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Série dos Marotos surpreende ao mostrar personagens pouco explorados nos livros de Harry Potter

Por Marina Anderi*
Edição: Pedro Martins

Produções de fãs são um ponto forte do fandom de Harry Potter. Por meio de fanfics, fanarts e afins, os Potterheards expressam seus gostos e desejos relacionados ao Mundo Bruxo. Este universo que complementa à criação de J. K. Rowling ganhou mais capacidade de produção conforme os fãs cresceram e se especializaram. Isso trouxe o fã-filme sobre a juventude de Tom Riddle, que conquistou repercussão mundial, e, em 2019, o Brasil ganhou sua primeira grande produção: uma web-série exibida no YouTube que acompanha o último ano de Tiago Potter, Sirius Black, Remo Lupin e Pedro Pettigrew em Hogwarts.


O primeiro episódio de Marotos: Uma História começa pelos corredores do castelo em um plano sequência que mostra praticamente todos os personagens que serão relevantes na história. Os Marotos já aparecem como figuras irreverentes, rindo enquanto andam ou, no caso de Sirius (Suzano), dando uns amassos com uma aluna desconhecida em um canto qualquer.

A construção de personagem é o ponto alto do capítulo. A química entre os quatro amigos é ótima, e todos os atores conseguem transmitir bem a personalidade de cada um. Tiago (Novaes) é arruaceiro e divertido – e só por olhares furtivos é possível entender que seus sentimentos por Lílian (Russo) não são apenas uma provocação; Sirius é charmoso e não parece levar nada a sério; Remo (Donorato) é menos fechado do que nos livros de Harry Potter, parecendo se divertir com as ações dos amigos – advertindo-os, mas sem querer que eles mudem de fato; Pedro Pettigrew (Gaio) tem a abordagem mais inédita, que é a de que simplesmente… não há nada de errado com ele. Ele não é desesperado pela atenção dos amigos e está muito bem integrado no grupo.

Os Marotos e Lílian Evans (Foto: Marotos: Uma História/Divulgação)

Lílian Evans aparece mais se irritando com Tiago e Sirius do que qualquer outra coisa – a cena da Mulher Gorda (Garrido) cantando para ela é uma das melhores do episódio – e sua amizade com Remo parece uma boa entrada para o espectador entender quem são de fato esses garotos. Sua vontade de lutar contra as injustiças praticadas por Voldemort (Villar) é o que dá abertura para se falar da Ordem da Fênix e o contexto político de 1977. O único problema é que, segundo os livros, nessa época a Ordem era uma organização secreta e, portanto, não é verossímil alunos saberem de sua existência e muito menos montarem um grupo para se preparar para fazer parte dela. Por outro lado, se nem J. K. Rowling segue o próprio cânone, talvez este não seja um grande defeito.

Há também aparições de personagens pouco explorados nos livros, o que é um fator muito positivo. A dinâmica da amizade entre Régulo Black (Heck) e Severo Snape (Rocha) é muito interessante, mesmo sendo vista em apenas uma cena neste episódio. Régulo foi um Comensal da Morte que se arrependeu, o que o levou a destruir uma Horcrux de Voldemort, mas é legal a possibilidade de acompanhar um pouco de sua jornada até isso. Ao mesmo tempo, há Frank Longbottom (Leitão) e Alice Prewett (Levaskevicius), líderes da “pré”-Ordem da Fênix; vê-los tão determinados a derrotar as forças das trevas chega a dar um aperto no coração quando lembramos o que o destino lhes reserva.

Os Comensais da Morte (Foto: Marotos: Uma História/Divulgação)

Com relação às questões técnicas, não acho justo ser rigorosa em minha avaliação. É grande a dificuldade de produção audiovisual no Brasil: os equipamentos são caros, e a qualificação, mais ainda. Além disso, trata-se de uma produção de universitários, cujos recursos são mais escassos ainda. Dito isso, os diálogos da série são ouvidos facilmente, mas falta um cuidado na etapa de mixagem, ou seja, de tratar para que o áudio esteja o mais limpo possível. É fácil notar a diferença na altura do som entre um corte e outro.

Mesmo relevando as falhas da mixagem, os diálogos continuam a ser um problema. Eles não são orgânicos o suficiente, o que talvez seja um estranhamento das roteiristas em transpor a linguagem literária para audiovisual. Isso leva o espectador para fora da obra e faz com que ele não se envolva tanto com a história. Como já dito, os atores são ótimos, mas com diálogos rasos fica difícil prosseguir bem.

Por outro lado, enquanto o áudio peca, a imagem acerta, pois a montagem é de boa qualidade. Os planos usados não são óbvios, especialmente em cenas de conversa, em que é costumeiro mostrar apenas quem está falando, mas a produção se preocupa em também mostrar a reação daqueles que ouvem, principalmente em cenas não tão óbvias, como a conversa entre Remo e Lílian, que revela algumas aflições dos personagens.

O primeiro episódio custou cerca de R$ 20 mil, de acordo com as produtoras (Foto: Marotos: Uma História/Divulgação)

O Brasil tem uma das maiores comunidades de fãs de Harry Potter. Após fã-filmes norte-americanos e europeus, paródias – como A Very Potter Musical, Potter Puppet Pals e o The Hillywood Show – e a criação de um gênero musical para bandas com letras relacionadas a Harry – o Wizard Rock –, já era hora dos brasileiros mostrarem sua paixão pelo Mundo Bruxo com grandes produções. Marotos: Uma História chegou para fazer isso.

O primeiro episódio de Marotos: Uma História tem aspectos mais positivos do que negativos. A equipe por trás do projeto é, claramente, muito dedicada. É realmente fascinante ver como Harry Potter continua a aflorar a mente das pessoas para criar mais e mais coisas. Resta saber se a série terá verba para continuar a ser produzida – saiba como ajudar abaixo – e se conseguirá fisgar o público fiel do material original.

*Marina Anderi é cineasta e gerente de marketing do Potterish

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Episódio 1: Eu juro solenemente não fazer nada de bom

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O primeiro episódio custou cerca de R$ 20 mil, de acordo com as produtoras. Para dar continuidade ao projeto, elas esperam receber doações por meio das plataformas online Paypal ou PagSeguro.