Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald

Animais Fantásticos não esconde sexualidade de Dumbledore, mas deixa a desejar

Em outubro de 2007, durante um encontro com fãs em Nova York para promover Harry Potter e as Relíquias da Morte, J.K. Rowling contou que Alvo Dumbledore era gay. Houve aplausos e ovações de satisfação, e a autora disse que, se soubesse que isso faria os fãs tão felizes, teria revelado antes.

Desde então, a discussão não parou. Os fãs se dividem entre homofóbicos, pessoas que criticam o posicionamento tardio ou “monetizado” e pessoas perdidas no meio da conversa. Muitos, no entanto, não levam em conta que o episódio aconteceu em 2007, quando pautas sociais e representatividade não eram populares. Provavelmente Rowling não obteria pink money com tal declaração: na época, conquistas dos movimentos LGBTQ+ ainda engatinhavam quanto à representatividade em grandes mídias. Se isso fosse alterar os números das vendas da série, seria negativamente, considerando que a sociedade ainda não havia avançado em tais discussões. É possível, então, considerar que Dumbledore foi pensado como um homem genuinamente gay pela autora enquanto escrevia a série.


Dumbledore interpretado por Michael Gambon em Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban (Foto: Warner Bros. Pictures/Reprodução)

Assim que o personagem foi confirmado no segundo filme da franquia Animais Fantásticos, as discussões acerca de sua sexualidade voltaram a se intensificar. Considerando que os filmes tratam especificamente da história de Gerardo Grindelwald, o interesse amoroso de Dumbledore pelo bruxo das trevas seria explícito? Mesmo que não correspondida, a paixão seria abordada? Ou a produção do filme seria apenas mais uma a promover queerbaiting?

Para esclarecer, queerbaiting é quando o marketing de uma atração (seja ela um filme, uma série ou um livro) sugere um relacionamento não heterossexual entre determinados personagens, mas isso nunca é concretizado durante a história. É, portanto, apenas uma jogada para atrair um público não heterossexual, mas sem que a história traga relacionamentos que os represente de verdade.

O marketing deste filme foi pouco responsável ao sugerir motivações falsas para determinadas ações de Dumbledore nos trailers. Mas houve queerbaiting em Os Crimes de Grindelwald? Entende-se que não, porque está claro, desde 2007, que Dumbledore é gay, e as cenas dão a entender uma relação muito forte entre Grindelwald e ele. Além disso, não existem outros interesses românticos envolvendo os personagens, o que não dá margem para uma heterossexualização forçada deles.


Dumbledore vê Grindelwald no Espelho de Ojesed, que mostra o desejo mais profundo de seu coração (Foto: Warner Bros. Pictures/Divulgação)

O ator Jude Law trabalha muito bem a interpretação desse personagem tão enigmático. Ele já havia dito em entrevistas recentes que sua caracterização não seria caricata e que, assim como qualquer outra pessoa, Dumbledore não é definido por sua sexualidade. Isso realmente transparece no filme. Law conseguiu transmitir uma personalidade carismática, sábia e bem intencionada, muito parecida com a do Dumbledore velhinho visto em Harry Potter. Além disso, o ator embutiu em sua interpretação traços não heteronormativos. Para quem sabe que ele é gay, a caracterização está brilhante. Entretanto, por conta da sutileza, quem não está disposto a reconhecer não reconhecerá. Por isso, de fato, o filme deixou a desejar.

Enquanto outros filmes, séries de TV e livros voltados para o público jovem têm demonstrado responsabilidade ao explicitar e tratar com naturalidade relacionamentos não heterossexuais em suas tramas, Os Crimes de Grindelwald passa de raspão, mas não atinge o alvo. As cenas são sugestivas, e o público que entende a mensagem percebe que houve um relacionamento. No entanto, o público homofóbico que torce o nariz para relacionamentos não heterossexuais talvez não tenha a mesma eficiência interpretativa, ou simplesmente insista em ignorar essa subtrama com apoio de um roteiro que não se esforça para afirmar a não heterossexualidade de seus personagens.


Em Animais Fantásticos, Dumbledore dá aulas de Defesa Contra as Artes das Trevas (Foto: Warner Bros. Pictures/Divulgação)

No contexto atual, isso se torna ainda mais preocupante. Por que Dumbledore não disse com todas as letras os motivos para não ser capaz de ir atrás de Grindelwald? Por que o máximo de sugestão por parte do roteiro foram olhares significativos de Jude Law enquanto dizia “ele Grindelwald era muito mais do que um irmão” e uma cena fofa de dois garotos que seguram as mãos? Caberia, em algumas cenas, uma explicação de Dumbledore de que se apaixonou por seu inimigo. Mas por que isso não aconteceu?

As perguntas ecoam porque seguem sem resposta. A impressão é de que o filme não quer se indispor com nenhum dos dois públicos: nem com os homofóbicos, nem com os LGBTQ+. Mas como aprendemos com Newt neste filme, existem certos assuntos que exigem que escolhamos um lado, e é melhor quando estamos do lado certo. Resta esperar um avanço concreto em relação à representatividade não heterossexual nos próximos filmes da franquia.

Escrito por J. K. Rowling e dirigido por David Yates, Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald chega aos cinemas brasileiros em 15 de novembro de 2018.

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Revisão: Pedro Martins