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Com uma Emma Watson confortável, mas limitada, Adoráveis Mulheres é um clássico moderno

Adoráveis Mulheres, com Emma Watson, é uma das muitas adaptações que o livro Mulherzinhas, escrito pela norte-americana Louisa May Alcott, recebeu desde quando foi publicado, há 151 anos. O que faria deste, portanto, um destaque? A resposta começa e termina com o mesmo nome: a diretora Greta Gerwig, indicada ao Oscar em 2018 por Lady Bird: A Hora de Voar.

Com inspiração autobiográfica, a obra acompanha as irmãs March: Jo (Saoirse Ronan), Meg (Emma Watson), Amy (Florence Pugh) e Beth (Eliza Scanlen), que moram com a mãe Mary (Laura Dern) enquanto o pai luta na Guerra Civil (1861-1865), que tinha como objetivo pôr um fim na escravidão que ocorria nos Estados Unidos.

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Diferente do livro

Gerwig, que também assina o roteiro da adaptação, tomou a decisão arriscada – e acertada – de não seguir a cronologia do livro. O filme começa mais perto do final da história, quando Jo mostra os textos que escreve para o editor de um jornal. A garota sonha em ser escritora e batalha muito por isso, mas a sociedade do século XIX não aceitava mulheres que queriam ser mais do que mães e esposas. Esta é uma discussão que percorre a trama do filme não só para Jo, mas também para as irmãs dela: Meg, que quer ser atriz, Beth, que sonha em ser pianista, e Amy, que sonha em ser pintora.

Como a diretora optou por não contar a história de maneira cronológica, o filme tem cenas que intercalam passado, cuja fotografia é quente e otimista, e presente, cuja paleta de cores é mais fria e realista. Esta decisão faz que o espectador consiga diferenciar os anos, já que traz uma ambientação própria para as ações das personagens – além, é claro, das diferenças do figurino ou do cabelo delas. Isso é especialmente importante porque, em certo momento, essas estéticas se misturam, assim como a ficção e a realidade dentro dela. Nada é por acaso.

As irmãs March em Adoráveis Mulheres (Foto: Sony Pictures/Divulgação)

Elenco de peso

O elenco é outro destaque do filme. A diretora traz de volta aos cinemas Saoirse Ronan e Timothée Chalamet, que contracenaram no último filme que ela dirigiu, Lady Bird. A química que existe entre os dois é encantadora e faz o espectador torcer pelo romance.

A escolha da atriz protagonista é certeira. Ouso dizer que Ronan faz a melhor Jo March de todas as adaptações que a história já teve, superando Wynona Ryder na versão de 1994. Ela está concorrendo ao Oscar de Melhor Atriz. Não à toa, já que, com olhos expressivos, a atriz empresa uma verdade visceral e traz toda a força e vulnerabilidade da personagem.

Timothée, que foi indicado ao Oscar de Melhor Ator por Me Chame Pelo Seu Nome (2018), interpreta um Laurie travesso e descompromissado. É galã e, ao mesmo tempo, problemático, de maneira encantadora: a primeira aparição dele surge em câmera lenta, com cabelos ao vento.

Saoirse Ronan e Timothée Chalamet em Adoráveis Mulheres (Foto: Sony Pictures/Divulgação)

Emma Watson confortável, mas limitada

Emma Watson interpreta Meg, a mais velha das irmãs, que tem objetivos diferentes das demais, mas não menos importantes. Ela é mais comportada do que Jo e sonha, sem muito sucesso, em quebrar as barreiras que a situação financeira lhe impõe.

A atriz, que interpretou Hermione Granger em Harry Potter, está muito confortável no papel de Meg. É como se ele nem estivesse atuando, o que traz naturalidade à atuação, mas, ao mesmo tempo, faz com que ela não consiga chegar a outras camadas da personagem. Os conflitos dela ficam presos aos diálogos, enquanto as outras atrizes vão além, com gestos e olhares que dão uma riqueza de detalhes que falta à interpretação de Emma Watson.

Emma Watson em Adoráveis Mulheres (Foto: Sony Pictures/Divulgação)

Irmandade e sororidade

Para um filme pessimista, Adoráveis Mulheres chega a ser otimista. Ou talvez o contrário. A vida das irmãs March é repleta de momentos bons, apesar dos acontecimentos ruins. Elas estão no meio de tudo e apoiando umas às outras. A irmandade e a sororidade são centrais na história.

O maior destaque do filme, como dito, começa e termina com Greta Gerwig, que não é uma diretora que chama atenção para si, já que busca construir para o espectador uma experiência cinematográfica de imersão total. Mais do que adaptar, é preciso entender e sentir a obra. Greta faz isso tudo enquanto dá ainda mais voz para essas adoráveis mulheres.

Adoráveis Mulheres está em cartaz nos cinemas (Foto: Sony Pictures/Divulgação)

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