#38: Castelobruxo não representa o Brasil, com Victor Menezes
Passada a animação de descobrirmos ter uma escola de magia brasileira, é preciso fazer algumas reflexões. Infelizmente, Castelobruxo não representa o Brasil – em termos geográficos, arquitetônicos, idiomáticos e por aí vai. Os apresentadores do Semanário dos Bruxos, Pedro Martins e Marina Anderi, recebem o historiador Victor Menezes, que dá aulas sobre Harry Potter na Unicamp, para discutir a representação do Brasil no mundo bruxo, além do que podemos – e do que não queremos! – ver no 3º Animais Fantásticos, que terá cenas ambientadas no Brasil.
Ouça o Episódio
Transcrição do Episódio
A transcrição abaixo foi gerada automaticamente e pode conter pequenos erros.
Ver transcrição completa
Sejam muito bem-vindos à Semanária dos Bruxos, o podcast do Potterit, que vai ao ar toda terça-feira. Eu sou o Pedro Martins, editor-chefe do site. Eu sou a Marina Anderi, gerente de marketing. E, gente, um dos maiores sonhos de todo fã de Harry Potter, vocês vão concordar comigo, sempre foi ver uma escola de magia em seus respectivos países.
Fazia parte do sonho de ser bruxo, enfim. Há alguns anos a gente finalmente recebeu este presente, quando a J.K. Rowling publicou artigos escrevendo algumas escolas ao redor do mundo. Inclusive o Castelo Bruxo, né?
Ou o Castelo Bruxo, enfim. No Brasil. Você lembra disso, Marina? Lembro, lembro.
Inclusive, olha que loucura. Quando saiu esses textos das escolas, eu estava dando uma palestra na campus party. Aí eu lembro! E aí eu estava dando a palestra e aí, de repente, tipo, eu estava com o celular na mão, porque eu estava com as notas, né, pra poder falar, e, de repente, o grupo de tradução explodiu, porque tinha milhões e saiu um milhão de coisas, precisava e tal.
E eu sou, tipo, assim, eu lembro que eu cheguei a falar, gente, inclusive agora saiu, na época era a chave de tradução, né? Inclusive agora saiu várias coisas, eu não vou poder fazer nada, mas, tipo, assim que eu sair, eu vou ter que coordenar, como é que vai fazer? Que loucura. Não, total eu lembro que era meu aniversário, inclusive.
Era, tipo, dia 29, 28, 29 de janeiro era meu aniversário. Exato. Olha só. É um dia com muitos eventos.
Que fatídico dia. Fatídico porque, enfim, eu acho que essa palavra, né, fatídico, carrega um pouco de coisas pejorativas, porque, enfim, como nem tudo são flores, será que Castelo Brucho de fato nos representa? Enquanto brasileiros, Fred Harry Potter. O que a gente espera, né, das cenas do terceiro Animais Fantásticos que se passarão no Brasil?
Isso tudo e muitas outras questões é o que a gente vai discutir neste episódio. E para discutir isso com a gente, a gente convidou novamente o Victor Menezes, ele que é professor de história. Victor, na realidade, ele muitas coisas, né, Victor? Inclusive participante do Semanário dos Bruxos, já participou com a gente, inclusive, de um episódio.
Victor, seja muito bem-vindo novamente. Muito obrigado, Pedro. Muito obrigado, Marina, pelo convite. É um grande prazer estar aqui novamente no Semanário dos Bruxos e colaborar com o Potterish.
Estou muito feliz pelo convite por estar aqui. A gente te agradece por você ter aceito. E para começar essa discussão, gente, antes, né, para quem não lembra, eu vou relembrar alguns pontos sobre a escola, sobre Castelo Bruxo. Essas informações foram todas publicadas pelo antigo Pottermore, né, e hoje elas estão hospedadas no WizardingWorld.com.
Ou se você quiser ler em português, você pode pesquisar no hot site do Potterish com as traduções do Pottermore, joga lá Castelo Bruxo, Potterish e Pottermore. Vocês vão achar a tradução? Vamos lá. Castelo Bruxo recebe estudantes da América do Sul toda e tem uma arquitetura muito parecida com um templo, que é todo dourado, o que eu particularmente, inclusive, atrelo muito às civilizações mesoamericanas.
Depois a gente… Vou te perguntar isso, Victor. Uhum. Enfim, ela fica no meio da floresta amazônica, né, ela é cercada por caiporas.
Vocês lembram, gente, dos caiporas do Castelo Hotimbum? Por exemplo. E tem estudantes, especialistas em magizologia e herbologia, ou seja, nos bichos e nas plantas, né. Antes da gente discutir esses pontos específicos, gente, eu pergunto a vocês.
Vocês se sentem representados por esta escola brasileira de magia? Ah, não. Não sei se deveria também. Considerando que eu sou trouxa e essa é uma sociedade bruxa.
Quer dizer… Tipo, não sei, assim, não. Porque, enfim, a gente vai discutir isso mais a fundo, mas eu acho já o conceito de ter uma escola só. Pro Brasil, estranha.
Ainda mais pro continente, enfim. Porque o Brasil é muito diferente, cara, tipo assim, culturalmente, dos lugares, assim, tipo… Né, enfim, eu sou de São Paulo, eu morei quatro anos em Recife e, tipo, é muito claro como é muito diferente. As visões, a forma de lidar com a vida, sabe?
E aí você culturalmente juntar pessoas em um único espaço. Claro que é legal porque você tem um intercâmbio, né, você aprende outras coisas, mas não me parece que faz sentido, tipo, que outras regiões brasileiras não teriam a iniciativa também de ter uma escola, assim. Imagina o Sul, gente. Como que o Sul não ia ter a própria escola?
Nossa, quanto mais longe do Sul, né, imagina ter que ficar lidando com o sulista, cara. Nada contra, tem até amigos que são. Mas assim, então não, não me sinto representada, mas ao mesmo tempo não sei se deveria, tipo, considerando que a gente sabe como a sociedade bruxa britânica é diferente da sociedade trouxa, tá ligado lá? Então talvez seja um outro rolê, já que é uma sociedade menor, por exemplo.
É, complexo. É, eu vou na mesma linha de raciocínio da Marina, né, quando saíram os contos, a minha primeira reação foi Nossa, que legal. Finalmente a gente vai conhecer um pouco sobre bruxos para além do Reino Unido, vou conhecer bruxos no Brasil. Mas é quando eu li sobre a escola brasileira, eu fiquei assim, hmm, esperava que fosse de outra forma, né, no sentido de que eu li, tá presente naquele conto, por mais que seja um conto pequeno, né, mas vários estereótipos que os gringos têm sobre o Brasil.
Então, quando eu li, assim, eu fiquei pensando, nossa, pra mim, né, uma pessoa que mora aqui, eu morava no interior de São Paulo, né, eu fiz um processo contrário da Marina, vim de São Paulo também, mas agora estou morando no Recife. Então, de fato, eu fiquei, ah, é um Brasil que eu não conheço, né, esse Brasil que ela tá colocando, mas é um Brasil que faz mais parte de um imaginário que a JK, como vários outros criadores de história europeus e americanos têm sobre o Brasil, do que o Brasil em si. Concordo bastante com a Marina, que o Brasil é um país, né, de dimensões continentais. Então, essa escola deve ser uma escola muito grande pra receber todas as alusões só do Brasil, mas da América do Sul como um todo.
E quando a gente pensa América do Sul, né, são vários países, vários grupos étnicos, línguas diferentes, então é bastante curioso, assim, no mínimo, né, como que ela criou. E eu acho que no caso da Cassandra Bruch, algumas pessoas podem ficar felizes e falam, nossa, mas é melhor ela falar do Brasil do que ela não falar nada. E aí eu até me questiono isso, né, exatamente. Será que é melhor falar?
Eu atualmente talvez eu seja muito chato, não sei vocês, Marina e Pedro, mas eu penso que se for pra falar de forma estereotipada, que não vai ser bem legal, não vai ser bem produzido, bem pesquisado, eu prefiro que não fale. Eu preferia talvez que ficasse só Hogwarts e tá tudo certo. Não sei o que vocês acham disso. Eu concordo, porque pra mim é isso, tipo, eu sou uma pessoa, pode ser pessoa corvina, não sei, mas o ponto é que, tipo, eu não falo de algo que eu não entendo.
A gente tem um costume muito grande hoje em dia na internet que você tem que ter opinião sobre tudo. E não, você não precisa ter opinião sobre tudo. Por favor, não tenham, gente. Exatamente, por favor, não tenham, né?
E você não precisa ter opinião sobre tudo, você não precisa saber tudo, é impossível saber tudo. Então, cara, não se mete, não veja pra que você interferir em algo que você não entende. Tudo bem você não entender, mas aí você não fala, né, não sei. O que você acha, Pedro?
Bom, eu acho que a minha opinião sobre Castelo Brucho vai ficar muito claro quando eu for puxando os pontos de discussão desse episódio, né? Então, eu não vou nem falar, porque assim, vai ficar bem claro. Todos os pontos negativos. É, vamos começar, vamos começar por onde, gente?
Pelo nome, né, Castelo Brucho. É um nome meio idiota, né, considerando que Hogwarts é uma palavra completamente inventada, que ao pé da letra significaria, sei lá, verruga de javali. Inclusive, em francês, né, Marina, traduziram pra podlar, sei lá como se pronuncia, mas… Poudlard.
Poudlard, exatamente. E assim como euvermorny, né? Eu lembro, inclusive, que overmorny foi, pra quem é do fandom já há bastante tempo e tudo mais, foi uma palavra que o poteiriste descobriu, né, através do Rafael Bento, que era um colaborador nosso, um amigo nosso. E também foi quem descobriu o poteirmor, né?
É, descobriu o próprio poteirmor, enfim. E ele descobriu overmorny, foi o poteiriste que revelou a existência de overmorny. Enfim, e overmorny, né? A gente pesquisava, mas que merda é essa?
O que significa isso e tudo mais? E a gente, porra, assim como Hogwarts, né, é um termo que, acho que fazia até parte, né, tipo assim, vocês verem falando, né, as pessoas na rua, verem falando, ah, Hogwarts, ninguém vai saber o que que é, sabe? No caso, trouxas escutarem os bruxos falando, sabe? Agora, se você falar, ah, eu estou indo pra overmorny, eu estou indo pra Hogwarts, pessoal, eu estou indo pra castelo bruxo.
Tipo, meu, por que que então a gente ficou com um nome tão óbvio, assim, sabe? É estranho, porque na teoria a J.K. Rowling fala português, né? Ela lê, pelo menos, né, algumas palavras.
É, exato, tipo… Ai, gente, ai, como é ruim o dia de J.K. Rowling, né? Porque eu lembro que quando alguém mandou uma mensagem pra ela perguntando como estava o português dela, ela falou, mais ou menos, to be honest.
E eu achei tão fofo, mas eu não posso mais achar. Enfim, ponto é. Pô, ela morou em Portugal um tempo, né? Ela dava aula de inglês pra, né, pro pessoal lá de Portugal.
Ela foi casada com um português. Tipo, ela leu o poteriche pra poder dar o prêmio pra gente. Então, tipo, na teoria, eu entendo a dificuldade, às vezes, de pensar em algo quando não é um idioma que você domina, né? Mas, porra, ela tem um conhecimento de português na teoria.
E outra, é só você levar em consideração o que você levou em consideração quando você foi criar as outras, né, tipo… Exato, exato. Pega uns elementos de uma coisa que soe bem, mas que não fique óbvio do que está falando, né? Sei lá, achei estranho.
Achei preguiçoso. É isso, na verdade, preguiçoso. É. Também o nome não me agradou em 2016, não me agrada hoje, né?
E eu vejo muito como resultado do que eu vou chamar aqui de uma narrativa colonial. Que a J.K. cria, né? Eu acho interessante a gente pensar quem é ela, o lugar de fala dela, né?
E quando ela coloca essa escola no Brasil e ela dá esse nome Castelo Bruxo, mas ao mesmo tempo no conto, ela fala que foi fundado na mesma época que Hogwarts, ali, por volta do século 9, 10. E aí, assim, lembrar das aulas de história do colégio, né? Quando que os portugueses invadiram o que hoje é o Brasil, né? A partir de 1500, Colombo chega ali na América Central, 1492.
Então quem habitava a América do Sul ali no século 9, século 10? Eram populações que receberam o nome de indígenas, né? De populações indígenas. E o português, que era a língua de Portugal, não era falado no Brasil.
Então é, no mínimo, estranho ela colocar no conto que a escola surgiu na mesma época que Hogwarts, né? Há mais de mil anos. E ela dá um nome em português para essa escola. Então eu concordo com o Pedro, que é um nome bastante tosco, né?
Quando a gente pensa castelo bruxo, né? Nesse sentido, quando a gente leva em consideração outros nomes que a GK já criou para o seu mundo e Colombo coloca isso. Mas eu acho que, além de ser bastante um nome não tanto quanto um banal, é um nome problemático e que demarca, ou demonstra, melhor dizendo, muito dessa visão colonialista que a GK vai ter para alguns cantos do globo. E aqui, com foco no nosso Brasil, tem esse olhar dela, né?
Como uma mulher branca, britânica, para uma sociedade que é totalmente diferente da dela. E parece muito esse olhar do colonizador. Então, ah, eles falam português agora, então vou dar o nome em português. Mas aí não faz sentido.
Não deve nem ter lembrado, né? Tipo que a maior parte da existência deste território a gente não falou português, né? Exatamente. E alguém pode, alguns dos ouvintes nossos, nós posso falar nossa, mas vocês estão querendo achar problema onde não tem, afinal é só uma fantasia e tudo mais.
E aí vale a pena a gente lembrar o cuidado que a GK tem para criar o mundo de Harry Potter. Ela vai criar toda uma história para o mundo mágico também, fazendo paralelos com a história da Inglaterra, com a história da Europa. E ela vai ter muito cuidado com essa história, né? Então, quando ela vai falar sobre bruxas que estão sendo perseguidas, ela faz ali uma relação com o final da Idade Média, início da Idade Moderna.
Então, ela fez uma mínima pesquisa para criar a saga Harry Potter. Mas parece que esse cuidado que ela tem para falar do seu país, ela não teve para falar de outros países. E aí, o ponto não é que ela não poderia, como uma mulher inglesa, falar do Brasil. Não é essa questão.
Ela pode falar do Brasil se ela quiser. Mas ela precisa, no mínimo, fazer uma pesquisa histórica com fontes confiáveis, com autores e historiadores confiáveis para introduzir, então, o Brasil nesse seu mundo. Porque se ela teve todo um cuidado com Hogwarts, com a criação de Hogwarts, por que que não vai ter esse cuidado com o Brasil? Então, parece mesmo um desleixo, parece um descuidado.
Mas eu acho que é muito dessa visão mesmo colonial que a Europa vai ter em relação a outras partes do globo, né? Então, ah, é tudo uma coisa só. Eu posso colocar Castelo Bruxo, eu posso colocar todos os bruxos da América do Sul estudando numa mesma escola e aí desconsidera a língua, né? Acho que é uma coisa para a gente pensar também, qual língua é falada ali.
E para mim, o maior furo é esse, né? Então, ela poderia minimamente… Claro, nós temos vários grupos étnicos que ainda hoje habitam a América do Sul e muito mais na época da colonização, da invasão europeia na América. Ela poderia ter feito uma pesquisa dessas línguas e ter colocado o nome de vindo de uma dessas línguas.
Seria muito mais interessante e seria muito mais verdadeiro entre muitas ações, vamos assim dizer. Já que a escola foi criada ali no ano 1000, e foi num período que ninguém tinha contato com as línguas de origens latinas. É que é muito louco, porque eu acabei de lembrar de um negócio aqui, de que, enfim, né? Europa, primeiro mundo, ainda até a gente pensa essas coisas.
E aí, a partir disso, a gente pensa, pô, existe muito acesso à informação, né? Se você quiser ir atrás. E se você não faz isso, você é preguiçosa. E aí, no caso, eu não estou defendendo a Jagger Olimp, porque ela tinha que ter feito a pesquisa dela.
Mas é que eu estou lembrando de uma amiga minha que também fez história, né? E ela fez um semestre em Portugal. Fez intercâmbio. E aí, a aula que ela tinha lá, que tinha a ver com o Brasil, chamava Navegações Marítimas.
Puta que par… E falava, é isso, dos lugares que Portugal colonizou e não tocava no nome dos indígenas. Em momento nenhum. É tipo assim, Portugal foi lá e conquistou.
Aí fez o tratado de Torresilhas, aí fez isso, fez aquilo. Não falava em nenhum momento do extermínio da população que ali morava. Não mencionava. E aí, ela e uma outra amiga dela brasileira foram questionar isso.
E aí, foi tipo, super o professor ignorando. Tipo, não, nada a ver, não sei o quê. Então, tipo assim, a história é escrita por quem, né? Qual é o olhar de quem escreve?
Do colonizador. Então, assim, obviamente, não é Ziminda, de querendo a culpa, mas, tipo, ela foi pelo lugar comum, né? Ela ouviu falar disso, né? Muito um rolê de, aí, somos os planadores, somos o faro do homem branco, etc, etc.
E não foi além, mas muito, eu lembrei disso agora, muito absurdo, né? É, eu acho interessante isso que o Victor trouxe, que nesse caso, quando eu estava escrevendo essa pauta, inclusive, desse podcast, eu pensei muito em Castelo Bruxo como uma escolha ruim, meio que tipo, ah, não gosto, é muito simples, é muito óbvio, é muito, enfim. Mas existe, como ele disse, uma incongruência, né? Então, por exemplo, se fosse pensar mesmo, não, é, nosso próximo tópico, inclusive, a localização do Castelo Bruxo.
Se a gente fosse pensar, o certo seria ela ter pego, por exemplo, ah, eu vou colocar ali na floresta amazônica, beleza. Em que região, mais ou menos? Porque, assim, gente, os povos indígenas são os povos. A gente, às vezes, pensa em indígena como uma coisa só.
Na realidade, assim, eu acho que hoje, no Brasil, existem por volta de 200, 300 povos indígenas diferentes, mais ou menos. Com línguas diferentes, enfim. Então, assim, ela teria que ter tido um cuidado muito grande, né? Pra ver quem que vivia ali, mais ou menos, assim, estimar naquela época e pra criar um nome que realmente, enfim, fizesse, né?
Mesmo que não fosse tão comercial, assim, e não pegasse tão fácil entre os leitores, entre os fãs, mas teria sido certo, né? Não, com certeza, assim, foi ótimo o exemplo que a Marina trouxe, né? É um comprovativo do que eu tava falando dessa narrativa de cunho colonial, né? Então, como a Marina bem colocou, quem está escrevendo a história?
Então, é claro, não é passar por ano pra DQ, mas a gente pensa que ela não é a única, né? A gente pensa outras autoras, outros criadores. Isso é o senso comum, né, ao se falar de Brasil. Ela foi pelo mesmo caminho, né?
Exatamente, e aí tinha a necessidade dela… Não dela ler autores europeus falando sobre o Brasil, mas historiadores brasileiros. Inclusive, tem ótimos trabalhos de historiadores brasileiros traduzidos já para o inglês, né? Então, também não é simplesmente, ah, vou pesquisar a história do Brasil, é onde você pesquisa.
Não é Google ou Wikipedia, né? Sim, não é, não dá pra ser. E, de fato, a Europa vai ter essa narrativa, né? Então, a DQ compra também.
E, pra além da palavra até em português, tem a questão do conceito de castelo também. Castelo é um conceito europeu, né? Não é um conceito ameríndio também que ela traz. Então, ela poderia, de repente, ter feito como ela fez com o Ilvermorn.
A escola no Brasil foi criada após o século XVI, após a colonização. Mas aí correria o risco também dela cair num erro que ela caiu em Ilvermorn, que é simplesmente apagar os indígenas da construção da história da escola e tudo mais, né? Inclusive, nos contos que ela fez lá na mesma época, pra falar da magia na América do Norte, ela usou muito do chamado mito do indígena desaparecido. Eles aparecem num conto quando ela vai falar da colonização e depois é como se, assim, a Europa fosse invadindo a América pelo leste e os indígenas foram fugindo pro oeste e caíram no Oceano Pacífico e desapareceram.
Caíram na borda da Terra Plana, né? Exatamente. Isso é muito comum. Muito comum não só na história dos Estados Unidos, né?
Mas também quando você vê a história do Brasil, né? Geralmente, na escola, você vê os indígenas num momento de colonização e depois eles desaparecem do livro didático. Então, mesmo aqui no Ensino de História do Brasil, nós temos esse problema. E a DQ fez isso também quando ela tava falando da história da América do Norte.
Inclusive, ela foi criticada por comunidades indígenas lá e tudo mais. Então, é claro, quando ela decide sair da Inglaterra pra contar a história de outros povos, ela tá pisando em ovos, né? E ela tem que ter um cuidado redobrado ao falar de outros povos. Então, quem ela vai ler como fonte pra colocar, né?
Então, de repente, ela poderia ter colocado o castelo bruxo surgindo no século XVI. Mas aí quem criou, né? E aí qual o papel dos indígenas? Qual o papel da população negra escravizada?
Que essa é algo importantíssimo da nossa história. É algo importantíssimo da história dos Estados Unidos. E mesmo quando ela tava falando da magia na América do Norte, ela meio que tentou, assim, né? Ela fingiu que tava falando, mas não falou.
E no caso do Brasil, o tal, o conto é pequeno. Mas acho que vai ser um tópico que a gente vai escutir aqui também, a questão dos animais fantásticos. Mas e aí? Como vai aparecer a população negra brasileira, né?
Do Rio de Janeiro dos anos 30. Não vai aparecer, né? Mas enfim, escuta. Não, é.
A gente viu no Animais Fantásticos 1 que tem cenas ali em bairros de Nova York que eram compostos massamente por população negra e foram só contratados figurantes brancos. Então, há uma grande chance de você aparecer pra ser extratipado e tudo mais. Mas é isso, né? Quando você vai falar sobre uma outra cultura, sobre um outro país, não é que você não pode falar, né?
Não deve ter um limite na ficção que o autor só pode falar daquilo que ele viveu. Não, não é esse o ponto. Mas é que se você vai falar do outro, primeiro que você vai sempre falar do outro a partir de si mesmo. É o princípio da alteridade.
É de que nunca vai conseguir representar o Brasil como um autor brasileiro representaria. Porque ela não é brasileira, ela não conhece a nossa cultura funda, ela não conhece nossas vivências. Então é claro, sempre vai ter esse olhar dela como britânica. Mas cabe a uma pessoa, se ela está preocupada em como ela vai representar o outro, porque novamente, minimamente, fazer uma pesquisa.
E não é só ir no Wikipedia, não é só pegar um autor britânico x falando o Brasil, não. É pensar, né? É ler mesmo, fazer um trabalho de pesquisa. Uma consultoria até, às vezes, né?
Enfim. Exatamente. E eu estou exigindo dela nesse ponto o que ela já fez em Harry Potter, né? Não estou exigindo nada muito diferente.
A gente, como fã de Harry Potter, a gente percebe a qualidade, né? A gente pode criticar J.K. A gente pode apontar vários problemas na pessoa de J.K. Rowling.
Mas não há dúvidas que ela é uma ótima escritora e que ela, para criar Harry Potter, ela teve uma preocupação muito grande de fazer pesquisas e tudo mais. E ela é uma pessoa da academia também, né? No sentido de que, assim, ela estudou, né? É muita coisa ligada a isso tudo que a gente está discutindo de alguma maneira na academia, né?
Especialmente na parte de línguas, né? Ela estudou o curso dela. A gente sempre lembra. É um curso que Foreign Languages, né?
Línguas estrangeiras. Então, assim, meu, sabe? E ela esteve em Portugal, né? Mas aparentemente ela comprou a sua narrativa colonial que a amiga da Marina teve contato e foi.
Exato. Tem isso também, né? Português, mas português em Portugal, que é outro rolê. É, e depois dessa discussão do nome, a gente precisa discutir, é claro, localização do castelo, né?
A localização é até um pouco a questão da arquitetura, né? Que eu até perguntei ali de uma maneira mais indireta para o Victor no início. Me lembrava um pouco, sei lá, talvez das civilizações que viveram aqui na costa onde os índios caíram, né? Na América Central.
É, porque me parece que ela misturou, né? Tipo, ah, vou colocar um castelo, mas um castelo dourado, porque, enfim, está tudo ali junto, meio, né? Então, assim, essa é a primeira coisa que eu fico pensando. E segundo, enfim, né?
Eu nem sei se me incomoda exatamente, porque, de fato, é um lugar muito espaçoso, digamos, né? Muito distante dos trouxas, o que é bom. Mas, ao mesmo tempo, colocar o castelo bruxo na floresta amazônica, não tinha lugar mais manjado, não? É, eu não consigo imaginar, sei lá, a escola de magia do Brasil sendo em Goiás, assim, né?
Não sei, eu acho que das coisas que me incomodam não é muito essa. Me incomoda ser a única, não ser lá. É que entra em uma outra problemática, né? Tipo, assim, porque aí é um lugar afastado, né?
Longe da civilização, enfim, da cidade, essas coisas assim. Mas aí a gente também lida novamente, por exemplo, com os povos indígenas, né? Uhum. Então, tipo assim, são todos que fazem magia, todos estão estudando ali também?
Ou, tipo, não, são trouxas também, que nem outras pessoas, e aí, tipo, em que pega a terra deles, tá ligado? Que eu acho que, enfim, a gente obviamente tem uma questão muito séria e muito triste com o desmatamento e sob exploração desses espaços, né? Mas, tipo, tem muitos povos que movem por ali, então, tipo… Gente, será que o Ricardo Salle desmataria a floresta proibida de caçalo bruxo?
Amigo, não tem ninguém que salve, não, cara. Só as caiporas iriam proteger. Meu Deus. Mas então, eu acho que não me incomoda, necessariamente, ela ter colocado na Amazônia, mas eu acho que, novamente, é um outro estereótipo que ela usa, né?
Então, América do Sul, Brasil, florestas, né? Então, aquela coisa, né? Sempre ligada à mata, sempre ligada à natureza, né? E aí, novamente, não é uma coisa só da JK, né?
Eu nunca esqueço os episódios do Simpsons, quando eles vêm pro Rio de Janeiro, que tem cobra andando na rua, tem macaco roubando as pessoas e coisa do gênero, né? Veio outros filmes também que se passam no Brasil. E até, sei lá, filmes recentes, né? Em Rio.
Gente, Carlos Saldanha, sabe? Macaquinho roubando os turistas, tipo… O cara é brasileiro, né? O cara é brasileiro e é um filme de agora, né?
Ótimo ter falado do Rio, porque é um outro ponto também, né? As pessoas podem achar que… Ah, tá, tem problemas que foi a JK, uma autora inglesa que escreveu, então se fosse uma autora brasileira, necessariamente seria melhor. Não, não necessariamente, né?
Porque as pessoas são complexas, é o que eu falo. Um brasileiro, ele vai ter um olhar específico para o Brasil que um britânico não vai ter. É o que a gente vai chamar de lugar de fala. Há uma grande confusão hoje sobre o que é lugar de fala.
Muitas pessoas usam essa nomenclatura, sem nunca ter lido os textos da Djamila Ribeiro, que é a principal teórica, né? Filósofa do conceito que a gente tem hoje no Brasil. E acha que lugar de fala é… Você só pode falar daquele grupo a qual você pertence.
Então, se você é brasileiro, você só pode falar do Brasil. Se você é uma pessoa negra, você só pode falar do movimento negro. Não é esse o ponto. Não é essa a crítica, né?
A questão é, todo mundo tem lugar de fala e você vai sempre estar restrito ao seu pensamento, às suas visões de mundo, às representações de mundo, àquele lugar de fala. Então, não é proibido. A questão não é a J.K. não pode falar sobre o Brasil porque ela não é brasileira.
A questão é que o lugar de fala dela como mulher britânica, branca, heterossexual vai trazer uma série de visões e vai trazer uma série de interpretações que uma mulher branca heterossexual brasileira não necessariamente teria. Porque elas estão em lugares de falas diferentes. Mas aí, no outro ponto, mesmo sendo um brasileiro, você também pode falar e fazer muita merda. Vê aí o que nós temos atualmente no nosso governo, por exemplo, pessoas negras ocupando espaços de poder no governo e negando que exista racismo no Brasil.
Então, a gente também não pode ser ingênuo e achar que, ah, porque é LGBT, então logo essa pessoa vai ser a pessoa mais fada sensata. Porque a pessoa negra, ela não vai negar o racismo, não vai reproduzir o racismo. Ou por ser um brasileiro, não vai criar representações estereotipadas do Brasil. E aí o caso do filme Hill é um ótimo exemplo, porque você tem um criador de história brasileiro criando um filme em Hollywood e levando para o filme o quê?
Exatamente os estereótipos que se tem do Brasil. Então, mesmo alguém pode se sentir seguro, de repente, se a Warner divulgar que tem algum historiador ou alguém brasileiro ajudando na produção de Animais Fantásticos 3. Mas eu não ficaria tranquilo enquanto eu não ver o filme. Porque não necessariamente, porque colocou um brasileiro ali que ele não vai ter uma visão específica do Brasil estereotipado.
Exato. Então acho que esse é um ponto interessante para a gente discutir. A Rowley, eu lembro que ela escreveu alguma coisa no Pottermore que as escolas de magia sempre estavam localizadas em regiões montanhosas. Então eu fico pensando, poderia de repente a escola estar em Minas Gerais, um estado bastante montanhoso, seria uma opção também.
Então, novamente, não me incomoda estar na Amazônia, mas me acende aquela luzinha de que, ah, está ali não porque talvez a J.K. pensou que seria uma melhor localização, mas é um estereótipo. Floresta, floresta amazônica é o mais óbvio, é o estereótipo. Claro, o estereótipo muitas vezes diz algo sobre a sociedade.
Sim, então o Brasil tem muitas florestas, mas o problema é o Brasil não se resume a floresta. Não tem nenhum problema você mostrar floresta num filme que se passa no Brasil. Mas quando você foca só nisso, aí é um problema, porque o Brasil é um país diverso. A própria Harry Potter.
Harry Potter você tem cenas se passando em Londres, tem cenas se passando nas terras altas da Escócia, que é onde está Hogwarts. Então você tem ali uma visão bastante ampla do que é o Reino Unido pelas histórias de Harry Potter. E aí novamente, no Brasil, o interessante é quer mostrar floresta? Pode mostrar.
Mas se vir mostrar o Rio de Janeiro, ficar só focando em floresta e animal andando pela rua, animal não é o fantástico, porque pode ser que tenham os animais fantásticos do Newt escapando de novo pelas ruas do Rio de Janeiro, mas reproduzir essa ideia do macaco, da cobra andando na rua e tudo mais ou as pessoas vivendo em uma harmonia com a natureza, isso é bastante complicado. Nossa, com certeza. Não, com certeza, Victor. Acho que uma das questões, inclusive, que a gente tem para analisar a respeito de Castelo Bruxo é que ela diz nesse texto que os alunos de Castelo Bruxo são especialistas em Herbologia e Magizologia.
Ela diz que o pessoal vem de fora fazer intercâmbio em Castelo Bruxo para aprender Herbologia ou Magizologia. É uma visão, é isso que você falou, a cobra e o macaco, enfim, andando na rua, de novo, não podia ser menos manjado, sabe? Que é isso, cara? Tudo vai ser resumido, no fim das contas, em vários aspectos que a gente vai discutir, tipo esterótipo, preguiça, sabe?
Tipo assim, eu acho que talvez é o único fator que de fato traz uma justificativa de tipo, ah, o Newt vai estar aqui, tá ligado? Magizologia, etc. É um lugar que parece, então, ser especialista nisso. E pô, que legal que, então, a gente é colocado como especialista em alguma coisa, né?
Tipo, um lugar importante que as pessoas querem fazer intercâmbio, etc. Mas ainda assim, não é tão legal assim, sabe? Tipo… É, se você for pensar, inclusive, dessa questão de animais fantásticos, né?
Se tem Estados Unidos e França, tipo… Não podia ser, sei lá, Magizologia e poções, tá? Entendeu? Coloca outro elemento, outra coisa, entendeu?
Para um pouco para refletir. Acho que é um pouco isso, assim, que me incomoda, que eu fico, tipo, ai… Que fosse com o quadribol, né, gente? Tipo, meio que…
É, não, inclusive eu lembro que em quadribol, através dos séculos, eles falam que, na verdade, o que é popular aqui no Brasil é outro… É outro esporte. Não é quadribol. É um que é, tipo, meio que um…
Batata quente, tá ligado? Tipo, que a bola explode, é um rolê meio assim. Ai, Maria… É isso, tamo aí.
Sim, exatamente, Marina. É… Eu acho curioso, não só no caso de Castelo Bruxo, mas na escola africana também, é o GADU, né? Ela também vai colocar isso que, lá, eles são especialistas em algo, né?
São especialistas em astronomia, alquimia e autotransfiguração. E aí, novamente, eu penso, né? Qual que é a necessidade dessas escolas que estão fora do eixo ocidente? Porque, apesar de muitos brasileiros achar que o Brasil é ocidente, são só os brasileiros que consideram o Brasil como ocidente.
Né, gente? Desculpa informar vocês, mas para norte-americanos e europeus, nós não somos ocidentais, nós somos latinos e ponto final. O brasileiro médio nem se identifica com a América Latina, acho que o Brasil é algo à parte, mas é isso, né, que os ingleses, os europeus, como todos americanos, vê a gente. Então, é interessante, né?
E curioso, no mínimo, como essas escolas que estão fora do que pro Reino Unido é o ocidente, no caso, o Brasil e a África, essa necessidade de colocar especialista em algo. E eu pergunto, Hogwarts é especialista em quê? Em tudo. É especialista em defesa contra as artes das trevas porque fica criando um monte de bruxo fascista, que é dominar o mundo, pode ser isso também.
Mas, piadas… piadas à parte, Hogwarts não tem essa necessidade de falar ah, eles são especialistas em algo. E o Vermorden não tem essa necessidade de colocar especialista em algo. Pobatons é especialista em quê, gente?
Então. E aí, quando você vai para as outras, né, essa necessidade de falar para além do estereótipo, né, fauna e flora, e aí não, tem que ser especialista em alguma coisa. Então, me parece uma narrativa um tanto quanto condescendente, sabe? Meio exótico, né?
É, condescendente, exótico. E aí, caem novamente naquela visão do colonizador. Então, não precisava colocar que é especialista em alguma coisa? Para justificar a existência deles, eles têm que contribuir de alguma maneira, né, sendo especialista, enfim.
É que, por exemplo, eu acho legal o fato, tipo, de que o Gui quase veio para cá, mas ele não tinha grana. Sim. Isso é uma coisa que é mencionada em Harry Potter, né, que ele tem uma amiga que é do Brasil e tals, e aí fala, pô, eles não puderam porque não tinha grana, né, as luzes não tinham. E aí podia, por exemplo, só colocar, tipo, que eles tinham um programa de intercâmbio muito legal, eles tinham essa preocupação de que os alunos pudessem conhecer outros lugares, de que pessoas de outros lugares fossem para lá.
Por exemplo, não precisa colocar que é especialista em nada e por isso que o pessoal vai, tipo, acho que ter um programa de intercâmbio é algo muito interessante, né, uma escola preocupada nisso. Você concordo. E aí a gente volta naquilo que a gente falou no início do episódio, né, que se é para colocar algo, para ser estereótipo, mas talvez é melhor não colocar. Uhum.
Então só coloca uma grande escola e tem, como você falou, Marina, tem a questão do intercâmbio e tudo mais. Mas isso também me incomoda, né, como eu falei, tanto na casa do Brasil quanto na questão do… Que é um outro problema, o Gadu também, né, quando você pensa o continente africano, só uma escola para o continente inteiro, mas enfim. Sendo que se a gente for considerar, sei lá, estudar a magia do ponto de vista, enfim, um pouco mais histórico, né, ela meio que surgiu ali, né, tipo, muitos autores dizem isso, né.
Uhum. E ainda sobre o castelo, gente, outro ponto que talvez caiba a gente discutir é a presença das caiporas, né, nos arredores da escola. A caipora, para quem não se lembra, é uma entidade indígena, né, muitas vezes simbolizada por um pequeno indígena que destrói caçadores, mata caçadores, enfim, vai atrás de caçadores que não cumprem os acordos de caça justa, que eles estabelecem, por assim dizer. Tem também a caipora do castelo Rá-Tim-Bum, que é completamente diferente, mas enfim, vamos considerar, né, o mais tradicional.
Eu não sei se era uma preocupação em 2016 das pessoas, quando o castelo bruxo foi revelada, né, na real, 2015, né, porque se ela publicou no início de janeiro de 2016, escreveu em 2015. Mas a folclorização de religiões tem se tornado uma polêmica ultimamente, né. Pode a J.K. Rowling usar uma figura religiosa para construir as histórias dela?
Porque a caipora, para alguns, ou algum, não sei se algum, ou alguns povos indígenas, é uma figura religiosa, né. Então assim, e aí? Nossa, que aí a gente entra numa coisa que realmente tá sendo muito discutido agora, principalmente, por exemplo, essa série na Cidade Invisível, que as pessoas estão tipo, ai, mas ai, são personagens, são pessoas brancas escrevendo sobre personagens que também, tipo, deveriam ser indígenas, e aí, são em sua maioria brancos, também tem alguns negros, mas não deveria ser, e aí, se passa do Rio de Janeiro, e aí, tipo, quanto você pode ou não pode se apropriar disso? Tipo, é legal, porque a gente finalmente tá trazendo folclore brasileiro em destaque, ou não são as pessoas que deveriam?
Usar isso como, né, tipo, dizer isso é folclore, né. Eu escrevi uma reportagem sobre essa questão toda, especialmente sobre isso, e aí, eu entrevistei um escritor indígena, ele chama Iaguaré Iaman, e ele fala muito, né. Bom, vocês consideram que, sei lá, aí a área é folclore, a gente, quem é indígena, considera que Cristo é folclore, a gente considera, sei lá, que as outras entidades de outras religiões é folclore, é Nossa Senhora é folclore, mas vocês podem considerar que as nossas entidades é folclore. Então, assim, é meio complicado, né, meio difícil discordar, assim, né.
Certíssimo, é isso. É, é certíssimo, né. A questão é o que é mitologia, né. Geralmente, a mitologia é a religião do outro que eu não acredito.
Só que aí, há uma diferença gritante em a gente falar em religiosidade greco-romana, por exemplo, né. Eu prefiro usar o termo religiosidade greco-romana do que mitologia, porque para os grego-romanos antigos, né, eles acreditavam naqueles deuses, faziam parte do sistema de crença deles, mas no caso dessas religiões, elas não existem mais. Você pode até ter alguns segmentos, alguns grupos que retomam alguns deuses greco-romanos, mas como instituição, ou como parte de uma cultura, de um povo, elas deixaram de existir, né, no final ali do que a gente chama de antiguidade tardia, com o cristianismo se espalhando por toda a Europa e tudo mais. Então, quando a GK em Harry Potter pega, por exemplo, os centauros, pega a esfinge que fazia a parte da religiosidade egípcia antiga, é uma coisa, porque ela está pegando os seres de uma religiosidade que já não existe mais, né, que seria uma religião que teria entrado em extinção por nenhum motivo.
É diferente de quando ela se apropria, né, porque quando ela pega esses seres, né, da religiosidade greco-antiga, ela também está se apropriando e ela tem uma característica muito específica dela que nem sempre ela traz pro seu mundo esses seres, com as mesmas esses seres, ou esses deuses, né, não caso mais seres, com as mesmas características que eles tinham nas histórias antigas. Geralmente ela passa ali, ela dá uma maquiada, ela dá uma versão de J.K. Rowling, né, quando a gente pensa o basilisco, por exemplo, o basilisco fazia parte das crenças dos humanos antigos, mas era uma cobra pequena. Na Idade Média, o basilisco era mais gala do que cobra, então a GK, ela criou o seu basilisco próprio, mas é novamente, ela está falando de um sistema de crenças que não existe mais, né, que não é mais compartilhado ou visto como minha religião, né, por algum povo.
Quando ela vai se apropriar, então, desses personagens, das religiosidades indígenas, e aqui teve o caso da caipora no Brasil, mas dos contos que ela fez na América do Norte, teve os skinwalkers também, que gerou muita polêmica, né, a GK foi acusada em 2016 mesmo por comunidades indígenas norte-americanas de apropriação cultural, porque ela estava pegando algo, como vocês bem colocaram, que fazia parte da religiosidade de uma comunidade que está muito bem viva, né, e praticando uma religião, então é diferente, né, não é a mesma coisa dela pegar um centauro e ela vir e pegar os skinwalkers ou skywalkers e a caipora, é porque a caipora, como você falou, Pedro, faz parte de um sistema de crença de uma comunidade específica, e aí o que a GK faz ao pegar esse ser e trazer para a sua história, seria a mesma coisa se ela pegasse, por exemplo, e levasse como um bruxo ou pegasse Jesus. Como que os cristãos vão reagir ou reagiriam se a GK escrevesse um conto dizendo Jesus foi um dos primeiros bruxos? Ninguém ia aceitar. Eu acho bem válido dar um exemplo bem assim forte mesmo, porque senão as pessoas não conseguem entender, entendeu?
E assim, outra coisa também, eu não sei se você concorda, Victor, mas eu acho que além de ser um sistema de crenças que não existe mais, eu acho que a maneira como ele foi, como ele acabou, importa muito também, né? No sentido de que assim, beleza, as crenças indígenas ainda estão aí vivas, vivendo com os seus povos que praticam essas crenças todas. Mas se a gente pegar, mesmo que tivesse sido extinto e que ninguém acreditasse mais, como foi que se deu essa extinção? Foi por uma colonização.
Eles foram meio que obrigados a se cristianizarem. Exato. O greco-romanos não foram obrigados, até um dia eu lembro, talvez, pode ser que eu esteja de errado, a se cristianizarem. Foi uma extinção desse sistema de crenças muito diferente do que aconteceu com os indígenas, né?
Sim, sim. No caso ali da Roma antiga, no início, nos três primeiros séculos, o cristianismo era uma religião inimiga do Império. É porque a religião oficial do Império Romano era politeísta. Então, ela aceitava todos os outros deuses.
Inclusive, ela incorporava deuses das regiões orientais, da Europa, mas também da Ásia. E Jesus poderia fazer parte do panteão como um deus a mais. Mas os cristãos não aceitavam. Os cristãos pregavam, que existia só um único deus.
Inclusive para os romanos antigos, ali dos três primeiros séculos. Os imperadores eram também deuses e aí os cristãos não se ajoelhavam, os imperadores e tudo mais. Então, você tem os três primeiros séculos de conflito entre romanos e cristãos e os romanos perseguindo e matando os cristãos. Mas isso muda de figura quando Constantino, um dos imperadores, se converte ao cristianismo no início do século IV e depois você vai ter um outro imperador que vai tornar o cristianismo uma religião oficial do Império.
E aí você tem um processo violento, de certa forma, porque aí as chamadas crenças pagãs passam a ser perseguidas pelo cristianismo. E isso vai continuar presente durante toda ou depois da Idade Média. Muitas das pessoas que são acusadas de bruxaria, de heresia na Idade Média, de bruxaria na Idade Moderna, porque muitas pessoas acham que foi na Idade Média que as pessoas foram queimadas por bruxaria. E não.
O processo de queimas de mulheres, sobretudo de mulheres, mas também de homens, começa no final da Idade Média e avança na Idade Moderna. Mas na Idade Média você tem muito a questão da heresia. E essa heresia é o quê? Na maior parte.
São essas crenças da antiga idade que se mantêm na população. Então você tem também um processo violento que dura ali diversos séculos. Quando a gente vem para a América, além de ser também um processo violento, ele é um genocídio. Porque você tem as comunidades indígenas que eram heterogêneas.
As pessoas colocam muito como se fosse uma coisa só, mas não. Eram línguas diferentes, religiões diferentes, culturas diferentes. É o colonizador que trata como todo igual. E aí você vai ter um genocídio dessa população e aqueles que sobrevivem, como você bem falou, vão ser obrigados a se cristianizar.
E vão sofrer torturas e tudo mais se não se cristianizar. Então, isso é importante, muito bom que você trouxe, Pedro, da gente pensar que o sistema de crenças religiosas não desaparece de forma natural, porque de um dia para a noite a pessoa acorda e fala ah, não acredito mais. Não, mas você tem sempre esse processo violento. E aí o cristianismo, mesmo ao mesmo tempo que ele estava aqui, que os portugueses estavam cometendo genocídios aqui na América, na América portuguesa, que hoje é o Brasil, eles também estavam fazendo algo semelhante na Península Ibérica, com a expulsão dos judeus, com a expulsão dos muçulmanos, que eram chamados de mouros.
Então, você teve uma série de pessoas que foram obrigadas, pessoas que seguiam o judaísmo, que seguiam o islamismo, que foram obrigadas ali pelos reis de Portugal e Espanha a se converter ao cristianismo. Inclusive, eles eram chamados, aqueles que mesmo que se converteram, eram chamados de cristãos novos e eram vistos como pessoas de sangue impuro. Inclusive, tem vários historiadores que fazem comparação com esse racismo do início da modernidade da Península Ibérica com o racismo que a gente tem em Harry Potter. Então, é um processo muito violento.
Quando você tem uma religião que é monoteista e que domina hoje quase tudo que é chamado de ocidente, isso não aconteceu de forma natural porque as pessoas vão me tornar cristão. Não, teve um processo de violência muito grande. E aí, comunidades indígenas que hoje mantêm as suas crenças, na verdade, isso é um símbolo de resistência. Elas manterem as suas crenças.
A gente sabe como que o Brasil tem inúmeras religiões, mas há um preconceito muito grande em relação às religiões que fogem da matriz judaico-crista. Então, hoje, você não ser cristão no Brasil é uma resistência. E é que não estou falando que a pessoa deve ser X ou Y, longe disso. Não, espero que as pessoas que estão nos ouvindo não entendam isso.
Mas é a gente pensar que cada um deveria ter o direito de professar sua religião e deveria ter um respeito com todas as religiões. Se os cristãos exigem o respeito com o Deus e com Jesus, então eles também, no mínimo, têm que dar o mesmo respeito para as crenças de outras pessoas. Sim. Eu acho que é um debate muito complexo que a J.K.
Rowling certamente nem… Bom, se ela não pensou nem sobre o nome do negócio, quizá sobre a folclorização das coisas. Mas que é muito importante, assim. Hoje em dia isso se tornou, felizmente, né?
Muito importante. É, então eu acho que tem um debate que está aí, tipo, aumentando cada vez mais, o que eu acho muito bom, assim. Uhum. E agora eu acho que o elemento mais estranho, talvez, sobre Castelo Bruxo, o último deles…
Gente, é sério, né? A gente está falando mal de Castelo Bruxo aqui. Eu amei esse episódio. Mas, enfim.
É, ao meu ver, ela receber, né? Bruxos da América do Sul toda, né? E, gente, vamos lá, né? Geografia básica.
Vejam o tamanho do Brasil e o tamanho da Inglaterra. Tamanho do Reino Unido. Tamanho da Europa. É da Europa.
Que tem… Não, mas vamos falar da Europa. Só do Reino Unido, que tem a escola própria, né? E aí vocês vejam o tamanho do Brasil e, sei lá, da França, que tem uma escola própria.
Então quer dizer, então, que no Brasil, ou na América do Sul, nascem menos bruxos? Ou essa escola, enfim, o Castelo Bruxo, ele é 10, 20 vezes maior Sabe? É meio, né? Cara, assim, tem um texto, né, que ela faz, que é sobre escolas de magia pelo mundo, que ela fala que existem 11 escolas de magia estabelecidas que foram aqui sobreviver ao tempo, que são as maiores e tals, que são as tradicionais, e que existem escolas menores e também que muitos bruxos preferem ensinar seus filhos em casa.
Tipo, até num nível de que, tipo, ah, às vezes tem uma comunidade bruxa que é tão pequena, que não faz nem sentido ter escola também e tals. Que eu acho uma explicação interessante, mas não suficiente. Né? Tipo assim, eu acho interessante essa ideia, então, de que acaba que é uma comunidade menor mesmo, uma comunidade bruxa, é separada, então as pessoas tomam decisões diferentes.
Assim como existe universidades, são enormes, universidades menores, públicas e particulares, meio que diferenças em ensino. Eu acho interessante, mas não me parece suficiente. Parece uma desculpa, um pouco surrapada, talvez. É, assim, a única coisa que eu consigo pensar, talvez, é que como existe esse colonialismo europeu, essas escolas, né, que a gente tem na Europa, né, que é Hogwarts, Dumbledore e…
Billbottoms, né? Seria meio que, tipo assim, elas são as estabelecidas e que sobreviveram, porque esse é o povo que dominou o resto, tá ligado? E aí, depois, as outras tiveram que ser estabelecidas também através desse mesmo povo, sabe, assim? Porque eles foram lá e trouxeram a civilização, sabe, bem entre aspas isso, tá?
Mas ainda é um negócio que, tipo, não foi isso que ela falou no texto, né, isso sou eu devagar. É, exatamente. Então, tipo, não me é suficiente. Eu acho interessante essa parte, eu queria que ela tivesse explicado mais pra gente poder entender, mais ou menos, qual é o sistema.
Pra isso justificar, a gente só tem uma escola na América do Sul. Inclusive, me traz a questão. América Central e México, onde que eles estudam? É na casa dele, caralho, aparentemente, porque, assim, não vão pra lugar nenhum, ficaram com Deus, assim, sabe?
Ou eles estão em uma dessas quatro escolas que ela ainda não divulgou, né, porque ela falou que são 11 grandes escolas, ela divulgou 7. Então, assim, falta uma escola no continente asiático, né, tem a escola do Japão, mas ela coloca mesmo que é uma das menores escolas, então, eu imagino que deve ter uma outra escola na Índia ou na China, e faltaria uma na América Central, vamos assim dizer. E Oceania, não? Ou eu tô viajando?
É, precisaria uma na Austrália, né, ou ali na Nova Zelândia, talvez. Uma na Rússia, talvez. Não, precisaria de muitas outras escolas. Mas, é, eu acredito que os russos vão pra Durmstrang, né, pela localização ali, talvez.
Eu acho que, assim, que uma coisa que é bastante problemática é quando ela coloca a América do Sul, porque, tudo bem, você coloca a América Central, né, então, você até tem uma unidade linguística ali, né, América Central, você tem o espanhol e você tem línguas indígenas também, mas o espanhol funciona como a língua oficial de grande parte dos países da América Central. Quando a gente pensa em América do Sul, nós temos cinco línguas oficiais que são heranças da colonização, que é o português e o espanhol, que são as línguas mais faladas, mas a gente tem também o inglês, o francês e o holandês. E fora essas cinco línguas. A gente tem mais de 180 línguas originárias de comunidades indígenas.
Inclusive, vão ter países na América do Sul que vão ter como língua oficial o espanhol e alguma outra língua de origens indígenas, né. E aí, é uma pergunta que fica. Então, qual que é a língua falada em cassado bruxo? É o latim?
Mesmo se a gente pegar só essas seis línguas, assim, mais comuns, dos centros comuns das pessoas, né, porque, assim, gente, inglês não tem nada a ver com português. Português e francês são muito distantes, assim, tipo… Isso que é complicado, não se diga assim, porque eu consigo imaginar formas, eu gosto de pensar. É no Brasil.
Então, a língua oficial que se fala, que se dá lá, lá, é português. Então, as famílias bruxas ensinam português para as outras crianças, porque aí, quando chegam na escola, eles falam. Por exemplo, eu consigo conjecturar isso, mas o ponto é, isso deveria ser explicado. Deveria estar no texto.
O fato dela não explicar significa que ela não pensou nisso. Tá ligado? É o que eu acho. E aí, justamente por isso, eu não consigo conjecturar que todos esses outros países ensinariam português para as crianças, assim.
Eu tô fanficando, entendeu? Que é o que eu faço na minha vida. Porque, tipo, ela não explica, ela não fala disso. Então, tipo, ela não trazer a questão dos idiomas para lá.
Todo mundo ali fala português, gente. É tudo uma coisa só. Na realidade, vocês não veem que o desenho do mapa do Brasil é muito parecido com o da América do Sul, só que mais expandida? É a mesma coisa, entendeu?
É, inclusive, quando eu estava falando para o Pedro, mais cedo, eu falei, tipo assim, ah, não, porque é da América Latina, né? Ele falou, ah, não, é do sul. Eu falei, ah, tá, o que eu sou, porque é isso. Porque eu pensei que, pelo menos, então, vamos pegar a América Central e…
Mego, se a gente já tá na merda, vamos de uma vez, né? Tipo… Bom, pelo menos é uma língua que, enfim, já tem aqui mesmo, né? Já tem em espanhol aqui, então.
É. Nossa, mas é que, gente, imagine muita gente, cara. Eu fiquei pensando, assim, se ela colocaria o latim, porque aí… Mas aí também não faria sentido, porque o latim vem junto com a colonização, né?
Então, sei lá, seria o esperanto, uma língua que vai juntar… Esperanto. … todo mundo.
Porque, de fato, né? É complicado, assim, quando a gente pensa qual que seria a língua. Ah, se a gente diz que uma criança de 11 anos saiba uma língua para ter aula naquela língua, não existe isso, né, gente? Existe e até existe, mas é muito…
É too much, né? É um esforço, né? Não, e também eu acho que, assim, ela não pensou muito, mas é também o resultado dessa ideia de… Ah, a América do Sul é algo homogêneo, né?
Então, por exemplo, ela tem uma preocupação em diferenciar a Europa, tem comunidades diferentes, né? Inglaterra não é igual a França. Inclusive, Inglaterra e França são inimigas, né? Históricas, né?
Há mais de 6, 7 séculos. E aí, sim, você tem ali escolas diferentes, mas a América do Sul é tudo a mesma coisa, mas aquela vai fazer também com o continente africano. É como se fosse uma coisa só. Você tem um continente, né?
Muito maior que a América do Sul, com diferentes grupos étnicos, com dezenas de países, uma escola só. Se a gente está fodido, os fãs do continente africano estão mais… Sim. Então, realmente, volta aquilo que a gente falou no início, essa falta de cuidado, essa falta de pesquisa, né?
Essa falta de preocupação. Então, por exemplo, nenhum brasileiro, eu acho, nenhum outro brasileiro, teria essa ideia, por exemplo, que a todos os alunos da América do Sul vão estar na mesma escola. Até porque os brasileiros não se reconhecem como a América Latina, para começo de conversa. Até se reconhece como a América do Sul, mas como a América Latina, não.
E, diferente de outros países de língua espanhola que vão ter, né? Vão ter uma identidade mais em comum, o Brasil, ele acaba… Ele criou, historicamente, uma identidade à parte também. Então, por exemplo, a gente sabe de muita coisa que está acontecendo nos Estados Unidos, na Europa, no Oriente Médio, e a gente não sabe de quase nada, começando no Senso Comum, do que está acontecendo na Argentina, do que está acontecendo na Bolívia, do que está acontecendo no Suriname.
Acho que muitas pessoas nem sabem que no Suriname uma das línguas oficiais é o holandês e que a gente tem a Guiana Francesa, que é um estado da França, ainda. Se você atravessa a fronteira e vai para a Guiana Francesa, você está dentro da União Europeia. Então, assim, coisas básicas da história da América do Sul, o brasileiro comum não sabe. E isso é algo que escapa também para quem não tem essa vivência, essa experiência do brasileiro.
Então, ela cria também o mito de uma heterogeneidade e também de uma identidade em comum que, por fatores históricos, nunca existiu, aqui quando a gente coloca o Brasil em relação aos outros países da América do Sul ou da América Latina. Parece, na realidade, que existem duas, né? Entre muitas aspas, mas enfim. Parece que tem bastante país que tem uma identidade mais parecida e o Brasil é outra.
Sim, sim. É isso, organização diferente, outro tipo de que foi feito, né? Tipo, realmente, a gente é muito distante, culturalmente, que eu acho uma pena. Porque também, tipo, imagina se você, se a gente fosse mais ligado nisso, os lugares estão aqui perto, dá para viajar do lado.
Aí não, a pessoa quer ir para Disney, tá ligado? Então, tipo, troche. Exato. E eu acho muito interessante essa discussão que o Victor trouxe, né?
Agora pouco, mas mais no início até do podcast, sobre, bom, e se fosse um brasileiro escrevendo sobre uma escola de magia bruxa, né? Sobre o mundo bruxo brasileiro, como é que ficaria? E isso já aconteceu, gente. Talvez vocês não conheçam, talvez vocês conheçam, mas enfim.
A Renata Ventura, né? Ela é uma escritora carioca. Ela está escrevendo uma série, né? Inspirada, uma série de fantasia, de aventura inspirada em Harry Potter, chamada Army Scarlet, que basicamente ela imagina como seria o mundo bruxo brasileiro, né?
É a Renata que já participou aqui do podcast, né? No episódio do Lupin, então vocês talvez já conheçam até a partir daí e tal. Que inclusive, se vocês não escutaram o episódio do Lupin, voltem lá. Enfim, e a primeira coisa que a Renata fez de diferente foi, eu vou criar cinco escolas, uma para cada região.
E essas escolas são muito diferentes. Foi inclusive aquilo que a Marina trouxe também no início do episódio, né? Como que a gente é de um país muito, muito diferente e tudo mais. Tem vários programas de intercâmbio para os alunos poderem ir, um para as escolas dos outros, mas assim, é realmente muito diferente uma escola da outra.
Então a escola do Sudeste, por exemplo, fica dentro do Corcovado, no Rio de Janeiro. Enquanto a escola do Nordeste fica dentro do, dentro, entre aspas, enfim, do Elevador Lacerda, em Salvador. E por aí vai. E aí, enfim, os feitiços dela são em Tupi, em Guarani, em Yorubá, entendeu?
Que mostra que, assim, não seria em português, né? Tipo, faz sentido, foi aquilo que o Victor disse. Se é uma comunidade que existe aqui desde muito antes de tudo, dos portugueses, então por que seria em português os feitiços? Ah, não vai ser nem em latim, né?
Porque o latim não veio daqui, então, tipo… Exatamente. Então ela faz feitiços em três línguas diferentes, entende? Eu acho uma série muito interessante, por enquanto tem três livros, eu li só os dois primeiros.
Gostei muito. Não sei se vocês leram. Mas, enfim, eu acho bastante interessante esse contraponto, assim, sabe? Realmente de como que…
Não sei, assim, me parece ao mesmo tempo esperar demais que a J.K. Rowling faça algo nesse nível, até porque teria que fazer com todos os países, mas ao mesmo tempo, assim, quando eu leio os livros da Renata e vejo um universo, o mundo bruxo brasileiro tão bem construído, gente, assim, a Renata, ela chega a ter no segundo livro, o primeiro capítulo dela é sobre… é numa loja de varinhas, enfim. A riqueza de detalhes que ela traz para a construção de varinhas num mundo bruxo brasileiro dela é infinitamente superior à riqueza de detalhes da J.K.
Rowling, sabe? Então, assim, é um nível de detalhe muito grande e tudo muito brasileiro. Então, assim, imaginem se a gente já sabe muito sobre o universo de varinhas no mundo de Harry Potter, o dela é mais detalhista ainda e é só brasileiro. Então, assim, é broxante depois você ver essa merda desse cara caçando bruxo, sabe?
É, exato. Não exige o mesmo nível da J.K. Rowling, sabe? Tipo, realmente ela não vai ter a noção, ela não é brasileira, ela não sabe como funciona, ela não deve ter noção de como a gente é socialmente diferente entre as regiões e as…
a escadinha de opressão que existe de diversas formas, né? Mas, pra mim, é só uma questão de ter bom senso, de, tipo, assim, se ela fizesse com a tela o bruxo, mas não falasse que atendia a América do Sul, entendeu? Uhum. Tipo, fala que atende só o Brasil, entendeu?
Porque, sei lá, se existem 11 escolas e a gente só conhece 7, e se também existem essas escolas menores, né, que não são tão tradicionais, existe o pessoal que tem aula em casa, então, tá, só não fala, só não coloca Tio Murty, só não fala que é a América do Sul. Só não chuta o pau da barraca, né? Exato, não precisa mencionar, não precisa, eu entendo que exigiria, né, uma pesquisa maior e todo um rolê, se ela quisesse fazer várias aqui, mas… É porque, na verdade, pra mim, o resumo de tudo isso é a rolê da preguiça, mas de que tipo?
Ela lançou esses textos, né, e ela aprofundou muito mais em Vermona por causa do lançamento de Animais Fantásticos. Vermona tem, nossa, toda história de fundação, né, tem as casas, tem um tanto de negócio, e o resto ela só passa, são alguns parágrafos, né, falando de algumas, né? Então, eu acho que ela queria trazer esse conteúdo pra empolgar as pessoas, pra mostrar, assim, assim como existe em Vermona, existe escolas em outros lugares. Então, eu conheço um pouco mais, eu acho que esse intuito foi dela, mas ela não queria também ficar perdendo muito tempo nisso, porque eu não acho que é coisa que ela tem intenção de desenvolver mais.
Só que aí, nisso, ela acabou pecando, tá ligado? Nisso de… Ah, eu não queria me aprofundar tanto. Não, mas ela, que sempre foi tão detalhista, aí, tão profunda e tanto, em tudo.
Exato, ela queria fazer por um propósito específico, que era empolgar as pessoas pra animais fantásticos, e mostrar que não era só… Já que tem Hogwarts, tem Bill Bates, tem James Jung, temos Evermor, então a gente vamos colocar algumas em outros lugares do mundo pra aparecer um negócio verosíssimo, e as pessoas ficarem sabendo, né? Mas aí, ela não quis perder tanto tempo nisso e… cagou, né?
É, eu achei quando ela lançou, em 2016, aqueles diversos contos sobre Imagina América do Norte, que, antes do lançamento de cada filme, ela lançaria contos sobre a comunidade mágica, que seria o foco daquele filme. Então, eu imaginei que em 2018 ou 2017, a gente teria conto sobre a magia na França, que também a gente conhece muito pouco da França, né? Não sei se vocês têm essa percepção, mas o filme 2, ele poderia ter se passado em qualquer canto do mundo. Não faz diferença estar na França.
No filme 1, estar em Nova York faz uma diferença, é bem trabalhado, né? Por que que é Nova York e tudo mais? O filme 2, não. Sim, total.
Então, eu achei que seria interessante, claro, que poderia vir coisas que abriria mais brechas pra gente criticar, poderia. E esse é o papel nosso como fã, também criticar, né? Não é porque a gente é fã que a gente tem que receber tudo e achar que lindo longe disso. Acho que isso ficou claro com esse podcast.
Exatamente. Tem coisas muito boas em Harry Potter e ou no Windsor de World como Tony, tem coisas ruins. E a gente como fã tem que ser um pouco crítico também e falar. Mas eu esperava, assim, eu esperava que agora, e se em tese mesmo, o Brasil for aparecer, Animais Fantásticos 3, e claro que eu tenho receio de como vai aparecer, mas eu esperava que ela fosse lançar contos sobre a magia na América do Sul, ou melhor, a magia no Brasil.
Eu acho que teria problema se ela fizesse isso na narrativa, mas ao mesmo tempo seria uma oportunidade dela dar mais espaço, porque eu concordo o que a Marina falou. Foi muito assim uma pincelada pra dizer, ah, existe uma escola no Brasil. Mas e aí? Como que é a comunidade brasileira?
Então fica faltando isso também. Sim, sim. Eu acho que talvez, Victor, a intenção dela era essa, mas aí como ela sofreu muita crítica por conta dos textos da magia na América do Norte, ela não só parou de fazer isso, como também ela cortou o Evermorny de Animais Fantásticos, o primeiro. Porque assim, a gente sabe, eu não sei o quanto os nossos ouvintes acompanharam a divulgação de Animais Fantásticos, houve um evento pra imprensa americana que vários jornalistas, então assim, não é mentira, porque vários falaram a mesma coisa, que viram cenas que se passavam em Evermorny, que viram alunos de Evermorny com os uniformes de Evermorny.
Enfim, e também teve toda a construção da arquitetura de Evermorny, teve toda aquela questão. Ou seja, filmaram o Evermorny e não usaram. Talvez, eu imagino que tenha sido por conta disso. O que é um problema, né?
Porque assim, você vai pra Paris depois, pra quê, né? Eu lembro que uma das minhas principais dúvidas, inclusive quando eu fui visitar o set de Animais Fantásticos 2, era entender, né? Tava lá todo mundo falando, não, porque em Paris a arquitetura é assim, porque em Paris a caixa da varinha é assim, porque em Paris isso é assim, e eu tava, mas por que que a gente tá em Paris? Sabe?
E aí assim, não consegui descobrir lá na hora, ninguém respondia, e na realidade não existe um motivo. Porque talvez o motivo que nos levou a Paris foi uma coisa que por medo de incorrer em erros e tudo mais, foi cortada do filme. Só que isso a longo prazo, você vai vir pro Brasil pra quê? Paris ainda é ali do lado da Inglaterra, né?
Mas Brasil, gente, pra quê? Tem que ter um motivo muito claro, sabe? Não é tão simples de ir pro Brasil igual a da Inglaterra pra França. Então assim, é isso, né?
Tipo, talvez a intenção mudou depois dessas críticas, e aí ficou um Frankenstein. É, pode ser. Pode ser, faz muito sentido, com certeza. E aí é o que você falou, né?
Vai vir pro Brasil fazer o quê? Eu tenho medo do, do porquê vai vir ao Brasil. Se é que vai vir, né? Porque também eles podem cortar também, né?
Das cenas finais e tudo mais. Porque a imagem que eu tenho às vezes de Animais Fantásticos é que parece que a GK tem pensado a série como uma espécie de filme do James Bond. Que o mesmo filme se passa em vários lugares, mas assim, aí os lugares que fogem do eixo Europa e Estados Unidos sempre aparecem como estereotipados, como exóticos, e só estão lá pra mostrar que o James Bond é o cara que viaja o mundo inteiro. Eu tenho muito medo de Animais Fantásticos virar isso, mas parece, com o segundo filme, que caminha pra algo parecido, né?
Que, como o Pedro falou, por que Paris? Agora a gente sabe que vai ter cenas na Alemanha sobretudo, talvez no Brasil. Tá, então por que Alemanha? Na China também, né?
Parece que vai ter. Sim. Então às vezes, novamente, né? Talvez fosse mais interessante.
Foque só na Europa e trabalhe bem a ambientação na Europa do que você levar pra outros cantos do mundo e aí você usar esses outros cantos do mundo como exemplo de esotismo, como exemplo de algo estereotipado e tudo mais. Eu morro de medo de os personagens ou o Newt de repente vir ao Brasil somente porque ele vai ter contado como a tribo X pra alguma coisa. Dá medo de acontecer isso, mas eu acho que seria possível. Total.
É, não me parece que deixaram de abordar as escolas porque seria, sei lá, muito caro criar as escolas pro cinema, sabe? Tipo, dinheiro tinha, tinha, tô falando tinha porque como se agora não tivesse, mas enfim. Aparentemente tinha, né? Imagina o investimento que estavam dando pra uma nova franquia do mundo de Harry Potter e tudo mais.
Não me parece que foi isso, sabe? E aí assim, eu acho que é uma falha gigantesca, né? É a falha realmente de estrutura de roteiro. O que que o Newt tá fazendo nessa história?
Sendo que ele não é o protagonista. É, a história não é dele, né? A história não é dele. Aí você tem essa questão de que você quer colocar o mundo inteiro porque a ameaça do Grindelwald foi global.
Mas você conseguiu retratar a ameaça do Voldemort que também foi global ali só na Inglaterra, sabe? Exato, porque você já tomou um país já é difícil, né? Então o cara já é um grande cara do mal só de pegar um país. Exato.
Aí você tem aquela cena da confederação, enfim, ali quando eles estão no julgamento no MACUSA. Você tem pessoas assim bruxos de vários países com figurinos muito diferentes, tipo muito interessantes inclusive. Não sei se estereotipados ou não, não entendo de moda esse ponto. Mas enfim.
Então assim, você tem ali inclusive alguém que parece um, sei lá, um indígena brasileiro, né? Digamos assim. Você vê ali todo mundo falando nossa, será que essa pessoa é do Brasil e tudo mais? Então assim, medo, entendeu?
Do que que isso vai virar? Mas parece que na realidade nem ela sabia exatamente o que ela queria fazer e foi fazendo sem pensar e virou-se Frankenstein, assim. Eu tenho medo do que virou. Exato, tipo aproveitando que a gente tá nesse assunto, né?
Eu queria trazer esse tópico, né? De… É isso. Tamo falando de Anjos Mais Fantásticos 3 e tals, as expectativas, mas assim.
Como vocês acham que vão ser as cenas dos Anjos Mais Fantásticos no Brasil? Especificamente, né? A gente sabe que o filme se passará no Rio de Janeiro, ou pelo menos uma parte, né? Mas será que também eles vão visitar Castelo Bruxo, né?
Vão lá pra Amazônia e tals? A jogar pelo primeiro filme não parece, né? Já que a gente não viu Iver Morne nem Bill Báton. Tipo, o Iver Morne foi cortado.
Como a gente falou, Bill Báton nunca viu. Então, tipo, o que vocês esperam de Animais Fantásticos no Brasil? Bom, eu espero que tenham um motivo pra começo de conversa pra eles virem pro Brasil. Antes mesmo de falar sobre estereotipação e tudo mais, gente.
Eu espero que haja um motivo relevante pra história vir pra cá. Senão, enfim, vai ficar ridículo. Como ficou pra mim no segundo filme. E depois, é claro, eu espero que não seja estereotipado, né?
Pelo amor de Deus. Cara, eu só consigo pensar, realmente, tipo, a história, tipo, Newt. Não a história ter a ver com no Grindelwald, com Dumbledore, ou qualquer coisa assim. Tipo, é isso.
Eu acho que o rolê que tá no teatro de Castelo Bruxo, de imagem e zoologia, é um indício. O Newt vai vir pra cá pra fazer algum rolê da profissão dele. Só que aí, tipo, no caso, na teoria, seria em Castelo Bruxo, né? Não seria no Rio.
Mas talvez, com as pessoas são brasileiras, então no Rio, o pessoal tá trabalhando lá, então são pessoas mais velhas, né? Não são estudantes, enfim. Eu sei lá, me parece que ele viria pro rolê dele, porque só se tivesse a ver com o contexto político brasileiro na época, que eu não acho que é o caso. Seria o meu sonho que fosse esse, né?
Que o Jacob Grindelwald, ele tem uma política expansionista e imperialista, né? Ele não se contenta em dominar apenas um país, ele quer mudar o mundo bruxo como todo, de todo o globo. Seria muito interessante se ele estivesse aqui no Brasil, né? Lembrando que os anos 30, a gente tem ascensão de ideologias fascistas no Brasil também, né?
Então daria pra fazer alusões bastante interessantes com o governo Vargas, e a partir de 37 a gente tem a ditadura do Vargas bastante aliada neste início com as ideologias do fascismo mesmo, e até do nazismo. A gente tem movimentos integralistas no Brasil, né? E tudo mais. Então daria pra fazer uma correlação bastante interessante do Grindelwald vindo ao Brasil, porque é o principal e maior país da América do Sul, então o Brasil teria uma relevância pra esse domínio mundial que ele planeja.
Então isso seria o meu paraíso, que aí o filme inteiro se passasse no Brasil e fizesse uma correlação com essa questão política e colocasse o Brasil não só como um coadjuvante na história, como um lugar de florestas, de seres exóticos, que vai ter algo que o Newt precisa, como a Varina falou. Então isso seria o meu mundo ideal, assim, pra mim. Mas eu acho muito difícil que seja isso, até porque já foram divulgadas imagens de Berlim e tudo mais que vai aparecer no filme. Parece que o Jude Locke, gravou cenas com o ator que faz o Quede, assim, numa suposta Berlim.
Então parece que Alemanha vai ser o grande foco. E aí o meu medo é que o Brasil apareça mesmo como esse coadjuvante, que o Newt venha pra cá, ou pra deixar algum animal, ou pra pegar alguma coisa específica, né? E aí, se for isso, vai cair no estereótipo, que aí vai se resumir o Brasil a questões de floresta, a questões de herbologias e de animais. E aí vai ser o Brasil Baiting, né?
Brasil Baiting. É, porque, real, assim, a questão que é principal é que, pra mim, foi divulgado que o filme se passaria no Brasil, a J.K. Rowling, quando ela ainda era muito ativa no Twitter e tudo mais, ela fez essa divulgação de Brasil com um peso muito grande. Sabendo que ela tinha, na época, muito foco aqui, que Harry Potter tem muito foco aqui e tudo mais, de que ela fez essa divulgação, meio que deu a entender que seria, assim, ela não fez isso nem com Paris, sabe?
Tipo, nem com a França. E não fez isso com nenhum outro país. Então, assim, Brasil ela divulgou muito e ficou, tipo, não, né, confirmou e não sei o quê. Então, assim, colocou capa lá no Twitter dela e tudo mais.
Então, parece, deu a entender, acho que pros brasileiros e também mesmo pra comunidade internacional de fãs, de que o Brasil vai ter um papel muito importante nessa história. Talvez não tenha. Eu fico pensando, talvez, né, é interessante lembrar que o filme, o roteiro foi escrito por ela, mas ele passou por revisões do Steve Clovis. Então, eu não duvido também que, talvez, de repente, ela pensasse em dar mais espaço, sim, pro Brasil.
Mas, porque, é claro, a J.K. ela tem um grande nome, ela tem uma grande importância. Eles ouvem o que ela quer colocar na história, mas não dá pra gente esquecer que tem todo um estúdio por trás. Agora tem um segundo roteirista.
Então, às vezes, o filme passou por vários retoques pra deixar o roteiro mais redondo. E o Brasil perca seu protagonismo. Porque é o que você falou, Pedro, me lembra muito mesmo. Toda vez que ela coloca algo como capa do Twitter dela, é porque é algo que vai ser muito importante numa história que ela está escrevendo.
Então, a última vez que ela fez isso, ela colocou ali cartas de baralho e trechos do livro The Fair Queen, alguma coisa assim. Que é um poema do século XVI. E aí, várias pessoas criaram várias teorias de que ela está querendo dizer algo sobre a Queen e tudo mais. E não era, na verdade, ela estava falando do mais novo e polêmico do livro dela, que é o Sangue Revolto.
Que no início de cada capítulo tem um trecho desse livro The Fair Queen. E o mistério ali do livro está relacionado com cartas de baralho, tarô e tudo mais. E isso é essencial pra Sangue Revolto. E ela coloca como capa.
Então, como você falou, quando ela colocou uma foto do Rio nos anos 30 como capa, me parece que, naquele momento, o Brasil, de fato, tinha um protagonismo muito grande. É que eu acho que, naquela época, o Steve Clovis já estava junto com ela. Eu acho que ainda já estava, eu não lembro. Eu não lembro.
Acho que não. É porque, assim, anunciado, ele pode ter sido depois. Mas eu não acho que ele foi contratado, assim, não dá pra saber, né? Não dá.
Me parece, o que eu acho, a minha impressão é de que o Steve Clovis, ele veio depois que ele e os dois não teve uma performance muito boa. Eu não sei exatamente em que momento eles tomaram essa decisão. Porque é isso. Já vi um roteiro pra Animais Fantásticos 3.
Já tinham falado disso. Já sabia que ia passar no Brasil, né? O David Yates vazou pro Pedro. O Eduardo Sete.
Então, tipo assim, já sabia alguma coisa. Eu acho que, realmente, pode ter essa coisa do Brasil ser cortado uma parte, se não completamente, porque, isso, o Dumbledore concorda esse em Berlim. E aí o Newt, no Brasil, já significa que são dois núcleos. E eu acho que Animais Fantásticos 2, um dos problemas é que são vários núcleos que, tipo, que vira uma confusão, né?
Então, tipo, talvez se você deixa a história mais focada, fica mais fácil. Eu realmente não sei que atorações que eles fizeram, como é que eles vão fazer. Mas, de fato, eu acho que é um risco, assim. Porque, como a gente já falou várias vezes, assim, filmar no Brasil eles não iam já, né?
Isso já não ia acontecer. Eles não filmaram nem em Paris, que é ali do lado. Rapidão você tá, né? Então, foi tudo em estúdio, etc.
Que, né, é um ambiente controlado e que você consegue fazer o Rio C dos anos 30, tá ligado? Que aqui você vai chegar ao Rio de hoje, né? Que tinha… Então, não tem pra quê.
Mas, então, não sei, realmente, né? A gente não tem nenhum insider, teve a pandemia, esse ano o Pedro não foi pro set, entendeu? E aí, então, a gente não sabe de nada. Nossa, seria estranho, né?
Porque, a essa altura, a gente já saberia de mu… Bom, eu e a Marina saberia de muita coisa, pelo menos. Exato. A gente não poderia falar aqui.
Mas, provavelmente, a gente já saberia, né? Triste. Exato. Em tese, era pra gente estar esperando o filme 4, né?
Era pro filme 3 já ter saído em novembro do ano passado. É, é verdade. Tem isso. Mas, aí, depois, além das mudanças, veio a pandemia de falta.
Sim. Eu sinto um desânimo, sabe? Assim, no geral. Porque, é isso.
A gente ficou um episódio todo falando de todas essas problemáticas a ver com magia no Brasil, com o Cacelo Bruxo, etc. Então, todos os pontos, a preguiça, o senso comum, a falta de pesquisa. Sabe? Tipo…
Assim, ok, beleza. Um filme é uma coisa que você faz em muito mais tempo, dá muito mais trabalho do que um texto de três parágrafos. Tá. Sabe?
Então, eu… Eu imagino que tem uma pesquisa maior do que isso. Mas, já não é um bom indício, né? Eu só fico meio…
Sei lá. Até porque você não vai mudar o que você escreveu nos três parágrafos, né? Não pode. Supostamente não pode.
E, ao mesmo tempo, dá pra ela, se o filme vai ter cenas mesmo no Brasil, ter um foco no Rio de Janeiro. E, aí, não precisa tocar no que estava ali no conto, né? No filme 1, eles não tocaram no que estava nos contos sobre a magia na América do Norte. E, dá pra fazer algo muito legal.
Na verdade, se quiser, dá pra fazer algo muito bacana, né? A gente pensava… Rio de Janeiro dos anos 30, a capital do Brasil, né? Era então capital.
É uma cidade que estava passando por grandes reformas. A gente viu no filme 1, Nova York, com vários arranha-céu subindo. Naquele momento, nos anos 30 no Brasil, que é quando vai se passar o filme, né? A década.
Você tem as reformas urbanísticas acontecendo. Claro que com muitos problemas, porque você tem a destruição dos casarões, dos cortistas, do centro da cidade. As pessoas de classe baixa sendo expulsas do Rio de Janeiro pra abrir as avenidas, né? Abrir a Avenida Presidente Vargas, que é uma das principais avenidas do Rio hoje.
Então, daria, de repente, pra ela trazer essa questão, né? Já que quando ela escreve Harry Potter, pra ela ter uma preocupação de fazer uma crítica social, de fazer uma crítica às questões de classe no Reino Unido, ela poderia, de repente, colocar esse recorte também aqui no filme. Então, o que está acontecendo, né? As pessoas majoritariamente negras, pobres, estão sendo expulsas dos seus locais de habitação.
Porque você tem uma modernização do Rio… Uma ideia de modernização do Rio de Janeiro numa busca de transformar o Rio de Janeiro numa Paris brasileira. E aí, você tem a ampliação das favelas, né? Entre os anos 20 e os anos 30, você tem um aumento percentual de 14% de moradores de favela anualmente.
Porque essas pessoas estão sendo expulsas do centro da cidade e aí vai surgindo aos morros e as comunidades que nós temos ainda hoje. Foi o auge, assim, dessa política hegemonista, né? Assim, de alguma maneira, né? É, de políticas racistas, né?
Então, um dos temas que ela trata em Harry Potter e Animais Fantásticos é o racismo. Então, se quiser, se tiver força de vontade, pesquisa, daria pra fazer relações muito ricas, muito interessantes com a história do Brasil dos anos 30. Não precisa ir pro período de pré-colonização, nada. Focar nos anos 30, né?
Trabalhar ali com a comunidade negra. Fazer, de repente, uma crítica à violência atual, à violência policial, à violência do Estado com as comunidades. Então, daria. Porque a J.K.
já fez isso em Harry Potter. Ela fez críticas sociais muito bem trabalhadas, muito profundas. E o Brasil dá essa oportunidade para um bom criador de história que esteja preocupado, de fato, em trazer uma crítica ao que está acontecendo atualmente, né? Seja no mundo, seja no país.
Então, daria pra ser algo muito interessante, né? O Brasil entrar no filme não necessariamente é algo ruim. Eu sempre falo isso em aula, né? O quê nunca é um problema.
O problema é o como. Então, o Brasil estar é o quê? Está tudo bem. Agora, como o Brasil vai estar?
É isso que preocupa a gente, né? E aí nós, que temos anos acompanhando o texto da J.K., que a gente já sabe os pontos positivos e pontos negativos. Hoje a gente falou sobre tudo os pontos negativos. A gente fica com medo mesmo, né?
Então, eu já ouvi muitas pessoas falarem, ah, mas quem não quer o Brasil é um bando de gente chata, deveria se orgulhar que é o Brasil. Mas não é esse o ponto, né? Que a gente não quer o Brasil. Não pode ser vira-lata também, né?
Exatamente, né? A questão, vai colocar o Brasil? Então, coloca de uma forma interessante. Se for pra colocar de forma estrutipada, se for pra ser um gajuvante, não precisa.
A gente vai assistir o filme, o filme que está passando só na Alemanha. A gente talvez passe até menos nervoso com isso. Mas já que vai colocar o Brasil, né? E como você falou, Pedro, o Brasil é um dos países que tem um maior número de comunidades de fãs de Harry Potter.
Por mais que hoje a J.K. esteja cancelada, muitas pessoas estejam chateadas com ela, mas a gente percebe que o amor por Harry Potter continua. Assim, quando sair o trailer desse filme, se esse trailer realmente esse filme se passar bastante no Brasil, tiver muito do Brasil nesse trailer, no primeiro trailer, eu tenho certeza que vai bombar um nível absurdo assim aqui no Brasil, sabe? Mesmo que seja pra falar mal.
Então, assim, é bom que esteja certinho, né? Exato. Se você está ouvindo do futuro, conta pra gente. Essa parte final aqui está datada, mas o resto não está.
Todas as críticas… O resto do episódio não é datado, exatamente. Então é isso, gente. A gente vai encerrando a nossa discussão.
Eu espero que vocês tenham gostado. Foi um episódio bastante complexo, né? Com discussões complexas, mas eu acho que bem interessante, assim, e bem… Acho que nunca vi ninguém discutir Castelo Bruxo nesse nível de profundidade, nesse nível de problematização.
E eu espero que a essa altura também você tenha entendido, você que está escutando a gente, que a gente não está problematizando e, tipo, querendo demais, como o Victor explicou no início do episódio, sabe? E a gente está só cobrando o básico. É que o básico às vezes pode parecer too much, ainda mais quando já começou a ser feito muito errado. Mas é básico, tá?
É, exato. Então, assim, é isso. Gente, se vocês quiserem falar mais sobre esse assunto com a gente, vamos lá. As redes sociais de cada um vão começar pela minha, gente.
Que isso, eu sou o host do podcast, e eu que trouxe as críticas puxando as críticas… Mereço, não mereço? Com certeza. Pedro, ele está gostando de dinamizar.
Agora ele está fazendo surpresa. Tem dia que é um que começa, outro ele está… Criativo, né, essa menina? Exatamente.
Então eu vou começar pelas minhas. Ó, é im.pedromartins. Arruba im.pedromartins em todas as redes sociais. Quais são as suas, Victor?
É, eu tenho a minha pessoal, que é underlinevictor.meneses. Mas eu recomendo que sigam, sobretudo a minha profissional, vamos assim dizer, que é a para além de Hogwarts, onde eu divulgo ali textos, lives, analisando o Harry Potter, sempre por uma perspectiva da história, que é a minha área de informação. Eu queria falar, a Vanessa, né, que é com quem você faz o Clube do Livro, né, ela participou aqui há umas semanas, agora eu já não sei, não sei quando o episódio vai sair, mas sai antes do seu. Então ela já participou antes.
Vocês estão com o podcast agora, né? Quando ela veio aqui, ela não falou do podcast. Eu fiquei ué, mas por que ela não falou? Na verdade.
Então você fala aí como é que é esse projeto, até pra gente saber mesmo. Aproveita pra divulgar. Perfeito, né? A Vanny é uma amiga que eu conheci agora na pandemia, por conta da Roko.
A gente participou das lives de 20 anos de Harry Potter no Brasil, aí eu conheci o trabalho dela, que ela faz doutorado atualmente, né, sobre Harry Potter, fiquei encantado com o trabalho dela. Aí foi na maior cara de pau escrever pra ela e falar Vanessa, a gente tem que fazer coisas juntas. No ano passado ela tava com uma série de tarefas e tal, tava tornando mestrado, e a gente combinou, né, e começamos a organizar já o ano passado um clube de leitura sobre Harry Potter, que é o Hogwarts Mil Histórias, e a gente deu início a esse clube em março com as inscrições. Começamos oficialmente ele em abril, agora em julho a gente vai discutir o Prisioneiro de Asco, uma ideia cada mês de discutir um livro, a gente vai discutir os sete livros, e vamos discutirem dos roteiros de Criança amaldiçoada e Animais Fantásticos.
E, em grande parte, graças à divulgação de vocês, que vocês fizeram do clube, a gente teve uma procura muito grande, foram uns 730 inscritos pra 250 vagas, né, que a gente é o limite que cabe na plataforma que a gente está usando, e infelizmente ficaram muitas pessoas de fora. E aí, pra essas pessoas que ficaram de fora não perderem o conteúdo, a gente decidiu criar o podcast em Hogwarts Mil Histórias, em que mensalmente a gente vai divulgar dois episódios, pra cada livro a gente vai fazer dois episódios, então a gente discute um livro em maio, por exemplo, a gente discutiu a Câmara Secreta, os episódios saem em julho. E a ideia é ser um resumo do que a gente está discutindo no clube em si. Então, pra cada dois episódios, a gente convida três participantes do clube, aquelas pessoas que mais se destacaram, e outras palavras, falaram coisas que a gente concorda, porque no clube do livro, ninguém é obrigado a concordar com todo mundo, né, então as pessoas podem dar suas opiniões, podem discordar, dado que eu e a Vanessa como mediadores falamos, mas o nosso podcast a gente quer mais aquela nossa carinha, então a gente convida aqueles três que se destacaram.
Eu amo, mas o podcast é meu, isso daqui não é uma democracia. Exatamente, é bem isso. E aí, então, quem quiser, não tem mais como entrar pro clube de leitura, que tem a lista de espera enorme, mas entrando no Spotify, colocando Hogwarts Mil Histórias, vocês encontram lá o nosso podcast, a cada mês saem dois episódios. Ah, que legal.
A gente está fazendo agora a releitura dos livros aqui nessa nova temporada, mas aí, pô, então quem decidiu reler com a gente ou não, está querendo lembrar todas as discussões que traz, pô, dá pra ouvir aqui e também ouvir no Hogwarts Mil Histórias, então mais conteúdo aí, que legal. Exato, vai ser uma releitura realmente muito complexa e completa pra vocês. É isso, e Marina, quais são as suas redes? Minhas redes são todas marinaanderi, marina, a, n, d, e, r, i, no Twitter, Facebook, Instagram, TikTok, tamo lá.
É isso, e as do Ixi? É arroba poteriche oficial no Instagram e arroba poteriche no Twitter, no TikTok e no Facebook. E tem também o site, né? poteriche.com para as últimas notícias do mundo bruxo, né, quando saiu o trailer de Animais Fantásticos 3, né, artigos, testes, tamo aí.
É isso. Gente, um beijo e até semana que vem. Tchau. Beijo.







