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Obituário: Lia Wyler, a ponte por onde a magia ingressou em nossas vidas

Aos 84 anos, a tradutora Lia Wyler faleceu. Para nós, fãs brasileiros de Harry Potter, Lia foi a ponte por onde a magia ingressou em nossas vidas. Por isso, nossa gratidão pelo seu trabalho será eterna. Dizem que o tradutor é invisível até que se encontre um erro no texto, mas a Capa da Invisibilidade de Lia escorregou há muito tempo pelos corredores de Hogwarts, graças ao peso de suas traduções geniais. Em homenagem, reunimos 10 traduções desafiadoras que tiveram boas soluções em suas mãos.

Por Ana Alves Rolim

História

Em 1999, Lia Wyler traduzia A Pedra Filosofal sem saber da grandiosidade que os demais livros da série teriam. Há quase 20 anos, ela tomou as decisões tradutórias que seriam a base de todos os outros livros, como a adaptação do primeiro nome dos personagens, com a aprovação de J. K. Rowling. Lia teve como base um público com uma realidade muito menos virtual do que a de hoje, quando a internet banda larga nem havia sido lançada no Brasil. Até 2007, ano de lançamento de As Relíquias da Morte, muita coisa mudaria e transformaria o público-alvo de suas traduções.

Lia também influenciou muitos leitores. Por volta dos 12 anos, li A Ordem da Fênix tendo pela primeira vez a consciência de que se tratava de uma tradução. Isso só aconteceu porque eu achava terrível esperar cinco meses para ler o livro em português. Hoje, tendo me tornado tradutora, por causa de Lia, fico nervosa ao pensar em como ela conseguiu o feito de traduzir um material tão complexo e extenso com um prazo que não me parece mais tão longo. Quanto mais experiência tenho no mundo da tradução e mais entendo as camadas de dificuldade que caracterizam a profissão, maior é o meu respeito pelo trabalho de Wyler e dos demais tradutores. Um trabalho hercúleo, como ouço profissionais mais experientes dizerem.

Traduzir vai muito além de olhar no dicionário o significado de uma palavra em outro idioma. Precisamos considerar o contexto, a finalidade, o público-alvo e muitos outros fatores que vão além. Nas palavras da própria Lia e de outros tradutores, “a tradução é uma ponte entre duas culturas” – e, no caso de Harry Potter, uma ponte entre mundos. A dificuldade triplica quando as palavras sequer existem no mundo trouxa.

Lia Wyler traduziu os sete volumes de Harry Potter e os três da coleção Biblioteca de Hogwarts (Imagens: Editora Rocco/Divulgação)

Os 10 trabalhos de Lia Wyler

Colaboraram Fabienne Wyler, filha de Lia; Larissa Ramos, tradutora; e Mônica Figueiredo, da Editora Rocco

Goles – Quaffle: à primeira vista, pode parecer que a bola usada pelos artilheiros nos jogos de Quadribol recebeu em português um nome inventado, mas é uma tradução quase literal do verbo “quaff”, que significa “beber muito, em grandes goles”. Trata-se de uma palavra já existente em nossa língua ganhou uso completamente novo de forma tão natural que demoramos para perceber.

Lembrol – Remembrall: o objeto mágico que avisa quando você esquece de alguma coisa tem o nome originado no verbo “remember”, que significa “lembrar”. A tradutora escolheu a mesma palavra para nomeá-lo em nossa língua, mas também acrescentou a terminação “-ol”, conseguindo manter a sonoridade do original.

Malfeito Feito – Mischief Managed: para as palavras mágicas que apagam o Mapa do Maroto, Lia substituiu a aliteração, de repetição de fonemas no início das palavras, pela rima, mantendo o sentido e a sonoridade.

Bisbilhoscópio – Sneakoscope: o objeto mágico que detecta as Artes das Trevas tem o nome originado no verbo “sneak”, cujo significado é “esgueirar-se sorrateiramente”. Lia captou o sentido, com o verbo “bisbilhotar”, e acrescentou o sufixo “scópio”, assim como J. K. Rowling.

Abro no fecho – I open at the Close: a mensagem enigmática que Harry encontra no Pomo de Ouro em foi um grande desafio tradutório. “Close” tem, em inglês, o sentido de “fechar”, ao fazer trocadilho com “open” (“abrir”). Mas a palavra também tem o sentido de conclusão ou término. tradutora precisou encontrar uma solução que acomodasse os dois sentidos: “abro no fecho”.

Bicuço – Buckbeak: o hipogrifo é nomeado lembrando de seu bico (“beak”, em inglês). Em vez de usar a palavra já existente “bicudo”, Lia preferiu criar um termo novo acrescentando o sufixo “-uço”, já que a palavra Buckbeak também foi inventada no original.

Esquelesce – Skele-Gro: a poção que faz os ossos de Harry crescerem novamente recebe o nome formado pela combinação das palavras “esqueleto” e “cresce”, tanto no original como na tradução.

Almofadinhas – Padfoot: o apelido de Sirius Black se refere às almofadas das patas de sua forma de Animago, um cachorro preto. Lia então usou o substantivo “almofadas”, mas acrescentou o diminutivo “-inha”, característica comum de apelidos brasileiros.

Revisão: Pedro Martins e Kaio Rodrigues