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Quando Hogwarts não é tão mágica

Uma história de amadurecimento, de amizade, de família… além disso, Harry Potter também mostra muitos dos dilemas que enfrentamos na vida escolar e na difícil convivência entre colegas. Afinal, quem nunca se sentiu deslocado em algum momento da vida?

[meio-2] Nossa colunista Mariana Nascimento fala sobre o tema do bullying, que afeta Harry, Rony, Hermione, Neville e principalmente Snape. O professor de Poções é o perfeito exemplo de como os efeitos do abuso quando criança causam um trauma muitas vezes irreversível. Leia a nova coluna e conte sua história. Você já sofreu bullying?

Mariana Nascimento

O maior vilão de “Harry Potter” é, como todos sabemos, Voldemort. Ele representa o grande mal, tão grande que podemos pensar que não existe, embora a essa altura muito já se tenha dito sobre as semelhanças dele com Hitler e outros ditadores. Mas existe outro tipo de maldade na série que nos é bem mais familiar, e que talvez seja responsável pela identificação de muitas pessoas com certos personagens. Trata-se do bullying, um tipo de discriminação que é associado sobretudo ao ambiente escolar e que tende a ser visto por muitos como brincadeira ou algo inocente, mas cuja carga de crueldade geralmente tem graves consequências psicológicas e sociais.

Ora, a história de “Harry Potter” se passa em uma escola de magia, que, antes de ser de magia, é uma escola. No nosso mundo trouxa, é muito provável que a maioria dos que frequentem ou já frequentaram uma escola tenha presenciado um caso de bullying, seja como vítima, seja como agressor ou como simples espectador. No mundo da magia, a situação não é diferente. Pior: em Hogwarts, os alunos ficam um grande período longe dos seus pais, e a escola não é um lugar onde apenas se veem aulas, e sim o lugar onde se mora.

Os alunos da Sonserina são os grandes representantes da turma do bullying, mas não são os únicos que o praticam. Até mesmo nossos heróis Harry e Rony reproduzem o tipo de pensamento e comportamento que, levado ao extremo, resulta na perseguição e humilhação dos colegas. Em “A Ordem da Fênix”, com a preocupação de passar uma imagem bacana para Cho Chang, Harry se envergonha ao ser visto na companhia de Neville e Luna. É claro que sabemos que o quinto ano de Harry em Hogwarts foi marcado pela sombria influência psicológica de Voldemort, mas não podemos isentá-lo de todos os sentimentos ruins. Ele até usa o apelido “Di Lua” para que Cho o ache engraçado. Embora Harry não chegue a causar danos morais a ninguém, são pensamentos e pequenas atitudes como essas que alimentam a mentalidade por trás do bullying.

Já Rony, apesar de não compartilhar a mente com Voldemort, superou Harry ao tratar Luna com grosseria. A menina, porém, provavelmente estava mais do que acostumada com a discriminação, como vemos no final de “A Ordem da Fênix”, quando ela procura calmamente seus sapatos escondidos por outros alunos. É uma das passagens mais emocionantes do livro, em que, depois de tanta tragédia, Harry percebe, graças a Luna, que é possível encontrar força dentro de si mesmo para enfrentar os obstáculos da vida. No caso de Luna, essa força significa uma boa dose de evasão da realidade, a mesma evasão que lhe dá o ar lunático causador da perseguição que ela sofre dos colegas.

Além de Luna, Neville e os próprios Harry e Rony sofrem bullyng. O primeiro é uma das vítimas preferidas de Snape, que adora acabar com a já escassa falta de autoconfiança do menino. Harry também é humilhado pelo professor, mas ainda tem que aguentar a rejeição de grande parte da escola ao ser escolhido para o Torneio Tribruxo, por exemplo. São momentos tão opressores que ele até pensa em fugir de Hogwarts, só que voltar para a casa dos Dursley é uma tortura pior. Já Rony, além de ter que suportar as ofensas que Draco dirige à sua família, é humilhado com o irônico refrão “Weasley é nosso rei”, que pelo menos é mais sutil do que os broches “Potter fede”.

Mas o caso mais polêmico de bullying é o constrangimento que Sirius e Tiago, o garoto bonito e o do time da escola (já viu essa história em algum lugar?), impõem a Snape. É surpreendente descobrir que os heróis de Harry um dia foram vilões. E é interessante como muitos leitores parecem perdoar Snape por toda sua perseguição a Harry (apesar de o primeiro ser adulto e professor), mas não perdoam Tiago e Sirius por humilhar Snape. Para esses leitores, parece não importar que o problema de Tiago e Sirius com Snape fosse uma questão entre os três, enquanto o de Snape com Harry não tinha nada a ver com o garoto. Nada, porém, justifica as atitudes humilhantes de qualquer um deles.

No meio de tanta maldade infantiloide, é impossível não perguntar onde estão os verdadeiros adultos, aqueles capazes de colocar ordem no lugar e ensinar as pessoas a se respeitarem. Muitos adultos ocupam-se apenas dos próprios problemas, cuja origem provavelmente é a mesma do bullying: a falta de respeito do ser humano por seus iguais e pelo mundo em que vive, seja esse mundo mágico ou trouxa. Mas se realmente quiserem exercer o papel de adultos, precisarão prestar mais atenção às suas crianças, inclusive àquela criança maldosa que mora dentro deles mesmos.

Sugestões de leitura sobre o tema em “Harry Potter”:

– Página em inglês que sugere o uso da série “Harry Potter” para abordar o bullying e ensinar cidadania na escola:
http://www.test-me.co.uk/citizenship/harrypotter/bullying.htm
– Artigo em inglês sobre o tema:
http://www.religion-online.org/showarticle.asp?title=2202
– Para saber mais sobre a questão em nossa sociedade:
http://www.observatoriodainfancia.com.br/rubrique.php3?id_rubrique=19

Mariana Nascimento acha que o bullying deve ser punido com uma Maldição Imperdoável.