#41: Azkaban não deveria existir, com Gizélia Vasconcelos

#41: Azkaban não deveria existir, com Gizélia Vasconcelos

Semanário dos Bruxos

Episódio 4149min 43s28 de set de 2021

🎙️ Episódio 41 · 49min 43s · 28 de set de 2021

Apesar de passar despercebido pela maioria dos fãs, os livros de Harry Potter fazem uma forte crítica ao sistema judiciário e prisional. Sob figuras como Bartô Crouch, o Ministério da Magia prendeu inocentes (oi, Hagrid!) e, mesmo entre os suspeitos que de fato eram culpados, não fez julgamentos adequados. Quase que numa pena de morte, os prisioneiros são mandados a Azkaban para definharem e morrerem, sem possibilidade de redenção ou ressocialização. Os apresentadores do Semanário dos Bruxos, Pedro Martins e Marina Anderi, recebem Gizélia Vasconcelos, pós-graduanda em direito penal e criminologia, para discutir a Justiça no Mundo Bruxo – e seus paralelos com a realidade do mundo trouxa, inclusive do Brasil.

Ouça o Episódio

Transcrição do Episódio

A transcrição abaixo foi gerada automaticamente e pode conter pequenos erros.

Ver transcrição completa

Sejam muito bem-vindos ao Semanário dos Bruxos, o podcast do Poteiriste, que vai ao ar toda terça-feira nas plataformas de streaming. Eu sou o Pedro Martins, editor-chefe do site. Eu sou a Marina Anderi, gerente de marketing. E no podcast desta semana, a gente vai falar sobre um tema que eu tenho certeza absoluta…

Bom, já pensou assim, né? Enfim, eu tenho certeza absoluta que vocês nunca ouviram falar, que vocês nunca perceberam. Então, assim, Semanário dos Bruxos, trazendo coisas novas pra vocês sobre Harry Potter. Revolucionários, né, cara?

Revolucionários, é. Um divisor de águas na vida do senhor de Harry Potter, como diz o meme, né? Que, enfim, gente, é sobre o sistema prisional no mundo bruxo. Vocês podem estar falando, gente, o que eles usaram antes de gravar esse podcast.

Mas, assim, confia que vai rolar, né, Marina? Sim, eu acho que é um tema muito interessante, né? Sistema prisional, né? Azkaban, dementadores, os ministérios da magia.

Esse pessoalzinho aí que a gente já sabe que não dá pra confiar muito. Mas, então, assim, a gente vai ser muito lectual, entendeu? Falar sobre o sistema de justiça, de ciário, entendeu? Nem sei quem é isso direito, mas estamos aí.

E acho que vai ser topíssimo. Topster, exato. E pra falar com a gente sobre esse assunto, a gente recebe no Semanário dos Bruxos as Givas com Célus. Oiê.

Ela que é host do podcast Pipocaria, um podcast sobre cultura pop muito legal, que depois que vocês terminarem esse episódio do Semanário dos Bruxos vocês podem ir lá escutar. E a Gi também é formada em Direito, né? E ela é pós-graduanda em Criminologia, né, Gi? Isso.

Ou seja, estamos acompanhados de uma pessoa que entende muito de Direito para que a gente, eu e Marina, não falemos nenhuma merda. É isso, do check, né? Bom, introduzindo tudo, né? Um dos fatores que mais me encanta em Harry Potter é que conforme a gente vai envelhecendo e relendo os livros, a gente percebe elementos que quando a gente era criança, por exemplo, numa primeira leitura, se for o caso de vocês também, como foi o meu, a gente nunca teria sequer capacidade de notar.

Vocês lembram quando foi que vocês pararam para refletir sobre como é o sistema prisional do mundo bruxo, meninas? Ou se vocês… Bom, claro que vocês, eu sei que refletiram, mas enfim. Acho que o pessoal que está escutando a gente pode ter falado, hum, nunca refleti.

Mas na próxima releitura, depois de escutar esse podcast, vocês vão refletir. A primeira vez que eu reparei, na verdade, foi por causa de você, Pedro. Acho que você me falou. Olha, revolucionário.

Exato, você me falou, ah, eu tenho muito interesse de fazer um texto sobre Asuka, banho-baito-corte-júnior. Aí eu falei, ok, me fala um pouco mais sobre isso. Aí você me falou, mais ou menos, qual era a sua ideia de um texto que nunca saiu. Porque de certa forma é bom, porque aí agora a gente tem um podcast sobre isso.

Inédito. Exato. E aí eu comecei, eu nunca tinha parado pra pensar, tipo, real, real mesmo, assim. Depois, assim, refletindo, ok, tinha umas coisas que eu tinha notado e tal, mas eu não tinha parado sobre ser um sistema.

E o que significava pra toda uma sociedade. Ou o que significava sobre a sociedade. Realmente, assim, então foi nesse momento, acho que faz tipo uns dois anos, assim. Faz tempo, real?

É, faz um tempinho já. Mas eu realmente antes nunca tinha reparado. E agora que a gente está fazendo a releitura dos livros, pensando bastante sobre, sabe, assim, de o que está no livro de fato. Makes sense.

E você, Gi? Cara, vou falar que faz um tempo, assim, óbvio que não foi nas primeiras leituras, até porque criança. Então, tipo, até eu entrar na faculdade de direito, era meio que assim, ah tá, Azkaban é ruim. Os prisioneiros são guardados pelos dementadores, os dementadores são ruins.

E ok, e era isso que eu tinha do panorama. Quando eu entrei na faculdade de direito, que eu comecei a ter um pouco mais de contato com o direito penal, com a crítica, né, com a criminologia e tudo mais. E também com leituras mais marxistas e mais de esquerda sobre o sistema carcerário. Aí você pensa, tá, ok, mas o que isso tem a ver com Harry Potter?

Tem a ver que eu sou uma pessoa que gosta de misturar todas as coisas do mundo. Então eu gosto de pegar as coisas que eu tenho, que eu consumo de cultura, pop, de série, de filme, de livro. E de trazer, de fazer analogias com o direito. E aí nas releituras, assim, que é aquela coisa, quem cresceu lendo perdeu as contas de quantas releituras já fez, né.

Então, tipo, no tempo da faculdade, quando eu queria relaxar, não queria ler nada muito difícil, eu pegava Harry Potter porque era o meu lugar quentinho, o meu lugar de paz ali. E aí foi que veio aí os questionamentos, que vieram mais umas reflexões um pouco mais elaboradas, né. Tanto que, assim, coincidentemente, eu queria fazer o meu TCC sobre Harry Potter e direito penal. Só que, infelizmente, quando eu tava me formando, isso há bons sete anos atrás, eu não tinha nenhum professor na minha faculdade que topasse essa ideia, né.

Tipo, a única professora que olhou e falou assim, ok, você não tá ficando louca. Ela falou assim, ah, eu nunca li. E aí são sete livros, acho que eu não vou conseguir te orientar tão bem sem ter esse contato e tal. Não quer escolher um outro tema?

E aí eu acabei fazendo sobre outra coisa e aviando esse projeto de escrever academicamente sobre Harry Potter e sobre direito penal pra um momento que não chegou ainda e que, quem sabe, né, pós esse podcast e tudo mais, vá acontecer em algum momento. Tem um gás. É, vai que o podcast seja um empurrãozinho, né. Oremos.

Oremos, nossa, porque é muito legal, né. Eu acho que nos últimos anos tem tido uma aceitação melhor da academia sobre Harry Potter, né, enquanto tema de estudo. Mas eu não sei pra áreas, entre aspas, mais sérias como direito, né. Literatura, obviamente, rola, história e tals.

Não sei se direito ainda já tá nesse nível. Mas, pô, interessantíssimo, tá ligado? Imagina você poder fazer, misturar isso, uma coisa do teu curso com algo que te acompanha, que você gosta tanto, não parece fascinante. É, e assim, direito por si só é um curso chato.

Aí é, né, vamos ter autocrítica. É muito chato. Então, assim, essa coisa de fazer analogia com coisas que estão no cotidiano, tal, fazia ser mais palatável, né. Então, por exemplo, eu lembro que além dessa parte das prisões, eu relacionava muito…

Tem toda a questão. Daí eu vou puxar umas outras coisas aqui, assim, mas só de citar. O fale da Hermione, que daí tem toda uma coisa com movimentos gravistas, movimentos estudantil, sabe, tipo, movimentos pelos direitos dos trabalhadores, o direito trabalhista no mundo bruxo, que é meio que absurdo também. Enfim, cooperação bruxa e direito internacional, eu pirava em tipo vários temas.

É porque é um mundo, né, que era não a parte do nosso, né, criado, enfim. Então, ele tem, claro, como você fazer analogia com muitas coisas, né. E aí, assim, eu fiquei chocado quando eu percebi, e, assim, percebi, sem ter feito direito, sem nada, que o Harry Potter é premiado, assim, desde o início, por críticas, a maneira como a gente, enquanto sociedade. Bom, né, a maneira como a sociedade bruxa, mas a gente também, ao mesmo tempo, lida com criminosos, né.

Eu acho que isso começa a ficar mais evidente ali em O Prisioneiro de Askman, que, claro, traz um foco a essa questão, né. Logo no primeiro capítulo, quando o tio Walter está assistindo ali ao telejornal, ao noticiário na TV, de que um criminoso super perigoso está solta, ele praticamente diz, assim, sabe, bandido bom é bandido morto, sabe. E o que que vocês acreditam, assim, já a partir disso eu pergunto pra vocês, o que que vocês acreditam que a J.K. Rowling quis propor ao leitor quando ela escreveu essa cena, assim, esse diálogo, né.

Então, eu acho que, assim, a J.K. ela já deu a letra do que ela quis passar com isso lá na Pedra Filosofal, quando ela diz que os Dursley, eles se orgulhavam em ser pessoas perfeitamente comuns, sabe, perfeitamente normais. Porque o que que acontece? É um fato que a sociedade, e isso em todo o mundo ocidental capitalista, tem uma, uma ânsia punitivista, tem uma raiz, assim, e os Dursley, eles são um casal classe média, alta, né, assim.

É uma galera que tem o pensamento do homem branco médio. Então, não surpreende ninguém que o tio Walter, ele pense que bandido bom é bandido morto, porque, né, quando a gente vai ver, assim, não só no Brasil, mas no mundo também, tem muito disso nessa, nessa coisa, né, do homem médio mesmo, do homem médio branco, pensa dessa forma. Então, acho que foi só uma luz, assim, que a J.K. trouxe de, tipo, só mais escancarado do que você já consegue notar nas entrelinhas ali, sabe, a pessoa que tem uma superioridade moral à outra porque tem mais dinheiro, né, o jeito que eles tratam o Harry, que é o primo pobre, o orfo abandonado, e isso aí a gente vai construindo uma coisa que, assim, ele falar, se ele tivesse falado assim, tipo, entre aspas mesmo, bandido bom, bandido morto, com essas palavras, surpreenderia ninguém, porque faz todo o sentido com o personagem que ele é.

Não, exato, é uma coisa meio óbvio, né, óbvio que ele faria isso e também coisas como direitos humanos para humanos direitos, né, tipo, esse tipo de frase, assim, que é super manjado e é como real esse pessoal pensa, né. E aí, eu acho que isso ser colocado logo no início do livro, a gente vai acabar lidando, né, depois, saindo do mundo trouxa, indo para o mundo bruxo, com uma sociedade que pensa, assim, também, de certa forma, né. Obviamente, assim, é uma sociedade que foi assolada ali, foi um bucho das trevas e que muita gente morreu, e que foi uma guerra, né, e tudo mais. Existe um trauma que acho que na cabeça das pessoas justifica isso.

Tipo, essas pessoas são horríveis, elas também mataram muito, eu não sei o que é, então, o pessoal nem pensa pra considerar o que a pessoa tá passando ali naquele espaço que é Azkaban, né. Simplesmente, tipo, é assim que tem que ser, é assim que é, ponto. E eu acho que a sociedade bruxa, assim como os Dunleys, é muito conservadora, né. Os Dunleys é a família tradicional britânica, e a gente consegue ver, por vários exemplos, que a comunidade bruxa, com seus vários preconceitos, é também bastante, assim, conservadora, não para pra refletir sobre as coisas, tem uma coisa mais…

Parece que eles são de um século anterior, tá ligado? Exatamente. É, e logo em seguida a gente descobre, claro, né, que este criminoso que a TV trouxa tá ali citando, é o Sirius Black, né. Teria fugido, então, de Azkaban.

Azkaban, Azkaban, sei lá, como vocês gostam de falar. E de cara, já fica claro pro leitor, assim, né, desde ali, enfim, no ônibus que o Harry pega, no noitibus, que Azkaban é uma fortaleza de medo e agouro, né, já que ninguém nunca conseguiu fugir de lá antes, e o Sirius Black conseguiu, né. É uma prisão medonha que leva as pessoas à loucura, como fez com a Belatriz, enfim, por exemplo, né. E como também afetou muito o próprio Sirius, né, que ele fala muito sobre isso nos próximos livros, né.

Vocês acham exagerado comparar Azkaban às prisões brasileiras? Tipo, é claro que não é, tipo, tão escrachado as coisas, mas, enfim, as prisões brasileiras são lugares muito complicados, assim, sabe. Ai, Pedro, não é mesmo tão escrachado as coisas? Não, não, assim, não tem ninguém, ele literalmente sugando a sua alma, sabe.

Pode ser que tenha, tipo, de outras maneiras. É, não literalmente. Eu acho, assim, eu não só não acho exagerado, como eu acho perfeitamente cabível. O Brasil, ele tem uma população carcerária de mais de 750 mil presos em instituições que não cabem.

É até questão espacial mesmo, assim, não tem lugar. E a cada ano se abre mais lugar e continua uma superpopulação, porque aí continuamos prendendo muito, continuamos prendendo errado, e as pessoas continuam sendo amontoadas em cubículos e vivendo em condições insalubres, em condições somente desumanas, né. O Brasil, ele é o terceiro país com a maior população carcerária do mundo. Ele fica atrás só dos Estados Unidos, que aí é uma outra questão, porque nos Estados Unidos as prisões são privatizadas, então prender muito, rende muito dinheiro, e fica atrás a China, que é a China, né.

Que tem muita gente, né. Exato, é proporcional à quantidade da população, o que tanto que eles terem uma população carcerária grande, assim, eles têm, porra, a maior população do mundo. E aqui no Brasil a gente tem isso, assim, né, são condições sub-humanas, tem muita gente que tá presa, que não devia, tem muita gente que tá esperando um julgamento que podia ser esperado em liberdade, mas não tá, tá lá, e tem muita gente que já cumpriu a pena, mas a justiça ela é inchada, ela é morosa, ela não dá conta de todo mundo. Tem a questão de que no Brasil a maioria dos presos é jovem, preto e pobre, então, o nosso sistema carcelário é extremamente seletivo, é racista, tem uma grande herança ali de regime escravocrata.

Enfim, a gente não trata os nossos presos como humanos, e de certa forma é isso que acontece em Azkaban também, né. É tipo assim, ah, você é um bruxo do mal, então você vai ficar ali, onde tem um cara que literalmente suga sua alma, vai te levar à loucura, e é isso. Se ele não for com a tua cara, ele te dá um beijo e tchau, assim, você vira uma coisa oca, sem função nenhuma. E aí, de certa forma, a gente faz isso, porque, assim, o Brasil não tem a pena de morte institucionalizada, como tem nos Estados Unidos, por exemplo, mas a gente, de certa forma, simbolicamente, a gente mata pessoas quando a gente encarcera elas, porque meio que ali a vida delas meio que acabou.

A gente não tem questão de socialização, a sociedade, ela não pensa de forma que o criminoso é uma pessoa, então, por exemplo, direitos humanos para humanos de direitos, quem são os humanos de direitos? Direitos dos humanos, esse tipo de pensamento, e aí, enfim, a gente tem isso, daí a gente tem uma sociedade que não apoia que os presos tenham condições mínimas de vida, eu já vi gente reclamando porque preso come de graça na prisão, tipo assim, amado, reclamando porque está no plano de imunização nacional, tem a população carcerária lá. Quando a gente sabe que a gente está na pandemia do Covid, as pessoas que estão presas, elas não têm nenhuma condição de fazer distanciamento social, são pessoas que estão em questão de vulnerabilidade, de contágio, enfim. Quando a gente traz isso para o mundo de Harry Potter, a gente pensa assim, é muito sensível, muito sintomático do que que é Asuka Band, de como eles são tratados e tal, que o Sirius, ele só conseguiu sobreviver e escapar com sequelas, mas não tantas, assim, porque ele era um animago e ele se transformava em cachorro.

É muito sintomático de que tipo, se você for humano, você não sobrevive em Asuka Band, se você for plenamente humano e você não tiver esse escape. E aí, quando a gente vê, quando a gente traz para a nossa realidade de mundo trouxa, quando a gente traz para a nossa realidade de sociedade brasileira, se você fizer perguntas na rua, por exemplo, a maior parte da população vai dizer que preferir que os presos fossem tratados como bicho, ou pior que bicho, todo mundo atual, todo mundo não, mas as pessoas tratam seus bichos bem, seus cachorros, seus gatos, enfim. Todo mundo tem uma causa animal, graças a Deus, muito bom, mas as pessoas não veem os criminosos, os prisioneiros, as pessoas que estão lá respondendo para alguma coisa, como seres humanos. Assim como, de certa forma, eu acho que a gente meio que não vê os brujos do mal, a gente coloca assim, meio que tipo, não, essa pessoa tem que morrer ou se enfiar num canto, ficar bem louca.

Sim. Porque isso até me lembra, porque essa questão, a gente tá lidando com uma coisa mais extrema no mundo brujo, porque a gente tá falando de comensais da morte, por exemplo. As pessoas que seguiam Voldemort ali na época da Primeira Guerra Bruxa, e aí foram presas depois, ou, enfim, durante esses rolez assim. Se elas tiveram um julgamento justo, aí já é uma outra questão que a gente vai discutir mais tarde.

Mas existe essa ideia de que são pessoas que torturaram e mataram, isso justifica na mente dos outros essa ideia de que, tipo assim, não existe salvamento, não existe forma de essas pessoas estarem, enfim, serem reentregadas à sociedade, etc. Mas tipo assim, é bom lembrar que em Câmara Secreta, né, o Hagrid já foi expulso de Hogwarts lá quando ele tava mais novo e tudo mais, sendo que ele não abriu a Câmara, mas ele foi acusado, etc., já quebraram a varinha dele e tudo mais. E aí, em Câmara Secreta, o Foote chega lá na Câmara do Hagrid e prende ele, leva ele pra Azkaban. Meio que assim, ah, porque a gente tem que fazer, a gente tem que mostrar pro público que a gente tá fazendo alguma coisa.

Então, tipo, eles não estão realmente interessados em pegar quem é o culpado. Eles só querem mostrar que eles estão agindo. Mano, manda o Hagrid pra Azkaban, sem direito a nada, tá ligado? O Hagrid.

E é muito engraçado porque, assim, no mundo trouxa, a gente tem os mecanismos de prisão preventiva, etc., então vamos pensar que o Hagrid tava numa prisão preventiva. Abriram a Câmara, estão falando que é você e etc. O mundo bruxo é tão absurdo que ele não tem um meio termo. Não tem preventiva, não tem temporária, não tem nada, né?

Não, não tem, temporária, preventiva, não tem nada, absolutamente não tem nada. É assim, olha, você vai ser preso, você vai lá pra Azkaban, pro meio do polo, tipo, pros comensal lá. A gente nem sabe se foi tu que fez isso, mas vai. E ele nem acha que é o fã de, ele nem acha que foi o Hagrid, é só porque ele quer, é pra inglês ver literalmente, né, qqk.

Mano, é ridículo. E é isso, tipo, ou seja, mesmo se a gente tá falando de uma sociedade bruxa que tem Buda das Trevas, comensal, que as pessoas sabem que fizeram atrocidades, não é todo o caso que vai ser assim. E essas pessoas, como é que fica? Deixa, tá tudo bem?

Fica por isso? É, o que fica claro pra mim, assim, eu acho que vocês concordam, é que a sociedade bruxa não acredita na redenção do criminoso, seja ele qual for, né? Além de ser muito punitivista, além de, enfim, tem essa questão de nem, nem ter mecanismos pra tipo, não, vamos provar primeiro, de qualquer maneira, ela não acredita na redenção do criminoso. E o Ministério da Magia não manda nenhum bruxo pra Azkaban pra que ele melhore ou pra que ele seja reintegrado à sociedade, né?

E eu penso que mandar um bruxo pra Azkaban é quase que uma tortura legalizada, né? Cruços não pode, né? Exato. Mas dementador pode.

Dementador é até autorizado, ordenado. Sirius quase foi nessa, né? É funcionário do Ministério, praticamente, assim. Tipo, o imprisonero, o fã de fala, de estar impressionado que ele chegou a encontrar o Sirius em algum momento, e o Sirius tava lá de boa, pleníssimo, conversou com ele e tals.

E ele ficou muito surpreso, porque as pessoas geralmente enlouquecem depois de semanas em Azkaban. Falou isso, tipo, casualmente, tipo, de boassa, tá ligado? E isso só trouxe uma mística maior em cima do Sirius, né? Tipo assim, ai, ele é tão mau e ele é tão louco que ele não ficou louco em Azkaban, tá?

Tipo, tranquilo. Tipo assim, amado. Beloved. Exatamente, assim.

E eu acho engraçado que, assim, é realmente isso, né? A sociedade bruxa, ela não acredita em ressocialização, em redenção e tal. A não ser que você tenha dinheiro, não, é mesmo, Malfoy? Mas a gente tem dois casos de pessoas que foram redimidas e ressocializadas, né?

Aí, gente, eu vou citar dois, mas aí, assim, um eu tenho certeza, o outro eu não tenho tanta certeza, sim, mas acho que sim. Que é óbvio, o Snape e o Kakarov. Que, assim, eles eram começados à morte e daí eles fizeram todas as merdas que todos os começais fizeram. E depois eles se redimiram, né?

Eles têm cargos respeitáveis e tudo mais. O Snape, perona mutio, mas o Kakarov, né? Tipo, diretor de downstream e tudo, tipo, educadora ali e tal. Que não é lá essas coisas, mas sim.

É, assim, porque, e aí, tipo, cara, eles se redimiram. E é engraçado quando a gente vê essa questão da sociedade não acreditar que em Cálice de Fogo, assim, a gente, óbvio, né? Tem o trio ali que são os principais e que teoricamente são bons em tudo, mas eles também, tipo assim, o Harry muito escroto, sabe? Tipo, ai, o Kakarov foi comensal.

Foda-se se agora ele é diretor de uma escola. Uma vez comensal para sempre comensal. Sim. Tipo assim, calma, amigo.

Sabe, o Snape passou por isso também. Ai, não, porque o Snape foi comensal. Cara, o Dumbledore tá acreditando nele. Vai aí, vai na fé, vai na boa.

Gente, não é igual Piranha, sabe? Aquela música da Bebita, uma vez Piranha, Piranha até morrer. Não, uma vez criminoso. Não necessariamente sempre criminoso, sabe?

Exatamente. Exato, não, com certeza. Até porque a questão de ficar questionando o Dumbledore por causa do Snape. O Harry tem um tremendo respeito pelo Dumbledore, né?

Pô, que cara sabe, que cara incrível. Mas nisso ele fica, hum, não sei, né? Tendo que de fato, assim, o Snape seja escroto do jeito que ele é, etc. Ele de fato tá ali, ele virou de lado e continua naquele lado até o fim, tá ligado?

E se arriscando bastante. É, então assim, ele não era uma pessoa legal, porque não, ele não era, ele era escroto, mas assim, criminoso, comensal, ele não era, ele deixou de ser, né? Mas ele carregou esse estigma, né? Pra sempre, assim.

É, é a questão de que você, na verdade eu acho que talvez eu fale besteira, precisa, você precisa informar quando você é uma pessoa que já foi detenta quando você vai tentar o emprego, né? Ou isso é coisa de série americana. Não bem que precisa informar, sim, mas eu acho que a maioria das empresas faz um background check ali. Você só precisa informar quando é tipo concurso público, sabe?

Assim, por exemplo, alguns concursos, principalmente na área do direito, por exemplo, tem uma fase que é a investigação do passado. Entendi. Não, é, o ponto é isso. Acaba que trazendo pra uma sociedade é o que acontece com muitas pessoas, né?

A pessoa teve um período ali na prisão e aí ela pagou o tempo dela, né? Ela pagou que ela devia justiça e foi liberada. Só que isso é uma dificuldade na vida dela. Por mais que ela se mostre uma pessoa competente, né, preparada pra ir pro trabalho, ela não consegue.

E aí ela acaba voltando pro crime, porque ela não tem tipo dinheiro pra comer, tá ligado? É, então, eu tenho uma historinha sobre isso, assim. Uma vez eu fui numa palestra de um promotor e aí ele falou assim, quem é que já cometeu um crime? De cara, a palestra dele foi tipo, boa tarde.

Quem é que já cometeu um crime? Criminosas levantem a mão. Exato, ninguém levantou a mão, ninguém. Aí ele, nossa, ninguém nunca baixou uma música, ninguém nunca baixou um filme que não veio no Brasil, ninguém nunca pisou em uma grama que tinha escrito que não podia pisar e não sei o quê.

E daí ele começou a citar coisas que são corriqueiras do nosso cotidiano e as pessoas foram se encolhendo, assim, e óbvio, né, mãos começaram a levantar porque todo mundo cometeu uma infração ou outra. E aí ele falou assim, que legal, estou numa sala cheia de criminosos e ficou todo mundo tipo, cara, só tinha estudante direito. Meu Deus, saí daqui a gemado. Promovendo a justiça ele, né?

Não, e daí ficou todo mundo assim, tipo, todo mundo encolhido, todo mundo calado. Eu segurando o visto sempre. E daí ele falou, o que vocês acham que tinha que ser a pena de todos vocês? Sabe, tipo, por que vocês acham que certas coisas…

E aí eu não estou falando, gente, para quem está ouvindo, eu não estou defendendo que, ai, vamos matar pessoas e não vai acontecer nada com elas. Isso não é o que eu quero passar, mas, assim, a gente precisa repensar um pouco como a gente pensa prisão e punição para todos os crimes. E principalmente para os menores, que geralmente são os que lotam os presídios e tudo mais. Ficam de drogas, especialmente, né?

Sim. E aí, quando a gente pensa nessa questão da resocialização, nessa mesma palestra, o promotor contou a história assim, ah, porque eu tenho irmã e ela é muito namoradeira. E aí uma vez ela chegou para apresentar o namorado para a gente, que era um cara muito bem apessoado, um cara chique assim, e todo mundo ficou nosso. E aí fez aquelas perguntas de praxe, né?

Ah, o que você faz? Onde você veio? E tal. E aí o cara falou, ah, porque eu sou o dono, eu sou empresário, tenho empresa, assim, assim, assim.

E daí a irmã dele continuou namorando com esse cara e aí pegou um pouco mais de intimidade e no próximo jantar o cara chegou assim, ah, porque você é promotor, é da justiça, tal, porque eu fui pego na malha fina, uns probleminhas com imposto, você sabe como é, né? Será que você podia me dar uma força? E aí ele falando assim, cara, como assim, né? O cara estava me pedindo para ajudar ele com um crime que ele comenteu, né?

Porque esse negócio é imposto, é crime. E aí ele disse que ficou entre a cruz e a espada porque não queria fazer coisa errada, mas não queria prejudicar o cunhado e ficou nessa. Mas aí a irmã era muito namoradeira, acabou com esse cara e começou a namorar com outra pessoa um tempo depois. E aí ele respirou aliviado porque não precisou ajudar o cara a se resolver com a justiça.

E aí chegou o novo namorado. E daí chegou o novo namorado, mesma coisa, pergunte de praxe, ah, fulana, tal, o que isso faz, tal. E aí o cara falou assim, ah, agora eu estou desempregado porque eu estive preso, mas eu paguei o que devia e aprendi minha lição e agora eu estou procurando uma recolocação no mercado de trabalho. E aí qual que foi a reação das pessoas que estavam no jantar?

Meu Deus, fulana, como assim você se envolve com um criminoso? Como assim você se envolve com um bandido? E a realidade, sabe, você paga a sua dívida com a sociedade e você não tem nenhuma resocialização porque todas as portas se fecham pra você. São poucos os lugares que dão oportunidade pra ex-detentos.

São poucos e são poucos mesmo. Até porque muito pouco das pessoas tem escolaridade, tem oportunidade de estudar também. Então assim, quando a gente para, a gente pensa como que a gente está tratando essas pessoas, né? Como que a sociedade como um todo vê essas pessoas?

E aí quando a gente traz pro exemplo do Harry, por exemplo, o Harry era 100% essa pessoa. Como assim você está dando um emprego em Hogwarts pra esse cara que foi comensal da morte? Tipo, como assim? Que absurdo!

Ele tem que ficar sofrendo para sempre até dar mãe também. Então assim, eu acho que nisso a sociedade bruxa é um espelho muito bem feito da sociedade trouxa, sabe? Que quer que os presos se desapareçam, assim. Não só desapareçam, como sejam totalmente descartados e sofrendo pelo resto da vida.

Porque eu acho que até nesse caso seria menos cruel matar. Não sofro de forma alguma a favor da pena de morte, tá ligado? Mas você realmente está condenando a pessoa a sofrer pelo resto da vida e ela nunca vai sair dali, ela vai ficar naquele lugar lá, nessa ilha, sabe? Sei lá, passando frio e sendo sugada de tudo, enlouquecendo.

É um negócio que, cara, realmente é gratuito, tá ligado? Realmente você não tem nenhum plano pra isso, é. E tem um texto, inclusive, que a J.K. Rowling escreveu detalhando um pouquinho mais, enfim, dando toda a história de como o Azkaban foi criado e várias informações que não estão nos livros, né, Marina?

E Gi também, imagino que já deve ter lido esse texto, onde ela realmente detalha o quão, sei lá, se já era ruim enquanto a gente estava lendo o livro, quando lê o texto fica pior ainda, né? Não, exato, exato. Tipo, era isso, né? Não era uma pisana, geralmente, era uma ilha, num lugar escondido, ninguém sabia que existia, não aparecia nenhum mapa, nem nada.

E era de um cara chamado Ercridis. Talvez numa tradução da língua Ercridio, não sei. Será que em inglês seria Hercridis? Hercridis, é, pode ser, difícil.

Mas o ponto é, o cara era um bruxo das trevas também, não é foi o que se cheira, etc. E aí, eventualmente, depois que ele morreu, conseguiram localizar e aí viram que era um lugar que era infestado de dementadores. Ou seja, um lugar legal, né? Uma energia maravilhosa, uma ilha paradisíaca, você vai dar uma paz, né?

E aí, tipo, muita gente pensou, meu, melhor destruir esse lugar e tal, só que as pessoas ficavam meio com medo, porque como tinha muito dementador, se destruísse aquele lugar que eles estavam lá de boa, e se eles fossem pra sociedade bruxo, o que ia acontecer? E aí, meio que foi proposto, então, na época que teve o Estatuto Internacional de Magia, Segredo e tals, de os bruxos se esconderem dos trouxas, o Ministério da Magia sentiu que não fazia sentido manter as prisões pequenas que tinham em cidades e tals, porque era muito perigoso, né? Tipo, os bruxos podiam fugir e aí, enfim, mostrar pros trouxas que eles existiam e tals. Então eles pensaram, então vamos a Azkaban.

Que tal? Sabe aquele lugar horrível? Sabe, que tipo, que todo mundo falou, véi, deixa quieto, vamos usar aquilo lá pra prender as pessoas, tá ligado? Por quê, né?

Tipo, na época o Ministro da Magia era um cara chamado Damocles Rowell. E ele era tipo um cara autoritário que, tipo assim, ele chegou, foi eleito nessa coisa de ser antitrouxa, tá ligado? Tipo, pegando a muita raiva da sociedade bruxa de ter que se estourar um dia agora. Então ele fez essa prisão aí em Azkaban, e a ideia era que tipo assim, ah, desculpa, e um pouco também verdade, que tipo, olha, se a gente começar, né, leva bruxos pra lá, sendo presos, a gente vai continuar alimentando os dementadores, então eles não vão ser uma ameaça pra gente, vão ser meio que, vão ser nossas guardas, né, já tá lá mesmo e tals.

Uma coisa meio assim, corte de gasto, tá ligado? A gente não precisa nem pagar direito, o pessoal já tá lá e a gente se livra deles. Gente, é absurdo que tipo, realmente no plano era, vamos dar comida para os dementadores. Não, exato, tipo, gente, obviamente, desde o início essas coisas, né, tão problemáticas, geralmente é isso, a origem já é o problema.

Gente, era um lugar totalmente cheio de magia negra, cheio de dementador, um lugar ruim, que muita gente era contra ser usado. E o cara foi mesmo assim, sabe, que a intenção nunca foi boa, tá ligado? E aí, tipo, só que o ponto é, o negócio se provou um sucesso, porque ninguém escapou de lá, né, por muitos anos até, na verdade o Bartoconte Junior, né, que as pessoas descobriram depois, no caso. E aí, enfim, aí o próximo ministro da magia, que era Perseus Parkinson, que deve ser algum ancestral da Pency Parkinson, que a menina lá insuportável da Sonserina, ele também era proáscaba, então o negócio, tipo, continuou.

E aí a gente tem o Eldrick Diggory, que é um ancestral do Cedrico, do Amos, etc, que ele chegou 15 anos depois que a prisão já tava, né, lá. Estabedecido. Sim. E aí ele tentou acabar com esse rolê.

Ele viu a beleza, seguro, né, estava funcionando bem, mas ele foi visitar, ele ficou horrorizado, tá ligado? Tava, tipo, os prisioneiros, todo mundo louco. Tipo assim, foi feito um cemitério, tá ligado? Teve que ser criado um cemitério lá, pra acomodar as pessoas que tinham morrido de loucura, tá ligado?

Então, meu Deus, ele começou a estabelecer um comitê, pra tentar procurar alternativas, né, pra… Alguma coisa pra asca mental, só que ele morreu, tá ligado? Ele pegou, é, tipo… Varilo de dragão.

Varilo de dragão. Ele morreu. E aí, tipo, quem se seguiu não ligou nada, foi só com Kingsley. Ou Kim, depende de qual livro você leu.

Só quando o Kingsley virou ministro da magia depois da queda do Voldemort, né, ali depois da Segunda Guerra Bruxa, que o Harry derrota o Voldemort, que aí eles consideraram, né, tirar a Azkaban, né, e aí, meio que, tipo, na verdade, assim, a Azkaban continuou sendo o local das pessoas sendo presas, mas aí quem tava patrulhando virou aurores, né, não era mais os dementadores, que o problema principal era o dementador, né? Eu acho. É, até porque não tinha como continuar com os dementadores, né, porque eles se juntaram a Voldemort, então, tipo, era assim, oh, galera, vocês foram contra a gente, mas pode continuar com seu emprego aí, tipo. Falsérrimas, né, meu Deus.

É, não, eu acho que eu acredito muito por causa disso, né, porque os dementadores, enfim, permitiram que o pessoal fugisse de Azkaban, né, vários comentários, ais, tipo, a Belatriz e tals, e foram pro lado do Voldemort, eu acho que isso foi um argumento do Kingsley, né. Eu acho que só por isso que rolou também. Um total, assim. Mas é uma coisa, cara, tipo, dá pra você ver, então, a sociedade bruxa apoiou isso.

Não, assim, outro paralelo, inclusive, que eu vejo, né, desse ponto de vista do sistema prisional, é a credibilidade que a população dá a esses salvadoras da pátria que querem pôr bandido na cadeia, entre aspas, né. Isso não transparece nos filmes, claro, como sempre, mas tem alguns personagens, como é o caso do Bartho Crouch, né, pegando esse gancho da Marina aqui, falando sobre o Ministério, sobre os políticos do mundo bruxo, digamos assim. Bom, o Bartho Crouch, ele, basicamente, tenta convencer a população de que a sociedade só vai melhorar se ele encarcerar todas as pessoas em massa, né, digamos assim. Então, a linha e o cálice de fogo é dito que ele subiu de cargo dentro do Ministério da Magia e com a própria sociedade, prendendo essas pessoas que, às vezes, ele nem tinha provas contra.

E a sociedade bruxa achando o máximo, assim, né. Uma coisa meio assim, nossa, Sérgio Moro, sabe. Putz! Exatamente, era isso que eu ia falar, gente.

Nós somos o país, né, do juiz Moro, paladino da justiça e da moral, dos bons costumes, que, né, gente, pelo amor de Deus. No curto período de Ministro da Justiça, trouxe um pacote anti-crime que é absurdo do início ao fim. Mas porque é isso? Ele precisava ter alguma coisa para mostrar, né.

Então, tipo, olha como eu sou aqui, depois de acabar com a corrupção no Brasil, vou também acabar com o crime. Se ferrou, né? Igual o Bartho Crouch também, gente, incrível, como sempre se ferra. Sim, boquinha de bisquete, graças a Deus.

Ai, meu Deus. Mas então, nisso eu também acho que a GQ, ela foi perfeita, assim, plena do paralelo entre o mundo bruxo e o mundo trouxa, assim, porque quando a gente pensa, a gente para para pensar, assim, né, gente, a gente está num governo em que ele é paramilitar, praticamente. Quase todos os ministérios têm pessoas do exército, nós temos um capitão como presidente. E aí também a gente tem uma outra questão, que é a questão que, principalmente depois de Cálice de Fogo e Ordem da Fênix, principalmente, traz muito, que é a questão da mídia junto com a política, junto com o sistema criminal.

A gente tem muito essa crítica, né, em Harry Potter, assim, a questão da mídia enquanto aparelhamento mesmo, né, de tipo, vamos falar que está tudo bem, vamos falar que não está acontecendo nada ou vamos mostrar que resolvemos. E quando na real não resolveram nada. Aí a gente vê, por exemplo, o que a gente tem da Atenas, Cidade Alerta, Siqueira Júnior, e esses programas que escorrem sangue pela televisão das pessoas e que são programas que têm muita audiência e que essas pessoas elas se filiam a partidos e elas são eleitas e são eleitas com votações expressivas. A gente para para olhar o nosso quadro político, tem muito militar, tem muito polícia, tem muita essa galera que se elege exatamente nesse discurso.

Em cima do discurso do mito, né? É, e é isso, a gente costuma ouvir que no Brasil não tem lei, quando na real o Brasil tem lei é até demais. Porque, ai, porque no Brasil não tem lei, porque a pessoa comete um crime, ela é presa e uma hora depois ela está solta para cometer outros crimes. E não é assim, enfim, são muitas questões.

Mas a mídia está ali, né? E em Harry Potter é exatamente isso, né? Como que o Bartholkraut subiu? Ele saiu prendendo Deus e o mundo, escolhendo quem que ele prendia, quem que ele não prendia, e escolhendo como que era o julgamento, o que que julgava, o que que não julgava.

E ele se aproveitou de um momento de crise, né? Para fazer isso. Sim, total. Como o nosso queridíssimo presidente, como o nosso queridíssimo juiz Moro também.

Sabe, se aproveitam de um momento de crise na sociedade, no caso no Brasil tem uma crise mediática e moral, vamos dizer assim, na política, para se colocar como salvador e para se colocar como uma pessoa que vai trazer uma nova realidade, que vai resolver os problemas do mundo. E todo mundo quer que os problemas sejam resolvidos. Só que, assim, todo mundo quer que os problemas sejam resolvidos de forma rápida. Então, qual que é a função do mundo bruxo?

Como que se resolve os problemas rápidos? Apaga os problemas. Tira o problema do caminho, que tá tudo bem. Sabe?

E isso é muito pronto. A questão do Barthozinho é muito isso. Tipo, ele tinha um filho e aí ele foi desmascarado, né? Na frente de todos.

Ali com aquela delação premiada do Carcaró. Olha mais um conceito real no mundo bruxo, uma delação premiada ali que ele trocou pela liberdade. E o que que o Bartho fez, né? O Bartho Crouch.

Prendeu o Barthozinho e tipo assim, nunca tive filho na minha vida. Porque se eu não vejo, não existe. Sim, joga pra debaixo da tapete. E é isso, né?

Se as pessoas pudessem, elas fariam isso com absolutamente tudo, né? Tipo, todos os crimes do mundo. Era assim, não, vamos colocar aqui nessa prisão e vamos fingir que elas não existem e não vamos lidar com isso. E prendeu.

Tá tudo bem. O que que a gente vai fazer com essas pessoas depois de prender? Foda-se. Tá preso.

Resolveu. CPF foi cancelado. Nossa, muitas expressões temos para poder… Ai, meu Deus, essas expressões, gente.

É, não, o CPF cancelado é o meu maior ódio de todos. É. Mas é, e aí, por exemplo, quando a Marina fala do Hagrid, é a mesma coisa, assim. Eu vou fazer um paralelo pra fora da sociedade brasileira, mas quando a gente vê, nos Estados Unidos tem muito isso, né?

Nos Estados Unidos, aquele antro de maluco, né? Terra do serial killer. E aí, às vezes, assim, a coisa acontece porque os prefeitos ficam em cima ali. Não, mas eu preciso resolver.

Eu preciso contar pras pessoas que eu resolvi. E aí, tipo, às vezes prende quem não é, enfim, um atrapalha a investigação do outro. Tem algumas histórias… Me lembrou Mindhunter, né?

Que é uma série da Netflix, né? Sobre, tipo, quando foi cunhado o termo serial killer, né? As pesquisas no FBI pra meio que determinar quem são essas pessoas psicopatas, né? E aí, na segunda temporada, tem um caso, basicamente, que a gente acompanha que é meio isso, assim, sabe?

Tipo, assim, é muito ruim pra cidade o que aquilo está acontecendo e eles prendem uma pessoa que o cara não acredita que seja realmente o culpado e fala, não, mas o caso fechou, acabou. O caso foi fechado, não importa, sabe? Sim, e é muito isso, sabe? Tipo, não, a gente quer resolver e pronto.

Fazer meio que, entre aspas, conforto à população, né? Isso, sabe? A população quer dormir tranquila. Essa pessoa é culpada?

Não sei. Foi ela mesmo? Talvez. Mas a população vai dormir tranquila porque ela acha que aquilo ali se resolveu, sabe?

Então, quando a gente tem essas prisões muito midiáticas, essas coisas muito assim, é pra isso. É pra que as pessoas tenham um senso de segurança que é totalmente falso, né? Porque, assim, se prender muito e resolver essa segurança, falando de vida real, o Brasil era o melhor país do mundo, sabe? Todo mundo podia andar na rua a qualquer hora.

Aqui está quase meia-noite e eu posso sair daqui e dar um rolê. Muito tranquilo no meu bairro. E a gente sabe que não é real. A gente sabe que, por exemplo, diminuir a maioridade penal também não resolve.

Resolve em aumentar a superpopulação cassarária. Não vai resolver problema real de segurança. Não vai resolver problema real de criminalidade. Que daí eu vou puxar uma outra coisa de Harry Potter também.

O Dumbledore, com todos os seus defeitos, mas ele era um grande entusiasta da educação e da resocialização das pessoas, né? Era um grande entusiasta das pessoas e do que elas são, assim, sabe? Que todas as pessoas podem se recuperar e tudo mais. E eu acho muito maravilhoso que todas as oportunidades que ele tinha, ele dava um emprego em Hogwarts.

É tipo assim, eu posso fazer isso aqui. Vamos trabalhar com a educação? Vamos ter uma oportunidade aqui? Aí Hagrid, quebraram tua varinha, te colocaram em Azkaban, te acusaram de uma coisa que você não fez e você é meio gigante e não vai se encaixar em lugar nenhum.

Você se encaixa aqui na nossa escola. Você pode ser… E, sabe, de sempre acreditar que as pessoas podiam mais. Porque a gente vê, né?

Tem o Hagrid, tem o Filch, que é o escroto, mas que, né? Também não tinha tanta oportunidade, assim, no mundo, no aborto, então. E aí o Dumbledore não, Dumbledore agrega. E aí a gente vê, né?

A real é que a gente podia resolver muitas das coisas se a gente pensasse menos em criminalização e mais em educação. E a gente não pensa nisso. A gente não pensa em olhar pras pessoas e dar 5 ou 2 chances. A gente não pensa em olhar pras pessoas e oferecer educação no lugar de oferecer punição, sabe?

A gente enquanto sociedade média, tá? A gente, pelo amor de Deus, não a gente, a gente. Não, com certeza. E dito isso tudo, inclusive, eu ia…

Na realidade, acho que a gente já tá respondendo, sabe? Mas faz muito sentido, porque eu ia perguntar até se vocês acreditam que os livros são críticos a essa situação, né? Se os livros apresentam a Ascaba, apresentam o Bartho Crouch e são críticos a isso, ou só expõem a situação e deixam pro leitor fazer o juízo de valor dele e todo o trabalho de crítica sozinho, sabe? Eu pergunto isso, inclusive, porque eu nunca vi nenhum fã falar sobre isso.

E parece que é algo que pouquíssimas pessoas notam, né? A própria Marina falou que acabou nunca notando até alguém falar pra ela. Enfim, eu notei muito mais tarde, imagino eu tô quando vai fazer a faculdade de Direito, mas eu acho que não, né? Fica bem claro que, enfim, que é o contrário.

É porque eu acho que, tipo assim, assim como aquela coisa, né, quando você tá na sala de aula e falam que tantos por cento é o aluno, tantos por cento é o professor, é difícil você fazer o trabalho sozinho se você não quer fazer uma obra extremamente expositiva. Panfletária, né? É, uma coisa que, tipo, didático, tá ligado, assim? Então eu acho que é uma coisa assim, todos os elementos estão ali.

E aí o leitor, ele tem que andar a metade do caminho. Fazer sua parte. É, exato. E aí eu acho que existem algumas questões no meio disso, sabe?

Eu penso até usando eu mesma como exemplo. Eu acho que essa questão do sistema carcerário no Brasil é uma coisa que eu não parei pra pensar até recentemente. Não é uma coisa que é discutida amplamente, né, enfim, no meio aqui dos meus pais de classe média alta e de pessoas brancas, entendeu? O que não é uma justificativa, mas é porque nunca foi uma coisa que chegou até mim.

Eu fui atrás através de amigos, através da G, inclusive, sabe? Eu tenho a sorte de estar rodeada de pessoas que falam sobre muitos assuntos, muito vazios e muito interessantes que me fazem crescer como pessoa e como ser humano e cidadã, sabe? E eu acho que nisso eu acabei tendo a consciência e entendendo algumas coisas, sabe? Então eu acho que é meio isso, acho que as pessoas não falam, não é nem porque falta uma capacidade interpretativa, mas é porque às vezes elas nunca pensaram nesse assunto enquanto vida mesmo.

Nunca pensaram nisso na vida delas, imagina em relação ao livro, mas eu acho que tá tudo ali. Porque as pessoas elas acham absurdo, elas só não correlacionam sobre o que elas estão falando. Elas acham absurdo. Azkaban, os dementadores, o Bartholomew Jr.

Acho que é uma questão que a gente não falou, mas que é que é a justiça e pra quem ela serve, né? Que é, por exemplo, quando o Voldemort toma conta do Ministério da Magia em Relíquias da Morte e aí tem o julgamento dos nascidos trouxas, né? A gente viu a da Maria Quatermoli, que a Umbridge pergunta, mas de quem você roubou essa varinha? A Maria fala, não, mas eu peguei no Olivaras.

Ela, não, mas não pode ser, não é possível, você é trouxa. Como é que você tem uma varinha, sabe? A Umbridge é aquele personagem que faz com que eu jogue todo o meu antipunitivismo no lixo. Porque, olha…

Não dá, né? Não, não dá. Eu contrataria 10 dementadores só pra ela. Assim, é literalmente, jogue o meu antipunitivismo no lixo.

Enfim, gente, apago o episódio. Não, mas é só a Umbridge, gente, tá tudo bem. É só ela mesmo. Mas é isso, tipo, ela é uma pessoa que tem lugar porque tem um ministério que dá lugar pra ela.

E não foi só o Voldemort. Antes, no Ministério do Food, tá ligado? Sim. Ela foi a pessoa enviada ali do Ministério, né?

Pra intervir em Hogwarts e instaurar ali o que o Ministério achava que é certo e tals. E o ponto é, as pessoas leem e acham absurdo. Todo mundo odeia a Umbridge, né? Porque ela é extremamente autoritária e a gente entende que a manipulação que o Ministério tá tentando fazer ali é absurda.

Porque a gente pensa, pô, Ministério, governo, o governo está ali pra zerar por nós, cacacá, né? Só que não, ele tá principalmente aos interesses dos políticos que estão ali, né? São pessoas com interesse de poder. E é isso, eu não tô pensando no povo.

Quer que as pessoas fiquem ali no escuro e eles fiquem de boa ganhando o dinheiro deles. Então as pessoas se indignam, elas só não param pra pensar como isso, tipo, tem a ver com a vida delas, sabe? Uhum. Então acho que tá tudo ali.

É só realmente… Espera, eu acho que esse episódio pra muitas pessoas vai ser esse momento. E aí não é nem de um lugar, tipo, nossa, de arrogância. Gente, o Pedro me mostrou o texto e falou sobre isso e eu fiquei sabendo, entendeu?

Tipo, não foi… Eu também não tive essa realização sozinha. É, eu acho que é muito isso, assim, que tu falasse. Você não tem como se ligar de uma crítica se você não se liga que o problema existe.

E assim, não tô falando de… Também não tô aqui falando de um lugar super iluminado, de tipo, ah, nossa, olha como eu sou inteligente, que eu percebi isso. Não, é que, tipo, não são tantas pessoas que param pra pensar… Eu paro pra pensar sistema carcerário porque eu estudo sistema carcerário.

Senão, eu não tava parando pra, tipo, nossa, isso por que que isso tá acontecendo, sabe? Eu ia achar um absurdo? Óbvio que eu ia achar um absurdo porque daí são os meus valores enquanto pessoa. Mas não ia ter aquele rolê e tudo o mais.

Mas é bem isso, sim, pra mim o que a Marina falou e tem uma outra questão também que eu ia trazer durante o episódio. Eu acho que eu pincelei, mas não falei, assim, exatamente. Mas como a gente vê, assim, que a Marina citou a Ambrot e tudo o mais, mas a gente vê, tipo, os Malfoy e alguns comensais que conseguiram ficar, né, conseguiram escapar de tudo, eles não exatamente se ressocializaram, né? Eles pagaram a sua liberdade, né?

O Lucius, o Crabby, o Goyle, enfim. Essa galera, assim, é um paralelo muito grande com a realidade porque é aquela coisa, né? Se você tem dinheiro pra ter um bom advogado, você escapa de praticamente quase todas as coisas e nem falo só no Brasil porque o J. Simpson tá aí.

Tá toda fiança, né, pra começo de conversa. É, a fiança é uma canela que ok, às vezes, muitas vezes. Mas é isso, né? Se você tem dinheiro, você escapa.

E aí a JK coloca literalmente isso, porque todo mundo sabe que o Lucius continua rumo. Tá estancarado, todo mundo sabe da índole do Lucius e todo mundo sabe que ele pagou o lugar dele no Ministério, que ele pagou as coisas que ele consegue usufruir do Mulo Bruxo antes do Valdemort voltar. Então, assim, todas as coisas que a gente falou, elas não estão escondidas. É isso, né?

Todo mundo sabe que os dementadores são ruins. Todo mundo sabe que Azkabanó é um lugar legal. Basta ligar uma coisa a outra. Não que seja fácil, mas basta ligar uma coisa a outra.

Isso. Então é um pouco assim, sabe? É um trabalho de formiguinha de colaboração, assim, um pouco da JK e um pouco nosso. Ali fazer o barra acontecer.

Sim, com certeza. Ah, e eu ia falar, assim, caso alguém tenha interesse de ler esse texto que eu basicamente dei uma resumida aqui, se você procurar por Pottermore, Potterish e Azkaban, tem o trecho traduzido. A gente traduziu no nosso website do Pottermore. Ou se você procurar, enfim, se procurar em inglês, você acha no site do Wizard World.

Não sei se vocês falam, mas é que eu acho que é muito interessante. Acho que a J.K. Rowling ter lançado esse texto, eu acho que fez muita diferença para mim, sabe? Porque realmente ali está muito claro as questões políticas da sociedade ter apoiado, sabe?

Eu acho que é um texto muito bom, vale muito a pena. Sim, o Bolsonaro está aí mostrando toda semana, né? Que se você tem o presidente do Congresso e o procurador-geral da República, você pode cometer crime todo dia e ficar tudo bem enquanto você está sendo presidente. Grande Augusto Aras, enfim.

Ah, gente, deixa até, assim, espero que daqui alguns anos, quando o pessoal que esteja escutando a gente, sei lá, daqui alguns anos não, daqui um ano e meio, digamos assim, não tenha mais esses problemas que a gente está tendo agora, assim, que o episódio fique datado. Meu maior sonho. Exato. Então é isso, gente, eu espero que vocês tenham gostado do podcast e eu espero que, enfim, que tudo que a gente tenha falado aqui tenha feito sentido para vocês.

Comenta, né, nas redes sociais do Potterish, nas nossas, enfim, dê o feedback para a gente, se vocês já tinham pensado sobre isso ou não, se faz sentido na cabeça de vocês ou não. Enfim, só não quero palhaç… Ó, não preciso nem falar nada, né? Você não estava claro do nosso posicionamento político antes?

É, agora está mais do que claro e aí é isso aí, tá? Gostou, gostou. Como é que é? Quem gostou bate palma, quem não gostou, paciência.

Quem não gostou, paciência, exatamente. É isso, né? A gente não é político, ninguém é… Harry Potter muito menos.

Harry Potter muito menos, exato. Aliás, nosso posicionamento político, eu acho que, enfim, já esteve muito claro quando a gente fez um editorial, basicamente, sobre aquele que não deve ser votado, né? Infelizmente foi, mas a gente tentou. Infelizmente foi, mas a gente tentou, exato.

Enfim, Gi, onde o pessoal pode te encontrar na internet? Faz o jabai. Então, gente, eu estou em todas as redes sociais no arroba gzvcls. Todo episódio do podcast que eu participo, eu imagino que eu tenho que ter um arroba mais sonoro, mas enfim, é isso.

E também eu estou no Pipocaria Podcast, lá no Instagram e em todos os agregadores de podcast. Só procurar arroba pipocaria podcast que você vai estar lá ouvindo falar lorota. Nas minhas redes sociais eu falo muito sobre séries, muito sobre livro, falo muito mal do presidente e bastante de política. Então, é isso, gente.

Só vai quem gosta, para não encher o saco depois. Enfim, e você, Marina? As minhas redes sociais estão todas marinanderi, marina, aindri, no TikTok, Twitter, Facebook, Instagram. E quem sabe um dia no Pipocaria, né, finalmente rola do participar?

Eu estou deixando a pressão aqui, já. Vai acontecer, vai acontecer. É isso. Fica aí o convite.

E as minhas redes sociais, gente, são todas im.pedromartins, no Instagram, no Twitter, no Facebook. E tem, é claro, as redes sociais do Poteiriste, gente, que é arroba.poteiristeoficial no Instagram e arroba.poteiriste no Twitter, no TikTok e no Facebook. Além, é claro, é do nosso site, poteiriste.com, onde você encontra todas as notícias, artigos, reportagens, listas, testes e quizzes sobre o mundo bruxo. Um beijo e até terça que vem.

Beijo. Beijo.

Ouça em