Reportagens

Quadribol está se tornando independente de Harry Potter

Por Gabriela Benevides, com colaboração de Pedro Martins

Sem vassouras e bolas voadoras, a modalidade trouxa de Quadribol é praticada em mais de 40 países. Em 2018, a quantidade de times brasileiros saltou de 8 para 12, o que representa um crescimento de 33%. O esporte, criado há 13 anos, voa aos poucos rumo à independência de Harry Potter.

Além de Harry Potter

“Eu via o Quadribol como uma brincadeira vergonhosa de fã”, diz Philipi Daniel, de 20 anos, da Seleção Brasileira. Antes de começar a praticar o esporte, ele já tinha assistido aos filmes, mas não era fã de Harry Potter. O Quadribol despertou sua paixão pela história, mas continua sendo algo à parte. Ele leva a sério: pratica outros esportes para aprender técnicas que o ajudam no Quadribol, faz academia para melhorar o desempenho físico e cuida da alimentação, principalmente nas semanas de jogos.

Há jogadores que não gostam ou sequer assistiram aos filmes. “Vejo o Quadribol como um esporte independente, e não apenas mais uma expressão dos fãs”, afirma o presidente da Associação Brasileira de Quadribol, Diogo Vasconcellos, de 30 anos, que nunca se considerou fã da série.

Para quem já era fã antes de começar a jogar, o Quadribol nunca foi um atrativo da história. “Eu achava um tédio ler os capítulos das partidas de Quadribol. Hoje, eu volto aos livros e presto atenção especialmente neles”, conta Cynara Wainner, de 23 anos, também da Seleção Brasileira, que antes não gostava de praticar esportes.

“Eu via o Quadribol como uma brincadeira vergonhosa de fã.”
– Philipi Daniel, da Seleção Brasileira

O que impede o crescimento do esporte?

Assim como a magia de Harry Potter, o Quadribol se espalhou e é praticado em todos os continentes. Na primeira Copa Mundial, em 2012, cinco países participaram. Na edição de 2018, o número subiu para 29. Apesar disso, não existe previsão para que o esporte seja incluído em competições como as Olimpíadas.

Segundo a Associação Internacional de Quadribol (IQA), o próprio nome, por ser uma marca registrada da Warner Brothers, impede o crescimento do esporte. Os times não podem aceitar patrocínio corporativo e se mantêm apenas com a venda de ingressos, no caso de competições mundiais, e camisetas. Por isso, apesar do nome ser chamariz, há chance de ser alterado. “Muitos conhecem por causa do nome, mas o que os faz continuar frequentando os jogos é o esporte em si”, avalia o diretor da IQA, Andy Marmer.

Foto: Jenny Krafczyk

Das páginas para os campos

Criado em 2005 na Universidade de Middlebury, nos Estados Unidos, o Quadribol trouxa tenta ser o mais fiel possível ao jogo criado por J. K. Rowling. No entanto, as vassouras e as bolas tiveram que ser adaptadas, assim como as funções dos jogadores.

Os times têm sete jogadores: três artilheiros, dois batedores, o apanhador e o goleiro. A goles se tornou uma bola de vôlei; os balaços, bolas de queimada; e o pomo de ouro, uma bola de tênis presa ao short de um jogador neutro que precisa fugir dos apanhadores.

“O jogo mudou muito desde que foi criado. As regras estão sendo adaptadas e melhoradas”, diz Cynara. Em campo, os artilheiros precisam acertar a goles (bola de vôlei) em um dos três aros, marcando 10 pontos. Sempre que um batedor acerta um jogador com os balaços, o adversário precisa sair da vassoura e voltar ao aro de seu time, já que as bolas trouxas não derrubam de verdade. Os apanhadores, por fim, precisam capturar o pomo de ouro, que vale 30 pontos e encerra a partida, mesmo que o time adversário esteja à frente. O pomo não vale 150, como no Mundo Bruxo, para que os pontos da goles não se tornem irrelevantes.

O Quadribol trouxa é uma mistura de vários esportes. Jogar queimada ajuda os batedores, que precisam queimar jogadores do time adversário, e os artilheiros, que precisam desviar dos balaços. Rugby ajuda a todos no bloqueio corporal, enquanto handebol e basquete ajudam nos arremessos da goles nos aros.

“Quando começamos a jogar Quadribol, os outros esportes perdem a graça.”
– Cynara Wainner, da Seleção Brasileira

Uma vassoura entre as pernas

“Na teoria parece que muda pouco, mas na prática faz muita diferença”, diz Philip sobre o uso dos canos entre as pernas, que não servem somente para imitar Harry Potter. Além de evitar que o esporte seja violento, já que não é possível segurar as bolas com as duas mãos e correr em alta velocidade, os canos são obstáculos que tornam o jogo mais desafiador. Isso porque, quando queimado, o jogador tem que descer do cano para sinalizar; se deixar o cano cair, tem que voltar ao aro de seu time; e o pomo de ouro ainda pode puxar o cano para atrapalhar.

“Todo esporte tem algum obstáculo. No futebol, por exemplo, você só pode chutar a bola. O Quadribol dá liberdade para os jogadores se movimentarem, passarem a bola ou arremessarem à vontade. O obstáculo é ter que carregar a vassoura”, explica Ashley Cooper, treinador de Quadribol do Reino Unido, em entrevista ao jornal The Guardian.

“Quando as pessoas começam a jogar Quadribol, os outros esportes perdem a graça”, opina Cynara. “Perde a graça porque o Quadribol é mais dinâmico, tem várias bolas e é mais difícil. Minha visão periférica para o futebol, por exemplo, ficou muito mais apurada”, completa Philip.

Foto: Jenny Krafczyk

O Quadribol no Brasil

O Rio Ravens, primeiro time brasileiro de Quadribol, foi criado em 2010, no Rio de Janeiro. Em 2018, a quantidade de equipes saltou de 8 para 12, o que representa um crescimento de 33%. Todas são regidas pela Associação Brasileira de Quadribol (ABRQ), que organiza eventos nacionais em busca do desenvolvimento do esporte no país. “Criamos a Associação para ter alguém que pudesse falar por todos os praticantes sem o viés de pertencer a um time específico”, explica Diogo, o presidente da instituição. “Isso dá credibilidade e mostra que o esporte não é apenas a empreitada de um grupo de amigos.”

Foto: Jenny Krafczyk

Accio galeões

Como qualquer atleta brasileiro, os jogadores de Quadribol enfrentam dificuldades para participar de torneios mundiais. A Associação Brasileira promoveu a venda dos uniformes da Seleção para as Copas de 2016 e 2018, mas a arrecadação foi destinada à própria associação. As viagens, portanto, foram custeadas pelos próprios jogadores, que desembolsaram, em média, sete mil reais cada. Foi a primeira vez que os jogadores viajaram do Brasil até o país da Copa. Em 2016, a Seleção era composta por brasileiros que moravam no exterior e conseguiram custear uma viagem para a Alemanha, o que prejudicou o desempenho do time devido à falta de entrosamento.

Fã de Harry Potter desde sempre, Cynara Wainner fez tudo que pôde para juntar dinheiro e participar do torneio na Itália. “Com muita dor no coração”, a jogadora precisou vender sua cópia de O Bicho-da-Seda autografada por J. K. Rowling. O livro é o segundo volume da série policial que a autora escreve sob o pseudônimo de Robert Galbraith. Para ganhá-lo, Cynara cantou o hino de Hogwarts em frente a centenas de fãs na Bienal do Livro do Rio de Janeiro, em 2015, durante um encontro promovido pelo Potterish e pela Editora Rocco. Entre 400 fãs, ela era a única que sabia cantar o hino. “Além de superar o apego, foi difícil encontrar onde vender e por qual valor. No fim das contas, eu anunciei na OLX por 150 reais, porque precisava vender rápido. Deu muita dó, mas eu precisava”, conta.

Imagem: Editora Rocco/Divulgação

A Copa Mundial de 2018

A Copa Mundial de 2018 foi o maior torneio de Quadribol realizado até o momento. Segundo o gerente de marketing, o maior desafio da organização foi a burocracia em torno da documentação necessária na Itália, cujo sistema público no manuseio de documentos é ineficiente. Esse contratempo impediu, entre outros, que a seleção da Uganda participasse.

Embora tenha ficado em 27º lugar, a Seleção Brasileira voltou para casa realizada. “Foi a primeira experiência com o cenário internacional de Quadribol para muitos de nós”, conta o presidente da Associação Brasileira. “A Copa nos mostrou como é jogado o Quadribol de alto nível”, diz.

Imagem: Potterish/Thaissa Lopez

Para quem quer jogar Quadribol…

Os interessados podem se juntar aos times que já existem ou criar uma equipe. A Associação Brasileira está à disposição. Para mais informações, acesse o site oficial.

Imagem: Potterish/Thaissa Lopez