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Severo Snape: nem vilão, nem herói


Por Pedro Martins e Kätrin Baumgarten

Severo Snape é o personagem mais discutido de Harry Potter. Quer sejam defensores do Príncipe Mestiço ou não, os fãs concordam que a vida do bruxo foi tumultuada por desgraças. Afinal, não é necessário ter afinidade para ter empatia por seu sofrimento. Por isso, não viemos discutir o caráter dele ou a validez de suas ações. Viemos, em missão de paz, ressaltar as muitas nuances de um dos personagens mais complexos que J.K. Rowling já escreveu.

Assim como Harry, Severo cresceu em um lar abusivo. Em meio à pobreza da Rua da Fiação, teve que lidar com brigas incessantes com o pai trouxa, Tobias Snape, e o desejo de se aproximar do legado da mãe, Eileen Prince. Mais tarde, isso foi a semente do culto à supremacia bruxa que lhe aproximou das Artes das Trevas.

Aos nove anos, quando conheceu Lílian Evans, foi amizade à primeira vista. Assim que a garota descobriu ser bruxa, tornaram-se a válvula de escape um do outro, fantasiando sobre a vida maravilhosa que teriam em Hogwarts. Mas bastou pôr os pés no castelo que tudo desmoronou: Lílian foi selecionada para a Grifinória e Snape para Sonserina; com o tempo, ele passou a sofrer bullying por parte dos Marotos, especialmente de Tiago Potter, por quem Lílian viria a se apaixonar.

Hogwarts, na verdade, mostrou-se o contrário do que Snape imaginara. Os problemas na escola eram tão ruins quanto em casa. Desesperançoso, ele buscou nos Comensais da Morte uma cura para o sentimento de impotência que sentia sobre a própria vida. Pela primeira vez, Severo encontrou um grupo no qual se sentia incluído e valorizado. Absolutamente contra qualquer associação com Lorde Voldemort, Lílian não aprovou, e a amizade enfraqueceu ainda mais.

O Mestre de Poções foi leal até que o filho de Lílian fosse apontado como aquele que causaria a destruição de Voldemort. Ele implorou para o Lorde das Trevas poupá-la, mas, percebendo que para protegê-la teria que escondê-la, recorreu a Dumbledore, tornando-se agente duplo na luta contra as trevas. Após a morte do casal, Dumbledore sugeriu que Snape passasse a proteger Harry como forma de honrar seu amor por Lílian. Entretanto, tendo Harry como um lembrete vivo do amor entre Lílian e Tiago e do brutal assassinato de sua amada, Snape sequer deu uma chance ao garoto.

“– Se ela significa tanto para você – disse Dumbledore –, certamente Lorde Voldemort irá poupá-la, não? Você não poderia pedir a ele misericórdia para a mãe em troca do filho?
– Pedi… pedi a ele…
– Você me dá nojo – disse Dumbledore, e Harry nunca ouvira tanto desprezo em sua voz.
Snape pareceu se encolher um pouco.
– Você não se importa, então, com as mortes do marido e do filho dela? Eles podem morrer desde que você tenha o que quer?
Snape não disse nada, apenas ergueu os olhos para Dumbledore.
– Esconda-os todos, então – falou rouco. – Mantenha ela… eles… em segurança. Por favor.”

Harry Potter e as Relíquias da Morte

O ressentimento que sentia por Tiago passou a se manifestar como crueldade. Mesmo sacrificando-se para salvar o Mundo Bruxo e proteger Harry, a atitude de Severo com o garoto e com o restante dos alunos era tão prejudicial quanto o bullying que sofria por parte dos Marotos. Nas masmorras, o Mestre de Poções descarregava a própria frustração em crianças e adolescentes, a ponto de o maior medo de Neville Longbottom ser o próprio professor.

“Provavelmente ninguém o alertou, Lupin, mas essa turma tem Neville Longbottom. Eu o aconselharia a não confiar a esse menino nada que lhe apresente dificuldade. A não ser que Srta. Granger se incumba de cochichar instruções no ouvido dele.”

Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban

O conhecimento de Snape sobre os planos de Voldemort garantia a Dumbledore uma vantagem indispensável. Nos momentos certos, sua ajuda foi crucial para que Harry tivesse as ferramentas para destruir o Lorde das Trevas, mesmo que, para Snape, os fins justificavam os meios. Foi preciso permitir que os Comensais da Morte tomassem conta de Hogwarts e torturassem crianças para que ele mantivesse o lugar conquistado ao lado de Voldemort e completasse a missão dada por Dumbledore.

Se o mundo não se divide entre luz e trevas, Severo Snape tampouco. É raro um fã da série que não tenha uma opinião imutável contra ou a seu favor, e embora J.K. Rowling (e Harry Potter) considerem-no herói, defini-lo como herói ou vilão é simplista demais para representar um personagem tão intricado e multifacetado.