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“JK Rowling está do lado errado”, diz Evanna Lynch em carta aberta sobre transgêneros

A atriz Evanna Lynch, conhecida entre os fãs de Harry Potter por interpretar Luna Lovegood nos cinemas, publicou nesta terça-feira (9) uma carta aberta em resposta às declarações feitas pela escritora JK Rowling em relação a pessoas transgênero.

O texto escrito por Evanna Lynch foi publicado no Twitter, rede social onde começou a polêmica envolvendo a autora. Na noite de sábado (6), JK Rowling publicou mensagens que foram consideradas transfóbicas pela comunidade LGBT+ e por fãs de Harry Potter.

Evanna Lynch abre o texto dizendo que está em triste por saber que pessoas trans não se sentem mais acolhidas entre a comunidade de fãs de Harry Potter.

“Sentir que você não se encaixa, ou não é aceito por ser quem é, são os piores e mais solitários sentimentos que alguém pode sentir e eu não vou ajudar a marginalizar mais ainda homens e mulheres trans”, escreveu Evanna Lynch.

A atriz opina que o Twitter não é o local adequado para discutir um assunto “tão delicado” e diz que gostaria que Rowling não tivesse feito isso. Ela deixa claro, no entanto, que não apoia as declarações da autora.

“Discordo de sua opinião de que mulheres cis são a minoria mais vulnerável nessa situação e acho que ela está do lado errado nesse debate. Mas isso não significa que ela perdeu sua humanidade por completo.”

– Evanna Lynch

Ao final do texto, Evanna Lynch lamenta pela comunidade trans e garante que vai se esforçar para que o fandom de Harry Potter seja sempre inclusivo e acolhedor.

Leia o texto de Evanna Lynch

Eu queria me abster de comentar os tweets de JKR, porque parece impossível abordar esse assunto no Twitter, mas estou entristecida em ver pessoas trans se sentirem abandonadas pela comunidade de HP, então aqui vão meus pensamentos:

Imagino que ser trans e aprender a se aceitar e se amar já é desafiador o suficiente, e nós como sociedade não devíamos piorar a essa dor. Sentir que você não se encaixa, ou não é aceito por ser quem é, são os piores e mais solitários sentimentos que alguém pode sentir e eu não vou ajudar a marginalizar mais ainda homens e mulheres trans. Aplaudo a imensa coragem que eles mostram ao abraçarem a si mesmos e penso que todos nós devíamos ouvir suas histórias, especialmente sendo o Mês do Orgulho. Pessoalmente, eu não acho que o Twitter é o lugar certo para ter essa conversa super complexa e que deveríamos estar lendo artigos e biografias, ouvindo podcasts e tendo longas conversas. Acredito que é irresponsável discutir um assunto tão delicado no Twitter através de pensamentos fragmentados e gostaria que Jo não tivesse feito isso.

Dito isso, como amiga e admiradora de Jo, não consigo esquecer como ela é uma pessoa amável e generosa. Estou triste de ver fãs reduzir Jo a seus tweets e aparentemente desdenhar seu incrível trabalho filantrópico e sua determinação em ajudar a humanidade. Vejo que ela ainda está lutando por pessoas vulneráveis. Eu discordo de sua opinião de que mulheres cis são a minoria mais vulnerável nessa situação e acho que ela está do lado errado nesse debate. Mas isso não significa que ela perdeu sua humanidade por completo.

No momento, as mensagens que estou recebendo são uma constante corrente tóxica, repleta de pessoas xingando e abusando uma das outras e não chegando a lugar nenhum. Nós precisamos quebrar o ciclo de fazer bullying e difamar os outros. No meio disso tudo, eu não consigo parar de pensar sobre uma mulher que,  há poucos meses, sofreu bullying e foi publicamente difamada pela mídia e por estranhos na internet, e acabou tirando sua própria vida; todos nós paramos e falamos, “Se você pode ser qualquer coisa nesse mundo, seja bondoso”. Onde está essa bondade tão necessária agora????? Ela é apenas para pessoas com quem concordamos? Não acredito que a ‘cultura do cancelamento’ seja saudável para nenhum de nós. Na verdade, acho que é uma abordagem bem rasa, dolorosa e irrealista de lidar com os problemas da humanidade. Como um amigo falou para mim essa manhã, “Se nós deixamos todos os nossos amigos ‘diferentes de nós’, nós só criaríamos uma bolha maior, o que resulta em mudança nenhuma e sem melhora no mundo. Nós precisamos ser amigos daqueles que têm diferentes visões, para assim podermos ajudar a compartilhar e entender mais.” Eu entendo que as visões de JKR são dolorosas para muitos, e como uma mulher cis eu não consigo entender totalmente esse tipo particular de dor e que, portanto, é mais fácil para alguém como eu pedir para as pessoas serem bondosas. Acredito que você obviamente tem que ter os seus limites; bloqueie e siga em frente. E poupe sua energia para as pessoas que você ama e seu trabalho. Mas eu acredito que vítimas de opressão podem se curar melhor disso ao não carregar a energia dos opressores para fazer bullying e odiar pessoas do outro lado do debate.

Eu sei muito bem o que é encontrar refúgio e um sentimento de pertencimento, um senso de “Você não é muito esquisito para se encaixar aqui” de Harry Potter e o quão importante essa influência foi para eu me aceitar quando era jovem. Sinto muito por qualquer pessoa trans que sente que isso foi tirado dela ou que a comunidade não é mais um lugar seguro. Mas o mundo/fandom/comunidade de Harry Potter é literalmente feito de milhões de pessoas e eu por exemplo vou me esforçar para que ele seja inclusivo, porque mulheres trans são mulheres.

Também acredito que todos nós devíamos estar na terapia, não no Twitter jogando pedras um no outro. Espero que todo mundo esteja tomando um tempo das mídias sociais e priorizando sua saúde mental durante esse tempo já bastante desafiador quando muito de nós estamos isolados daqueles que amamos, porque é muita coisa, e não vai se resolver aqui. Nós precisamos fazer o trabalho interno. Estou mandando meu amor para a comunidade trans especialmente nesse momento. Particularmente, com todas essas discussões, percebi que tenho que ser uma ativista mais interseccional ao invés de só focar no veganismo, e estou trabalhando para evoluir nesse sentido. Por ora, não vou dar continuidade a essa conversa no Twitter e estarei offline aprendendo a ouvir melhor.

Colaborou: Marina Anderi (tradução) e Caroline Dorigon (revisão)

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