Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald ︎◆ Direto do set

O dia em que visitamos o set de filmagem de Animais Fantásticos

Nem em sonhos eu imaginava que teria a chance de visitar o set de filmagem de um filme do universo de Harry Potter. Ao menos até outubro de 2017, quando viajei a Londres, cidade dos sonhos de todo Potterhead, para conhecer os estúdios Leavesden e, de quebra, entrevistar o elenco e os produtores de Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald. A seguir, conto (quase) tudo o que vi por lá!

ATENÇÃO: O relato traz algumas revelações sobre os personagens e o enredo do filme.

É 3 de outubro de 2017. Às 9h, me reúno com um grupo de jornalistas no saguão do hotel e assinamos um termo de confidencialidade. A partir de agora, nada do que veremos poderá ser revelado até que a Warner Bros. permita. A simpática assessora que nos acompanha não recolhe celulares, mas é terminantemente proibido fotografar ou filmar. As entrevistas que faremos serão gravadas por um técnico de som para serem encaminhadas somente quando o filme estiver prestes a estrear.

Após uma hora de viagem, chegamos aos estúdios Leavesden, onde também foram gravados os oito filmes de Harry Potter. Nossa primeira parada é no Departamento de Arte. Lá, estão maquetes de sets como o Ministério da Magia francês e, cobrindo as paredes da sala, há quadros com artes conceituais de cenas do filme. Em muitos deles, avisto cenas entre Newt e Dumbledore caminhando por Londres.


Dumbledore conversa com Newt no telhado da Catedral de São Paulo, em Londres (Foto: Warner Bros. Pictures/Divulgação)

Eu bem que tento, mas agora não dá para criar teorias. Ao mesmo tempo em que observo os quadros e as maquetes em busca de spoilers, preciso escutar explicações sobre os conceitos por trás de cada design e anotar o máximo de informações possível. Parece que estou de volta à sala de aula e o professor está revelando as perguntas da prova do dia seguinte. Mas aqui a matéria é muito mais interessante, e nem mesmo a Pena de Repetição Rápida de Rita Skeeter daria conta dos detalhes.

Depois de surtar (em silêncio) com algumas revelações, seguimos para uma tenda em meio a trailers, galpões e sets a céu aberto. É aqui que entrevistamos Eddie Redmayne (Newt Scamander), o produtor David Heyman e a figurinista Colleen Atwood, que, mesmo sabendo que havíamos assinado um termo de confidencialidade, se esforçam para não revelar muito sobre a trama.


Da esquerda para direita: Colleen Atwood, David Heyman e Eddie Redmayne

A figurinista, que trouxe o primeiro Oscar ao universo cinematográfico de Harry Potter, é quem fala mais abertamente. Ela explica como criou os trajes de Dumbledore e Grindelwald e como modificou as vestes dos alunos de Hogwarts e de personagens como Credence, Newt, Tina e Queenie. O produtor, por sua vez, diz apenas que estão tentando fazer um filme melhor do que o primeiro. Ao finalizar a primeira série de entrevistas, Eddie avisa: “Se você é fã de Harry Potter, ao final deste filme seu queixo estará no chão.”

Após as primeiras conversas, fazemos uma pausa de meia-hora para almoçar. O cardápio? Não vem ao caso. Eu estava mais interessado em digerir tudo que havia descoberto. Além de mim e das repórteres dos fã-sites MuggleNet e The Leaky Cauldron, quase todos os jornalistas são fãs, então logo começamos a discutir e criar teorias.

Depois do almoço, é hora de conhecer os sets. O primeiro que visitamos é uma rua de Paris extensa e com muitas lojas, cuja entrada se dá por uma estátua mágica. Parece uma versão francesa do Beco Diagonal. De caixas de varinha em formato triangular a uma versão diferente do vira-tempo, o mundo bruxo francês é encantadoramente elegante. Mais bonito do que o britânico e o norte-americano, eu diria. Os prédios e as placas são delicados e assimétricos, seguindo o art nouveau. No entanto, por mais que isso encha os olhos, o que mais chama atenção é que, no fim desta rua, há uma jaula onde cabem várias pessoas. Ao lado, está o Circo Arcanus, um show de aberrações mágicas. Por motivos não explicados, não podemos adentrá-lo, mas os cartazes espalhados pela rua revelam algumas de suas atrações, que incluem uma Maledictus – uma mulher que se transforma em cobra – chamada Nagini. É com este circo que Credence parte de Nova York para Paris.

Em meio às travessas desta rua, temos a oportunidade de tirar fotos

Em seguida, saímos de Paris e voltamos à tenda de entrevistas. Separadamente, quem aparece é Callum Turner (Teseu Scamander) e Ezra Miller (Credence), que está caracterizado como seu personagem. Ele usa uma boina e roupas surradas de cor marrom, dando a entender que, apesar de ter se livrado dos maus tratos dos Segundos Salemianos, ainda está passando por dificuldades. Ezra se sente tão à vontade que precisa tomar cuidado para não revelar os segredos da história. “Eles escondem tudo de mim!”, brinca o ator, que é superfã de Harry Potter. Callum, em contrapartida, estranha a atenção que lhe é dada, mas mantém a animação. “Vocês estão anotando tudo que eu falo!”, brinca, olhando principalmente para mim, que estou à sua frente.


Da esquerda para direita: Callum Turner e Ezra Miller

Johnny Depp (Grindelwald) e Jude Law (Dumbledore) não estão nos estúdios. Para os atores presentes, contudo, a prioridade não é dar entrevistas, mas terminar de gravar suas cenas. Por isso, Katherine Waterston (Tina), Alison Sudol (Queenie) e Dan Fogler (Jacob) não aparecem para conversar conosco.

Terminadas as entrevistas com os atores, chega um dos momentos mais emocionantes: aquele em que assistimos, ao vivo e a cores, a uma cena sendo filmada. Por se tratar de um set pequeno, precisamos acompanhar a gravação em uma tenda ao lado, através de uma televisão LCD sem som.

“Luz, câmera, AÇÃO!”

Mentira, ninguém diz isso. Só ouço “AÇÃO!”

Assistimos à gravação de pelo menos cinco versões diferentes da mesma cena. Atrás da câmera, há dezenas de pessoas, incluindo o diretor e seus assistentes, o diretor de fotografia, os operadores de câmera e de luz, os decoradores do set e os maquiadores. No intervalo entre uma tomada e outra, todos fazem seus respectivos retoques. Infelizmente, não posso revelar o que estou vendo.


O Circo Arcanus, em Paris (Foto: Warner Bros. Pictures/Divulgação)

Assim que a cena termina de ser filmada, somos apresentados ao diretor David Yates, que também dirigiu o primeiro Animais Fantásticos e os quatro últimos Harry Potter. Apesar de curta, a entrevista traz muitas informações. Yates explica quais são as principais mensagens do filme e argumenta que, apesar de Hogwarts e das muitas referências a elementos de Harry Potter, J. K. Rowling não está promovendo fan service. Ufa!


Da esquerda para direita: David Heyman, J. K. Rowling e David Yates no set de Animais Fantásticos e Onde Habitam (Foto: Warner Bros. Pictures/Divulgação)

Após conversar com Yates, entramos em uma van que nos leva ao set do Ministério da Magia francês – ou melhor, ao Ministère des Affaires Magiques. Leavesden é tão grande que demoramos quase dez minutos para chegar. Quando entramos no imenso galpão que abriga o set, encontramos um ambiente circular, de dois andares, não muito grande – mas sei que, no filme, os efeitos de computação gráfica o farão parecer enorme. Há muitos mínimos detalhes, mas temos menos de dez minutos para descobri-los. No térreo, há um armário misterioso, com gavetas enumeradas. Pergunto do que se trata, mas ninguém sabe me responder – ou preferem não revelar nada. No segundo andar, cujo chão é abobadado (e escorregadio!), há alguns escritórios. O prédio é todo coberto por vidros, pequenos e retangulares.


O Ministère des Affaires Magiques, em Paris (Foto: Warner Bros. Pictures/Divulgação)

Ainda maravilhado com a exuberância do Ministério francês, resta mais um round de surpresas. Estamos no departamento que produz os objetos de cena do filme. No momento, há cerca de 40 artistas trabalhando. Quem nos recebe é Pierre Bohanna, que trabalhou em todos os filmes do Mundo Bruxo e criou peças como o Pomo de Ouro. Ele explica os segredos por trás de cada objeto – das sete versões diferentes da Pedra Filosofal, usadas nas gravações de Os Crimes de Grindelwald, às varinhas dos personagens. “Você nunca tem certeza do que vai ser visto nas telas, e tampouco sabe de qual distância e ângulo será mostrado para a câmera. Então, o nosso trabalho é dar ao diretor a oportunidade de fazer o que quiser com esses objetos”, conta Pierre.


Foto: Warner Bros. Pictures/Reprodução

Ao anoitecer, para fora dos portões de Leavesden as únicas coisas que posso levar são memórias inesquecíveis e anotações feitas às pressas. Por mais que eu quisesse, garanto que não utilizei Pena de Repetição Rápida em momento algum. Contudo, ao longo das gravações e da edição do filme, é comum que alguns elementos sejam modificados ou até mesmo cortados pelo diretor. Portanto, nem mesmo a Professora Trelawney seria capaz de assegurar que todos esses detalhes que observei chegarão às telas do cinema. Precisarei esperar até 15 de novembro para descobrir.

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Pedro Martins é estudante de jornalismo e editor-chefe do Potterish. Ele viajou à Inglaterra a convite da Warner Bros. Pictures

Revisão: Kaio Rodrigues e Renato Ritto

Atualizado em 11/11/2018