A Criança Amaldiçoada ︎◆ J. K. Rowling ︎◆ Seção Granger

Seção Granger: “Harry Potter e a Criança Amaldiçoada”

A Seção Granger de hoje é especial. No último domingo, 31, chegaram às prateleiras de livrarias de todo o mundo milhões de cópias de “Harry Potter and the Cursed Child”, livro que traz a transcrição do roteiro da peça homônima apresentada em Londres. A nossa equipe participou do grande evento de lançamento em São Paulo e organizou outros em várias cidades do Brasil. Hoje, trago a resenha crítica com spoilers levíssimos d’a oitava história.

“A história, como críticas de muitos jornais estrangeiros apontam, de fato traz a magia ao palco do Palace Theatre. Nas prateleiras, a coisa muda um pouco de figura, e por uma razão muito simples: não só de roteiro se faz uma peça.”

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Para ler o texto na íntegra, acesse a extensão do post.

“Harry Potter e a Criança Amaldiçoada”, de J.K. Rowling, Jack Thorne e John Tiffany
Resenha crítica por Pedro Martins

Produzida especialmente para o teatro e anunciada como “a oitava história de Harry Potter”, “Criança Amaldiçoada” estreou no último sábado, 30, em Londres. Quase simultaneamente, na meia noite do dia 31, aconteceu a publicação do seu roteiro transcrito em livro, algo que, diferente da peça, foi distribuído mundialmente. A história, como críticas de muitos jornais estrangeiros apontam, de fato traz a magia ao palco do Palace Theatre. Nas prateleiras, a coisa muda um pouco de figura, e por uma razão muito simples: não só de roteiro se faz uma peça.

Um roteiro não tem a capacidade de apresentar uma história sozinho: conhecer a trama somente por ele anula todo o imenso trabalho de mais de 120 pessoas, sendo 70 delas só da equipe técnica – figurino, cenografia, música, efeitos especiais, iluminação e tudo o que a quinta arte oferece. Mas também não pense que por conta disso você não conseguirá submergir na atmosfera da trama através do livro; pelo contrário: esse já é um mundo amplamente conhecido e, por ser um roteiro, os diálogos afiadíssimos também ajudam, então a leitura corre bem.

Desta vez, J.K. Rowling dedica o livro “a Jack Thorne, que entrou no meu mundo e fez coisas belíssimas por lá”. Thorne é o roteirista. Isso significa que, pela primeira vez, Rowling permitiu que outra pessoa escrevesse sobre uma nova trama em seu Mundo Bruxo. A autora, entretanto, acompanhou todo o processo, desenvolveu e aprovou a história com Thorne e John Tiffany, o diretor da peça.

Mas por que dizer tudo isso? Para que saiba o que tem em mãos e encare a história de maneira correta. Agora, vamos a ela.


As famílias Potter e Granger-Weasley na Estação de King’s Cross.

Dezenove anos após os acontecimentos da Segunda Guerra Bruxa, Alvo Severo, segundo filho de Harry Potter, está indo para Hogwarts – essa é a primeira cena do primeiro ato. Há um enorme peso sobre o sobrenome Potter: todos esperam que o jovem seja igual ao pai em gênero, número e grau. Ao menos a princípio, ele nada tem de semelhante a Harry. Isso acarreta problemas de aceitação, não só por parte dele mesmo como também do pai, do irmão mais velho (Tiago Sirius), da prima Rosa Granger-Weasley, dos alunos e até dos quadros de Hogwarts: “Alvo Potter. Uma irrelevância. Até os quadros se viram quando ele sobe as escadas”.

Ainda no Expresso de Hogwarts, Alvo começa a desenvolver uma amizade inimaginável: com um Malfoy, que também é diferente de todos os seus antecessores. Essa amizade é um dos pontos mais altos e apaixonantes da história, e é acerca desses dois que acontece o primeiro ponto de virada significante:

Tendo passado três anos miseráveis em Hogwarts, Alvo Severo escuta uma conversa entre Harry e um velho pai, acusando Potter aos prantos de ser a causa da morte de seu filho e pedindo que ele use um vira-tempo para resgatá-lo. Obviamente, sabendo que mexer com (e no) tempo é algo extremamente perigoso, Harry nega. Mas Alvo, sem saber dos perigos, querendo se provar, mostrar que o pai não é um deus e sendo persuadido por Delphi, uma nova personagem, resolve tomar para si a causa e convence Escórpio a se juntar a ele.

Respeitando a política anti-spoilers#KeepTheSecrets” e a ideia de que revelações sobre a trama podem estragar completamente a experiência dos leitores e espectadores, nada mais posso revelar. Mas posso discutir o fato de que “a oitava história” entra em conflito com as anteriores e com o material inédito escrito por Rowling para o website Pottermore.

Todos os vira-tempos foram destruídos na batalha do Departamento de Mistérios, em “Ordem da Fênix”, e o de Hermione, devolvido. Então como eles usam um nessa história? Esse é um vira-tempo que Harry Potter, chefe do departamento de Execução das Leis da Magia, apreende de Theodore Nott, um dos antigos amigos de Draco Malfoy nos tempos de escola. Até então, nada conflitante.

O vira-tempo é um objeto que, posto no pescoço, deve ser girado de acordo com a quantidade de horas que o bruxo deseja voltar no tempo. Em “Prisioneiro de Azkaban”, três voltas bastaram. Em “Criança Amaldiçoada”, esqueçamos o número de voltas, pois precisaríamos de milhares delas. Esqueçamos, também, porque não devemos exigir tudo ao pé da letra, e devemos considerar isso como um tipo de “licença poética teatral”.

O grande problema é que Rowling, há alguns anos, escreveu um texto para o Pottermore explicando os problemas que criar um objeto como o vira-tempo poderia trazê-la e como ela se preveniu deles. Afinal, como ficariam as suas tramas se os personagens tivessem uma ferramenta para voltar no tempo e resolver todos os problemas?

Na voz de Saul Croaker, um professor que trabalha no Departamento de Mistérios e passou toda a carreira estudando sobre magia temporal, Rowling revela que só se pode voltar no tempo cinco horas sem que o viajante sofra consequências “catastróficas”: “todas as tentativas de viajar de volta mais de algumas horas tiveram resultados catastróficos. Durante muitos anos, a razão pela qual os viajantes no tempo não sobreviviam às viagens a grandes distâncias seguiu sendo um mistério”. E, bem, sem revelar muita coisa, as consequências para Alvo e Escórpio são sem dúvidas severas e complicadíssimas de serem resolvidas, mas nem de longe catastróficas. Para outros personagens que viajam cerca de quarenta anos no tempo, absolutamente nada acontece.

E mais: esse texto não está mais disponível no Pottermore. Por quê? Não sabemos. Mas, caso queira lê-lo na íntegra, dê uma olhada no nosso antigo hotsite de traduções.

Além desse erro de continuidade, há alguns outros: uns simples e fáceis de serem corrigidos – explicarei posteriormente –, como desconsiderar que a Poção Polissuco leva dois meses para ser preparada, e uns muito problemáticos, como desconsiderar o feitiço Fidelius em certo ponto do roteiro. O maior spoiler da história, inclusive, não chega a ser propriamente um erro de continuidade, mas é tão inconcebível quanto.


Harry Potter (Jamie Parker) conversa com o filho Alvo Severo (Sam Clemmett).

E aí volta a tal licença poética teatral: Virág Venekey, que chefiou a equipe de tradução do Potterish há alguns anos, assistiu à peça e contou que “talvez os efeitos especiais sejam o que há de melhor nesse espetáculo. Imagine transformações causadas pela Poção Polissuco ocorrendo em pleno palco! Essa atmosfera incrível por muitas vezes era seguida de aplausos entusiasmados e, acima de tudo, merecidos”. Realmente, nem tudo o que funciona nos palcos também dá certo nas estantes.

Considerado o fato de que o livro publicado é a Edição Especial de Ensaio, que não traz a versão final do roteiro, ainda há uma chance de a equipe criativa consertar alguns dos erros na Edição Definitiva, que será lançada no início de 2017 e trará o roteiro aperfeiçoado junto de textos complementares e outros materiais inéditos. Em português, a Editora Rocco trará às prateleiras brasileiras a primeira edição daqui a alguns meses, em 31 de outubro.


Escórpio Malfoy (Anthony Boyle) e Alvo Severo Potter (Sam Clemmett).

Nossa, então tudo são espinhos? Claro que não.

Os sete livros anteriores também têm seus furos. Não que isso justifique os de “Criança Amaldiçoada”, mas voltar ao Mundo Bruxo após quase dez anos do lançamento da última história e passar mais alguns anos escolares em Hogwarts é, por si só, um grande ponto positivo. Revisitar alguns personagens dezenove depois é nostálgico de uma maneira que só os fãs entendem, e o livro chega até a esclarecer mais sobre alguns deles – fãs e haters de Severo Snape, preparem-se. Em suma, é uma leitura aconchegante em vários aspectos, mas que deve ser feita considerando todas as diferenças a que não estamos acostumados. Entretanto, se você pode assistir à peça, termine de ler esta crítica e vá correndo: como Thorne disse em seu Twitter, “é melhor assistir do que ler, mas reconheço que nem todos terão essa chance, então espero que o roteiro ofereça um tipo de substituição”.

352 páginas, editora Little, Brown and Company, publicado em 2016.
Título original: “Harry Potter and the Cursed Child”.

Pedro Martins descobriu a magia por meio dos escritos de J.K. Rowling aos oito anos. Com muita dedicação, essa paixão o tornou webmaster do Potterish.com e o possibilitou escrever sobre literatura para diversos portais, incluindo o britânico The Guardian.