Animais Fantásticos e Onde Habitam ︎◆ Não categorizado

Eddie Redmayne fala sobre personagens LGBT+ e “Animais Fantásticos” em entrevista para “GT Magazine”

Faltando menos de vinte dias para a estréia mundial de “Animais Fantásticos e Onde Habitam”, a “Gay Times Magazine” – revista britânica destinada ao público masculino gay e bissexual – lançou uma longa entrevista com o elenco do mais novo filme sobre o Mundo Mágico de J.K. Rowling.

A longa entrevista foca bastante no Eddie Redmayne, que responde as mais diversas perguntas relacionadas aos personagens LGBT+ já atuados pelo ator e sobre sua nova experiência como o Newt Scamander. Confira abaixo uma parte da entrevista:

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“Ela também criou uma grande base de fãs LGBT+ para a franquia. Por que o Eddie acredita nisso? ‘Bem, Robert Pattinson está em alguns dos filmes, para começar’, ele ri. ‘Mas sério, o que é maravilhoso sobre J.K. Rowling é que ela alcança a alma de todos, basicamente’. O diretor de Hogwarts, Alvo Dumbledore, foi, é claro, revelado como gay. ‘Eu sinto que como ser humano ela é incrivelmente inclusiva’, Eddie diz de uma mulher que advoga a favor de direitos LGBT+ e que, quando alguns esbravejaram contra a revelação de Dumbledore, declarou: ‘Certamente nunca foi novidade para mim que um homem bravo e corajoso poderia amar outro homem’.”

Leia a entrevista completa traduzida pela nossa equipe, na extensão desse post.

DANÇANDO COM AGILIDADE

Traduzido por Rodrigo Cavalheiro

Revisado por Aline Michel e Vinícius Bellemo

A franquia Harry Potter é um fenômeno cultural que só acontece uma vez na vida. Nós, provavelmente, nunca experimentaremos algo assim em nossas vidas. Ela definiu uma geração e convidou milhões a explorar um mundo de fantasia e magia. Agora, cinco anos depois do último filme e nove anos depois do último livro, J.K. Rowling está nos convidando novamente para seu mundo magnífico com “Animais Fantásticos e Onde Habitam”. Nas próximas páginas, nós falamos com o elenco desse sucesso certeiro de bilheteria, incluindo o ganhador do Oscar, Eddie Redmayne. Além disso, exploramos os temas homossexuais que se escondem da vista do mundo bruxo…

Texto Simon Button 

Imagens Warner Bros

Ao ser perguntado por que ele escolheu interpretar diversos personagens LGBT+, Eddie Redmayne se acanha: “Há a ideia de que, como ator, você pode escolher, mas até muito recentemente, eu não tive escolha. Você faz audição para as coisas, para histórias interessantes, e se você for sortudo o bastante, consegue o papel”.

Isso mudou, ele admite, desde que ganhou o Oscar por sua genial interpretação de Stephen Hawking em “A Teoria de Tudo” e foi indicado novamente por sua tocante interpretação da mulher trans, Lili Elbe, em “A Garota Dinamarquesa”. Mas, apesar de ser agraciado com um Oscar, além do BAFTA e um Globo de Ouro, o critério do ator de 34 anos para escolher papéis continua o mesmo. 

“Para mim, tudo o que importa é que o personagem e a história sejam interessantes”, ele nos conta, quando nos encontramos no icônico Hotel Claridgeem Londres. “Eu tive muita sorte de interpretar muitos LGBT+ que são pessoas extraordinárias. Esse é um privilégio maravilhoso e um grande presente”.

Eddie, que também interpretou o apresentador bissexual de Cabaret no teatro, e foi uma mulher em “Uma Passagem para a Índia” na Eton e em “Noite de Reis” no Shakeaspeare’s Globe, fica feliz que atores heterossexuais não evitem mais esse tipo de coisa. “É algo que mudou”, ele acredita, reiterando seu ponto de que “atuação é uma indústria complicada e tudo que alguém sonha é contar histórias interessantes de pessoas interessantes”. Ele dá aquele seu sorriso amável. “Nós temos que ser muito sortudos para interpretar personagens LGBT+ interessantes”.

Eddie também tem sorte de estar protagonizando “Animais Fantásticos e Onde Habitam”, o esperado novo capítulo no universo de Harry Potter, roteirizado pela própria J.K. Rowling e dirigido por David Yates, que fez os últimos quatro filmes de Potter.

No espetáculo de fantasia-científica de alto orçamento, que certamente será um sucesso de bilheteria, o ator interpreta Newt Scamander – um bruxo excêntrico formado em Hogwarts, cujas aventuras entre bruxos e bruxas da Nova Iorque de 1920 formam a base da história, que se passa 70 anos antes de Harry.

Depois de interpretar um gênio da vida real, e depois de atuar na pele de uma das primeiras pessoas a passar por uma cirurgia de redesignação sexual, Eddie terminou por interpretar um personagem fictício – esse criado por uma mente muito fértil. “Eu apenas amo a imaginação de JK Rowling. Tendo interpretado algumas pessoas de verdade e tendo todo esse material base para me inspirar, foi tão maravilhoso interpretar alguém vindo da imaginação dela. Ela tem esse conhecimento enciclopédico dos seus personagens e de quem eles são”.

Ela também criou uma grande base de fãs LGBT+ para a franquia. Por que o Eddie acredita nisso? “Bem, Robert Pattinson está em alguns dos filmes, para começar”, ele ri. “Mas sério, o que é maravilhoso sobre J.K. Rowling é que ela alcança a alma de todos, basicamente”.

O diretor de Hogwarts, Alvo Dumbledore, foi, é claro, revelado como gay. “Eu sinto que como ser-humano ela é incrivelmente inclusiva”, Eddie diz sobre a mulher que advoga a favor de direitos LGBT+ e que, quando alguns esbravejaram contra a revelação de Dumbledore, declarou: “Certamente nunca foi novidade para mim que um homem bravo e corajoso poderia amar outro homem”.

Comemorando o louvor da autora, a blogueira da MTV, Victoria McNally, escreveu que embora a maior parte da história de Potter foque em Harry, Rony e Hermione, “Hogwarts não é um lugar desprovido de diferentes grupos étnicos, orientações sexuais ou identidades religiosas”. A própria J.K. tweetou em resposta: “Se Harry Potter nos ensinou alguma coisa, é que ninguém deveria viver num armário”.

Isso deve, em parte, ter levado o diretor de comunicações da Harry Potter Alliance, Jackson Birda, a se assumir como um homem trans. Ele recebeu uma enxurrada de tweets de apoio dos fãs. “Eles são uma comunidade amável, aconchegante e inclusiva e muitos deles são homossexuais ou trans”, Jackson respondeu. “Acho que a insistência de Harry Potter em ser amigo de pessoas – ou criaturas mágicas – que são diferentes dele e sistematicamente discriminadas, ressona com muitas pessoas que experimentam isso em nosso mundo”.

Eddie concorda. “Acho que há um senso em todos os filmes e livros, e certamente neste filme, o qual a J.K. está interessada na ideia de pessoas que são estranhas. Ela tem a noção de que a inclusão é essencial para tudo. Achar aquela inclusão é a chave e, certamente, isso é verdade no personagem de Newt neste filme. Ele é muito mais feliz na companhia de suas criaturas e nutre uma profunda paixão por elas. Ele não tem nenhum interesse em interação humana, mas gradualmente, ao longo do filme, uma das coisas que ele faz é achar seu lugar com amizade, suporte e gentileza”.

Em “Animais Fantásticos”, a atriz e cantora/compositora americana, Alison Sudol, interpreta Queenie Goldstein, uma Legilimente com sofisticadas habilidades de leitura mental. Descrevendo-se como uma nerd e quieta na escola, a mulher de 31 anos pondera os temas do filme: “Há elementos de medo – medo do que é diferente – segregação e as consequências de quando você bane alguém. Também, como você pode achar que alguém é muito diferente de você e ter medo deles, mas se você os conhece, você percebe que eles não são tão diferentes assim”.

“Esses são temas recorrentes desse filme. É sobre a beleza dos estranhos encontrando seu lugar, essencialmente, e como as pessoas podem florescer quando são vistas por outra pessoa que as entende. Não é um filme do tipo perseguição, explosão e peitos”.

Ele é, no entanto, uma grande produção que promete encantar tanto os olhos quando os cérebros. Os figurinos são de Colleen Atwood, que ganhou Oscars por “Chicago”, “Memórias de uma Gueixa” e “Alice no País das Maravilhas”. “Há um ótimo guarda roupa”, Eddie sorri. “Colleen é a melhor figurinista e ela é tão brilhante. Nós tivemos uma longa conversa sobre quem Newt era. Ele é muito particular. Tem essa qualidade muito inglesa, mas também pode colocar a calça dentro da bota e de repente, ele está mais para Newt Safari”.

Quando encontramos com Eddie, ele está vestindo calça jeans, uma camisa branca meio desarrumada e um suéter com mangas vermelhas, brancas e azuis que combinam com sua calça. Com seu rosto sem marcas do tempo e traços delicados, ele é realmente impressionante: não se parece com ninguém.

Ele se sente deslocado? “Sempre ouço gente dizendo ‘Você sempre interpreta deslocados’, mas não acho que alguém se vê como um – é como as pessoas te veem. Mas também sei que não quero necessariamente me encaixar no senso que todos têm de homogenia e do que não ser deslocado significa. Eu prefiro muito mais ser eu mesmo do que se encaixar em algum tipo de estereótipo genérico”.

Sua aparência, que ele concorda ter algo de feminino, o fez tão certo para “A Garota Dinamarquesa”. Perguntado se ele tem orgulho daquele filme, ele escolhe suas palavras cuidadosamente. “Acho que tenho orgulho de tudo o que faço, mas sempre acho falhas em tudo que faço também. Você espera se orgulhar de tudo porque você se dedica totalmente, mas, ao mesmo tempo, o que foi complicado naquele filme é que tinha uma história de verdade, tinha o livro que Lili escreveu – e era questionável se ela ou diferentes fontes escreveram – e tinha essa versão fictícia do livro de David Ebershoff”.

“Nosso filme foi uma adaptação desse livro e tem que ser visto neste contexto, mas o que me interessa é que a história de Lili é tão rica que na verdade daria uma minissérie incrível. Existem tantos detalhes complicados sobre a complexidade das vidas deles que não poderíamos nos aprofundar em um único filme”.

As reações da comunidade trans foram “completamente misturadas” com gente amando e gente odiando que uma pessoa trans não tenha interpretado a protagonista. Mas Eddie vê como uma adição pontual ao desenvolvimento de problemas trans. “Foi um período extraordinário para o movimento trans. Acho que eles estavam trabalhando no filme por 10 ou 15 anos, mas ele saiu numa época onde já houve muito progresso. O ponto sem volta aconteceu e as coisas estão progredindo e então o filme foi lançado numa época em que o mundo estava seguindo adiante”.

“Animais Fantásticos” entrou em sua vida depois de um encontro “super secreto” com David Yates em um clube particular em Soho. Eles estavam sentadoperto da lareira quando David começou a falar sobre o que eventualmente se revelaria o roteiro de J.K. Rowling, atraindo Eddie de volta de vez em quando para informa-lo sobre o que ela estava escrevendo. “No fim eu estava tão encantado”, diz Eddie, que ri do fato de ter levado sua pequena maleta para aquele primeiro encontro – uma coisa típica de Newt, muito embora ele não percebesse na época.

“Eu levo minha maleta para estúdios de filmagem e ela tem coisas para que eu me prepare. Eu vim direto do trabalho naquela primeira vez e ela estava comigo, então David disse: ‘Newt tem essa maleta’. Houve um momento embaraçoso quando eu estava começando a atuar e muitos de nós nos produzíamos para uma audição – tipo ‘Você coloca uma roupa estranha de Napoleão para o papel de Napoleão?’ – e foi meio que isso, embora não tenha sido de propósito”.

J.K. Rowling revelou que haverá CINCO filmes de “Animais Fantásticos”, e estar na franquia significa que Eddie ganhou seu próprio boneco Funko. “Minha esposa ficou meio depressiva por ele não ter sardas”, ele sorri. “Não parece muito comigo, não vou mentir”.

Colin Farrell está no filme como Percival Graves, que, como diretor de segurança do Congresso Mágico dos Estados Unidos da América, tem a tarefa de rastrear Newt. Ele não leu os livros mas amou como os filmes “demonstraram a importância da amizade, crescimento e o transformar da vida de um garoto ou garota em um homem ou mulher”.

O terceiro membro do elenco, Dan Fogler, mais conhecido por seu trabalho na Broadway, viu alguns dos filmes e gostou deles. “Mas eu achei melhor ir sem saber de nada porque meu personagem não é alguém que conhecemos”, ele diz sobre Jacob Kowalski, que acabou de voltar da Primeira Guerra Mundial e está planejando sossegar com uma família até ser arrastado em uma aventura louca por Newt Scamander. “Se eu fosse um fã viciado no universo de Harry Potter, não teria conseguido o papel porque eu estaria muito nervoso na audição”.

Eddie tem mais conhecimento sobre o universo Potter. “Acho que era meio velho para a primeira onda de fanatismo, mas meu irmão é seis anos mais novo e ele era obcecado com Potter. Ele me disse para ler os livros e, então, eu me envolvi com os filmes. Era um jeito maravilhoso de esquecer do mundo, de tempos em tempos poder mergulhar de novo naquele mundo meio familiar, mas mágico”. E “Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 2” ainda é seu preferido. “Eu achei ele muito operístico e sentimental e tem aquele duelo incrível entre Ralph Fiennes e Daniel Radcliffe”.

Eddie também era um mágico amador quando era mais novo, então “Animais Fantásticos” é uma espécie de trabalho dos sonhos. “Eu era tão obcecado por magia”, ele lembra. “Meu irmão mais novo era a plateia perfeita porque ele achava que tudo o que eu fazia era maravilhoso, então ele fez oito anos e ficou tipo ‘eu consigo ver como você fez isso’.

Ele costumava visitar a Davenports Magic Shop (Loja de Magia Davenports) no subsolo da Charing Cross “Ela ainda está lá e é muito Harry Potteresco, escura e misteriosa e tem esse corredor que meio que cheira a vômito e urina. Quando criança, eu costumava ir lá e comprar uma varinha dobrável e você podia comprar as ferramentas para serrar alguém no meio”. Eddie ri. “Embora eu não tenha tentado isso”.

Mal sabia Eddie que depois de tantos anos ele estaria fazendo mágica para um público totalmente novo – só que de um jeito diferente.


*Nota do tradutor: Tal procedimento é conhecido como “cirurgia de redesignação sexual” ou “cirurgia de confirmação de gênero”, tendo em vista que o gênero parte de identificação psicológica e não pode ser alterado por nenhum procedimento cirúrgico.