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J.K. Rowling, em 2008: “Dumbledore levou uma vida de celibato.”

Em 2008, ao escutar “J. K. Rowling!” ser chamada pelo atendente de um Starbucks em Edimburgo, um estudante de jornalismo reuniu coragem e pediu à autora uma entrevista. Para surpresa dele próprio, Rowling aceitou. O resultado foi uma matéria de mais de dez páginas, na qual a autora reflete, mais abertamente do que nunca, o passado, o presente e o futuro de sua carreira. Entre os destaques, comenta sobre a sexualidade de Alvo Dumbledore. Ou melhor: como “Dumbledore levou uma vida de celibato”, devido à paixão por Gerardo Grindelwald.

Uma entrevista perdida

À época, a imprensa distorceu a matéria ao destacar, fora de contexto, o momento em que a autora revela que teve pensamentos suicidas durante a depressão. As manchetes diziam: “J.K. Rowling é suicida”. Em reprovação ao sensacionalismo, o estudante deletou a entrevista da internet. Dez anos depois, no entanto, o jornalista resolveu republicá-la, na tentativa de “fazer as pessoas, especialmente os fãs de Harry Potter, relembrarem da mulher por quem se apaixonaram” em um cenário onde Rowling é atacada diariamente devido à presença de Johnny Depp no elenco de Animais Fantásticos e à afirmação, vinda apenas do diretor David Yates, de que a sexualidade de Dumbledore não será abordada de maneira explícita em Os Crimes de Grindelwald.

Um Dumbledore celibatário

Durante a entrevista, J.K. Rowling disse:

“Eu sempre vi Dumbledore como gay, mas não de uma maneira em que [sua sexualidade] fosse a grande questão. […] Desde o início eu sabia que ele escondia um segredo. Este grande segredo é que ele já tinha tido pensamentos muito parecidos com os de Voldemort; a ideia de dominação racial, de que ele iria subjugar os trouxas. […] Mas ele é um homem bom por natureza. O que o levaria a fazer isso? [Esse questionamento] simplesmente veio até mim, e eu pensei: sei por que ele fez isso; ele se apaixonou. Se eles consumaram fisicamente essa paixão não importa. A questão é sobre amor, não sobre sexo. A relevância está no fato de que Dumbledore, que sempre levantou a bandeira de que o amor é o que mais importa, foi feito de trouxa justamente pelo amor. Ele perdeu seu senso de moral quando se apaixonou e, subsequentemente, tornou-se tão desconfiado do próprio julgamento no amor que se tornou completamente assexual. Ele levou uma vida de celibato e de bibliófilo.

“Algumas pessoas questionaram o motivo de não termos visto a angústia de Dumbledore sobre ser gay. Mas quando isso iria aparecer? ‘Harry, sente-se, deixe-me preparar uma xícara de chá para você, vamos discutir algo… Já chega dessas Relíquias…’ Soaria absolutamente ridículo. […] Pelo amor de Deus, estamos falando do Dumbledore. Existem 20 coisas mais relevantes para a história do que sua sexualidade. O outro ponto era que, por ser homossexual, ele jamais teria a aprovação para ensinar em uma escola [na primeira metade do século XX] – eu inclusive recebi cartas dizendo isso.”

A franquia Animais Fantásticos começa em 1927, quando Dumbledore já havia se afastado de Grindelwald e, de acordo com Rowling, passado a viver de maneira celibatária. Diante dessa informação, surgem dúvidas: a homosexualidade do personagem será abordada? De que forma?

Desapontados com a declaração de David Yates, fãs passaram a criticar (e, em alguns casos, atacar) Rowling. No Twitter, a autora rebateu: “Ser insultada por causa de uma entrevista que eu não dei, sobre um roteiro que eu escrevi, mas que nenhuma das pessoas que estão furiosas leu, que é parte de uma série de cinco filmes dos quais só um foi lançado até agora, é obviamente muito divertido, mas vocês sabem o que é ainda mais divertido? Bloqueá-las.”

As sementes da peça Harry Potter e a Criança Amaldiçoada

Além da sexualidade de Dumbledore, Rowling revelou detalhes que, por causa da entrevista ter sido apagada, poucos sabem. Desde 2008, a autora já tinha um interesse especial por Alvo Severo Potter – o que, oito anos depois, resultou na peça Harry Potter e a Criança Amaldiçoada:

“Eu não diria ‘nunca’, mas vou parar com isso antes que alguém fique animado e isso seja publicado no Daily Record: ‘Rowling promete um oitavo livro!’ Não está nos meus planos. Curiosamente, durante a filmagem do documentário [Um Ano na Vida de J.K. Rowling], eu disse que Harry e Gina teriam três filhos e que o do meio é o que mais me interessa… […] Meu Deus, que fardo esses dois nomes são para uma criança. Cruel, você não acha? Não apenas porque são nomes horríveis, mas também pela história que carregam. Mas não, não estou planejando isso. Quem sabe daqui a dez anos; esse é o tempo mínimo para eu voltar a considerar, porque tem outras coisas que quero fazer e, para o bem da minha saúde mental, preciso de um tempo longe disso.”

Vira-Tempo

Avaliando o próprio trabalho, a autora revelou o desejo de fazer mudanças em O Cálice de Fogo e A Ordem da Fênix, que em sua opinião ficaram mais longos do que deveriam. “Eu estava tão exausta, com uma gravidez já em estágio avançado, que minha energia simplesmente acabou”, disse. “Eu mudaria alguns elementos estilísticos. Esses dois livros mostram que eu estava no meu maior período de estresse… Mas em termos de linhas narrativas, personagens e tudo o mais, foi bem planejado e eu não mudaria.”

Ademais, Rowling discutiu o período em que lutou contra a depressão (e teve pensamentos suicidas), os desprazeres da fama com a imprensa sensacionalista, críticas negativas de fundamentalistas religiosos e mais. O artigo na íntegra pode ser lido (em inglês) no Medium do jornalista Adeel Amini.

Colaborou: Marina Anderi.