainda não era famosa como se tornou, elas trocavam figurinhas, assim, diz que a Lia fazia umas listas, olha, eu traduzi isso aqui, o que você acha? E ela fala, não, e ela sabe, entende português, né?

Lei português. Mas isso é difícil e raro até, às vezes, acontecer, né? No mercado editorial. Isso é difícil, é raro e isso tem que passar pela editora.

O tradutor nunca pode procurar o autor por fora, porque a gente tá fazendo um trabalho pra uma editora. Então, se eu precisar falar com algum autor, eu tenho que contactar a editora e falar, olha, eu precisava falar com um autor ou com um agente, nem que o autor é difícil, eles vão botar, eles vão passar a nossa pergunta pro agente, o agente vai passar pro autor, se ele achar que precisa, às vezes eles nem respondem. Então, assim, quase nunca acontece isso, né? Quase não, é assim, eu nunca consultei um autor pra saber alguma coisa de livro, nunca.

Eu já falei com autores, mas, assim, não pra consultar sobre tradução, já troquei mensagem no Twitter, já recebi recadinho e tal, mas, e mesmo assim, é dos que não são famosos, né? Imagina se um mega blaster ator, se o Rick Hayordan vai falar comigo, ele não sabe nem que eu existo. E, claro, imagina também que pra eles deve ser complicado, né? Porque tem tradução e, às vezes, 60, 70 idiomas, né?

Exatamente, é isso mesmo, então, assim… É, e se você não fala idioma, né? Tá nem como se elogiar, tipo… Não, é, aí é muito difícil isso, assim.

O que acontece é, às vezes, com autores menores, assim, autores menos famosos, que tão começando o primeiro livro e tal, aí a gente consegue, às vezes, trocar uma ideia. Mas, de um modo geral, pô, isso é muito raro, não é comum, não. Se a Lia teve a chance de falar com a Jackie Rowling, eu acho que ela teve um baita privilégio aí de trocar umas ideias. E foi só no início também, né?

Eu tenho certeza que depois ela deve ter tentado continuar a falar e não conseguiu, né? É o que reza a lenda, né, pelo menos. É, porque depois que começou a fazer um baita de um sucesso, a coisa ficou enlouquecida, né? Pois é.

É, teve o rolê, assim, no caso eu não acho que ela falou diretamente, né? Mas teve o rolê, por exemplo, de Enigma do Príncipe, né? Que a tradução literal do livro, né, é o Príncipe Mexiço, o Ralph Blood Prince. Em Brasil, o Enigma do Príncipe, meio que foi, tipo, a Lia mandou umas opções pra Jackie Rowling, né?

Por intermédio, eu tinha não sei o que. Mandou umas opções e a Jackie Rowling, tipo, aprovou o Enigma do Príncipe, assim. Tipo, ah, pode ser. Isso gerou muito conflito entre os fãs na época também, né?

Eu lembro, eu bafafá todo com o Príncipe Mexiço e o Enigma do Príncipe. Diziam que era por conta do politicamente correto, né? Ah, berro, é verdade, né? Pode ser.

Teve muita gente falando disso, eu lembro dessa história. É muito difícil saber, né, gente? Realmente saber até que ponto. Tem muitas coisas, por exemplo, o pessoal reclama até daquela cena que a Molly tá em Relíquias da Morte, e aí ela fala, not my daughter, you bitch, né?

E aí, em português, minha filha não, sua vaca. E aí, nossa, tá achando que a gente é criança, que a gente não pode levar dia, não sei quê, não sei que lá. Tem algumas coisas, às vezes, que eu acho que o pessoal nem imagina, né, Regiane? Foi uma coisa que eu lembrei, eu não ia nem te perguntar, mas eu lembrei.

Às vezes o livro não pode ter palavrão, né? Porque às vezes o livro vai ser, sei lá, comercializado pra criança, vendido pra governo. É, isso às vezes vem da diretriz da editora também. Se você tem alguma limitação com o palavrão, às vezes não pode.

E não é só isso também, o palavrão, ele talvez esteja na categoria das palavras com tradução menos direta de todas do idioma. Porque o uso do palavrão, ele tem a ver com o contexto, muito mais do que com o significado literal. Então, você pega a palavra bitch, você pode usar essa palavra em várias situações e ter vários contextos diferentes. Então, assim, a gente como tradutor também vai sentir qual é o uso dessa palavra, o que que esse personagem tá querendo transmitir quando ele fala isso, sabe?

E aí você faz uma escolha com base nisso. Você pega a palavra fucking, ela pode ter um monte de significado. E a maioria delas não vai ser literal, não vai ser direta. É, eu lembrei de morte súbita, né, que é tipo um livro da J.K.

Rowling que tem, nossa, sei lá, o maior número de palavrões em por metro quadrado, assim. Tipo, é impressionante. E todos, na verdade, é tudo fucking. É, todos os verbos, eles usam como adverbios, né, Marina?

Não, é, de várias formas, é tudo fuck fucking, né? E aí pra você traduzir isso, pode ser tanta coisa, né? Tipo assim, pode ser tanto palavrão. Então, é que eu não li em português, então não sei como é que ficou, mas português a gente tem muito mais variedade de palavrão do que no inglês.

Não, exatamente. E aí você varia mais e você pode adequar mais ao contexto, que você não tem tanto com o inglês. O inglês você usa mesmo palavrão pra um monte de coisa e aí o entededor que entenda. Mas quando você vai traduzir você não vai botar tudo igual, porque, né, você quer dar a riqueza do que o palavrão acrescenta numa frase, você quer fazer igual em português, é o que a gente deve fazer, né?

Uhum. E aí tem essa questão de tradução mesmo que eu não tinha nem pensado e tem essa questão, né, que eu acho que o pessoal também, às vezes, nem imagina, né, que muitos livros existem nos processos, gente. Sei porque a editora já me contaram que as editoras tentam vender livros em massa para o governo federal para que eles sejam distribuídos em escolas. Eu não sei se aconteceu isso com o Harry Potter, mas acontece.

Então o governo não vai comprar um livro que tem escrito, sei lá, um vadia muito provavelmente, né? Vai contra diretrizes, enfim. Eu acho que, na verdade, você até fala mais forte, né, tipo sua puta, que é pra ir, mas mais palavrão. É, nossa.

Mas, gente, eu fico imaginando, será que a Molly Weasley tava com essa intenção? Eu acho que ela super tipo teria falado em português, sabe? Sua vaca, assim, tipo não me incomodou. Mas é porque o fã, e o fã naquela época adolescente ele é complicado, né?

Ele achou que não. A Lea Wilder acha que a gente é criança, que a gente não sabe palavrão. É, eu acho que é tipo essa coisa, né, de pegar questões e se incomodar muito. Até o rolê do nome, né, que a gente falou antes, tipo assim ah, acho necessário, não me incomoda.

Tipo assim, eu vou morrer, tá ligado? Se eu falar Tiago, sabe assim? E aí as pessoas levam pra um nível, né, às vezes, que eu acho que é meio além, assim, tipo, acho que essas críticas que ele inventou e tudo mais, muitas vezes era a gente levando o negócio pra um patamar e que a gente calma, né, assim. Acho que todo mundo tem sua preferência e esse totalmente válido, né?

Mas tipo, sabe, tudo bem. É, não, eu acho que também tem essa faixa de idade, principalmente o fã adolescente, tem muito isso do me tratar como criança. Tem um pouco isso também. Acho que algumas pessoas talvez tenham se incomodado com a tradução dos nomes por causa tipo, mas acha que eu não sei que nome que é James, que eu não vou saber falar James?

A plataforma, né? Ninety Quarters, enfim, plataforma 9.5, enfim. É, isso é estranho, mas eu acho legal também, sabe? Eu acho legal quando a tradução de uma obra é tão rica que até a tradução dela, né, gera tantos debates e tantas, enfim.

Isso é. Acho legal, assim, se você souber discutir sem ser, né, enfim, infantil e ficar ofendendo as pessoas. Porque assim, eu não sei como é que tá hoje, tá, Regiane, mas eu lembro que até pouco tempo atrás, tradutor era muito ofendido por fã, assim, sabe? Você traduziu Rick Riordan, né?

Enfim, não sei se você passou por isso, mas Steven King talvez tenha um público mais adulto, mas é complicado, né? É, não, eu tive muita sorte. Eu nunca… Uma vez só teve uma menina que me chamou de maluca no Twitter por causa de uma tradução.

E era até por uma coisa que nem eu tinha feito, que eu tava comentando que a editora às vezes faz umas mudanças nos livros. Ela não gostou de uns apelidos traduzidos. Um livro que tinha um pessoal que tinha uns apelidos traduzidos. Cada apelido tinha um motivo pra ser e ela não gostou.

Era tipo os marotos, assim, que você tem um apelido e ela queria que deixasse inglês e aí ela me chamou de maluca. Foi a única vez. Mas era um livro super desconhecido, assim, né? Era nada demais.

Ai, que fia! Eu tenho a certeza que tem gente escutando a gente e assim, tem que confessar os erros, tá, gente? Porque assim, a gente comete erros na vida. Que às vezes quando você começa a ler com 8 anos de idade, você não tem inglês nenhum.

Aí você acha maravilhoso. Quando você tem 15, você fez seu cursinho de inglês, aí você entendeu alguma coisa, aí você já acha que não precisa. Rola isso também, né? Mas a gente tem que ter uma mentalidade de que você tem muita gente lendo o livro que não sabe inglês.

Que não sabe, tipo, não tem a menor ideia. Só sabe yes, no e acabou. Então, assim, o livro, o ideal é que ele seja pro público falante de português e ponto, sabe? E esse eu acho que é uma coisa que a gente tem que ter na cabeça.

Então, traduzir algumas coisas que tem significado é muito importante por causa disso. Às vezes você perde uma referência, uma piada, se aquilo não tá traduzido. Bom, de qualquer forma, seja em Harry Potter ou em qualquer outra obra, o tradutor tem um papel muito grande ao popularizar uma história num país, né? Não só pelos livros, mas também pelos filmes, que, né, por consequência pra ficar tudo certinho, sempre usam as traduções dos livros e não costumam nem pagar por isso.

Como que você enxerga, Regiane, o reconhecimento dado ao tradutor hoje em dia? Ou talvez a falta dele, não sei qual, a sua perspectiva. Engraçada que essa é uma luta minha, assim, desde que eu comecei a trabalhar com tradução, pela visibilidade do tradutor. Eu sempre prestei atenção em quem traduzia os livros que eu li antes de eu começar a trabalhar com isso.

Eu nunca entendi porque as pessoas não fazem isso, porque claro que tem alguém ali por trás daquilo, claro que foi alguém que fez aquilo, né, alguém na verdade, porque você também tem o resto da equipe depois. Mas, assim, desde que eu comecei a traduzir, eu sempre faço muita campanha nas redes sociais pras pessoas prestarem atenção, olha quem traduziu. Tudo bem, nem todo mundo tem conhecimento suficiente pra falar de tradução, mas só conhecer. Você vai olhar o autor, você vai olhar a editora, você pode olhar o nome de quem traduziu também, só pra você começar a conhecer.

E é interessante isso, assim, porque a repercussão que eu vejo nas pessoas que me acompanham nas redes sociais é justamente elas falando que quando elas começam a prestar atenção, elas começam a encontrar padrões, a ver livros diferentes que a mesma pessoa que traduziu. Isso gera, assim, um caminho diferente pra quem lê muito, né? É um outro caminho, além de você ter ah, os livros da editora tal, ou os livros do autor tal, ou os livros do gênero tal. Tem gente também que já acompanha os livros do tradutor tal.

Isso é legal, Bessa. É super rico pra mim e pras meus colegas de tradução. Mas isso realmente não é tão… Isso é uma luta constante.

A gente tá sempre falando sobre isso. Assim, é muito comum que mesmo o pessoal que tem canal no YouTube, que tem blog, que tem Instagram de livros, muitas vezes nem cita quem é o tradutor. Tem gente que fala qual é a gramatura do papel, qual é a fonte do livro, capa dura, mas não fala quem traduziu, assim. Parece que o objeto livro é muito mais importante.

E quando fala é só pra criticar negativamente, né? Muitas vezes é pra criticar negativamente. Eu tenho muita sorte, assim, que a minha luta pela visibilidade me rende muitos frutos. Eu vejo muita repercussão boa.

Às vezes as pessoas me marcam até em coisas falando de outros tradutores, comentando que começou a prestar atenção por causa de coisas que eu falei, assim. E aí começam a seguir outros tradutores. Já teve gente me perguntando, você conhece a tradutora tal que eu queria chamar pra fazer uma entrevista? Isso é muito legal, assim.

As pessoas começarem a prestar atenção. É um trabalho super legal, é um trabalho super rico. Em geral, quem trabalha com livro gosta de livro, porque é um trabalho muito ingrato, assim, né? É um trabalho que não paga tão bem, é um trabalho difícil, a gente rala pra caramba.

E aí, normalmente, quem trabalha com isso gosta de livro. E quem gosta de ler é sempre um prazer você encontrar uma outra pessoa que gosta, sendo profissional dos livros que você gosta de ler. Isso também é bacana. Então, assim, eu acho que o reconhecimento ao tradutor tá crescendo.

Mas é assim, né? Passinho de bebê, devagarzinho. A internet, as redes sociais dão muito espaço pra gente pra isso. Então, eu sigo com a minha campanha.

De tempos em tempos, eu tô lá falando da visibilidade do tradutor. Tá certíssima. E por falar nisso, inclusive, né? Eu acho que é uma dúvida que todo mundo tem, especialmente quem tem interesse em trabalhar profissionalmente com tradução e tudo mais.

É como funciona o trabalho, né? Eu acho que você já comentou aqui com a gente. Eu acho que pra quem não ficou muito claro que é um trabalho freelancer, né? Ganha por livro traduzido, enfim.

Isso. Inclusive, eu trabalho pra várias editoras ao mesmo tempo. Eu que gerencio o meu tempo. A editora Roku não sabe se eu tô trabalhando pra editora suma, ao mesmo tempo eu não tô.

Ninguém tem nada com isso, assim. Eu tenho que gerenciar meu tempo e cumprir meus prazos. Só isso. Então, assim, eu negocio um livro, eu assino um contrato, eu negocio um prazo e um valor e eu recebo por livro traduzido.

Quando eu acabo esse livro, eu não tenho vínculo nenhum mais com a editora. Eu tive que cumprir um contrato só. Uhum. Eu confesso que eu fui, né?

Estalquear seu LinkedIn. E de fato é impressionante, né? Porque são tipo várias editoras, né? Tipo aí nas editoras, todos os livros que você fez, né?

Tipo em cada uma, assim. Achei muito que é muita coisa e muito variada, né? Tem muito tempo que eu não arrumo lá. Meu LinkedIn tá bem atrasadinho, assim.

Eu não atualizo há bastante tempo. Já tem tanta coisa? Pois é. Eu gostava de deixar lá tudo arrumadinho, até pra eu saber, porque eu esqueço.

Ah, sim, é verdade, né? Se você faz um trabalho de uma editora, depois é pra outra, não é uma coisa que é contínua, necessariamente, né? Você acaba esquecendo. É, tem editora que eu faço, assim, um livro por ano.

Tem outras que é tudo seguidinho. Um atrás de um, acaba um, já tem outro. Isso varia muito. É que você vai construindo seu networking, basicamente, porque aí você tem um bom relacionamento, faz o rolê e aí sempre vai tendo trabalho, né?

Isso. Eu falo isso muito pro pessoal que é estudante de tradução. Você fazer um bom trabalho abre muitas portas, porque quem trabalha dentro da editora muda muito de emprego. Então, às vezes, se você fez um bom trabalho pra uma determinada pessoa numa editora X, quando ela for pra outra editora, ela vai lembrar de você, vai te chamar.

Lembra de mim, que a gente trabalhou junto e tal. Pois é, queria te trazer pra cá. Isso acontece muito comigo. E aí eu falo sempre, a gente tem que cumprir prazo, tem que fazer o melhor trabalho que puder fazer, porque é isso que vai abrir suas portas.

Ficar pedindo teste é o caminho inicial. Enviar currículo, mandar teste é o caminho inicial. Mas depois que você já bota o pezinho lá depois, seu pezinho passou da porta e você começou os trabalhos, você fazer um bom trabalho que vai ser marcante pra quem te contratou, é assim, o que mais abre outras portas pra você. Porque todo mundo quer trabalhar com alguém quem confia.

Claro, faz muita diferença. É um pouco parecido também com quem trabalha com jornalismo na parte de redação, né? Como eu trabalho como freelancer, é mais ou menos um pouco parecido, né? É, é assim.

Você vai entrando assim de alguma maneira. E eu acho que também uma pergunta que a gente fazia e também é muito parecida com o jornalismo, o pessoal se pergunta claro, né? O quanto ganha um tradutor? Eu acho que é muito difícil responder essa pergunta, né, Regiane?

Porque depende, até mesmo você disse, é claro que naquele mês que você está traduzindo um nível de 500 páginas em 20 dias, você vai ganhar mais do que o mês que você está traduzindo mais calma. Então, por ser freelancer é um negócio que varia muito, né? A renda varia muito. Quem quer engraçar na profissão é outra coisa que eu também sempre falo.

Você tem que em algum momento tentar fazer um pé de meia. Se você puder começar quando você ainda mora com seus pais, ou quando você tem um outro emprego e faz paralelamente, porque você não vai conseguir ter uma boa renda de cara. Eu tenho meses em que eu recebo pagamentos de três livros e tenho um mês que eu não recebo nenhum. Então, eu tenho que ter um equilíbrio na minha vida financeira, porque as minhas contas vão vir todo mês.

A minha conta não vai vir só quando eu recebo o pagamento de três livros. Então, eu tenho que ter aquele preparo financeiro para lidar com os meses em que eu não estou recebendo nada. Não é nem porque eu não estou trabalhando, porque não calhou de eu ter terminado um livro naquela ocasião. Então, assim, a renda realmente varia muito, não tem como dizer quanto varia inclusive de editora para editora.

O quanto cada editora paga pelo trabalho varia bastante e os prazos de pagamento variam. Tem editora que paga rapidinho, tem editora que demora um mês, às vezes 45 dias. São muitas variáveis para poder responder isso de uma forma mais precisa, sabe? Tem muitas coisas para interferir.

E quando a gente faz esse esquema, o livro de 500 páginas e 20 dias em um mês, a gente costuma receber mais por isso também, porque a gente tem trabalho de urgência, então quando a editora me faz uma proposta dessa, ela já vem com uma compensação financeira porque aquela coisa, eu corri a maratona, não é só pelo amor, eu também tenho que receber mais por isso. Eu acho que o pessoal talvez nem conheça tanto, mas quem trabalha com texto, gente, seja jornalista, seja tradutor, enfim, usa uma maneira de você, porque página, às vezes a diagramação do livro, ele tem mais conteúdo, menos conteúdo a lauda. Se vocês tiverem interesse, vocês procuram. A lauda jornalística tem uma quantidade de caracteres, a lauda de tradução tem outra, e aí, enfim, negocia-se muito por lauda, mas é o que a Regine falou, eu imagino, né?

Cada editora tem um preço, cada complexidade de texto tem um preço, então é muito variável, muitas variáveis, né? Varia muito. Eu sempre falo que página não é medida da mesma forma que garrafa de água não é medida. Você pode ter aquela garrafinha de 250ml, você pode ter uma garrafa de 5 litros.

Então garrafa não é medida para água da mesma forma que página não é medida para texto. A gente usa lauda como usaria um litro. Um litro sempre vai ser um litro. Uma lauda de tantos caracteres sempre vai ser uma lauda de tradução de caracteres.

Exatamente. Interessante. E aí, como a gente tá falando basicamente como é que funciona a área pra quem quer trabalhar assim? Tipo, existem graduações, né, que você pode fazer especificamente, mas nem toda tradutora as possui, né?

Tipo, você sente que elas são essenciais para o trabalho, e se não são, qual que é a alternativa? Como é que você pensa isso? É, o tradutor, ele não precisa ter formação de tradução. Não existe uma necessidade, não é uma profissão regulamentada.

Então a minha formação é produção historial, não é tradução. Agora, existem, existe a tradução como graduação, existe como pós-graduação, e existem os cursos livres. O que eu acho é que a habilidade que o tradutor tem que ter, a habilidade que é essencial é escrever bem. Tem que escrever bem, ter um domínio maravilhoso do português, ter um texto excelente.

É isso que vai te tornar, claro que o conhecimento do inglês ou do outro idioma que você traduzir, é importantíssimo, mas as pessoas costumam pensar muito ah, eu tenho que saber muito inglês pra traduzir e esquecem que tem que escrever em português super bem. É isso que vai ser seu diferencial. Você oferecer pra uma editora um texto de excelente qualidade. Então assim, algumas pessoas já me perguntaram, ah, aqui na cidade que eu moro, não tem faculdade de tradução.

Eu quero fazer estibular, quero fazer ENEM, escolher um curso, eu não sei o que eu faço. O que eu posso fazer pra poder ser tradutora? Eu costumo recomendar. Escolha alguma coisa que você vai ter que ler muito e escrever muito.

É porque você vai tá treinando a sua habilidade principal. Então pega uma coisa que você gosta, claro, mas algo que você tem que ler muito e escrever muito. E se possível também adquirir cultura em geral. Que são as bagagens que vão te preparar melhor.

Se você tá num lugar que você não tem a menor condição de fazer uma faculdade de tradução, isso não é essencial. Você pode fazer letras, você pode fazer jornalismo, pode fazer história, filosofia. Tem tantas coisas aí que dá pra fazer. É claro que você tem que ter em mente um plano B, de repente.

O que eu vou fazer com filosofia se eu não conseguir entrar na tradução? Sei lá. Não é pra fazer qualquer coisa, mas tipo, não vai fazer matemática. Matemática não vai te preparar pra escrever.

Exato. É isso. E escrever é fundamental. É a coisa mais importante.

As pessoas sempre falam muito. Ah, eu tenho que saber inglês pra caramba, né? É, mas tem que saber mais português. Porque o trabalho que você vai entregar é em português, né?

Não é em inglês. É. E as pessoas focam muito no original do livro e não focam tanto no fato de que é isso. Você vai ter que escrever.

Tem que saber escrever muito bem. Tem que ter um texto assim, redondinho. É, e também meio que, tipo assim, vai traduzindo, né? Vai achando o texto, vai traduzindo, vai treinando, vai vendo.

Porque uma coisa que eu achava muito na faculdade, tipo, né, que eu fiz cinema, que também não é regulamentado, não precisa, eu achava que eu tava esperando minha vida começar. E aí, quando eu entrei na faculdade, que eu percebi gente, mas eu já podia tá fazendo filme há muito tempo, já podia tá fazendo curso, já podia tá em coletivo, sabe? Eu fiquei, eu senti que eu fiquei moscando, tá ligado? Ao invés de ir atrás e tipo, botar a mão na massa, né?

Botar a mão na massa mesmo. Exato, assim, tipo, um amigo que mora comigo, o Renan, ele é tradutor, né? E ele decidiu isso porque ele era tradutor no Poteiriche e começou a fazer e pegou gosto, pegou experiência, sabe? Então, antes de entrar na faculdade, quantos milhões de textos ele já tinha traduzido, sabe?

Então, foi muito de ter uma visão, né? Acho que uma coisa legal de certas faculdades é, tipo, ah, você consegue ter uma visão social das coisas e repertório, né? É. Mas, pô, principalmente fazer o rolê, né?

Fazer, eu sei, eu falo muito isso também pras pessoas, faz grupo de estudo, sabe? Traduz junto, pega o mesmo texto, três pessoas traduzem, troca entre si pra um ler o do outro, debate aquilo depois, porque traduzir é escolher. Aí, quando você compara o mesmo texto traduzido por duas, três pessoas, você vai falar assim, por que você escolheu essa palavra e não escolheu essa? E você escolheu essa?

Aí você vai refletir sobre escolhas. Não é que uma esteja mais certa do que a outra, mas o processo de tradução é você refletir sobre os seus escolhas. E você ganhar autonomia pra fazer isso sozinho quando você tá no exercício real da profissão. Mas pra desenvolver essa visão e essa sensibilidade, a gente tem que treinar.

E é por isso que todo tradutor fala, ah, se você pegar lá o primeiro livro que eu traduzi, vou aproveitar da droga, porque a gente vai desenvolvendo essa sensibilidade com o tempo, com a prática. E é isso, né, gente? Acho que tudo vale, cara. Se você quiser pegar um livro aí, pega, porque seja um Harry Potter, que não é o primeiro livro, não é difícil.

Se você quiser traduzir um capítulo, depois comparar com a tradução oficial, né? Vê se, enfim… Eu também recomendo isso às vezes, comparar com tradução oficial, tradução publicada, mas tendo em mente que a publicada não é necessariamente mais certa. É escolha.

E você refletir sobre as escolhas. Por que será que o tradutor escolheu isso aqui? Ou por que será que a editora deixou assim? E por que não assim?

Obviamente você não vai ter a chance de discutir com o tradutor, muito provavelmente. Mas só o processo de reflexão sobre o texto já desenvolve pra caramba. E outra coisa, assim, que eu falo muito pras pessoas que eu trabalhei, eu fiz mentoria no passado com um pessoal que era estudante, e aí o que eu falo sempre é assim, a gente precisa desenvolver uma sensibilidade pro nosso texto. Porque assim, voltando pra aquilo que a Marina tinha falado antes, a gente meio que vicia no texto da gente, não percebe as coisas.

Mas por outro lado, se a gente desenvolve um olhar que já sabe onde é que a gente erra mais, eu já sei quais são os meus maiores problemas. Então quando eu vou revisar, eu foco nisso principalmente. Eu já sei o que que eu tenho que olhar. Por isso é importante trabalhar bastante, né?

Eu, é a mesma coisa, eu enquanto jornalista eu sei, porque todos os estudantes corrigem, sei lá, eu erro muito o erro X. É isso, você tem que prestar atenção ali. Você tem a sensibilidade daquele olhar, assim, de perceber, o meu ponto fraco é esse. Você saber seus pontos fortes é ótimo, mas saber seus pontos fracos é ouro, assim.

Exato, ou seja, colocar a mão na massa, gente. É isso aí. E aí, fazendo o meu papel como gerente de marketing, gente, você também pode se inscrever pra ser tradutor do Potterish, entendeu? É muito legal.

E você tem a oportunidade de aprender aí, fazendo, entende? Põe do meu pro Pedro, pedropoterish.com. Sim. Não, mas é real, assim, isso que a Marina falou, né?

O Potterish, a gente tá aqui fazendo isso aqui, gente, a gente não ganha nada, sabe? Todo mundo é voluntário, a gente faz por amor, assim. É muito difícil entrar em alguma coisa, apesar de que, enfim, patrocínio estamos abertos. Mas realmente o Potterish, acho que essa escola, assim, pra todo mundo, né?

Foi pro Renan, pra esse amigo da Marina que trabalha com tradução de outros idiomas, inclusive, até. Foi pra mim, enquanto jornalista, pra muitas outras pessoas, a gente já teve tradutoras profissionais mesmo na nossa equipe, assim, sabe? Porque são traduções completamente diferentes, tá? Ninguém vai traduzir livro no Potterish, gente.

É traduzir uma entrevista, às vezes uma reportagem, que são textos muito mais simples, mas que de alguma maneira também ajuda você praticar, né? Com certeza. Ah, não, não. Tanto é isso, né?

Eu entrei como tradutora no Potterish, depois virei chefe de tradução, tipo, como meu inglês melhorou e o que que eu comecei a sacar, a subir várias coisas, assim, tipo. E o português também é tudo, né? Tipo, fazendo, velho, foi fazendo. É muito bom isso, é muito legal perceber isso, né?

Sim. Bom, gente, o nosso papo foi excelente. Eu agradeço muito a Regiane por ter topado o convite. Eu espero que vocês que estejam escutando, sejam vocês fãs de Harry Potter que já nos acompanham, sejam vocês que acompanham a Regiane e tenham curtido o papo.

E eu imagino que a Regiane, assim, ela é uma pessoa muito aberta. Eu segui a Regiane nas redes sociais, gente, quando eu comecei a ler os livros que ela traduziu de Harry Potter, eu reparei no nome dela e fui procurar o Twitter dela. Então, assim, ela é uma pessoa muito acessível. Se vocês tiverem dúvidas, inclusive, eu imagino que ela vai super responder vocês, enfim.

Então, eu queria que você falasse, Regiane, pra gente, quais são as suas redes sociais, pra o pessoal seguir você, enfim, trocar uma ideia caso queiram. Eu sou mais presente no Twitter, mas eu tô no Instagram, no Facebook. Facebook eu quase não uso mais. Eu tô mais no Twitter mesmo, que é inclusive uma rede bem mais dinâmica, assim, né?

Tô lá reclamando da vida, reclamando da pandemia. Qual que é seu usuário lá? Regiane Vinarski mesmo. É só botar meu nome tudo junto, em todas as redes.

É super fácil me achar. E o seu Instagram também? Também. Instagram é…

Linkedin, tudo é mesmo. Linkedin nada demais, né? Mó rede chata pra caramba. Mas eu tô lá também.

Legal. Legal. E as suas, Marina? Ai, eu sou chique que nem a Regiane também, todas são o mesmo nome.

Marina Anderi. Marina NDRI. No TikTok, no Twitter, no Facebook, no Instagram. É isso.

As minhas vocês já sabem. I.N. Pedro Martins em todo lugar também. E tem as do Poteiriste também, né Marina?

Exato. Arroba Poteiriste Oficial no Instagram. E arroba Poteiriste no Twitter, no Facebook, no TikTok. E aí, né, pras últimas notícias do mundo bruxo, quiz, artigo, tudo mais.

Poteiriste.com. É isso, gente. Um beijo e até semana que vem. Tchau, tchau, gente.

Beijo, obrigada. Beijo.

Ouça em