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Seção Granger: “Tartarugas até lá embaixo”, de John Green

[borda1]http://cdn.potterish.com/wp-content/2017/10/15160855/Tartarugas-at%C3%A9-l%C3%A1-embaixo.jpg[meio]Ana Alves Rolim, colunista da Seção Granger, esteve em Nova York para o lançamento de Tartarugas até lá embaixo, de John Green. Seis anos após o lançamento de A culpa é das estrelas, o norte-americano retorna com uma trama investigativa que reforça o seu já conhecido talento para escrever frases de efeito e criar personagens emocionantes.

“Ao mesmo tempo em que nos faz compreender o grande desafio de Aza, o autor não nega os limites da empatia.”

Para ler a crítica, acesse a extensão deste post.

“Tartarugas até lá embaixo”, de John Green
Crítica por Ana Alves Rolim

Ele: Então o que eu sou? O que é cada pessoa?
Eu: “Eu” é a palavra mais difícil de definir.
Ele: talvez a gente seja o que não pode deixar de ser.

Seis anos depois de A culpa é das estrelas, John Green volta às prateleiras com um novo romance, Tartarugas até lá embaixo. Desta vez, embarcamos na história de Aza Holmes, uma adolescente com transtorno obsessivo compulsivo que concorda em desvendar um mistério e acaba reencontrando seu amigo de infância, Davis. Em meio à perda dos pais, a fanfics de Star Wars e a uma caçada de recompensa, o grande destaque é a espiral desafiadora que é a mente de Aza, retratada com grande profundidade pelo autor.

No lançamento do livro em Nova York, John Green iniciou o bate-papo dizendo que “Aza é uma detetive muito ruim”. O autor explicou que queria desromantizar a ideia de que transtornos ajudam a desvendar mistérios, como acontece em Sherlock Holmes e na série Monk, e mostrar que na verdade eles atrapalham sua solução. Com Aza (que compartilha o sobrenome do detetive inglês), vemos que o empecilho vai muito além disso: ela acha que pode não ser real. O turbilhão de pensamentos causado pelo transtorno cria a dúvida cruel e constante de quem realmente está no controle.

Tendo já passado por uma boa dose de terapia cognitivo-comportamental, você diz a si mesma: Eu não sou meus pensamentos, embora no fundo não saiba exatamente o que você é.

Ao lado de uma narradora que se sente presa na própria mente, iniciamos a história com uma caçada de recompensa. Daisy, melhor amiga de Aza, a convence a descobrir o paradeiro de um bilionário foragido, que por acaso é pai de Davis. Embora a busca seja o pano de fundo da história, ela se torna rasa ao lado de enredos psicológicos bem mais elaborados, que vão da ansiedade angustiante de Aza até a dor e a solidão de Davis. Até mesmo o mundo das fanfics de Star Wars escritas por Daisy é mais aprofundado (e verossímil) que a investigação superficial e quase inexistente.

Mas a angústia de Aza é sempre muito bem retratada. A maneira como a menina busca a auto-compreensão através da língua e seus pronomes é um dos pontos fortes do livro, assim como a reflexão sobre seu transtorno:

“Um dos desafios da dor, seja física ou psíquica, é que só podemos nos aproximar dela através de metáforas. Não temos como representá-la como fazemos com uma mesa ou um corpo. De certo modo, a dor é o oposto da linguagem.”

Entre as muitas metáforas construídas, temos a referência constante do céu evocando a sensação de união, outro tema que o autor destacou no lançamento do livro, em especial ao pedir para todos cantaram “We are here because we are here” (referência à Primeira Guerra Mundial) em homenagem a uma amiga do autor, falecida no início do ano.

Ao mesmo tempo em que nos faz compreender o grande desafio de Aza, o autor não nega os limites da empatia. Em determinado momento, vemos a própria narradora-personagem dizer que “No fundo, ninguém entende o que se passa com o outro. Está todo mundo preso dentro de si mesmo.” Assim, entramos na angustiante espiral junto a Aza, e vamos até lá embaixo com ela.

256 páginas, editora Intrínseca, publicado em 2017.
Título original: Turtles all the way down
Tradução: Ana Rodrigues

Ana Alves Rolim é pós-graduada em Língua Inglesa e Suas Literaturas, tradutora do Potterish e colunista da Seção Granger.