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Harry Potter e o Oscar: os filmes foram mesmo injustiçados?

Por Evandro Lira*
Edição: Marina Anderi e Pedro Martins

A franquia Harry Potter é uma das mais bem sucedidas da história do cinema, ocupando o terceiro lugar na lista das dez sagas mais lucrativas da história. No entanto, o sucesso comercial e de crítica não foi suficiente para que ela levasse estatuetas do Oscar, o maior prêmio da indústria do cinema. Para entender o motivo disso, é preciso analisar o histórico da Academia e avaliar os filmes que disputaram os prêmios com Harry Potter em todos os anos.

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As mentes por trás do Oscar

O Oscar é entregue por uma instituição, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, que conta com pessoas das mais diferentes áreas da indústria do cinema, de diretores e atores famosos até técnicos de efeitos visuais e maquiadores. Essas pessoas têm conhecimentos e gostos variados, o que ajuda a desmistificar que os resultados são frutos de uma decisão homogênea. Na verdade, a votação tem participação de pelo menos seis mil pessoas.

Entretanto, é possível arriscar alguns palpites baseados em características comuns dos membros da Academia. Grande parte dela é composta por homens brancos estadunidenses e, de acordo com uma pesquisa feita pelo jornal LA Times em 2012 – no ano em que Harry Potter participou do prêmio pela última vez –, 79% tinha mais de 50 anos. Em outras palavras, as histórias de J. K. Rowling não tinham como público-alvo os membros da Academia.

Por mais que com os anos os filmes tenham assumido um tom menos infantil, eles sempre tiveram crianças e adolescentes como público-alvo. O Senhor dos Anéis, por exemplo, é um dos casos raros do gênero de fantasia a fazer história no Oscar, por ter sido considerada séria o suficiente.

Entre reconhecimentos e esnobadas

Mesmo assim, o Mundo Bruxo foi lembrado pela Academia em vários anos – não tanto quanto merecia, mas o suficiente para que, a cada edição do prêmio, os fãs se frustrassem ao saírem de mãos abanando.

Harry Potter nunca teve chance nas categorias principais, como melhor diretor, melhor roteiro adaptado e melhores atuações. Os cineastas por trás dos filmes nunca foram famosos – apesar de Alfonso Cuarón ser considerado hoje um dos maiores diretores, na época em que dirigiu O Prisioneiro de Azkaban ele ainda não era tão reconhecido; os roteiros nunca foram o ponto alto dos filmes; e as mais de duas horas de cada volume eram preenchidas por jovens atores junto a alguns coadjuvantes de luxo que não tinham tempo de tela ou peso o suficiente para arrebatar uma indicação. O único ator que chegou perto do prêmio pelo seu papel em Harry Potter foi Alan Rickman (Severo Snape) em As Relíquias da Morte – Parte 2.

Dos oito filmes da franquia, seis foram lembrados pelo Oscar, somando 12 indicações, todas de “categorias técnicas”, ou seja, nenhuma de ator, diretor ou melhor filme. Foram quatro indicações pela direção de arte (A Pedra Filosofal, O Cálice de Fogo e As Relíquias da Morte – Parte 1 e Parte 2), três indicações pelos efeitos visuais (O Prisioneiro de Azkaban e As Relíquias da Morte – Parte 1 e Parte 2), duas indicações pela trilha sonora (A Pedra Filosofal e O Prisioneiro de Azkaban), uma pelo figurino (A Pedra Filosofal), uma pela maquiagem (As Relíquias da Morte – Parte 2) e uma pela fotografia (O Enigma do Príncipe).

A franquia merecia mais indicações, especialmente pela direção de arte e pela trilha sonora. Como ignorar o trabalho maravilhoso dos compositores Nicholas Hooper (A Ordem da Fênix e O Enigma do Príncipe) e Alexandre Desplat (As Relíquias da Morte – Parte 1 e 2) na reta final da franquia? Também não há como discordar que a direção de arte de Stuart Craig merecia uma vaga por todos os filmes.

No entanto, o conceito de justo ou injusto em uma eleição é relativo. Dizer que os filmes mereciam todos os prêmios é uma afirmação rasa. Muito melhor, portanto, é entender o porquê da franquia sair todos os anos sem um Oscar.

A Pedra Filosofal perde para Moulin Rouge e O Senhor dos Anéis
No Oscar, há sempre dois filmes disputando de verdade determinada categoria enquanto os outros foram indicados somente para preencher as vagas. Na edição de 2002, havia praticamente dois filmes em pé de igualdade de favoritismo: Moulin Rouge – Amor em Vermelho, uma explosão de cores e música em forma de filme, e O Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel, um dos projetos mais ambiciosos de Hollywood. Mesmo tendo sido um sucesso comercial superior, A Pedra Filosofal saia em desvantagem, pois disputava diretamente com o figurino e direção de arte vibrantes do musical e com a trilha sonora épica de O Senhor dos Anéis, o favorito em todas as categorias técnicas.

Imagens: 20th Century Fox; Warner Bros. Pictures; New Line Cinema/Reprodução

O Homem-Aranha e criação do Peter Pan levam a melhor
A primeira indicação de Harry Potter na categoria de melhores efeitos visuais aconteceu com O Prisioneiro de Azkaban, que impressionou a todos com a grande participação do hipogrifo Bicuço e o visual dos dementadores. Esta foi uma das disputas mais apertadas, já que nenhum dos três filmes indicados eram favoritos da edição. Eram eles Homem-Aranha 2 e Eu, Robô. No entanto, foram as cenas do cabeça-de-teia contra os tentáculos do Dr. Octopus que agradaram a maioria dos votantes. Não dá pra dizer que foi uma má escolha, mas também teria sido justo reconhecer os profissionais de Harry Potter, que deram um salto impressionante na qualidade do CGI desde o primeiro filme.

O veterano John Williams voltou a ser indicado pela trilha de O Prisioneiro de Azkaban, mas perdeu para Em Busca da Terra do Nunca, que, apesar de ser um ótimo filme sobre a criação de um dos maiores símbolos culturais do mundo, caiu no esquecimento, diferente da trilha sonora de O Prisioneiro de Azkaban, que é lembrada até hoje.

Imagens: Sony Pictures; Warner Bros. Pictures/Reprodução

Nem o impressionante Baile de Inverno tirou o Oscar das gueixas
A segunda indicação do diretor de arte Stuart Craig foi também a única de O Cálice de Fogo. Era mais um de seus trabalhos de encher os olhos, que apresentou diversos novos cenários, como o Baile de Inverno, o banheiro dos monitores e o cemitério de Little Hangleton, além de objetos marcantes como o Cálice de Fogo, a Taça Tribruxo e o ovo dourado de dragão. Os votantes da Academia, porém, se impressionaram mais com a cultura milenar japonesa do filme Memórias de uma Gueixa, que ganhou ainda o Oscar de melhor figurino e melhor fotografia, provando ser um dos favoritos no quesito visual daquele ano. Mais uma vez, a disputa foi acirrada. Mesmo que O Cálice de Fogo fosse um concorrente à altura, é difícil ganhar de um drama com ares históricos.

Imagens: Columbia Pictures; Warner Bros. Pictures/Reprodução

A melhor batalha de Harry foi com os aliens azuis de Pandora
O Enigma do Príncipe foi o único Harry Potter que conseguiu ser indicado ao prêmio de melhor fotografia, uma das categorias mais disputadas do Oscar. Não é para menos: o filme tem mesmo a mais bela fotografia de toda a série, criada por Bruno Delbonnel. Sua paleta escura e melancólica em conjunto com o trabalho impressionante de iluminação é quase uma profecia do destino dos personagens; não à toa, era o filme com o final mais desolador da franquia até então, com a morte de Dumbledore.

No entanto, O Enigma do Príncipe disputava com nada menos do que Avatar, um filme que revolucionou a indústria do cinema com a captura do movimento e com o 3D. Avatar foi filmado em grande parte por meio de fotografia digital, o que impressionou a todos os espectadores, inclusive os votantes da Academia. Mesmo assim, é possível que esse tenha sido o melhor momento de Harry Potter no Oscar. Parecia ali que, pela primeira vez, a Academia colocava a franquia entre os grandes do ano.

Imagens: 20th Century Fox; Warner Bros. Pictures/Reprodução

A elegância de um e a extravagância do outro derrotam Harry Potter
O prêmio de melhores efeitos visuais de 2011 foi um dos mais fáceis de perder. Não por causa da qualidade de As Relíquias da Morte – Parte 1, mas porque A Origem, uma ficção científica que adentra da forma mais realista possível o mundo dos sonhos, era um dos favoritos do ano. O longa do cineasta Christopher Nolan se beneficiou muito de efeitos práticos, além da computação gráfica, o que tirou o Oscar de Harry Potter.

A derrota em direção de arte, por sua vez, não dá para se conformar. O prêmio foi para a adaptação de Alice no País das Maravilhas, que, na época, foi muito criticado pelo exagero estético do diretor Tim Burton. Cores, elementos e objetos se misturavam em um verdadeiro caos, fazendo do filme a pior escolha entre os indicados. 2011 foi um ano em que Harry Potter poderia ter facilmente levado um Oscar para casa, mas a Academia não concordou.

Imagens: ‎Walt Disney Pictures; Warner Bros. Pictures/Reprodução

Harry Potter se despede sem nenhum Oscar para chamar de seu
Com o último filme, as expectativas de que a franquia conseguiria indicações a categorias maiores foram frustradas: As Relíquias da Morte – Parte 2 concorreu em apenas três modalidades. Injusto, pois a trilha sonora emocionante de Alexandre Desplat e a atuação memorável de Alan Rickman como Severo Snape mereciam ocupar suas vagas. No entanto, os únicos departamentos reconhecidos foram o de efeitos visuais, direção de arte e, pela primeira vez, maquiagem.

Nas categorias de efeitos e direção de arte, tinha-se a disputa com um dos filmes favoritos daquela edição, A Invenção de Hugo Cabret, dirigido por Martin Scorsese, um dos cineastas mais celebrados de todos os tempos, que trouxe um visual deslumbrante, misturando fantasia, drama e prestando uma linda homenagem ao cinema. Precisa dizer mais alguma coisa? Os votantes assistiram, se encantaram e votaram em Hugo no máximo de categorias que podiam. Resultado: menos dois Oscar para Harry Potter.

A última e amarga derrota de Harry Potter no Oscar foi o prêmio de melhor maquiagem, entregue para A Dama de Ferro, filme sobre a ex-primeira-ministra do Reino Unido, Margaret Thatcher. Apesar de muitos fãs e cinéfilos usarem este prêmio como prova de que havia uma birra da Academia com o Mundo Bruxo de J. K. Rowling, é preciso entender que esta não era uma categoria garantida. Harry Potter teria que enfrentar o filme que não só deixou Meryl Streep a cara de Thatcher, mas também a envelheceu em cerca de 30 anos. A cada cena, a atriz aparecia transformada, usando próteses de silicone que, de tão perfeitas, levaram o Oscar.

A Dama de Ferro não merecia mais ou menos do que Harry Potter, mas os votantes se impressionam muito mais com atores populares transformados em figuras famosas do que com a caracterização de duendes, por exemplo. Este filme também deu a Meryl Streep o prêmio de melhor atriz.

Imagens: ‎20th Century Fox; Warner Bros. Pictures; Paramount Pictures/Reprodução

Hoje talvez fosse diferente

Sete anos depois, a Academia tem se mostrado, ainda que a passos lentos, mais amigável com blockbusters. Pantera Negra, da Marvel Studios, é o primeiro filme de super-herói indicado ao prêmio de melhor filme, e até mesmo um longa do universo de J. K. Rowling, Animais Fantásticos e Onde Habitam, conseguiu uma estatueta na categoria de melhor figurino, em 2017.

Isso é resultado da diversidade de gênero, etnia e idade que tem sido implementada há alguns anos na Academia. Nomes como Daniel Radcliffe (Harry Potter), Emma Watson (Hermione Granger), Rupert Grint (Rony Weasley), David Heyman (produtor de todos os filmes do Mundo Bruxo) e J. K. Rowling agora fazem parte dos membros votantes. Não é exatamente o que os fãs gostariam, mas também não deixa de ser um consolo, saber que a opinião deles contam para o prêmio mais importante do cinema.

Collen Atwood com o Oscar de melhor figurino por Animais Fantásticos e Onde Habitam

Analisar a situação do Oscar com Harry Potter anos depois, com mais repertório cinematográfico e menos ódio de fã no coração, é um exercício interessante. Ajuda perceber que nem sempre as coisas que gostamos são vistas da mesma forma pelos outros e também faz entender que o Oscar, apesar de toda sua fama, não é parâmetro de qualidade. Como qualquer eleição, o prêmio erra e acerta.

Depois de reinventar o modelo de franquias no cinema, faturar mais de sete bilhões de dólares e se tornar uma das maiores marcas do entretenimento, não dá para negar: mesmo sem um Oscar, Harry Potter é um marco para indústria cultural.

*Evandro Lira é cineasta e redator do Potterish.