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Seção Granger: “Lembra aquela vez”, de Adam Silvera

No dia do leitor, a colunista da Seção Granger, Ana Alves Rolim, escreve sobre Lembra aquela vez, de Adam Silvera.

Em uma história sobre lembranças e descoberta da identidade, Adam Silvera nos dá um narrador cativante que nos engana e não nos prepara para o momento de dizer a verdade.

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”Lembra aquela vez”, de Adam Silvera
Por Ana Alves Rolim

Eu não lembro de um livro me fazer chorar tanto como Lembra aquela vez. Isso só aconteceu porque eu não sabia quase nada sobre a história ou sobre o autor, o que foi o grande trunfo da minha experiência de leitura.

Então, se você gosta de um bom Young Adult com temática LGBT cheio de plot twists, um narrador surpreendente, uma pitada de ficção científica e (re)descobertas pessoais, você já encontrou sua próxima leitura.

Aaron Soto mora no Bronx, em Nova York, com a mãe e o irmão. O adolescente tem um grupo de amigos do bairro e uma namorada que é sua melhor amiga. No início da trama, ele faz um novo amigo, Thomas, que abre seu mundo para uma nova perspectiva. Esse já seria um enredo interessante, mas essa é uma realidade em que o instituto Leteo existe, ou seja, alguns indivíduos podem optar por esquecer memórias dolorosas. Embora o instituto pareça estar sempre em segundo plano, à espreita, sua importância vai crescendo ao longo da narrativa.

É claro que uma história em que existe uma forma de esquecer traumas já deveria me dar uma pista de que algo não tão bom fosse acontecer, mas o destino de Aaron Soto é cruel. Aaron não é o tipo de narrador-protagonista valoroso que seria escolhido para a Grifinória. Suas escolhas são questionáveis, egoístas e, talvez por isso mesmo, realistas. Ele escolhe esquecer em vez de enfrentar, e o preço que paga é ser outra pessoa por alguns meses.

Até lembrar tudo de novo.

Em uma história sobre lembranças e descoberta da identidade, Adam Silvera nos dá um narrador cativante que nos engana e não nos prepara para o momento de dizer a verdade.

E se pudéssemos esquecer ou alterar alguma de nossas memórias? Isso nos tornaria plenamente felizes? É possível ser feliz fugindo de alguém que você é ou já foi? Qual preço estamos dispostos a pagar pela felicidade?

Não fazemos ideia de que estamos sendo guiados por um personagem que talvez saiba tanto quanto nós sobre ele mesmo. Leitor e personagem levam, juntos, um belo soco no estômago ao perceber que não somos donos do que recordamos.

336 páginas, Editora Rocco, publicado em 2017
Título original: More Happy Than Not
Tradução: Lucas Peterson.

Ana Alves Rolim é pós-graduada em Língua Inglesa e Suas Literaturas, tradutora do Potterish e colunista da Seção Granger.