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Os 5 erros mais graves dos filmes de Harry Potter

Por Evandro Lira

A linguagem cinematográfica tem suas próprias regras. Ao adaptar um livro para o cinema, um roteirista sacrifica partes da obra que considera menos importante para a trama. Ainda que os filmes de Harry Potter sejam satisfatórios de modo geral, os roteiros não fizeram justiça aos livros de J. K. Rowling, e alguns deslizes prejudicaram aos próprios filmes. Listamos os 5 erros mais graves dos roteiros.

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1) Gina Weasley

A caçula da família Weasley foi uma das piores adaptações. Nos livros, Gina parte de uma menina tímida com uma crush em Harry para uma jovem popular, segura e determinada, por quem o próprio protagonista se apaixona. Nos filmes, porém, a personagem vai do nada para lugar nenhum. Ao longo das cinco horas de O Prisioneiro de Azkaban e O Cálice de Fogo, Gina tem aproximadamente cinco falas, e nenhuma se refere à sua vida; poderiam ter sido ditas por Dino Thomas, Simas Finnigan ou qualquer outro personagem. Em A Ordem da Fênix, sua participação se resume a usar o feitiço Reducto para que o espectador a enxergue como uma pessoa poderosa – o que simplesmente não funciona.

(Imagem: Warner Bros. Pictures/Reprodução)

No quinto livro, há bons exemplos de quem Gina Weasley é de verdade. Devido à sua popularidade, ela é quem leva a maioria das pessoas para o primeiro encontro da Armada de Dumbledore, no Cabeça de Javali. Ela também se candidata para substituir Harry no posto de apanhador da Grifinória quando o garoto é afastado por Umbridge e posteriormente entra no time como artilheira.

Nos livros, Gina não abaixa a cabeça. Em O Enigma do Príncipe, ela tem uma briga feia com Rony quando o irmão a repreende por beijar Dino Thomas em público. No filme, entretanto, nada acontece. Na tela, sua passagem pela Câmara Secreta também é esquecida, enquanto no livro a personagem mostra que aquilo teve um forte efeito sobre si.

“– Nós queríamos falar com você – disse Gina –, mas você ficou se escondendo desde que voltamos…
– Eu não queria que ninguém falasse comigo – respondeu Harry, sentindo-se cada vez mais exasperado.
– Pois foi burrice sua – disse Gina, zangada –, uma vez que não conhece ninguém que tenha sido possuído por Você-Sabe-Quem além de mim, e eu posso lhe dizer como é que a pessoa se sente.
Harry ficou muito quieto quando o impacto dessas palavras o atingiu. Então girou nos calcanhares para encarar Gina.
– Eu me esqueci.
– Sorte sua – disse Gina calmamente.”

Para o público apenas dos filmes, é difícil entender por que o personagem-título da série teria qualquer interesse amoroso por Gina. No livro O Enigma do Príncipe, Harry começa a se questionar sobre seus sentimentos em relação à irmã do melhor amigo, mas no filme isso é descartado. O roteirista esperava que todos acreditassem que aquele romance sempre existiu. Por fim, sobra para o casal cenas constrangedoras, como “Seu cadarço está desamarrado”.

2) A profecia

A Ordem da Fênix é muito importante para a compreensão do enredo da série Harry Potter como um todo. É neste capítulo da história que conhecemos a profecia. No filme, é dito que Voldemort está atrás dela, mas seus motivos nunca são revelados. Para que o filme faça sentido, o espectador precisa simplesmente aceitar que o vilão está atrás daquilo. Mesmo ao final, quando tudo é revelado, o espectador continua por fora de uma das tramas mais relevantes da história: a escolha de Voldemort de marcar alguém como seu igual.

Nos livros, sempre esteve claro que predizer o futuro é uma tarefa difícil e que, na verdade, é a maneira que escolhemos agir que determina tudo. A mensagem profetizada pela professora Trelawney para Dumbledore dizia que aquele com o poder de derrotar o Lorde das Trevas nasceria no fim de julho, e que os pais dessa criança teriam desafiado Voldemort pelo menos três vezes. A profecia não falava especificamente de Harry. Poderia ser Neville Longbottom, que também nasceu no fim de julho e cujos pais enfrentaram o Lorde das Trevas pelo menos três vezes assim como os de Harry. No entanto, Voldemort escolheu Harry.

Os filmes nunca explicam por que o protagonista teve que enfrentar toda aquela jornada. É também depois de descobrir o que a profecia diz que Harry entende questões que sempre lhe atormentaram e que conduziriam seus próximos passos – como a ligação que tinha com Voldemort e a morte de seus pais. Portanto, é decepcionante que parte tão significativa da história tenha sido reduzida a troco de nada.

(Imagem: Warner Bros. Pictures/Reprodução)

3) Dobby

Dobby salva Harry da morte diversas vezes. O elfo doméstico aparece em cinco dos sete livros. Nos filmes, entretanto, ele participa de A Câmara Secreta e é completamente ignorado nos filmes seguintes, voltando a aparecer somente em As Relíquias da Morte – Parte 1, quando não apenas salva o trio, mas acaba morrendo em uma das cenas mais emocionantes da franquia. Ou melhor: uma cena que deveria ser uma das mais emocionantes da franquia.

Nos filmes, Dobby nunca esteve por perto. Portanto, acaba por ser uma solução fácil para resolver o problema dos heróis (uma falha de roteiro conhecida como Deus Ex-Machina). Além disso, a morte do elfo precisava ser chocante e sentida pelo espectador. Mas, para que isso acontecesse, o espectador precisaria se importar de verdade com o personagem. E como seria possível se a última aparição dele havia sido nove anos antes, no segundo filme da franquia? Quem acompanhava a história somente por meio dos filmes não o conhecia o suficiente; alguns sequer se lembravam do elfo. No filme, portanto, sua morte teve um peso narrativo muito menor do que deveria ter.

(Imagem: Warner Bros. Pictures/Reprodução)

4) Subtramas ignoradas

Outro erro das adaptações de Harry Potter são elementos que os roteiristas ignoraram até perceberem que comprometeriam o entendimento dos espectadores que não leram os livros.

O enredo dos Marotos é uma dessas falhas. Remo, Pedro, Sirius e Tiago são apresentados no filme O Prisioneiro de Azkaban, assim como os nomes Aluado, Rabicho, Almofadinhas e Pontas. No entanto, não há um diálogo sequer para explicar que eles são as mesmas pessoas; não há nada que ligue os Marotos ao Mapa – o que não gastaria mais do que um minuto de filme. Isso não seria um problema se, em A Ordem da Fênix, Olho-Tonto Moody não chamasse Sirius Black de Almofadinhas, ou se o próprio Harry não se referisse ao padrinho pelo apelido. “Ele pegou o Almofadinhas”, diz Harry para Snape ao ser capturado invadindo a sala de Umbridge. Neste momento, o espectador que não leu os livro se pergunta: quem é Almofadinhas?!

Não faço ideia (Imagem: Warner Bros. Pictures/Reprodução)

Este problema é tão recorrente nos filmes que é possível lembrar de dois outros casos: o Espelho de Dois Sentidos e o filho de Lupin.

Enquanto o espectador não faz a menor ideia de onde Harry tirou o espelho, o leitor sabe que foi um presente de Sirius para que ele pudesse se comunicar com o afilhado em segredo. Em As Relíquias da Morte – Parte I, esse espelho tem um papel fundamental na trama, mas toda a origem do objeto foi ignorada em A Ordem da Fênix. Isso provavelmente se deve ao fato de que o último livro ainda não havia sido lançado quando o roteiro de A Ordem da Fênix foi escrito. No entanto, este contratempo não impediu que os roteiristas introduzissem o elfo doméstico Monstro, que também desempenha papel importante em As Relíquias da Morte. Por que não fizeram o mesmo com o espelho, então?

Ted Lupin, filho de Remo Lupin e Ninfadora Tonks, é outro exemplo. Ele é mencionado apenas uma vez, em As Relíquias da Morte – Parte 2, quando Harry se encontra com seus entes queridos às margens da Floresta Proibida, com a Pedra da Ressureição em mãos. “Remo, e o seu filho?”, Harry pergunta. Novamente, uma grande interrogação paira sobre os espectadores: desde quando Remo Lupin é pai?

(Imagem: Warner Bros. Pictures/Reprodução)

5) A descaracterização de Rony e Hermione

Muitos personagens foram mal adaptados ou pouco desenvolvidos nos filmes de Harry Potter. É o caso de Rony e Hermione, cujas personalidades foram modificadas para enfatizar estereótipos clássicos do cinema.

Rony foi praticamente transformado em um alívio cômico. Enquanto nos livros ele diversas vezes se mostra um bruxo inteligente, os filmes estabeleceram-no apenas como um personagem engraçado. Há falas que originalmente são deles, mas nas telas foram parar na boca de Hermione:

“– Vocês acham que eu devia ter falado a eles daquela voz que ouvi?

– Não – respondeu Rony sem hesitar. – Ouvir vozes que ninguém mais ouve não é bom sinal, mesmo no mundo da magia.”
Rony Weasley em Harry Potter e a Câmara Secreta

Faz sentido que Rony explique isso a Harry. Mesmo que Hermione seja estudiosa, ela conheceu o Mundo Bruxo aos 11 anos, enquanto Rony vive nele desde em que nasceu.

Os atos de bravura de Rony também são ofuscados. Em O Prisioneiro de Azkaban, ele é atacado e arrastado por um cão para a Casa dos Gritos. Quando Harry e Hermione chegam ao local e descobrem a identidade do cão, Rony não mede esforços para protegê-los. Mas, novamente, o roteiro ofusca Rony e dá sua fala à Hermione.

“– Se você quiser matar Harry, terá que nos matar também! – disse impetuosamente, embora o esforço de ficar de pé tivesse acentuado sua palidez e ele oscilasse um pouco ao falar.[…]

– Você me ouviu? – disse Rony com a voz fraca […]”
Rony Weasley em Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban

(Imagem: Warner Bros. Pictures/Reprodução)

Ainda que Hermione tenha ganhado destaque, algumas mudanças também desfavoreceram a personagem nos filmes. Se no início da franquia Hermione parecia apenas uma garota sabe-tudo, aos poucos os leitores conhecem uma personagem muito mais do que inteligente. Ela é cética, sensível, poderosa e tem sede de justiça. O ativismo corre tão forte no sangue de Hermione que terem-no deixado de lado enfraqueceu a personagem e tornou-a simplesmente incompleta.

O ativismo da personagem merecia algum espaço nas telas, mesmo que em poucos diálogos. A criação do F.A.L.E (Frente de Libertação aos Elfos) pode não ser uma trama fundamental em O Cálice de Fogo. É compreensível seu corte no filme. No entanto, sua indignação com os maus tratos que os elfos domésticos sofrem poderia ter sido representado de outra maneira. Afinal, isso impactou sua vida adulta, quando ela decide trabalhar no Departamento para a Regulamentação e Controle das Criaturas Mágicas no Ministério e, mais tarde, no Departamento de Execução das Leis da Magia, onde passou a lutar efetivamente contra a opressão aos nascidos trouxas.

Enquanto seu ativismo foi praticamente cortado dos filmes, Hermione ganhou falas que não têm relação alguma com a garota que conhecemos nos livros, como “É assim que meu cabelo fica quando estou de costas?”

Colaboraram: Gabriela Benevides, Pedro Martins e Vinícius Bonafé (edição) e Renato Ritto (revisão)