#22: Os fãs de Harry Potter são mesmo menos preconceituosos?, com Victor Menezes

#22: Os fãs de Harry Potter são mesmo menos preconceituosos?, com Victor Menezes

Semanário dos Bruxos

Episódio 2247min 38s13 de abr de 2021

🎙️ Episódio 22 · 47min 38s · 13 de abr de 2021

Apesar de ser uma afirmação recorrente nas manchetes de jornais, será mesmo que fãs de Harry Potter são menos preconceituosos contra minorias sociais? Será que Harry Potter de fato tem representatividade – e até que ponto podemos cobrá-la dos livros? Esta e muitas outras questões estão neste episódio do Semanário dos Bruxos, em que os apresentadores Pedro Martins e Marina Anderi recebem o professor de história Victor Menezes, que dá aula sobre Harry Potter na Unicamp.

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Sejam muito bem-vindos ao semanalha dos bruxos, o podcast do Potterit, que vai ao ar toda terça-feira nas plataformas de streaming. Eu sou Pedro Martins, editor-chefe do site. Eu sou Marina Anderi, gerente de marketing. E o tema do episódio dessa semana é um negócio que, com certeza, vocês todos já devem ter lido e visto e escutado, talvez, em mancheques de jornais, que é fãs de Harry Potter são menos preconceituosos, fãs de Harry Potter são mais empáticos com minorias.

Isso já há muito tempo, né? E aí a gente, basicamente, quer discutir se isso é verdade, se isso não é verdade, como isso acontece, enfim, a gente quer desvendar os mistérios por trás de preconceitos em Harry Potter, etc., né, Marina? Quem lê a série tem uma vaga ideia do porquê disso, mas eu acho que é muito importante a gente sentar e conversar e ver perspectivas diferentes e estrinchar o assunto, né? Talvez a gente chegue…

Bom, ninguém aqui, tipo, nossa, fizemos isso tudo por anos pra chegar em uma grande conclusão. A gente tá no fandom há bastante tempo, né? Então, eu acho que tem uma validade. Exatamente.

E pra falar sobre esse assunto com a gente, a gente recebe o professor de História, Victor Menezes, da Unicamp. O Victor vocês devem conhecê-lo, porque ele tem vários projetos legais aí com Harry Potter pela internet, ele já deu aula de Harry Potter na Unicamp, ele já fez muita coisa no fandom de Harry Potter, né, Victor? Muito obrigado por aceitar o convite. Ah, eu que agradeço Pedro e Marina pelo convite, é uma grande satisfação estar aqui participando do Seminário dos Bruxos com vocês.

Pra começar a nossa conversa, acho que antes de a gente começar na realidade a nossa discussão, eu queria fazer uma breve introdução, assim, né, sobre esse estudo que todo mundo, né, já deu notícia sobre. É um estudo, né, que foi publicado em 2014 no Journal of Applied Social Psychology, que é um periódico científico de psicologia, né, que demonstrou que jovens que leram os livros de Harry Potter tendem a ser menos preconceituosos contra grupos socialmente marginalizados, né, como LGBTs, imigrantes, enfim. Esse estudo, gente, ele teve três etapas. Na primeira etapa, 34 crianças italianas da quinta série, então ali por volta dos 10 anos mais ou menos, não sei, foram submetidas a um curso, entre aspas, sobre o mundo de Harry Potter.

Por seis semanas, eles leram, acompanhados, é claro, de professores e tudo mais, leram trechos dos livros de Harry Potter que abordavam, dentre outras coisas, passagens como aquela que o Malfoy xingar mione sangue ruim ali em Câmara Secreta, etc. Em seguida, esse grupo de pesquisadores promoveram discussões sobre discriminação com estes alunos e também com alunos que não tinham participado, entre aspas, desse curso. E aí, nesse ponto, eles notaram que aqueles que haviam tido o curso tinham uma mente mais aberta em relação a imigrantes, homossexuais, enfim. E para os pesquisadores, então, ficou muito clara a relação que essas crianças faziam entre a luta do Harry contra o preconceito sofrido pelos nascidos trouxas, né, com a que a gente trava diariamente contra a marginalização da vida real, né.

Bom, beleza. Até que tudo bem? Todo mundo entendeu? Aqueles, né?

Tranquilo. Ah, ok. Isso que é o Victor, que é o professor, mas enfim. Aí, na segunda etapa, gente, foi com adolescentes.

117 adolescentes, também italianos, foram entrevistados, né. Os que tinham lido, gostado e se identificado com o Harry Potter, novamente, se mostraram mais abertos e tolerantes em relação às minorias sociais. E, por fim, o estudo trabalhou também com pessoas um pouco mais velhas, né, um grupo de estudantes universitários ingleses, né, aí já estavam em outro país, e com isso eles concluíram que os estudantes que menos se identificavam com Voldemort, assim, difícil alguém se identificar com Voldemort, né, mas enfim, tem louco pra tudo, eles tendiam a ser mais preocupados com os desafios enfrentados por imigrantes, que era uma questão muito atual na Europa, principalmente ali no início dos anos 2010, quando essa pesquisa foi conduzida, né. E aí, enfim, com base nisso tudo, eu lanço a Braba.

Em termos gerais, gente, Harry Potter tem representatividade de minorias sociais? Na resumir, não, mas assim, me parece que Harry Potter, no geral, é uma história de alegorias, né, de tipo, a mais famosa que a gente fala é tipo, ah, do Lupin, dos lobisomens em relação às pessoas que tinham HIV ali nos anos 70, né, ah, sei lá, os dementadores são uma alegoria de depressão, sabe, tipo assim, me parece que é uma história que tem várias alegorias que te levam a entender que não faz sentido você jogar alguém pela pessoa ser diferente, né, ou de que o que torna ela diferente não torna ela menos, pode ser inclusive algo que pode beneficiá-la, enfim, me parece que é meio isso assim. A questão da representatividade em si, eu acho que é muito nova, tá ligado? Não era uma pauta quando Harry Potter foi escrito, parece que não é tipo, super na cara, tá ligado, mas tá ali?

Eu penso de forma bastante parecida com o que você acabou de mencionar, Marina. De fato, se a gente pensar no termo representatividade e na forma como nós entendemos hoje, representatividade, né, nos anos 2020, que não é simplesmente você colocar um personagem de determinada minoria social dentro de uma obra literária ou de uma obra filmica, mas é como você coloca esse personagem também, né. Não basta você ter um filme ou uma história com 20 personagens brancos, você coloca um personagem negro que aparece em 10% da história e falar que isso é representatividade, não é, porque esse personagem precisa ter uma agência dentro da trama também. E quando a gente pensa em Harry Potter, nós temos a presença de personagens não-brancos, para falarmos em questão racial, né, nós temos seis personagens negros e três personagens asiáticas, num grupo de 127 personagens, nós temos ao todo em Harry Potter.

Então é interessante lembrar que nós temos ali o Dino Thomas, o Dino Jordan, a Angelina Johnson, o Chacle Bolch, o Zambini, o Aguru, que são personagens negros e que são especificamente negros, isso é interessante que nós notarmos também, que aparece no texto a descrição desses personagens como pessoas negras. E a gente tem três mulheres asiáticas, que nós sabemos que são asiáticas por conta do seu sobrenome, que são as irmãs Patio e a Cho Chang. Então nós temos a presença de personagens não-brancos na narrativa, só que a importância que esses personagens têm, ela é bem pequena, né, a gente pensar os principais personagens da saga de Harry, o Ron, Hermione, aqueles que passam a fazer parte também da amada de Dumbledore, todos vão ser descritos como personagens brancos ou vai ficar implícito no texto que eles são brancos. É porque geralmente quando o personagem é um personagem não-branco numa narrativa literária, o autor precisa descrever qual que é a etnia, qual que é o tom de pele dele, porque os leitores, se não fazer isso, os leitores vão entender que esse personagem é branco.

Então nós temos ali a presença desses personagens, só que se a gente pensar em termos de representatividade, não é. E como você bem levantou, Harry Potter começou a ser criado em 1990 e foi publicado entre 1997 e 2007. Apesar de ser um tempo histórico curto, relativamente curto, né, nós aqui crescemos com o Harry Potter, estamos aqui na faixa dos 30 anos agora, mas muita coisa mudou, principalmente em questão de discussão sobre representatividade e ainda mais sobre representatividade dentro da literatura de fantasia voltada para adolescentes. Acho que a gente sempre tem que pensar o contexto histórico no qual Harry foi criado, que é esse dos anos 90, início dos anos 2000, no gênero literário a qual ele pertence, que é a fantasia, e a categoria literária, que são livros jovens adultos, escritos para adolescentes.

E havia e ainda há hoje uma série de pressupostos do que se pode ou não colocar nessa literatura, como você coloca. E aí eu acho que isso é interessante para falar também aqui sobre a questão do Dumbledore, que é uma grande polêmica, né, se o Dumbledore ele é gay, por que que não está explícito no texto que ele é gay? Fazendo uma leitura a partir da perspectiva da história, que é a minha área da formação e dos estudos de gênero, eu vejo que o Dumbledore foi sim pensado pela Rowling como um personagem LGBT, antes que ela declarasse isso em 2007. Há indícios, há marcadores de sexualidade do Dumbledore nos sete livros de Harry Potter.

Mas por que que não aparece de forma explícita? E aí, antes da gente começar a julgar que a Rowling fala que ele é gay em 2007 porque ela está atrás do dinheiro dos LGBTs, ela está criando por bait, que são termos que também não estavam no mainstream em 2007. Em 2007, na verdade, a Rowling tinha mais a perder com o grande público do que a ganhar ao falar que um dos seus principais personagens era gay. Então a gente precisa pensar no contexto, a gente precisa pensar no gênero literário também, dentro do qual o Harry Potter estava sendo criado e quais expectativas que o mercado editorial tinha para esse gênero.

Nem tudo você pode colocar numa literatura jovem adulto hoje, em 2021, e tem muitos temas que eram vistos como espinhosos também naquela época. Então as sequências não estou justificando. A JK não ter colocado o que a gente entende hoje como representatividade nos livros de Harry Potter. Mas eu acho importante nós levarmos em consideração o contexto histórico e da onde esses livros estão saindo.

É, inclusive isso que eu estava pensando quando a gente discute e a gente chega a essa conclusão de que não, não tem representatividade de minorias, mas o quanto isso é problemático, ou se é problemático ou não no contexto. Claro que a gente não vai julgar Friends como se fosse uma série produzida em 2020, da mesma maneira que a gente não vai julgar Harry Potter, enfim. Exato. E também, se a gente pegar obras juvenis da mesma época, Crepúsculo, Percy Jackson, que é inclusive mais recente do que Harry Potter, eu não sei nem qual seria a obra mainstream.

Qual que é a obra mainstream de 1990, que começou a ser publicada em 1997, na década de 90? O A.E. É, em termos de literatura jovem adulto e fantasia, a gente vai ter a Fronteiras do Universo, do Philip Pullman, que é um autor britânico, que também, inclusive, está fazendo muito sucesso novamente. A série continua sendo escrita e a série da HBO, que realmente é sensacional.

Mas a gente, até nos anos 90, e isso é uma questão também da literatura jovem adulto, Harry Potter vai inaugurar, de certa forma, a ideia de livro serializado dentro dessa categoria. Não era algo muito comum. A literatura jovem adulto surge ali nos anos 30 do século 20, logo após psicólogos e pedagogos, sobretudo, criarem o conceito de adolescência. Acho que isso é importante dizer também.

Até o início do século 20 não se tinha ideia de adolescência. É tudo muito recente, né? Assim, digo que para história isso é muito recente, né? Tudo muito recente, muito recente, né?

Então, até o início do século 20 tinha a ideia da infância ou criança, e mesmo a ideia da infância foi sendo construída no século 18 e 19, e acabava ali a infância com 9, 10 anos. As pessoas entravam no mercado de trabalho, na sua grande maioria, e se tornavam adultas. É ali, em 1906, 1907, que a psicólogos começam a categorizar esse novo tipo de ser humano, que é o adolescente. E a partir disso, começa a se criar toda uma cultura juvenil voltada, então, para essa nova categoria de seres humanos.

Nos anos 30, a gente vai ter o surgimento da literatura jovem adulto. E a literatura jovem adulta foi passando por diversas transformações ao longo das décadas, né? Da década de 30, década de 90. O que é interessante, quando a gente pensa em Harry Potter, é que ele inaugura um novo tipo de consumo de literatura jovem adulto, não só porque se torna um fenômeno mundial, mas porque, até então, o comum era você ter uma obra que tinha uma história só, principalmente antes que fazia um sucesso.

A gente pensar, por exemplo, um grande sucesso dos anos 90, jovem adulto, que tem personagem LGBT, mas que vai ser a exceção dentro do gênero, é a vantagem de ser invisível. Ele é um dos poucos livros jovens adultos que chegaram ao grande público, que se tornou um best-seller, que é isso que é importante dizer também. O primeiro livro jovem adulto, que há um personagem gay como protagonista, é de 1969, chamado Eu Chegarei Lá é Melhor Valer a Pena, do John Donovan. No mesmo período que a gente vai ter as revoltas de Stonewall e o início do movimento LGBT moderno.

Só que esse livro e alguns outros que vão surgir nos anos 80, 90, eles não estão sendo lidos pelo grande público, não estão no mainstream, não estão se tornando best sellers mundiais. Como vai acontecer com Harry Potter? Então, Harry Potter também não é uma série jovem adulto como qualquer outra. E Harry, como eu comentei, ele também inaugura essa ideia de obras que vão ser serializadas.

Então, a gente, é claro, já tinha tido a Bússola de Ouro, mas a Bússola de Ouro, ela vai fazer, a Bússola de Ouro, que é o primeiro livro do Conteiro do Universo, vai fazer mais sucesso depois que Harry Potter publicar, na verdade, porque aí os fãs de Harry Potter, entre a publicação de um livro e outro, começam a procurar outros livros de fantasia semelhantes e nós vamos tornar a esteira de Harry Potter a publicação de obras, como você falou, Cripusco, ali entre 2005 e 2009. A gente vai ter Percy Jackson, depois a gente tem Jogos Vorazes, que são séries jovens adultos que vão dialogar com fantasia, que vão ser serializadas. E como você bem apontou, Pedro, também não vai ter representatividade nos termos que nós entendemos e defendemos hoje. Então isso é importante a gente ter em mente, que Harry Potter, ele não está sozinho, ali nos anos 90 e nos anos 2010.

Ele não é exceção, né? Não é exceção, ele é a regra, na verdade. A exceção é a vontade de ser invisível, por exemplo. E que ainda assim, apesar de ser um livro do gênero jovem adulto, ele é um livro, enfim…

É que Harry Potter é até nisso, ele começa como um livro infantil, supostamente, e não é uma história, necessariamente, desde o início de Coming of Age, que é essa história do amadurecimento, das pessoas, da transição da juventude para a vida adulta. E também não é de fantasia, né? Eu acho que isso vai mudando muita coisa, né? Se a gente pensar em jovem adulto, infantil e jovem adulto, de fantasia, fica nulo, né?

Exatamente, exatamente. Então isso tem que se levar em consideração. Eu sempre comento nas minhas aulas também, que quando a gente vai discutir representatividade e a gente vai discutir Harry Potter, nós temos que comparar Harry Potter com outras obras que estavam sendo publicadas no mesmo período. Não dá pra colocar em contraposição, por exemplo, Harry Potter com, por exemplo, os livros da Becca Bertelli, que é uma autora que eu adoro, né?

Que escreveu O Amor Simon, que está escrevendo ali mais de uma década depois. Ambos são livros jovens adultos. E ainda é chocante, né? Porque foi ali, aqui no Brasil, por exemplo, em 2016, se não me engano, que o Simon saiu.

E eu lembro que quando ele foi para o cinema, eu acho que em 2018, ele foi o primeiro filme para adolescente mainstream, protagonizado, enfim, por um adolescente gay e tudo mais, né? Então, assim, é muito recente. Sim, exatamente. Em termos também étnicos-raciais, desde que a literatura jovem adulto surge, lá nos anos 30, tem personagens negros dentro dessas obras.

Só que como eles são representados? Geralmente de forma estereotipadas, de forma vilinizadas. Então é aquilo que eu falei também, né? Ter um personagem não significa que é representatividade.

Então você vai ter o histórico também. É só nos últimos décadas que a gente vai ter uma defesa muito grande, não somente por ter personagens não-brancos dentro das narrativas jovens adultos, mas também personagens com protagonistas dessas obras, né? Quando a gente pensa voltando ao terceiro invisível, a gente tem ali um personagem que é gay, mas ele não é o protagonista. O protagonista que é o Charlie é heterossexual, que é uma outra característica dessa literatura jovem adulto pré-Harry Potter também, ou durante Harry Potter.

Se aparece algum LGBT, ou se aparece algum personagem não-branco, a tendência é que ele não seja a protagonista. Diferente agora dos anos 2010, a gente vai ter autoras como, por exemplo, a autora do livro Filhos de Sangue e Osso, em que todos os personagens são negros e a protagonista é uma mulher negra. Então já é um outro contexto com outra demanda de público e com uma outra demanda de mercado editorial também. A gente não pode esquecer que obras como Harry Potter, a literatura jovem adulto como um todo, ela é resultado também do capitalismo.

O capitalismo tem um grande impacto nessas obras, né? Essas obras, para vender, o mercado editorial tem que estar aberto para os temas que elas vão discutir. Então hoje nós temos livros como Filhos de Sangue e Osso ou Simon e diversos outros. Não é porque o mercado editorial ficou bonzinho ou que os editores perderam seus preconceitos.

Os editores de hoje são os mesmos, os anos 2000 e os anos 90. Mas eles perceberam que há uma demanda de adolescentes hoje muito grande, exigindo e querendo consumir produtos que tenham representatividade. Então para continuar vendendo e lucrando, eles começam a priorizar autores, autoras e obras que vão tratar de representatividade. Então se não é por acaso que as coisas acontecem.

E tudo tem um histórico também, né? Acho que sempre é interessante a gente pensar. Sim, não dá para cobrar, né? Acho que a conclusão que a gente chega é que não dá para cobrar de Harry Potter que ele seja, até porque ele já quebrou muitas barreiras de outras maneiras, né?

Ah, era um livro infantil que tinha muitas páginas, que não tinha ilustração, enfim. Quebrou muitas barreiras, né? Então não dá para cobrar a mesma coisa. Eu acho que o exemplo mais básico que todo mundo dá e que é muito real é o rolê de que J.K.

Rowling teve que ser a J.K. Rowling, né? Teve que ser um nome abreviado para as pessoas não saberem que ela era mulher porque não acreditavam que tipo meninos, né? Meninos, se você tem um pinto automaticamente você consegue ler fantasias.

Se você não tiver, você não lê, né? E aí não achava que meninos iam ler uma história de fantasia escrita por uma mulher. Então ela teve que fazer a sigla, né? Para ficar mais escondido e tal.

Então tipo, pô, ali final dos anos 90, né? E ela teve que fazer isso. Então não foi um livro de você não vai poder ser publicada. Vai poder, mas assim.

Vai poder depois de ser recusada por, sei lá, 12 editoras, né? Ah, não, é, mas aí a gente que não tem visão, né? Como sempre, mas a questão é tipo, você vai poder ser publicada, mas tem aqui essa exigência. Só se for dessa forma, sabe?

Porque é muito louco. Eu acho que principalmente é isso, né? Para gente aqui que está nos 20, 30 anos. É muito louco pensar que a gente viveu coisas já.

Tirando enfim a pandemia, obviamente, né? Mas é muito louco pensar que a gente viveu coisas que a gente já pode falar. Não, porque o contexto histórico, entendeu? Tipo, para mim me parece muito surreal.

Que eu já posso falar uma obra que eu lia. As coisas estão mudando muito, né? É, e foi muito rápido, o que é ótimo, tá ligado? É ótimo, mas assim, nos anos aí 2010, essa cultura LGBT e várias questões também, acho que feministas, raciais também, né?

Enfim, começaram a estar muito em voga, né? De tipo assim, cara, não é ok você fazer isso. Não, tem que ter isso, sabe? Tipo assim, como mudou rápido, né?

Mas isso quer dizer então que essas obras que a gente lia há pouco tempo, já estão, de certa forma, ultrapassadas, né? Tipo assim, o tipo de coisa que a gente vê hoje em dia, de representação, a gente não vai ter ali. Porque acho que são duas coisas. Tanto do mercado não aceitaria, né?

Se a pessoa escrevesse, a pessoa fizesse no geral. E também de que não era algo discutido. Sim. No alto do nosso privilégio e tals, a gente tem que parar para pensar e desconstruir, né?

Porque o que é o padrão, né? É aquilo lá, é o homem cis, branco ou hétero. Esse é o padrão. Geralmente, o seu protagonista vai ser isso, tá ligado?

E aí precisa realmente ter um questionamento até interno, né? De tipo assim, não, peraí. Isso não quer dizer também que nesse sentido, no pouco que teve, digamos assim, entre aspas, de representatividade, a gente está concluindo que, né? Harry Potter não pode ser colocado no banco dos Hells por falta de representatividade, necessariamente.

Mas também tem alguma coisinha ou outra ali que é complicado, né? Essa questão, por exemplo, da Cho Chang, assim. Eu tenho amigos asiáticos que dizem que é muito estereotipado, né? Sim, sim.

É complicado, assim, também. É, eu acho que até deve ser separação, na verdade, que a Ásia é um continente enorme, né? Então, tipo, na verdade, a gente falando de Cho Chang, a gente está falando, então, de pessoa com ascendência chinesa, né? Que é uma coisa bem específica, muito diferente, por exemplo, das pátios, que é de ascendência indiana, né?

Então, assim, tipo, é bem diferente, até culturamente falando, né? E os estereótipos que perpetuam sobre pessoas que dizem, né, amarelas, né? Que aí é o pessoal coreano do Sul, Japão, China. É diferente, né?

De indianos, por exemplo, e tals. Mas, de fato, o caso da Cho Chang, e esse é o rolê. Há uns anos alguém teria percebido isso? Esses assuntos não eram discutidos, tá ligado?

Então, o fato de ter essa personagem que é o nome mais, sabe, estereótipo possível. Que seria, é como se fossem dois, eu li sobre isso, na realidade, acho que eu vi um vídeo no TikTok sobre isso, eu não sei o quão correto está, mas que seria algo como se fossem dois sobrenomes, né? Não, nem sei. Sei lá, necessariamente isso, né?

Mas o ponto é que é muito óbvio, né? Pense o nome chinês, é esse, tá ligado? Tipo assim, ela é uma menina, é tipo assim, um interesse romântico do protagonista, que não vai ser o interesse que ele vai ficar de fato, né? Quase assim, vamos usar essa figura aqui pra esse fim.

E não desenvolve ela, né? Não desenvolve, ela não tem muito a própria história, além de estar sofrendo por outro homem, né? Que é o Cedrico, mas é uma coisa que há uns anos a gente nem discutiria, a gente nem pararia pra pensar, tá ligado? Então, tipo, é muito louco, muito legal, entendeu?

Tipo, obviamente é péssima pra Harry Potter, né? Que tenha isso, mas legal que as pessoas estão percebendo, né? Refletir sobre isso, discutirmos e criticarmos, isso já é um ponto muito positivo, né? O que eu acho interessante de pensar também, como a gente está estamos falando, é sempre haver uma consideração lá, o contexto histórico, o gênero e tal, e ao levarmos isso em consideração, nós não estamos justificando os problemas que há em Harry Potter, nós estamos explicando por que eles estão lá, mas não justifica, né?

Eu acho interessante também, ainda a gente pensar o contexto e o gênero, é sempre pensar o lugar de fala da criadora de Harry Potter também. E aí, o que é a J.K.? Ela é uma mulher branca, heterossexual, britânica, e isso diz muito sobre ela, né? Alguém que veio da classe trabalhadora, e a gente vê isso também aparecendo em Harry Potter, e a gente não pode esquecer que ela é um ser humano, que nasceu, cresceu e continua vivendo até hoje dentro de uma sociedade, que é uma sociedade que foi um grande império no passado, e que ainda hoje tem uma aulha muito imperial, e que dominou quase todo o mundo no século XVIII, XIX e XX.

Então, algum desses olhares que os britânicos têm sobre o outro, sobre aquele oriente, por exemplo, isso vai influenciar também em como as pessoas inglesas veem o oriente, de forma muito preconceituosa. E a J.K. não vai passar em colônia a isso. E não que isso seja necessariamente algo que ela fez de propósito, assim, vou colocar a Tia Chang dessa forma, vou colocar a Nakana Corvinal, porque logo, se ela é uma oriental, ela vai ser inteligente também, que vai ser um outro estereótipo, vai aparecer, mas algo que está ali, que aparece no texto, devido justamente ao espaço social da onde a J.K.

está escrevendo. E dizer isso, novamente, não é justificar, não é perdoar ou condenar, não é isso o nosso papel, é justamente a gente entender o que está acontecendo ali. Então, como a Marina bem colocou, o Pedro também, por um lado, a gente entende que não há representatividade ali, porque essa discussão não estava em pauta. Quem reportagem essas armas não estava em pauta no mainstream, não estava em pauta entre a população no geral, porque nos meios acadêmicos isso já estava sendo discutido.

O que vai acontecer nos anos 2010 é que esse debate, que era um debate acadêmico de historiadores, antropólogos, sociólogos, críticos literários, vai ultrapassar, vai extrapolar os muros da universidade e vai chegar no grande público, que somos nós, que somos leitores e tudo mais. Então, isso é interessante. E a J.K., por mais que ela tenha diploma universitário, ela tenha feito graduação em letras, não necessariamente ela estava a parte desses debates, se ela estava, não necessariamente ela achava importante. Acho que ela estava interessada mais assim, pelo que eu já lembro de entrevistas dela, acho que ela, eu não sei, ela estudou uma faculdade que chama Foreigner Languages, né?

Eu não sei como é que seria, é letras mesmo? Seria algo como letras, é, baixaram em letras, mas com formação, o caso dela foi isso dos clássicos de francês, né? É, e aí ela falava que ela fugia, assim, para ir para as aulas de clássicos, sabe, de mitologia. Então, assim, acho que não era o rolê dela, né?

Porque é isso, ela é uma pessoa que não faz parte disso, né? Não é o ponto dela. Sim. Ao mesmo tempo, a gente percebe, desde o início das entrevistas dela e no próprio texto de Harry Potter, que ela sempre foi uma pessoa que esteve muito próxima de debates feministas, né?

E aí, é claro, existem diversos feminismos, existem diversos grupos, diversos conceitos de feminismo, mas só uma das coisas que ela faz ao criar a personagem Hermione, que ela quebra já paradigmas em colocar uma personagem que é protagonista também e que é uma personagem feminina e que é uma personagem racional, porque é muito comum a gente encontrar na literatura, ainda mais naquela época, a racionalidade sendo colocada como característica dos personagens masculinos, enquanto que os personagens femininos, sempre colocados como mais sentimental, pessoas mais impulsivas. E quando a gente vai para Harry Potter, se a gente pensar nessa questão de representação de gênero, o impulsivo ali é o Harry, não é a Hermione. A Hermione, ela vai ter essa racionalidade. Então, essa pequena mudança que ela faz ao criar um personagem masculino e um personagem feminino já mostra que ela tinha uma preocupação, que, claro, não necessariamente vai corresponder ao que o feminismo estava discutindo nos anos 90, mas já é uma preocupação dela em ter uma representação de uma mulher e de uma personagem feminina que se diferenciasse do que se tinha na literatura infantil e jovem adulto até então.

E isso é resultado, primeiramente, por ela ser mulher. Por isso que é sempre importante a gente pensar o lugar de fala também. Quando eu falo, ela é uma autora britânica falando, colocando personagens oriundos de outras partes do globo, esse olhar dela como pessoa britânica está influenciando. E aí nós vamos ter estereótipos, nós vamos ter também a influência do que a gente chama de racismo estrutural.

Então, é interessante, por exemplo, ao mesmo tempo que a Rowling cria alegorias riquíssimas em Harry Potter em relação ao racismo, ela cria alegorias, não representações. Então, ela cria, ela tem ali, a gente tem em Harry Potter uma trama que serve de alegoria para programas sociais no mundo, mas ela não está representando o racismo ali, porque ela não está colocando os preconceitos ligados a uma etnia específica. Os preconceitos são ligados a uma categoria fictícia que ela cria dentro daqueles romances. Mas, ao mesmo tempo, os personagens principais não têm a representatividade étnica, são todos brancos e tudo mais.

Então, você vê aí um resultado do que a gente chama de racismo estrutural. Mesmo essa autora tendo uma preocupação em criticar para os seus leitores o racismo, que é um dos maiores males da sociedade contemporânea, ela não percebe que, ao colocar somente personagens brancos, ela está, de certa forma, reproduzindo o racismo estrutural. Então, esses conflitos que a gente encontra no texto de Harry Potter são muito interessantes. São, como a Marina falou, mostra como Harry Potter, em alguns temas, já está datado, em outros não.

Mas, ao mesmo tempo, acho que faz a gente refletir que Harry Potter, como tudo e toda a obra literária, vai trazer, necessariamente, só discursos bons ou só discursos ruins. Vão ser contraditórios, vão ser complexos, porque os seus criadores são contraditórios e são complexos. O mundo em que esses criadores vivem é contraditório ou é complexo. Então, acho que isso tem que ser levado em consideração também.

Não sei o que vocês acham sobre isso que eu falei. Concordo planamente. Não, total. E é isso, né, gente?

Mesmo não tendo a representatividade, como a gente já discutiu aqui. Por que será que a leitura, né, como concluiu essa pesquisa conduzida lá no periódico científico de psicologia, por que será que a leitura de Harry Potter tornou as crianças, os adolescentes, até os jovens, enfim, mais empáticos e menos preconceituosos com esses grupos de minoria social? Por que vocês acham que isso leva, né? Eu acho que volta à questão das alegorias, né?

Assim, principalmente a dos elfos domésticos, né? Que seria essa racismo, a escravidão, né? Acho que tem até uma visão bem interessante, né? Porque a Hermione tá ali fazendo fali, né?

Essa frente de defesa aos elfos e tals. E as pessoas que são, então o próprio Ronny, né? As pessoas que são ali bem inseridas na Cidade Bruxa e ficam, não, mas nada a ver. Eles gostam, não sei o que.

Não é uma coisa nem que é questionada, né? Então acho legal que também traz essas perspectivas. Não só errado, como não é tão óbvio, assim, como a gente acha que é, né? Muita gente simplesmente passa a vida toda e não para pra questionar o sistema de forma alguma e tals.

Então já tem essa questão ali mostrando que, gente, pelo amor de Deus, né? Eles não são criaturas humanas, mas merecem dignidade e direito de revir e, enfim, direitos como todos nós, né? Assim, é uma situação que é muito precária e mais pra frente a Hermione, enfim, trabalhando no Ministério, consegue dar um jeito nisso, assim. E de que até como os elfos enquanto minoria, eles também estão tão inseridos naquele rolê e eles, bom, eles estão pensados com magia, né?

Então eles também, o Dobby, fica se punindo o tempo todo por estar fazendo algo errado, não quer aceitar, né? A Wink, por exemplo, não quer aceitar que já não tá mais sendo o elfo de alguém, né? Parece que o ponto deles irá servir. É tipo uma lavagem cerebral, assim, que passa por gerações e gerações.

Então, por exemplo, já tem isso aí que deixa muito claro no texto de, tipo, isso tá errado, isso tem que ser mudado, entendeu? E é um problema estrutural, né? É isso que é engraçado, né? De como, é isso, a J.K.

Rowling ela critica um racismo estrutural da sociedade bruxa, mas ela não consegue reconhecer o dela mesma, né? Isso é muito interessante, como as coisas funcionam, assim. Mas eu acho que é disso e eu acho que também é a questão mais forte que é a do sangue ruins, né? Que existe aí um paralelo com o nazismo, né?

Que tem a ver um negócio de coincidência com sangue e tals. Mas que, também, como se a origem da pessoa, né? Pra essa sociedade bruxa preconceituosa, como se a origem da pessoa fosse determinando de alguma coisa, né? Como se, da onde ela veio, as pessoas que são da família dela fossem, com certeza, determinar que tipo de bruxa ela vai ser ou não bruxa.

Enfim, né? Que é muito claro, porque a gente tem… A gente vê que é uma coisa antiga, a gente vê que o Grindelwald já fazia isso, que o Voldemort também tá atrás dessas questões da supremacia bruxa e tudo mais. Então, eu acho que, tipo, principalmente essa, né?

Do sangue bruxo e tals, vai permeando toda a história ali e fica num nível que fica claro que a gente não tem que julgar as pessoas pelas origens dela, né? É isso, tipo, você… Se você tem um mínimo de interpretação de texto, você lê o livro e você entende que isso se aplica à coisa da sociedade no geral, né? É, eu concordo, também, novamente, em gênero no meu liberal com você, Marina.

Eu acho que ela cria ali uma alegoria a um problema real que existe no mundo, que é o racismo, e ela não fica só nessa alegoria. É interessante que ela vai levar essa alegoria adiante e até mostrar o que esse embate entre um grupo que se considera superior por x e y motivos, frente a outro, pode levar. A gente pensar no mundo real que o racismo, que vai ser teorizado no século XIX, dentro da ciência, né? Que a gente vai chamar de racismo científico, não porque o racismo já não existisse antes, mas no século XIX a ciência, a medicina, a antropologia, a sociologia, a história vão encontrar meios de justificar por que x pessoa inferior ou superior a outra.

E essas teorias que são criadas no século XIX elas vão dar base para genocídios do século XX, como o genocídio armênio no início do século e também o exemplo mais conhecido, que é o nazismo, mas a gente também vai ter os genocídios coloniais, né? Os impérios europeus, eles vão fazer verdadeiros genocídios no continente africano, no continente asiático, durante o período ali que a gente chama de neocolonialismo, pautado nessa ideia de diferença racial. Eu sempre comento em aula que uma das formas da gente entender o nazismo é a partir da perspectiva que os europeus passaram a fazer dentro do continente europeu o que eles já faziam há quase um século na África, na Ásia e na América. Então é interessante ela…

Isso, né? Isso não é um mito, isso aconteceu na história, né? E genocídios continuam acontecendo baseado nessa diferença, nessa suposta e falsa diferenciação racial. E aí quando a gente vai para Harry Potter, ela começa lá no livro um e dois a apresentar para os leitores um mundo que é hierárquico e um mundo que tem preconceitos, que é a forma como as pessoas se comportam.

São parecidas com a forma como as pessoas no mundo real se comportam diante das diferenças raciais, né? Então ela cria uma alegoria para o racismo e essa ideia da superioridade bruxa vai culminar nas guerras bruxas, né? Vai culminar no domínio do Voldemort. Parece que é uma questão que permeia todas as histórias, assim, né?

No sentido de que, enfim, em Harry Potter está ali, em Corset, está em Animais Fantásticos, acho que com mais força ainda, né? Exatamente. Então ela é muito cuidadosa com a mensagem que ela quer passar, né? Uma das mensagens que Harry Potter passa, né?

As pessoas devem ser respeitadas. E quando um grupo se coloca como o melhor do que o outro e começa a subjugar o outro, o fim que isso pode chegar são os genocídios, né? É o que o Voldemort vai fazer. No mesmo tempo, o discurso que a JK passa em Harry Potter e isso talvez crie muitos conflitos atuais com os fãs dela diante das posturas dela é a defesa das pessoas que são vistas pela sociedade como não normal.

Eu gosto muito de como a JK começa o primeiro romance da Fredra Fozopal com a frase O senhor e a senhora Dursley da Rodos Ofeneiros nº4 se orgulhavam de dizer que eles eram perfeitamente normais. Muito obrigado. Então ela já começa a série ironizando a ideia de pessoas que se autentitulam normais e que têm preconceitos, ódio e perseguem todos os que são diferentes a eles. E aí ela vai brincar com isso que a gente vai ver ao longo da série que os Dursley, na verdade, são uns personagens mais odiosos e mais hipócritas de toda a série.

E aí ela traz isso pro leitor olha, pessoas que ficam dizendo que são superiores, pessoas que ficam dizendo que são normais, elas são hipócritas. Isso é algo bastante real, bastante presente nas sociedades contemporâneas. Então é interessante esse discurso que Harry Potter traz pela defesa da igualdade, pela defesa dos diferentes existirem. Aparece por meio de alegorias como a do racismo, como a de esperdão e aparece também de forma explícita no texto.

E aí acredito eu que isso vai dar base para que os leitores, ao lerem aquela obra, mesmo não se vendo exatamente lá, mesmo não… Eu, por exemplo, como um fã gay de Harry Potter, nunca vi algum personagem exatamente igual a mim na série, né? Enquanto eu lia como adolescente. Mas eu me via na Hermione, por exemplo.

O preconceito que ela sofria por não ser aquilo que uma parcela da sociedade bruxa esperasse que os bruxos fossem. A forma como ela sofre isso e ela tenta sempre se colocar como inteligente, como uma sabe tudo, esse desejo dela de mostrar que ela sabe, é uma reação aos preconceitos que ela sabe que ela vai sofrer dentro daquela sociedade. E eu como um adolescente que sofria homofobia cotidianamente na época de escola, eu não podia me colocar, eu me enfiava nos estudos, eu pensava, bom, esse bando de gente patético que fica brigando comigo, brincando com a minha cara, falando que vai me bater na saída, eu vou mostrar que eu sou melhor do que eles porque eu sou inteligente e vou tirar nota melhor do que eles. Hoje eu julgo essa postura que eu tinha, julgo, não precisava dessa arrogância.

Mas era a forma como eu lidava com o preconceito que eu sofria. E isso eu via muito na Hermione. Então isso me fazia ter a Hermione, como é ainda hoje a minha personagem favorita, e me fazia sentir representado em Harry Potter. Então eu não precisava ter um personagem gay na série para eu me ver nela por conta da personagem, por conta das alegorias que a Rowling colocou.

Eu via situações muito semelhantes ou que eu poderia apropriar para entender as situações que aconteciam comigo. Eu acredito que muitos leitores fazem isso. Então eu acho que esse é o poder da alegoria também, é uma das coisas mais interessantes da fantasia. E que possibilita também que pessoas diferentes, de diferentes cantos do mundo usem para essa alegoria.

Então é interessante quando a Rowling ela não fala exatamente em etnias ou em raças, mas ela aqui numa nova alegoria, pessoas que sofrem racismo no Reino Unido podem se identificar com isso. No Brasil, que é um contexto totalmente diferente do Reino Unido, de racismo, vai se identificar. E pessoas que estão na China, na Coreia, na Tailândia, vão ler aquilo e vão se identificar também. É universal, né?

Até nesse sentido, né? Sim, exatamente. Com certeza. Eu acho que de fato é um tipo de mecanismo que funciona muito bem, né?

À invés de você lidar com questões diretamente sobre isso ou sobre aquilo, você faz essa alegoria porque aí todo mundo pode se identificar. Se você sofre um tipo de opressão, você meio que, por causa disso, você se torna mais empático com outras opressões, né? É isso. Ah, sofreu a homofobia, aí a Emi One não era aceita porque ela era.

Aí eu consigo fazer essa ação por isso, né? Tipo assim, ela não tá sendo aceita por motivos diferentes de mim, né? Mas também é uma mesma questão. Ela também tá tendo que lidar com ser diferente.

E aí se voltaram pra Harry Potter de alguma forma porque elas se identificavam, né? E aí, ao mesmo tempo em que elas se identificavam, também é possível dizer que ela conseguia ler a história e interpretar de que não era certo aquilo que tava acontecendo, de que a gente realmente tem que combater essas forças opressoras. Sim, com certeza. Ah, eu vejo que há uma nova geração que surgiu nos últimos anos, que é uma geração que não lê os livros, não leram os livros, que são fãs pelos filmes.

E os filmes, como vocês já falaram aqui em outras conversas, a gente fala em todo episódio. E são muito, muito problemáticas, como eles tratam algumas questões, adaptaram e tudo mais. Para um exemplo muito simples, ele corta totalmente o ativismo do Hermione, né? Que isso depois vira simplesmente ministro da magia.

Corta totalmente. A ditadura do FOOT e da Umbridge em Ordem da Fênix não tem o peso nos filmes que tem no livro. No filme fica parecendo muito mais algo cômico, então assim, não tem a densidade. Então quem é fã de Harry Potter só pelos filmes já perdeu 70% da temática e das discussões que a JQ colocou no texto de Harry Potter.

Essa é uma questão. E é aquela coisa, tipo assim, eu conheço uma pessoa e ela fala eu sou fã de Harry Potter, eu já consigo avaliar quem a pessoa é basicamente, tá ligado? Já é meio automático, tá? Você consegue entender que ela tem os mesmos valores que você e tudo mais.

Então a pessoa que possui esses valores hoje em dia, né? Tipo assim, ser publicamente transfóbica é uma coisa que tipo assim, mas espera, não faz sentido ela ler o Harry Potter, tá ligado? É meio isso, assim, tipo a pessoa realmente se perdeu no personagem, né? Acho que é por isso que choca, porque justamente a gente, toda essa coisa realmente de lutar contra os justiços, de defender os mais fracos, sabe, de entender que não é certo você tratar os outros de forma diferente, por eles serem diferentes em si, isso não é legal, a gente aprendeu ali.

Então é só um reflexo, né? Tudo que a gente faz depois disso é um reflexo do que foi aprendido, enfim, discutido e tal. O que é isso? A gente reconhece os problemas da obra, mas a gente também reconhece tudo o que ela nos trouxe, né, de bom.

Por isso que essa questão da J.K. Rowling, acho que eu acabei sem querer te cortando, leva a gente a um patamar de reflexão e de, assim, que a gente deixa a gente sem chão, porque é num nível nunca antes visto, né? Assim, é muito fácil a gente se posicionar contra, sei lá, o presidente do país, entre aspas, mas não é fácil a gente se posicionar contra a criadora disso tudo, né? É muito doido que ela própria tenha esse tipo de posicionamento, enfim, é incompreensível, assim, no fim das contas, né?

E o que eu acho que também é importante a gente ressaltar que a J.K. hoje, ser uma pessoa transfóbica, eu não tenho como afirmar que ela sempre foi transfóbica, né, gente? Uhum. Hoje nós sabemos que ela é e é um estado, né?

Pode ser que ela se repense, melhore nessas questões e, daqui a alguns anos, não seja mais. Eu sempre lembro, por exemplo, da Annie Rice, que é a autora da série entrevista com o vampiro, que nos anos 90, quando ela se torna evangélica, ela dá entrevistas com discursos extremamente homofóbicos, dizendo que ela estava arrependida de ter criado os livros que ela tinha criado. E aí, depois, ela descobre que o filho dela é gay e que a igreja na qual eles fazem parte não aceita a sexualidade do filho, ela se repensa como ser humano e ela volta atrás, pede desculpa e volta a escrever os livros de vampiros e tal. E hoje, quando a gente fala de entrevista com a vampiria de Annie Rice, ninguém mais lembra da homofobia que ela teve no início dos anos 90.

Então, pode ser que com a J.K. aconteça algo parecido. Orenos. Orenos.

Mas o que eu acho que é importante também de ter em mente que a J.K. ser transfóbica hoje não anula a moral e a mensagem que os livros de Harry Potter traem. Porque os livros já são maiores do que a própria J.K. Rowling.

É resultado ali de um momento específico e a mensagem que está nos livros e o poder que essa mensagem tem, ela não é anulada pelas cagadas que a J.K. vem fazendo. Sim. É que é absurdo, mas, assim, na cabeça dela tem um sentido, né?

Não, essa questão da transfobia da J.K. vai dar, eventualmente, um ponto que eu acho só para isso, né? Mas realmente na cabeça dela ela está certa. Assim, na cabeça do Hitler ele também achava que estava certo.

É o que eu estou falando, né? Eu tentar entender por que ela pensa de tal forma não significa que eu estou justificando e passando o pano. É justamente eu tentar entender uma mentalidade. Nós, historiadores, estamos desde o final da Segunda Guerra Mundial tentando entender o que se passava na mentalidade dos nazistas, não para justificar.

Até para entender e não cair no erro que pode levar outras pessoas a pensar a mesma coisa, né? Exatamente. E o ponto é isso, né? A gente discutindo isso nem era muito ponta, na verdade, falar da J.K.

Rowling, mas, assim, prova que sim, fãs de Harry Potter são menos preconceituosos, tá ligado? Exatamente. Porque a própria autora está falando merda e a gente está aqui criticando ela. Sim.

Ou pelo menos há uma tendência de serem menos preconceituosos, né? Exata. A gente tenta, né? Obviamente vai cometer deslize, né?

E eu acho que com tudo isso é interessante pensar, né? De tipo, é isso, né? Cada vez mais, surgem próprios fãs de Harry Potter e tal, falam, não, porque Harry Potter não tem a representatividade e tal, isso que a gente já discutiu. Mas é uma cobrança que eu não vejo com as outras obras, sabe?

Eu acho que é mais uma comprovação de que realmente fã de Harry Potter é muito preocupado com isso, sabe? Porque eu não vejo os fãs de Crepúsculos discutindo isso. Obras anteriores, por exemplo, Senhor dos Anéis, né? Narnia.

Põe Narnia, sabe? Tipo, assim, as meninas não… A mais velha, né? Que eu esqueci o nome agora, ela…

A Susana. A Susana não volta pra Narnia porque ela começou a gostar de maquiagem, entendeu? Tipo assim, e ela foi idosa, entendeu? Tipo, é um negócio assim.

Senhor dos Anéis tem que… Nenhuma mulher. E aí no filme colocaram uma, né? Pra ter alguma coisa, sabe?

Tipo assim, realmente são… E são histórias que são da sua época, entendeu? Então, o que eu entendo, mas eu não vejo esses fandoms criticando dessa forma, colocando peso, né? Bom, tem muita gente que acha que Rick Riordan inventou a representatividade na literatura juvenil, né?

Sim, não é. Porque Percy Jackson, a primeira, né? Primeiros cinco livros não tinham, né? E aí o ponto é que o Riordan continuou escrevendo, né?

Então ele pegou essa época, realmente, que houve essas rodanças, os paradigmas na literatura, principalmente. E aí ele inseriu, né? Personagens homossexuais, personagens trans. E, cara, ótimo, tá ligado?

Que legal. Nem sei se inseriu personagens trans, mas enfim. Tem um personagem genderfluid, assim. Mas eu tenho…

Desculpa, desculpa de cortar rapidinho, Marina. Só fazer um parêntese. Eu tenho… Não é o tema, então não vou me estender.

Mas eu tenho algumas críticas nos programas muito grandes com os textos do Riordan. Tanto a primeira série, que é uma série que defende nas entrelinhas e até de forma aberta o imperialismo norte-americano e a ideia de Estados Unidos como o grande símbolo do Ocidente que vai brigar contra a barbárie. Então esse é um tema que está ali. E quando a gente vai para as outras séries dele, mesmo quando ele vai falar sobre mitos do Oriente, do Egito, o olhar que ele tem é um olhar ainda americanizado.

É o que a gente vai… Ele vai reproduzir uma questão orientalista que a gente discute bastante na história a partir da teoria do estúdio chamado Oidor Said. Mas a questão também de quando ele vai colocando personagens não-brancos, não-LGBTs, algo que eu sempre coloco em sala de aula e que eu queria que as pessoas aqui pensassem, não é só a importância do que coloca, mas é como coloca. Então como são esses personagens que estão aparecendo no Rarda?

Realmente é representatividade ali ou ele está indo na crista da onda porque vai vender e ele coloca um personagem? Não vou responder, porque o nosso não é o tema do nosso podcast de hoje, mas deixa essa provocação para os leitores. Mas vocês já sabem a resposta. Não, é total assim.

É muito injusto você comparar uma obra que continuou depois dos anos 2010 e tals e tem milhões de livros e tals com algo que parou, que começou no final dos anos 90 e parou em 2007, tá ligado? Porque são agora contextos diferentes e que bom que as coisas mudaram tão rápido, né? Certas questões e tudo mais. Mas não tem como você comparar, entendeu?

Você cobrar. Então assim, acho que até justamente por Harry Potter ser mais novo do que Sir dos Anéis, do que Narnia, do que Star Wars também e tals, que, meu Deus, sem palavras assim. Acho que justamente até por ser mais novo que as pessoas não fazem esse recorte histórico, né? Não param para pensar que ah não, mas na verdade, mesmo que não faça tanto tempo, já é diferente o suficiente, né?

Mas eu acho que justamente por ter essa cobrança em cima de Harry Potter e mais questões serem trazidas é porque as pessoas têm mesmo essa preocupação, né? De tipo… E aí no caso eu tô falando de quem é fã, né? As pessoas que realmente não falam por falar, sabe?

Nem consomem o negócio e ficam falando merda e meu, pelo amor de Deus. Gente, foquem no que vocês gostam. Foquem no que vocês gostam. Vamos ler o que vocês gostam em vez de ficar enchendo saco.

É porque isso. Se vocês se importam realmente e gostam de Harry Potter tão preocupados, as críticas de vocês são muito válidas, enfim, a gente tá aqui pra isso. Se é só pra jogar hate, tchau. É, não, exato.

Não tenho tempo, não. Já diria, nossa grande musa inspiradora e poeta contemporânea. Haters, né? Gona hate?

Exatamente, amiga. Você pegou, né? Eu achei que você ia falar da Anitta, tá ligado? Do que ela fala.

E se for pra reclamar, não perco, não perco, não perco, meu tempo, não. Ah, não, não, não, não. Eu gosto de poesia de altíssima qualidade. Aqueles, né?

Americanizados. Ai, sim. E com isso, a gente encerra a nossa discussão. Mas, assim, encerrando sem encerrar, porque esse é um assunto que rende muuuuuita discussão, rende muito pano pra manga, né?

A gente pode continuar a falar, se vocês acordaram de alguma coisa, se vocês concordaram com alguma coisa, enfim. Nós estamos todos nas redes sociais, vamos passar as redes sociais pra vocês agora. E bora continuar esse papo por lá, né? Então, as minhas redes, hoje eu vou começar por mim, vai.

As minhas redes sociais são todas im.pedromartins, no Instagram, no Twitter, no Facebook, enfim, em todos os lugares. Quais são as suas, Marina? São todas também Marina Anderi, Marina Anderi, Twitter, Facebook, TikTok, Instagram, tamo lá. Isto.

E a gente, como a gente não é nada educado, a gente pergunta pro convidado depois, né? Quais são as suas, Victor? Sim, eu tenho as minhas redes pessoais, que vocês encontram como Victor Menezes, tanto o Facebook, quanto o Instagram, quanto o Twitter. E eu tenho uma página, tanto no Facebook, quanto no Instagram, somente de Harry Potter, que é a Para Além de Hogwarts, onde eu divulgo textos e análises dos livros, por meio de uma perspectiva da história.

Ou seja, é uma página de divulgação científica dos meus trabalhos acadêmicos sobre Harry Potter. Então, quem quiser conhecer um pouco mais de como eu tenho interpretado o trabalhado, deixo o convite aqui pra seguirem a Para Além de Hogwarts. Conteúdo de altíssima qualidade, como a discussão que o Victor contribuiu e trouxe pra gente aqui hoje, tá, gente? Então, assim, recomendadíssimo.

E o Victor, inclusive, direto à reta, ele tá fazendo projetos, né? Ele tá fazendo, enfim, ele ministra cursos, muito ligado ao Unicamp, né, Victor? Uhum. E agora, recentemente, não adianta você se inscrever, porque já vai ter acabado, e, enfim, não tem vaga também, mas, enfim, o Clube do Livro de Harry Potter.

Então, tem muita coisa que o Victor faz de bem legal, assim, dentro do fandom. Recomendo demais. E, assim, né, o Potterish, né, até o Potterish.com, que você encontra as notícias, você encontra artigos, você encontra quiz, teste, tudo, em que a gente sempre também tá divulgando os cursos do Victor, né? Sim.

Sempre que tem alguma coisa, a gente sempre publica lá, fala como se inscrever, certinho, porque são sempre algo muito, muito legal, assim. Eu tive a oportunidade de participar de um dos olês, né, que foi quando o Victor tava dando aulas de Harry Potter pra terceiridade, né, no projeto Universidade. Eu fui lá no Unicamp, gente, pra lesteira no Unicamp, foi ótimo. E que é super, nossa, é muito legal, realmente, assim, todos esses projetos.

Eu só tenho a agradecer a vocês pela parceria, né, desde 2017, como vocês, como a Marina falou, né, que foi quando você participou do curso, Marina, e vocês estão sempre divulgando os cursos do Clube do Livro. Então, muito obrigado mesmo, assim. Tem um carinho muito grande pelo Potterish, que eu acompanho desde a minha adolescência, então, carinho muito grande por vocês. E é sempre uma honra conversar com vocês, discutir, aprender com vocês, e também ter essa parceria que vocês estão sempre ali divulgando, ajudando o meu trabalho.

Então, muito obrigado mesmo. Feliz. É isso, gente. Um beijo e até terça que vem.

Beijo, tchau. Beijo.

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