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Alfred Enoch escreve sobre crescer com duas etnias

Alfred Enoch, ator conhecido por interpretar Dino Thomas em Harry Potter e Wes Gibbins em How to Get Away With Murder, escreveu uma carta para uma versão mais jovem de si mesmo. Ele fez o texto para o Metro.co.uk como parte do Mês da História Negra.

Na carta, Alfred fala sobre como estar na América o fez consciente da sua etnia, de como esta mudava a visão dos outros sobre si. Ele afirma que a falta de consciência anterior é advinda de circunstâncias específicas, tendo uma mãe negra e brasileira e um pai branco e inglês.

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“Inevitavelmente sua perspectiva do que é ser inglês foi marcada pelo seu pai, branco, educado em escolas públicas e em Oxford e ator, que você viu pela primeira vez no palco interpretando Henrique V de Shakespeare (embora como o rei da França). Com isso em mente, e o fato de que você aproveitou dos mesmos extensivos privilégios educacionais, não é nenhuma surpresa que você não questione seu lugar numa sociedade onde nem todas as pessoas negras se sentem tão confortáveis quanto você. Não é nenhuma surpresa que você não questione seu lugar numa sociedade onde nem todas as pessoas negras se sentem tão confortáveis quanto você. Enquanto algumas cresceram sentindo falta da presença de pessoas que se parecessem com elas na televisão, você estava assistindo seu próprio pai” explica Alfred na carta.

Alfred fala depois sobre a difícil trajetória da mãe; ela foi a única estudante negra em seu ano na faculdade de medicina e cresceu sob a época da ditadura militar. Ela pagou a faculdade trabalhando como professora ao mesmo tempo em que estudava.

“O que nossa mãe nos deu foi a liberdade de tirar proveito de nosso conjunto único de circunstâncias e formar uma identidade fora da percepção de negritude como sinônimo de diferença. Mas na América, é precisamente sua identidade como desigual – tanto como estrangeiro quanto como uma pessoa de cor – que vai te dar uma nova perspectiva em sua etnicidade. Você vai começar a perguntar, pela primeira vez, o que é ser negro em uma sociedade predominante branca. Você vai ser desafiado por pessoas que você gosta, encorajado por pessoas mais desesperadas que você e bem recebido por pessoas desconhecidas a você. “

Alfred reconhece a singularidade da própria experiência. Ele finaliza a carta dizendo que foi a América que o ajudou a começar a ver a injustiça racial, e então a ver própria cegueira. Acesse a extensão da notícia para ler a carta na íntegra, traduzida pela nossa equipe.

Alfred Enoch, estrela de How To Get Away With Murder, escreve carta emotiva para seu eu jovem sobre crescer com duas raças
Metro.co.uk. – Alfred Enoch

Tradução:
Rodrigo Cavalheiro
Revisão: Nuara Costa

‘Querido Alfie,
Semana passada estive pensando bastante em Kwame Ture. Você não sabe quem é ele. E se eu usasse o nome Stokely Carmichael também não te serviria de nenhuma ajuda. Você também não conhece Angela Davis, Huey P. Newton, Bobby Seale, James Baldwin.
Eu não digo isso para te julgar. Eu só descobri quem Kwame Ture era na semana retrasada e eu não sou nenhum especialista nos outros nomes que citei.
Meu telhado é de vidro, então tenho cuidado ao jogar pedras. Com o tempo você também vai se tornar cuidadoso. É uma coisa boa. Você também vai se tornar mais consciente. De fato, a diferença entre nós não é um pífio conhecimento sobre a América negra no século XX, é que eu estou no começo de uma jornada que você ainda vai imaginar. Isso vai começar em 2014. Você vai conseguir um trabalho na América. Ele vai mudar sua carreira. Ele vai te mudar. Mais especificamente, ele vai mudar o jeito em que você se vê. Pelo o que eu acho é a primeira vez na sua vida, você não estará apenas ciente, mas consciente de sua etnia. Você vai ter consciência de como isso afeta o jeito que você é percebido, o jeito que você é tratado e de uma narrativa maior da qual você faz parte.
Sua falta de consciência — e pra reforçar, isso não é um julgamento e não vem de uma ‘percepção’ – é o resultado de suas próprias circunstâncias específicas. Ter uma mãe brasileira e negra e um pai branco e inglês te deu dois modelos muito distintos para as suas duas nacionalidades. Inevitavelmente sua perspectiva do que é ser inglês foi marcada pelo seu pai, branco, educado em escolas públicas e em Oxford e ator, que você viu pela primeira vez no palco interpretando Henrique V de Shakespeare (embora como o rei da França).
Com isso em mente, e o fato de que você aproveitou dos mesmos extensivos privilégios educacionais, não é nenhuma surpresa que você não questione seu lugar numa sociedade onde nem todas as pessoas negras se sentem tão confortáveis quanto você. Enquanto algumas cresceram sentindo falta da presença de pessoas que se parecessem com elas na televisão, você estava assistindo seu próprio pai.
Um amigo me disse uma vez aquela coisa que todas as mães negras dizem para seus filhos: “você tem que ser duas vezes melhor para conseguir a metade”. Sua mãe nunca te disse isso. Ela tem altas expectativas, mas ela nunca colocou isso em nenhum tipo de contexto racial. Ela nunca perturbou seu senso de pertencimento com avisos sobre aqueles que podem te ver diferente. Talvez isso tenha sido um risco, mas também foi uma façanha extraordinária de educar.
Ela cresceu em uma ditadura militar em um Brasil que era ainda mais desigual do que o que conhecemos hoje. Ela era uma das poucas estudantes negras em sua universidade, a única de seu ano na faculdade de medicina. Ela pagou a faculdade trabalhando como professora em uma escola no interior do Rio ao mesmo tempo em que estudava.
Nos anos 70 ela veio para a Inglaterra como estrangeira para cursar o mestrado, e nos anos 80 ela se mudou de vez. Ela experimentou racismo que nem você ou eu podemos imaginar. Isso foi uma façanha extraordinária de educar.
O que nossa mãe nos deu foi a liberdade de tirar proveito de nosso conjunto único de circunstâncias e formar uma identidade fora da percepção de negritude como sinônimo de diferença.
Mas na América, é precisamente sua identidade como desigual – tanto como estrangeiro quanto como uma pessoa de cor – que vai te dar uma nova perspectiva em sua etnicidade. Você vai começar a perguntar, pela primeira vez, o que é ser negro em uma sociedade predominante branca. Você vai ser desafiado por pessoas que você gosta, encorajado por pessoas mais desesperadas que você e bem recebido por pessoas desconhecidas a você. Você vai começar a ver a madeira tão bem quanto as árvores.
Agora eu vejo a singularidade de minha própria experiência. E embora eu seja grato pelo fato de que ela serviu para proteger meu senso de pertencimento e identidade daqueles que buscavam algo para me marginalizar, eu reconheço que isso também vem com um preço. Assim como acontece tantas vezes, meus próprios privilégios me cegaram para ver a dificuldade dos outros. Meu entendimento do funcionamento da sociedade era da nebulosa perspectiva de alguém que não havia sentido suas iniquidades.
Foi a América que me ajudou a começar a ver a injustiça racial, e então a ver minha própria cegueira. Tudo o que eu te peço é que você abra seus olhos.’