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Como Animais Fantásticos pode ser salvo do fracasso

Por Marina Anderi
Edição: Pedro Martins

Após dois anos de espera, Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald decepcionou grande parte dos fãs, da crítica e do público. Contra fatos, não há argumentos: 63% de reprovação no Rotten Tomatoes, site que compila e revela a média de satisfação de críticas, e apenas 644,6 milhões de dólares na bilheteria tornam este o filme mais mal avaliado e menos lucrativo dos dez títulos do Mundo Bruxo. Nem tudo está perdido: há salvação para Animais Fantásticos, mas também há com o que se preocupar.

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A Warner Brothers precisa correr atrás do prejuízo. O orçamento de Os Crimes de Grindelwald foi de 200 milhões de dólares, e sua campanha de marketing deve ter sido próxima disso, tomando como exemplo Liga da Justiça, outro filme do estúdio em situação parecida. Considerando que os cinemas ficam com 50% do valor do ingresso, é provável que o filme tenha dado prejuízo.

A decisão de lançar uma versão estendida em plataforma digital demonstra uma primeira tentativa de não sair perdendo. Como exemplo, Blade Runner 2049 teve uma bilheteria que sequer cobriu seu custo de produção, mas foi o segundo filme mais vendido em Home Video em 2018. Além disso, com a versão estendida há a chance de apresentar um corte mais coeso e se redimir com fãs insatisfeitos – o que a Warner já fez, com sucesso, em Batman vs. Superman.

Os Crimes de Grindelwald é o segundo filme de uma série que promete ter cinco. Seu fracasso não pesa só no bolso, como também deixa incerto o futuro da franquia. Se dois filmes não foram suficientes para conquistar nem os fãs de Harry Potter, é difícil garantir os próximos três sem que haja mudanças drásticas na produção, desde o roteiro até a direção.

Não há como negar que J. K. Rowling é uma ótima contadora de histórias. No entanto, livro e filme são narrativas muito diferentes. Um roteiro precisa ser direto, sem pontas soltas, cada cena servindo a um propósito específico. Em uma coletiva de imprensa durante o lançamento do primeiro filme, Rowling disse que comprou um livro sobre escrita de roteiro, mas nunca o abriu e também não pediu ajuda a Steve Kloves, roteirista de Harry Potter e produtor de Animais Fantásticos. Esse auxílio fez falta, pois os roteiros dos dois Animais Fantásticos têm erros básicos, como tramas que não levam a nada e diálogos expositivos demais. Rowling precisa de um parceiro de escrita, ou ao menos de um consultor com poder de alteração, para que o terceiro filme da série tenha uma base mais redonda. Contratar alguém experiente e de renome para ajudá-la daria confiança ao público que reclamou do roteiro.

O segundo ponto que precisa ser mudado, ou ao menos discutido, é a direção. David Yates dirigiu 6 dos 10 filmes do Mundo Bruxo. Ele tem seus méritos. No entanto, seu estilo de contar histórias é mais realista – não à toa, seu melhor filme é As Relíquias da Morte – Parte 1, que se passa no mundo trouxa. Isso transparece na sua falta de criatividade em Onde Habitam e na condução ruim de Os Crimes de Grindelwald. Lidar com um diretor que está na franquia há tempos pode ser mais confortável, mas não é a melhor escolha quando as coisas não andam bem. O terceiro Animais Fantásticos precisa de um diretor com pulso mais firme, que respeite a roteirista, mas corte os exageros da história sem dó, e não alguém que simplesmente filme tudo o que ela escreveu e depois tente resolver os problemas na montagem – o que não funcionou no segundo filme.

O produtor David Heyman, a roteirista J. K. Rowling e o diretor David Yates no set de Animais Fantásticos e Onde Habitam (Foto: Warner Bros. Pictures/Reprodução)

Filmagens de cenas desnecessárias eventualmente levarão a Warner Bros. a diminuir o orçamento para o terceiro filme. Essa pode ser uma das razões para o adiamento de cinco meses nas filmagens. O roteiro para gravação deve ser diminuído, ou seja, antes de começar a filmar, o diretor precisará definir o que de fato entrará na versão final do filme.

Em visita ao set de filmagem de Os Crimes de Grindelwald, o editor-chefe do Potterish, Pedro Martins, relatou que as lojas do “Beco Diagonal francês” eram repletas de produtos e objetos que sequer chegaram perto de aparecer no filme. Mesmo que isso ajude na imersão dos atores, é um grande desperdício de dinheiro, especialmente para uma série cujo segundo filme pode ter dado prejuízo.

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A salvação de Animais Fantásticos, portanto, requer planejamento, atitude e, reitero, vontade. O Mundo Bruxo ainda tem muito a oferecer, e o enredo de Animais Fantásticos é interessante, mas precisa ser ajustado. Além disso, esta franquia não deve ser o único spin-off planejado dentro do mundo de Harry Potter. Seria uma pena se a expansão do universo perdesse o fôlego logo após sua primeira tentativa.

Marina Anderi é cineasta e gerente de marketing do Potterish.

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