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Novo livro de JK Rowling faz crianças refletirem sobre governos incompetentes

Apesar de ser infantil, O Ickabog, o novo livro de JK Rowling, tem tudo para ser uma história com reflexões profundas sobre política. Publicado gratuitamente na internet capítulo por capítulo, o livro tem uma estrutura narrativa e um vocabulário bem mais acessíveis a crianças pequenas do que o primeiro Harry Potter. A princípio, no entanto, a história parece trazer discussões muito mais profundas – e atuais – do que A Pedra Filosofal, como desigualdade social e questões de gênero.

A ironia “Rowling-ana”, como gosto de chamar o estilo com que a autora costuma descrever alguns elementos da história, é visível já no primeiro parágrafo de O Ickabog, quando ela apresenta um dos personagens principais, Rei Fred, o Destemido, que se autodenominou “destemido” simplesmente por achar que a palavra combina com seu nome e porque deseja passar aos súditos a ideia de que é corajoso, apesar de nunca ter conseguido matar sozinho uma vespa sequer.

O pequeno reino governado por Fred se chama Cornucópia, um lugar famoso muito além de suas fronteiras pela fartura e pelas excelentes comidas que produz. Faz sentido, já que a palavra “cornucópia” é sinônimo de “abundância”, afinal. No reino, há cidades riquíssimas que produzem doces, queijos, presuntos, bacon, linguiças e vinhos deliciosos. Ao extremo Norte, porém, há pântanos habitados por pastores pobres e ovelhas desnutridas, que costumam ser mal vistos pelos demais moradores de Cornucópia, já que são a prova viva de que o reino não vive em completa riqueza e fartura como muitos deles preferem acreditar.

Além disso, a região ao Norte, batizada de Marshlands, também é a terra onde surgiu a lenda do Ickabog, o monstro que dá nome ao livro e, a depender de quem conta a história, pode ter formato de serpente, dragão ou até de lobo – ninguém sabe. Não está claro nos capítulos disponibilizados até o momento se o Ickabog realmente existe ou é mais um dos muitos mitos de Cornucópia. É provável que seja apenas uma lenda que, indiretamente, vai provocar mudanças profundas na vida dos personagens.

JK Rowling anuncia publicação de O Ickabog
JK Rowling publica O Ickabog gratuitamente na internet (Imagem: JK Rowling/Divulgação)

O Ickabog é um conto de fadas político

Tendo em vista que JK  Rowling diz que O Ickabog é um livro sobre “a verdade e o abuso do poder”, a história não parece ser sobre uma criatura que come ovelhas e cachorros, mas sobre líderes políticos populistas e incompetentes, conselheiros que nada fazem para barrar as imbecilidades de um governante e cidadãos-súditos que se recusam a enxergar os defeitos de um governo.

Mesmo que o Ickabog se torne um monstro de carne e osso nos próximos capítulos, o enredo deve continuar centrado na capacidade que os seres-humanos têm para causar mal uns aos outros – um mal muito pior do que seria capaz de causar uma criatura mágica que atrapalha o sono das crianças.

À vista disso e de temas secundários que já apareceram nos primeiros capítulos, como preconceito, bullying, desigualdade social, morte e quebra de estereótipos de gênero – por meio de uma garota de 5 anos que prefere usar macacão e trabalhar como carpinteira, ao invés de usar belos vestidos –, O Ickabog tem todos os ingredientes para ser mais do que um mero conto infantil e escapista.

Ao analisar contos de fadas, o historiador estadunidense Robert Darnton defendeu que, apesar da fantasia, essas histórias estão enraizadas no mundo real. O mesmo pode ser dito sobre o novo livro de JK Rowling. Apesar de a autora ter feito questão de explicar que criou a história mais de uma década atrás e, portanto, o livro “não deve ser lido como uma resposta a qualquer coisa que esteja acontecendo no mundo neste momento”, é impossível que, durante a leitura, não façamos reflexões sobre o que estamos vivendo e para onde, ao que tudo indica, estamos caminhando.

Torçamos para que, no futuro, tanto os moradores da Cornucópia quanto os leitores do livro nos tornemos desde crianças cidadãos mais espertos em reconhecer governos incompetentes e exijamos mudanças.

*Victor Menezes é historiador e mestre em História Cultural formado pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), dentro da qual ele criou um curso pioneiro que analisa Harry Potter por meio de uma perspectiva da História, oferecido a estudantes da terceira idade

Colaborou: Pedro Martins (edição)

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