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Tradução, um Trabalho Complicado

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Daniel Hahn, que traduziu o livro The Book of Chamaleons, de José Eduardo Agualusa, escreveu um artigo interessantíssimo sobre a tradução dos livros de Harry Potter para o The Guardian. Nele, Hahn discute sobre as palavras inventadas em várias línguas, como os tradutores lidam com as rimas e aliterações, e como

adaptam o texto de J.K. Rowling para que se encaixem melhor na realidade do país. É um texto que realmente merece ser lido por aqueles que têm críticas sobre as traduções. A tradutora brasileira, Lia Wyler, foi citada no texto:

No Brasil, em contraste, a tradutora Lia Wyler decidiu manter o espírito ao invés da letra, suavizando muitos nomes em outros que soam mais portugueses, se carregando assim com o nobre desafio de cunhar algumas 400 palavras por conta própria. Harry joga quadribol(sic), e quando não está em Hogwarts está no mundo dos trouxas(sic) (Muggles) com seu primo trouxa(sic) Duda(sic). Minerva McGonagall mantém seu nome, mas para manter os hábitos escolares brasileiros é chamada familiarmente pelos alunos de Profa. Minerva(sic). O Chapéu Seletor livra Harry da Sonserina(sic), e o inscreve na Grifinória(sic) ao invés. (Mas será que traduzir o inglês Platform Nine and Three Quarters[Plataforma Nove e Três Quartos] para o português como Plataforma Nove e Meio não é um pouco demais?)

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Thanks The Guardian and Mugglenet.

Editado: Como muita gente perguntou, aqui vai a definição de sic: adv (lat) Assim. Emprega-se entre parênteses no curso de uma citação, após uma palavra ou expressão que possa parecer estranha ou errada, ou para indicar que o texto original está reproduzido exatamente. Ou seja, significa, ali em cima, que no texto original, em inglês, o autor usou as expressões traduzidas pela Lia Wyler: quadribol, trouxas, etc.

¿Hagrid, qué es el quidditch? (Hagrid, o que é quadribol?)

Tradução envolve arte e também perícia, diz Daniel Hahn

É o final do verão, e Harry mal pode esperar para se livrar de seu insuportável primo Dirk e resto dos asquerosos Duffelings. Felizmente ele logo estará de volta à escola com seus amigos Ron e Hermelien e o benigno Professor Anderling, se preparando para a Copa Anual de Zwerkbal. Por enquanto ele conseguiu se manter longe do sinistro Professor Sneep.
Familiar? Se você é um belga que fala flamengo, é assim que as histórias de Harry Potter são para você. Dos 325 milhões de livros de Harry Potter vendidos ao redor do mundo, algumas 100 milhões de cópias não contêm uma única linha da prosa de J.K. Rowling. Elas são medidas pelo trabalho de outros escritores que estabelecem o tom, criam suspense e humor, e dão aos personagens distintas vozes e sotaques. A única coisa em que esses tradutores não têm impacto é a trama, que é, é claro, só de Rowling.

No momento em que a Bloomsbury colocar seu próximo anúncio de imprensa anunciando que Rowling entregou o livro sete e a data de publicação foi marcada, mais de 60 tradutores ao redor do mundo – da Europa à América do Sul, da África à Ásia – vão começar a apontar seus lápis. Quando essa primeira cópia publicada aparecer, a corrida deles começará.
É uma corrida contra o prazo final das editoras, claro; em alguns países, onde a qualidade do inglês como segunda língua é muito alta, é uma corrida para ter o livro publicado em (digamos) norueguês, ou dinamarquês, antes que todo o seu mercado decida não se incomodar para esperar a tradução, e você descobre que está tentando vendê-lo para pessoas que já leram o livro na versão original.

Em alguns casos é uma corrida contra os tradutores não-oficiais, também; na China, onde a aplicação das leis internacionais de copyright deixam a desejar, parasitas dos direitos intelectuais de propriedade produzem mecanicamente suas rápidas e fajutas versões renegadas mais ou menos com impunidade. Essas variam de traduções produzidas por fãs publicadas online, até livros novinhos da série HP vendidos em esquinas, como a peculiar tentativa de um livro cinco enquanto Rowling estava na verdade ainda trabalhando duro em Edimburgo escrevendo ele (Rowling compartilha esse louvor com Cervantes, que ficou compreensivelmente surpreso ao encontrar a segunda parte de Dom Quixote publicada não-oficialmente antes que ele tivesse a chance de escrevê-la).

Então – você é um tradutor oficial de HP, e você conseguiu de alguma forma lidar com o estranho título do livro sete (uma boa versão para Deathly Hallows, alguém tem?). E agora a Amazon entregou sua cópia do Livro Mais Aguardado de Todos os Tempos, e é seu trabalho vertê-lo em alguma outra língua para satisfazer a faminta audiência local de algum lugar. Como você começa?

Você começa, provavelmente, com o eterno problema encarado por todo tradutor – encontrar o equilíbrio entre fidelidade literária e o equivalente que faz a fidelidade da experiência de leitura. Quando tio Vernon(Válter) fica cantarolando Tiptoe Through the Tulips, você o deixa manter sua canção anglofônica e só traduz o título? O tio espanhol de Harry cantarola De puntillas entre los tulipanes. Ou você acha um equivalente local, como o alemão Onkel Vernon, que vai para a uma música mais do folclore germânico, Bi-Ba-Butzemann?

Leitores espanhóis encontrarão a maioria dos nomes e palavras inventadas sem mudanças (¿Hagrid, qué es el quidditch?), ou traduzidas literalmente. Então a tradução espanhola é fiel em um sentido óbvio – mas enquanto os nomes podem permanecer imutáveis, será que o nome Quirrell realmente soa tão nervoso, assustadiço e lamuriante em espanhol? E Hufflepuff(Lufa-Lufa) soa tão ineficiente, tolo e abraçável como para as orelhas inglesas?

No Brasil, em contraste, a tradutora Lia Wyler decidiu manter o espírito ao invés da letra, suavizando muitos nomes em outros que soam mais portugueses, se carregando assim com o nobre desafio de cunhar algumas 400 palavras por conta própria. Harry joga quadribol(sic), e quando não está em Hogwarts está no mundo dos trouxas(sic) (Muggles) com seu primo trouxa(sic) Duda(sic). Minerva McGonagall mantém seu nome, mas para manter os hábitos escolares brasileiros é chamada familiarmente pelos alunos de Profa. Minerva(sic). O Chapéu Seletor livra Harry da Sonserina(sic), e o inscreve na Grifinória(sic) ao invés. (Mas será que traduzir o inglês Platform Nine and Three Quarters[Plataforma Nove e Três Quartos] para o português como Plataforma Nove e Meio não é um pouco demais?)

Harry Potter joga em seus tradutores (ou, em alguns casos, equipes de tradutores) um número de desafios que a maioria dos livros não apresenta. Existem incontáveis palavras inventadas, pra começar. Qual o turco para golden snitch(pomo de ouro), ou o húngaro para Bludger(balaço), ou o galês para Quaffle(goles), o catalão para Sickles and Knuts(sicles e nuques), ou o hindi para Floo Powder(Pó de Flu)? E daí tem as brincadeiras com palavras, as profecias e rimas (como aquelas do sorting hat[Chapéu Seletor] – o sombrero seleccionador). Também tem os feitiços e os anagramas. (Tom Marvolo Riddle pode ser um anagrama para I am Lord Voldemort; mas não é um anagrama para Je suis Voldemort, então na França ele é Tom Elvis Jedusor.)

Vários tradutores foram criticados por fãs insistentes de Potter que desaprovavam suas escolhas. Outros fãs descobriram que quando eles pesquisam suas traduções, eles entregam pontos valiosos da trama. O livro seis tem uma nota misteriosamente assinada com a sigla R.A.B., a qual muitos leitores especularam que pode se referir a alguém na família Black, um parente de Sirius Black (mais provavelmente seu irmão mais novo Regulus[Régulo]); a tradução holandesa dá as inicias no bilhete como R.A.Z. – e se você sabe que em holandês o padrinho do Harry é chamado Sirius Zwarts, essa mudança sugere uma interessante conclusão.

Outra razão pela qual os Potters têm um prospecto de tradução mais complicado que outros livros são os requerimentos contratuais impostos pela companhia dos filmes, Warner (para quem questões como a estabilidade dos nomes dos personagens têm alguns impactos em seus planos de propaganda); houveram casos de tradutores se opondo aos termos da Warner, e se encontraram substituídos entre um livro na série e o outro.

O trabalho de qualquer tradutor requer que eles sejam simultaneamente presentes e ausentes; com completa compaixão embutida no trabalho e ainda totalmente invisíveis. E para a maior parte essa invisibilidade é bem mantida. A relutância de alguns tradutores para falarem comigo para esse artigo pode ter tido algo a ver com aquele ideal de invisibilidade. Mas talvez tenha algo a ver, também, com as incomuns e pesadas exigências de publicidade que esse trabalho faz neles – incomum em sua área profissional, certamente. O fato é, nessa profissão invisível eles são as anomalias, discretos mas um pouco célebres. Não importa o que digam, esse não é qualquer trabalho de tradução; e alguma hora muito em breve vai começar tudo de novo.