Harry Potter e O Fantasma da Ópera

//Por Pedro Martins - sábado, 19 de agosto de 2017 às 17:48

É verdade que J.K. Rowling se inspirou em várias das muitas obras que leu para escrever Harry Potter e, entre os fãs, não faltam aqueles que procuram semelhanças entre a nossa saga e outras histórias.

Na coluna de hoje, Amanda Bomfim traz uma análise sobre O Fantasma da Ópera, obra aclamada em todo o mundo. Vale avisar: a coluna contém um ou outro spoiler da história.

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Por Amanda Bonfim

Em seus recém-completados 20 anos de existência, O Mundo Bruxo de J.K. Rowling já se tornou algo tão intrínseco em nossas vidas, que a maioria dos leitores nem ao menos se recorda de como era uma existência em que não entendíamos referências como “É LeviÔsa, não LeviosÁ”; ou quando nosso ideal de escola não era um certo castelo em que se aprende magia. Você se recorda do tempo em que a palavra “Always” tinha um significado banal?

Pois bem. Como a Potterhead que sou, o Mundo Bruxo está tão internalizado em mim que procuro semelhanças e referências da minha saga predileta em todo e qualquer lugar. Recentemente, li um romance que, de maneira inesperada, me despertou um grato sentimento de familiaridade, além de me proporcionar momentos divertidos procurando (e encontrando) as sempre tão procuradas semelhanças com Harry Potter.

Apesar de ser um romance gótico escrito no século XX por um francês, a obra em questão possui muitos elementos em comum com a série britânica de Rowling: a mistura da fantasia com a realidade, mistério, alçapões, passagens secretas, além de um polêmico anti-herói à la Severo Snape com um toque de Lorde Voldemort.

A Hogwarts, aqui, é substituída pela Ópera de Paris. Trata-se do clássico O Fantasma da Ópera, de Gaston Leroux, história muitíssimo conhecida, principalmente por suas adaptações para o cinema e teatro. No que diz respeito às semelhanças entre as duas histórias, vou me explicar melhor e alguns leitores podem concordar ou não comigo. Acredito, no entanto, que há razoabilidade suficiente em minhas reflexões para nos propiciar alguns momentos de diversão e, por isso, resolvi compartilhá-las.

Se você ainda não leu O Fantasma da Ópera, aviso que neste texto haverá algumas informações do meio e do final do romance. Sendo um livro que envolve grandes mistérios, há certa vantagem em lê-lo às cegas. Entretanto, se o leitor procura por incentivos para decidir ler a obra de Leroux, meu objetivo é fornecer o suficiente para aguçar sua curiosidade.

Assim como Hogwarts é o palco da maioria das aventuras de Harry, também o livro de Leroux se passa quase que exclusivamente em um único edifício: a Ópera de Paris. Esta construção, assim como uma catedral em certo romance de Victor Hugo, pode ser considerada, de certa maneira, a grande protagonista da obra.

A Ópera está assombrada. A figura do Fantasma, no início do livro, inspira sentimentos conflitantes que muito se assemelham àqueles causados pela “lenda” da Câmara Secreta: descrença, medo, ceticismo e desconfiança. Os estudantes de Hogwarts, após a mensagem deixada na parede e Madame Nora ser encontrada petrificada, começam a se indagar: “a Câmara foi mesmo aberta?”, “O monstro é real?”, “Quem, dentre nós, é o herdeiro de Sonserina?” A existência misteriosa do fantasma também faz nascer dúvidas sobre quem poderia estar tramando tudo aquilo, o que acaba por colocar os funcionários da Ópera uns contra os outros.

Posteriormente, o leitor descobre ser o fantasma um homem, de carne e osso, ainda que, em sua mortalidade terrena, Érik seja tão extraordinário que beira o sobrenatural. Ele se faz ouvir como uma voz sem corpo que dá aulas de canto à bela Christiane Daaé, fazendo com que o talento da artista floresça mais uma vez. Mas como, então, a voz de Érik parece vir de dentro do camarim da cantora, quando não se tem qualquer notícia de sua presença ali?

O “fantasma” é um ventríloquo de grande habilidade, e sua voz sai de “dentro” das paredes da Ópera, onde ele, na verdade, encontra-se em um aposento secreto. Assim como o basilisco em A Câmara Secreta, ele percorre secretamente todo o castelo pelos canos das paredes, fazendo com que Harry ouça sua “voz sem corpo” e não tenha qualquer ideia sobre a origem do som. “Através” das paredes da construção, e dos alçapões (Érik é chamado também de “O amador de alçapões”, o que me fez pensar em Fofo e na Pedra Filosofal), o “fantasma” faz seu caminho por todo o edifício, sem ser visto, tendo acesso irrestrito, por meio de passagens secretas, à toda a Ópera de Paris.

Érik reside nos subsolos da Ópera, em um lugar de acesso desconhecido, cuja localização demanda um conhecimento minucioso da construção. Em determinado momento, Christine é levada para essa “câmara secreta”, e os supersticiosos acreditam ter sido a cantora sequestrada pela figura aterrorizante e sobrenatural do fantasma. Assim como acontece com Gina Weasley ao ser arrastada pelo “monstro” para seus aposentos secretos. Há momentos no livro, inclusive, em que Christine refere-se à Érik como “Monstro” e “a Voz”.

Da mesma maneira que Harry e Rony descobrem a passagem para a Câmara e partem em busca de Gina, o Visconde de Chany e o Persa adentram os subterrâneos da Ópera à procura do esconderijo de Érik, com o plano de salvar Christine da prisão na qual ela foi condenada a “permanecer para sempre”. Recordam-se das palavras “o esqueleto dela jazerá na Câmara para sempre”?

Façamos agora uma breve alusão a Enigma do Príncipe. O esconderijo de Érik é denominado no livro de “A morada do Lago”, localizado no lago subterrâneo da Ópera de Paris. A descrição do local reviveu também minha imagem mental do lago que Harry e Dumbledore atravessam para chegar até a falsa horcrux. Um barquinho está ali sempre presente para que o “fantasma” atravesse o lago até sua casa. Porém, em caso de visitantes indesejados, as escuras águas escondem um truque disfarçado de criatura fantástica que, assim como os Inferi, tentará levar os intrusos para as profundezas do lago.

Érik é um personagem controverso e responsável por grandes crueldades ao longo da história. Ele possui um talento inacreditável como ventríloquo e cantor, além de outras aptidões quase sobrenaturais. Érik e Voldemort, alimentados pelo ódio, dedicaram suas vidas às suas habilidades. Ambos queriam se tornar o melhor no que faziam. Aprimoraram uma genialidade natural para que ela alcançasse a excelência. Vejo grandes semelhanças entre os dois (além de não poder ignorar que ambos não possuem nariz). Voldemort era um monstro porque nunca havia sido amado. Da mesma forma, o próprio Érik atribui a culpa de sua vilania ao fato de jamais ter recebido amor.

Gosto de pensar que J.K. Rowling é uma grande fã do romance de Gaston Leroux e se inspirou nele ao criar alguns dos elementos de Harry Potter. Reconheço, porém, que tudo pode ser apenas uma grande e interessante coincidência. De todo jeito, recomendo aos Potterheads que leiam O Fantasma da Ópera e se divirtam procurando semelhanças entre os dois universos. Harry Potter nos ensinou grandes lições. Érik nos despertará sentimentos controversos e importantes reflexões sobre a natureza humana e o amor.

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Categorias: Amanda Bomfim, Colunas, Livros 1-6
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