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Em defesa de Petúnia Dursley


Por Alícia Marédi
Edição: Pedro Martins

Apesar dos filmes de Harry Potter serem satisfatórios, há detalhes que distorcem alguns personagens. É o caso de Petúnia Dursley, a tia trouxa que criou O Menino-Que-Sobreviveu. Devido à falta de complexidade com que foi tratada nos filmes, Petúnia se tornou somente vilã, enquanto nos livros ela é mais do que isso. Para compreender o que a levou a maltratar Harry, é preciso voltar ao passado.

Foto: Warner Bros. Pictures/Reprodução

As irmãs Petúnia e Lílian Evans eram próximas. Costumavam brincar juntas e até se davam bem, salvo raras discussões e divergências de opinião, já que Lílian tinha a mente mais aberta ao diferente. No entanto, quando Severo Snape surgiu na vida de Lílian, muita coisa mudou.

Os dois se tornaram amigos rapidamente. Passavam bastante tempo juntos e compartilhavam um aspecto raro em comum: a magia. Por Petúnia ser trouxa, Severo associava a irmã da amiga ao pai, que também era trouxa e tratava sua mãe, que era bruxa, de maneira abusiva. Snape, portanto, não perdia uma chance de ofender e ferir o orgulho de Petúnia, que, conservadora e com o instinto de proteção de irmã mais velha, também não conseguia enxergar algo positivo nele. Para ela, Severo era um menino esquisito que competia pela atenção da irmã, arrastando-a para coisas que, em sua visão, eram mal-intencionadas.

Foto: Warner Bros. Pictures/Reprodução

“— É para onde você vai — insistiu Petúnia, com gosto — Uma escola especial para bichos estranhos. Você e aquele garoto Snape… bizarros, é o que vocês são. É bom que sejam isolados das pessoas normais. É para a nossa segurança. […]
— Você não achou que era uma escola tão louca quando escreveu para o diretor e implorou a ele que levasse você.
Petúnia ficou escarlate.
— Implorar? Eu não implorei!
— Eu vi a resposta dele. Foi muito gentil.”

Harry Potter e as Relíquias da Morte

Lílian possuía habilidades que Petúnia jamais teria. É compreensível, portanto, que a jovem Petúnia tenha sentido ciúmes da relação dos dois e invejado a condição da irmã. Afinal, Lílian não era apenas uma menina meiga e inteligente, mas havia se tornado uma pessoa literalmente mágica, o que encantou ainda mais seus pais.

Não é surpreendente que Petúnia tenha enviado uma carta a Dumbledore negociando sua aceitação em Hogwarts. Como qualquer criança, ela também tinha vontade de ter poderes mágicos. Todos querem ser especiais de alguma forma, e a angústia de não se sentir assim se torna pior quando existem comparações.

“Eu era a única que a via pelo que ela era – uma aberração! Mas para minha mãe e meu pai, oh não, era Lílian e Lílian, eles tinham orgulho de ter uma bruxa na família!”
– Petúnia Dursley em Harry Potter e a Pedra Filosofal

Do ponto de vista de Petúnia, a magia foi o que a separou da irmã. Seu mecanismo de defesa foi se agarrar com orgulho a uma identidade inteiramente conservadora para sufocar a frustração de que jamais viveria a magia, passando a enxergar tudo o que fosse incomum como aberração. Ao se unir a alguém que compartilhava do mesmo pensamento, isso piorou. Válter encorajava o pior de seu caráter, o que intensificava a amargura que ela sentia. Petúnia então tomou cada vez mais distância de tudo que envolvia bruxaria e, consequentemente, da irmã.

Anos mais tarde, havia mais um motivo para abominar a magia: ela havia sido responsável pela morte de sua irmã. Dumbledore, que uma vez a rejeitou, envia-lhe uma carta que abala todos seus planos para uma vida “normal” ao informar que Harry só estaria protegido em um lar diretamente ligado à mãe.

Ao acolher o bebê Harry, Petúnia se viu diante de sua infância. Assim como ela e Lílian, Harry e Duda eram crianças com quase a mesma idade, mas um deles tinha um dom que o outro jamais teria. Por não querer que Duda sofresse o mesmo, Petúnia canalizou sua mágoa no tratamento exageradamente mimado que dava ao filho para fazê-lo se sentir tão especial quanto Harry.

Foto: Warner Bros. Pictures/Reprodução

Sua decisão de criar o sobrinho resultou em uma série de eventos que agravaram seu temor pela comunidade bruxa, como ter a casa invadida por cartas, a cunhada inflada como um balão e a sala de estar destruída em uma visita dos Weasleys que terminou com a língua de Duda crescendo sem parar. Isso sem mencionar o rabo de porco que, embora tenha arrancado muitas risadas, aos olhos de uma mãe foi realmente desagradável.

Mais tarde, mesmo depois de vivenciar perigos reais do mundo bruxo, como o ataque de um dementador ao filho e, por fim, ter que se mudar em busca de segurança, Petúnia manteve a promessa de que ia manter Harry sob seu teto e se opôs quando Válter quis expulsá-lo de casa.

Foto: Warner Bros. Pictures/Reprodução

Petúnia tem sua parcela de culpa por ter sido cúmplice do tratamento destinado a Harry, que era punido injustamente por tudo que acontecia na casa, muitas vezes trancafiado em seu quarto, sem fazer barulho e fingindo que não existe. No entanto, parafraseando Sirius Black, o mundo não se divide em pessoas boas e más. Todos temos luz e trevas dentro de nós. O que nos define é o lado com o qual escolhemos agir, e Petúnia Dursley agiu do lado certo na luta de um mundo que ela sequer pôde fazer parte, mesmo que isso tenha feito-a reviver seus piores traumas.

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