Animais Fantásticos e Onde Habitam

Stuart Craig fala sobre criação do MACUSA e da Nova Iorque de 1926

O designer de produção vencedor do Oscar, Stuart Craig, deu uma entrevista ao SnitchSeeker contando detalhes sobre a decoração artística do MACUSA e sobre como foi trazer a Nova Iorque de 1926 à vida.

“Jacob, o personagem, vive de maneira pobre no Lower East Side, em um apartamento de aluguel. Já o banco e os escritórios às margens são maravilhosos. Então sim, esse filme, ele tem muito contraste, há algo do mal acontecendo, há um tipo de triangulo amoroso legal acontecendo ao mesmo tempo. Algo para todos, incluindo aqueles fazendo o design e aqueles fazendo o filme.”

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O SnitchSeeker visitou o set de filmagens de “Animais Fantásticos” em dezembro do ano passado e teve a oportunidade de entrevistar alguns astros do filme. A entrevista completa Stuart Craig, traduzida em português, você pode conferir na extensão da notícia

Dirigido por David Yates e produzido por David Heyman, “Animais Fantásticos e Onde Habitam” marca a estréia de J.K. Rowling como roterirista e chega aos cinemas brasileiros em 17 de novembro.

Design de produção de “Animais Fantásticos” Stuart Craig fala sobre criar o MACUSA e a Nova Iorque de 1926
SnitchSeeker – 22 de outubro de 2016

Traduzido por Rodrigo Cavalheiro
Revisado por Bruna Lopes

Com menos de quatro semanas faltando para o lançamento do primeiro (de cinco) filme da série “Animais Fantásticos e Onde Habitam”, o SnitchSeeker lançará todo final de semana até o dia 18 de novembro várias das entrevistas realizadas nos estúdios com o time de produção e o elenco, quando fizemos uma visita aos estúdios em dezembro.

O primeiro é o designer de produção vencedor do Oscar, Stuart Craig, que forneceu muitos detalhes sobre o toque gótico na decoração artística do quartel-general do MACUSA no Woolworth Building, e sobre a quantia de conselhos e informações de pesquisas que recebeu de J.K. Rowling sobre trazer a lei seca da Nova Iorque de 1926 à vida em “Animais Fantásticos”, especialmente o bairro Lower East Side, o Zoólogico do Central Park e o bairro Harlem de Manhattan.

Craig, como todos os fãs devem saber, foi o designer de produção de toda a série Harry Potter e das atrações nos parques Mundo Mágico de Harry Potter na Universal Parks & Resorts em Orlando, Hollywood e Osaka, no Japão.

MACUSA

MACUSA

Aqui é uma engenharia reversa, porque a história acontece em uma época anterior, mas também geograficamente num lugar diferente. Você tem que se certificar de que ela se encaixa com o que vimos nos filmes anteriores, e ainda assim tem que realocar a história quase um século antes.

STUART CRAIG: Sim, no geral ela tem que se encaixar. A melhor parte é que era um novo tempo, um novo lugar, Nova Iorque em 1926. São dois períodos de tempo muito fortes em termos de arquitetura. A arquitetura medieval de Harry Potter e a arquitetura do século vinte daqui ainda não nos levam até a época do Empire State e do Chrysler, e aqueles edifícios com decorações artísticas impressionantes.
Eles não aparecem finalizados até 1931. Quer dizer, nós ainda estamos em 1926, mas mesmo assim, era muita coisa interessante para se fazer em um departamento de arte onde estão os arquitetos – você sabe, somos arquitetos de madeira compensada. Então foi legal poder fazer tudo isso.

Qual é sua parte favorita de trabalhar nos anos 1920? Com os cenários, com aquela era, pois eu estava falando com Mira e Eduardo no começo da semana, e eles estavam se divertindo muito com o design, eles adoram.

STUART CRAIG: Os gráficos, que é o trabalho deles, eram tão modernos, importantes e interessantes. Eu queria que pudéssemos ir todos no escritório, na sala deles e dar uma olhada. Você não acreditaria que alguns daqueles designs são realmente dos anos 1920. Eles são muito, muito bonitos. O legal desse projeto é que tudo é interessante, dessa maneira. Eles são muito extremos, tão, tão extremos em termos de animais fantásticos e criaturas– alguns são pequenos e alguns são absolutamente monumentais. Existem certos tipos de níveis sociais diferentes.
Jacob, o personagem, vive de maneira pobre no Lower East Side, em um apartamento de aluguel. Já o banco e os escritórios às margens são maravilhosos. Então sim, esse filme, ele tem muito contraste, há algo do mal acontecendo, há um tipo de triangulo amoroso legal acontecendo ao mesmo tempo. Algo para todos, incluindo aqueles fazendo o design e aqueles fazendo o filme.

Outra grande diferença além da época é também a configuração da cidade. E de várias maneiras a cidade se opõe à mágica porque é muito mais difícil manter o segredo quando há tantas pessoas em volta. E então, embora se passe em 1920, a tecnologia está começando a se tornar mais avançada e magia e tecnologia geralmente não se misturam bem. Então eu me pergunto, como é lidar com isso?

STUART CRAIG: Bem, a premissa essencial e a semelhança com Harry Potter é que o mundo mágico é invisível para o mundo trouxa, e a tensão ali é muito importante para a história. Você sabe, a coisa toda envolve o medo de ser exposto e assim vai. Então isso era de vital importância. E a segunda parte da sua pergunta era…

Era sobre trazer a magia para um lugar muito mais populoso de alguma forma. Embora seja um período de tempo anterior a Harry Potter, Nova Iorque é uma cidade onde as coisas acontecem de maneira mais rápida do que em um velho castelo escocês por exemplo. Era sobre como vocês criaram esta magia metropolitana.

STUART CRAIG: Sim. Claro. A coisa interessante sobre isto é… Harry Potter sempre pareceu um filme de época. E embora as crianças estivessem sentadas com camisetas, jeans e tal, ainda parecia um filme de época. Algo antigo, por volta dos anos 50, e tinha aquela sensação de personagens de um mundo antigo. E aqui, como você diz, o período muito mais antigo parece mais contemporâneo, muito mais urgente, menos suave na arquitetura e assim por diante. Tudo isto era interessante e contrastava positivamente, e eu acho que ter feito oito filmes de Harry Potter, este é um pequeno detalhe muito legal, tão recente e novo.

Você pode falar sobre o mundo mágico versus o mundo No-Maj, por exemplo, olhando para o design do Porco Cego? Parece ter essa área da proibição—uma vibe meio clube de jazz subterrâneo…

STUART CRAIG: Sim.

Nessas comparações, haviam certos elementos estilísticos que você queria mostrar? Eles se complementam? Você poderia falar um pouco sobre isso?

STUART CRAIG: Sim, eu acho que eles se complementam. Sobre o Porco Cego, eu penso sobre os filmes de Harry Potter, e neste novo filme houve um grande esforço para fazer tudo parecer real e até mesmo familiar. E com essa familiaridade, você olha para algo e acha que entende. E disso vem a magia.
Se um lugar é muito extraordinário para início de conversa, então a magia vai deixar de dar aquele impacto, de certa forma. Então eu acho que a estranheza do Porco Cego não está no primeiro olhar. É quando você realmente se envolve com os personagens e as conversas e realmente olha para a textura da parede atrás deles, que é meio úmida, suja, empoeirada, algo assim. É a exposição que os preocupa e a magia funcionando em algo aparentemente normal, e até contemporâneo em Nova Iorque. Uma coisa ajuda a outra, na verdade.

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A entrada do MACUSA me lembra a entrada do Ministério da Magia dos filmes de Harry Potter.

STUART CRAIG: Sim.

Você teve essa ideia de meio que transformar uma coisa na outra?

STUART CRAIG: Bem, é o estilo gótico. Nos filmes de Harry Potter e agora neste filme, nós fizemos o estilo arquitetural gótico sinônimo ao nosso mundo mágico. É assim que eles se parecem. Novamente, é exatamente isso. J.K. Rowling quem decidiu– ela pesquisou arduamente a Nova Iorque daquela época. E ela encontrou o Prédio de Woolworth Building em Nova Iorque. E o Woolworth Building, ela o transformou, e ele virou a sede do MACUSA. E a parte da decoração gótica não estava aparente pelo lado de fora. Mas do lado de dentro é onde fica a sede. Então, não apenas o estilo gótico que ela reconheceu e quis usar, mas também o grande arco de entrada. Logo em cima, no cume do arco, há uma pedra, uma coruja de pedra entalhada, parte da decoração dali. E eu acho que assim que ela viu aquilo, ela deve ter pensado: Eureca, é isso. É esse aqui. Então eles foram escolhas dela, na verdade.

Eu vi o metrô City Hall… e ela estava lá, o que foi maravilhoso. É um ótimo local. Você pode nos falar sobre os desafios de recriar alguns desses locais icônicos de Nova Iorque? Tipo o Woolworth Building e tal…

STUART CRAIG: Sim. A Estação City Hall ainda existe, mas ninguém tem permissão de entrar. Ninguém. Nós pedimos permissão para ir e só tirar umas fotos e não deixaram. Eu acho que é alguma medida de segurança. Na verdade, eu acho que essa é uma explicação perfeitamente plausível. Como sempre, durante todos esses livros, as descrições nos romances são muito, muito descritivos. E isso ajuda muito um designer, você sabe exatamente o que fazer e onde se focar.

Então, vocês tiveram que usar fotos para recriar aquilo?

STUART CRAIG: Foi exatamente o que fizemos. Pesquisar é tão mais fácil hoje em dia, faça uma pesquisa online. Transformou tudo o que fizemos, era muito fácil pesquisar e fazer desenhos arquitetônicos, e foi o que fizemos. Fomos muito fiéis na produção do City Hall. E o Woolworth Building, da mesma forma, nós copiamos o exterior, ou pelo menos o começo – dois ou três andares – de maneira muito fiel. E o lado de dentro, é claro, é o ambiente mágico que inventamos. Lá no fundo (risos) há um tipo de camada do lado de fora que parece ser escritórios de advocacia, contadores, tudo funcionando normalmente. Mas assim que você passa por isso, digamos que a pele exterior, você chega na parte mágica.

Houve algum detalhe ou áreas que você ficou obcecado, ou que você queria milimetricamente correta de acordo com a história? Eu acho que muitas delas. Nossos usuários do IMDb adoram curiosidades, então, teve algo com o que você ficou especialmente obcecado?

STUART CRAIG: Sim, as duas que já mencionamos e o Woolworth Building em particular. Quando eu fiz o primeiro design, Jo Rowling nos visitou e estava ciente dos modelos que já havíamos feito. E se você olhasse o formato das janelas do lado de fora, parecia com qualquer arranha-céu moderno. Ela estava preocupada e demonstrou essa preocupação, de que ele parecia muito moderno para esse mundo. E então nós fizemos alguns ajustes.
Nós colocamos mais elementos góticos do lado de dentro, mas não era nesse sentido que estávamos ficando obcecados, era sobre conseguir o tom certo para ela. Eu estou tentando lembrar se tinham… você quer coisas divertidas, não é? Têm vários objetos que nós fizemos- algo chamado monitor que monitora sua rota se você usar uma pulseira, como nossa heroína, Tina, usa no pulso. É simplesmente um rastreador, mas os criadores de acessórios se divertem muito com coisas como essa. Então você se torna muito obcecado com isso. Outra coisa grande era um relógio ou barômetro que mede o nível de ameaça, o risco que o MACUSA está sentido internamente, é meio como um termômetro de risco e nós ficamos obcecados com isso também, até o menor dos detalhes.

Além do MACUSA, há um outro lugar ou cenário que você espera que se torne, ou que poderia se tornar tão icônico quanto o Beco Diagonal, por exemplo?

STUART CRAIG: Novamente, eu acho que tem que ser o MACUSA. Há muitos outros cenários. Há o edifício residencial muito pobre, tem o edifício de pedra marrom típico de Nova Iorque onde as duas garotas vivem num apartamento. Quero dizer, cada um levou um tempo de nossas vidas para prepara-los: fazer o design, preparar e construir cada um. Como eu disse, todos eles têm aquele momento onde você se importa mais com ele do que com qualquer outra coisa. Mas nós paramos e olhamos para tudo. A sede do MACUSA e até mais do que isso, é claro, os animais fantásticos em si e onde eles existem escondidos dentro dessa pequena maleta.

Vocês tiveram que trazer a Nova Iorque dos anos 1920 para o Reino Unido, pois era onde estavam fazendo as filmagens principais. Como foi isso, e como você escolheu os edifícios que usou nos locais? Por exemplo quando você foi para Liverpool e usou a prefeitura deles?

STUART CRAIG: Nós tivemos que trazê-la para cá por razões práticas também. Achar Nova Iorque, a Nova Iorque dos anos 20, você consegue achar seis prédios separados, ou alguns prédios juntos, mas há tanta modernidade para se lidar. Não era prático e a mínima ideia de… eu sei que filmagens acontecem o tempo inteiro em Nova Iorque, mas gravar um filme todo nas ruas de Nova Iorque seria proibitivo em termos logísticos e financeiros. Então, tivemos que a construir.

E como foi isso? Como você escolhe os lugares, especialmente quando você sai dos estúdios em Leavesden para ir à algum local. Como você escolhe os edifícios mais semelhantes?

STUART CRAIG: Sim, a realidade é que existem pouquíssimos lugares. Na verdade, só tinham três, eu acho, e todas em Liverpool. E Liverpool, por causa das rotas, era o jeito que eles chegavam da Europa na América, particularmente em Nova Iorque, nos anos vinte. Kuehne e Wistow, todos essas rotas de navio famosas e navios famosos na Mauretania e na Aquitania. A influência se espalhou para os dois lados. Liverpool foi muito influenciada por Nova Iorque, e era muito rica por causa da rota e as indústrias envolvidas. Então Liverpool produziu alguns edifícios bem grandes, icônicos e fortes, arquitetonicamente falando, com o tipo de confiança e dinheiro de apoio que Nova Iorque tinha.
Então, fomos capazes de usar algo que era, na verdade, o escritório sede da Kuehne em Liverpool e o transformamos numa loja de departamentos. E havia um grande hall lá, St. Georges Hall em Liverpool, uma espécie de grande salão de reuniões que chamamos de Prefeitura em nossa versão da prefeitura de Nova Iorque. Mas do lado de fora, tudo foi construído, e foi muito difícil porque quando começamos Harry Potter, o primeiro e segundo filme, nós gravamos muito em locais existentes. Nós não tínhamos dinheiro para construir o mundo inteiro. Bem, aqui nós tentamos construir o mundo inteiro. Foi bem, você sabe… nós ficamos muito ocupados, como você pode imaginar. Acho que na nossa época mais ocupada, nós chegamos a ter entre 340 a 350 construtores e artesãos. Isso é um número grande para um filme. Bem, isso é normal para uma construção normal, mas–

Dada a riqueza do universo de Harry Potter e sua história, há muitos easter eggs ou referências nas coisas que vocês colocaram nesse filme que os fãs podem reconhecer como algo que aparece nos filmes de Harry Potter? Estamos trabalhando entre dois diferentes continentes…

STUART CRAIG: Bem, referências a pessoas é a maior conexão, na verdade, e há apenas algumas dessas, mas Dumbledore é mencionado, e é isso. É a referência para… eu não acho que tem algum objeto de cena em particular que apareça de um filme para o outro.