Animais Fantásticos ︎◆ Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald

CRÍTICA: Os Crimes de Grindelwald tem história demais para pouco tempo

Ao ser anunciada como uma quintologia, Animais Fantásticos ganhou um escopo muito maior para explorar a história do Mundo Bruxo antes da jornada de Harry Potter. O primeiro filme, Animais Fantásticos e Onde Habitam, tem um enredo divertido, mas que serve somente para apresentar personagens. Ficou para sua sequência, Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald, a responsabilidade de apresentar de verdade os elementos que conduzirão a franquia.

Não é uma tarefa fácil. Em um Mundo Bruxo cada vez mais aflito em relação aos trouxas, Grindelwald (Depp) surge como um representante dos bruxos que não querem mais se esconder. Ele está atrás de Credence (Miller), por acreditar que o poder do rapaz enquanto Obscurial é a chave para sua ascensão. Dumbledore (Law) vê em Newt (Redmayne) a capacidade de alcançar Credence antes de Grindelwald e impedir seus planos. Tina (Waterston) também está atrás do rapaz, continuando o trabalho que começou no filme anterior. Queenie (Sudol), por sua vez, quer se casar com Jacob (Fogler) e, portanto, está cansada das leis bruxas que a impedem.

Pela quantidade de personagens citadas nesta tentativa de sinopse, é perceptível que o filme é cheio. Não apenas cheio, mas denso. São duas horas e vinte minutos que, apesar de não serem cansativas, são sentidas. Há o enredo de Credence, de Tina, de Queenie, de Newt, de Teseu (Turner), de Leta (Kravitz) e de Grindelwald. Eles se cruzam? Claro. Mas demora.

Os personagens adentram o mausoléu dos Lestrange (Foto: Warner Bros. Pictures/Divulgação)

Ritmo talvez seja a questão chave deste filme. Ele inicia com a cena da fuga de Grindelwald do MACUSA, que, apesar de já ter sido vista quase inteiramente nos trailers, não deixa de ser confusa. Os movimentos de câmera somados à fotografia escura atrapalham o entendimento de quem está onde. Além disso, os aurores que Grindelwald derrota beiram à incompetência e, portanto, não trazem o nível de tensão necessário para a cena. Em seguida, o roteiro traz introdução atrás de introdução para situar o espectador sobre como e onde está cada personagem já conhecido, o que leva um tempo que mais tarde faz falta.

Por ser uma trama com muitos personagens, a maioria deles têm pouco tempo de tela. Enquanto Tina está muito mais elegante e segura de si, pronta para cumprir sua missão de uma vez por todas, Queenie parece de repente ter virado uma criança birrenta, distante da personagem carismática e alegre apresentada no filme anterior, e isso faz com que a resolução do seu conflito seja insatisfatória, pois ela simplesmente vira uma caricatura. Jacob continua divertido e carismático, e Newt mais uma vez se mostra um típico lufano, mas desta vez fica perdido no papel de protagonista ao perceber que a trama é muito, mas muito maior do que ele.

Queenie (Foto: Warner Bros. Pictures/Divulgação)

Apesar do título do filme não se justificar pelos crimes, ao menos Grindelwald é o personagem mais forte do longa-metragem. Persuasivo e inteligente, é impossível não sentir um gosto de “quero mais” toda vez que ele sai de cena. Seu discurso é poderoso e tem uma lógica que o torna muito mais perigoso do que o vilão de Harry Potter, Lorde Voldemort. Grindelwald não suja as mãos, não se compromete. Ele manipula os outros para que sigam seus comandos sem perceber o que estão fazendo. Em uma cena de discurso de arrepiar o corpo inteiro, Grindelwald utiliza um momento histórico trouxa para cravar seu argumento. É sensacional.

O discurso de Grindelwald (Foto: Warner Bros. Pictures/Divulgação)

No que diz respeito a roteiro, apesar de diálogos ótimos, J. K. Rowling ainda não aprendeu a se conter e parece muito mais estar escrevendo um livro. Muitos elementos do filme não servem para nada, a ponto de um personagem simplesmente sumir no meio da trama. Há um enredo importante que, em vez de ser desenvolvido ao longo do filme, é jogado em uma cena grotescamente expositiva que faz com que a história perca quase todo o impacto. O roteiro tem falhas amadoras, mas a consequência disso é sentida no filme por um fator maior: David Yates.

Um diretor é o coração de qualquer filme. Ele é o supervisor geral por quem todas decisões grandes devem passar. Ao receber um roteiro abundante e muitas vezes confuso, o diretor precisa saber aproveitar o que é bom, cortar o que é ruim e ajustar o que pode ser melhorado. Além de não fazer isso, Yates pesa a mão em cenas de ação, de modo que o espectador não entende o que está acontecendo. Em uma cena reflexiva, sem movimento, ele usa uma câmera na mão que só embaça a tela; na primeira cena entre Newt, Leta e Teseu, ele aproxima tanto a câmera do rosto dos atores que, além de ser desconfortável, não há justificativa narrativa alguma.

A sorte é que o design da produção dá conta do resto. Stuart Craig permanece brilhante no seu décimo filme do Mundo Bruxo. Os animais fantásticos foram muito bem criados e é impossível não se encantar com um Zouwu rugindo. A casa de Newt, um grande habitat para várias espécies de criaturas, é um ambiente encantador, espaçoso e cheio de vida. A Paris da década de 1920 é charmosa e suas casinhas são apertadas e aconchegantes. O figurino de Leta e Tina se contrapõem no azul e vinho, feitos aparentemente do mesmo tecido, e a mudança de cor drástica das vestes de Queenie, mas que ainda mantém elementos coloridos, são grandes acertos da figurinista Colleen Atwood.

Zouwu (Foto: Warner Bros. Pictures/Divulgação)

Por fim, Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald é um bom filme, mas tem falhas muito aparentes. É necessário uma auto-avaliação por parte dos produtores para que a história seja encaminhada de maneira adequada até seu final, em 1945, ano em que acontecerá a batalha entre Dumbledore e Grindelwald. Em Os Crimes de Grindelwald há um passo maior do que o dado em Onde Habitam, mas ainda há muito chão até que a franquia se estabeleça de maneira correta.

P.S.: Os créditos são lindos. Vale a pena assisti-los!

Escrito por J. K. Rowling e roteirizado por David Yates, Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald chega aos cinemas brasileiros em 15 de novembro de 2018.

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Marina Anderi é cineasta e gerente de marketing do Potterish

Revisão: Pedro Martins e Renato Ritto