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Como os fãs de Harry Potter livraram o Sapo de Chocolate da mão de obra escrava

Até a década passada, a mente de fãs era pouco compreendida por executivos à frente de empresas que alimentam o mercado da cultura pop. Aos poucos, eles passaram a entender que, da mesma maneira que este amor pode ser lucrativo, também pode gerar descontentamento e, eventualmente, prejuízo. Foi o que aconteceu entre fãs de Harry Potter e a Warner Brothers em 2014, quando a Harry Potter Alliance, uma ONG norte-americana que engaja fãs na luta pelos direitos humanos, fez campanha para que a empresa deixasse de usar mão de obra escrava – terceirizada – na produção dos Sapos de Chocolate vendidos nos parques temáticos e lojas dedicadas ao Mundo Bruxo de J. K. Rowling. A princípio, a companhia resistiu, mas não o suficiente. No fim, os fãs conseguiram.

Este e outros episódios são narrados no livro Superfandom, da Editora Rocco. A obra analisa como fandoms, as comunidades de fãs, podem influenciar de maneira poderosa o mercado do entretenimento. No trecho abaixo, compartilhado pela Rocco para os leitores do POTTERISH, conheça a história dos Sapos de Chocolate.

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Harry Potter e o Chocolate Justo

Conforme um fandom se torna uma parte central da identidade, é natural que os fãs comecem a testar o significado e o propósito dos seus grupos. O que essa identidade, de fato, significa. Uma identidade compartilhada é uma coisa poderosa e fortalecedora.

Chame isso de um efeito colateral do fandom como utopia — tantos grupos de fãs têm mitologias internas que giram em torno do idealismo que se tornam um ponto de partida natural para bons trabalhos. […] Eles tornaram-se lugares de reunião inesperada para causas sociais aparentemente completamente independentes.

Quando a questão da justiça social beneficia o objeto de fã, não é nada mal. A cantora pop Lady Gaga sem dúvida expandiu sua audiência graças ao seu status de ícone do movimento LGBTQ , assim como a cantora Madonna havia feito antes dela. Nesses casos, o fato de que seus respectivos grupos de fãs tenham crescido além de sua identidade de marca original tem benefícios potenciais positivos.

A escravidão do chocolate — o uso do trabalho infantil forçado na produção e colheita de cacau — é algo terrível. Crianças de até 5 anos são sequestradas ou vendidas como força de trabalho nas plantações de cacau da África Ocidental que alimentam os desejos de doces do resto do mundo. O chocolate é uma indústria de 100 bilhões de dólares, e ativistas e jornalistas que tentam relatar a prática são às vezes alvo de intimidação ou violência. Ainda assim, no fim de 2014, uma organização, a Harry Potter Alliance, conseguiu fazer alguns progressos. A campanha deles foi chamada “Não em nome de Harry”.

“A escravidão do chocolate é terrível. Crianças de até 5 anos são sequestradas ou vendidas como força de trabalho nas plantações de cacau da África Ocidental.”
Superfandom

À primeira vista, a ligação entre fazendas de cacau e o império de mídia de Harry Potter parece tênue. A Warner Brothers, empresa que detém os direitos de licenciamento da franquia de filmes de Harry Potter, vende “sapos de chocolate” temáticos em algumas de suas lojas e parques. Os fãs de Harry Potter vão a parques temáticos e também, às vezes, comem chocolate. Não é a correlação mais óbvia. No entanto, há quase meia década, a Harry Potter Alliance está envolvida em uma cruzada vigorosa para persuadir a Warner Brothers a fazer sapos de chocolate — e outros produtos de chocolate do tema Harry Potter — seguindo as regras de comércio justo.

Ler Harry Potter pela primeira vez marcou um momento de definição para muitos da Geração Y. É um verdadeiro fandom baseado no mundo; seu contexto é fantasticamente amplo. Quase qualquer pessoa pode se relacionar com ele em quase qualquer forma que quiser. Tem algo ali para azarões, populares, quem gosta de roupas, cozinheiros, artesãos, atores, estudiosos, atletas, rebeldes, românticos e excluídos tímidos. É um fandom que, por alguns anos em meados da década de 2000, inspirou uma religião honesta à bondade estruturada em torno do personagem Severo Snape, com visões, adivinhações, rituais sexuais e uma quantidade de discípulos completamente séria. O resto do fandom os apelidou de Snapewives [esposas de Snape].

A HPA foi fundada em 2005 por um grupo de superfãs de Harry Potter, incluindo o comediante Andrew Slack e integrantes da banda tributo Harry and the Potters (conhecidos por músicas como “Voldemort can’t stop the rock” [Voldemort não pode impedir o rock] e “The Economics of the wizarding world don’t make sense” [A economia no mundo da magia não faz sentido]. Sua intenção declarada é ajudar a espalhar a moral elevada e ideais, como encontrados nos livros de Harry Potter. Eles fazem uma conferência chamada Academia de Liderança Granger, cujo nome homenageia a personagem que faz boas ações, Hermione Granger. “Durante toda a sua vida você ouviu histórias sobre grandes heróis — agora é hora de se tornar um”, promete o website deles.

Paul DeGeorge é um dos fundadores. “Não somos especialistas em apenas um problema. A Harry Potter Alliance não é uma organização que apenas trabalha estritamente em direitos LGBTQ ou algo assim. Somos uma organização de muitas questões e procuramos essa conexão com o trabalho, é nossa razão pela qual o fandom deve estar envolvido.”

O relacionamento entre a HPA e a franquia Harry Potter é complicada. Os fãs querem causar um impacto, mas não querem necessariamente se opor à marca em um nível de consumidor, por exemplo, por meio de boicote. Para quem vê de fora, pode parecer uma situação de querer ter as duas coisas ao mesmo tempo, mas não é bem isto. Para os consumidores, conseguir se fazer ouvir é apenas uma questão de escolher o próximo melhor produto até que suas demandas sejam atendidas. Os fãs nem sempre têm essa opção.

“Os fãs querem causar um impacto, mas não querem necessariamente se opor à marca por meio de boicote. Para quem vê de fora, pode parecer uma situação de querer ter as duas coisas ao mesmo tempo, mas não é bem isto.”
Superfandom

A HPA encorajou a Warner Brothers a repensar suas práticas trabalhistas. A Warner Brothers replicou que tinha um relatório dizendo que as práticas eram adequadas. A HPA demandou ver o relatório e a Warner Brothers, possivelmente sentindo um declive escorregadio, recusou. Houve uma extensa petição e campanha de vídeo. “Alvo Dumbledore nos pediu para escolher entre o que era certo e o que era fácil. Pedimos para vocês fazerem o mesmo. Mostrem-nos o relatório”, a petição exigia. Advogados foram contatados. Até mesmo J. K. Rowling foi envolvida na briga.

Em 22 de dezembro, a Warner Brothers escreveu uma carta paraa HPA aquiescendo. A carta era curta e concisa. “Obrigado pela sua parceria ao longo das nossas discussões sobre esta importante questão. Valorizamos e apreciamos a voz coletiva dos integrantes da Harry Potter Alliance e dos fãs de Harry Potter por todo o mundo, além do seu entusiasmo e amor pelo mundo de Harry Potter.” Todos os futuros chocolates terão certificados indicando a origem correta, como os da UTZ e da Fair Trade.

“VENCEMOS!”, exultava uma postagem no blog da HPA que anunciava a vitória.

A Warner Brothers é uma gigantesca e monstruosa empresa multibilionária, e os chocolates temáticos de Harry Potter nem sequer chegam a ser mencionados em sua extensa lista de atividades de rentabilização. Eles podem se dar ao luxo de serem sensíveis aos fãs que procuram mudar uma pequena porção de seu modelo de negócios. É um pequeno preço a pagar para manter milhões de fanáticos envolvidos e leais a Harry Potter reunidos em seus parques temáticos, usando seus chaveiros, colares, braceletes e camisetas, balançando réplicas de varinhas, vendo seus filmes e, claro, comendo seu chocolate.

  • Trecho do livro Superfandom (Editora Rocco), de Zoe Fraade-Blanar e Aaron M. Glazer, com tradução de Guilherme Kroll e preparação de originais de Thadeu Silva.
Superfandom: como nossas obssessões estão mudando o que compramos e o que somos (Arte: Jorge Paes/Editora Rocco)