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Magia do Cinema: “Ave, César!”

Marina Anderi, estudante de Cinema e Audiovisual da UFPE e Webmistress do Potterish, estreia a nossa nova coluna “Magia do Cinema” com a crítica de “Avé, César!”, nova comédia dos irmãos Coen que chega aos cinemas brasileiros hoje (14) pela Universal Pictures.

“A comédia, aqui, é muito forte. A ponto de concluir-se que o filme não passa de uma grande sátira que não se leva a sério exceto nos momentos com o protagonista. Os Coen utilizam-se de números musicais, aquáticos e afins bem mais como uma experimentação, uma vontade de utilizar gêneros que normalmente não caberiam em sua filmografia, e isso acaba diminuindo a questão central e trazendo à velha pergunta: essa cena serviu para quê?”

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Você pode conferir a crítica na íntegra acessando a extensão do post.

“Ave, César!”
Crítica cinematográfica por Marina Anderi

Os irmãos Joel e Ethan Coen vêm criando um nome para si há certo tempo. Não é à toa que “Ave, César!” conta com um elenco de grandes nomes que não necessariamente têm um papel de destaque. Um pretexto, porém, para criar várias situações e cenas cômicas nesse cenário Hollywoodiano repleto de gêneros impulsionados pela própria indústria.

“Ave, César!” é um filme grandioso. Também, não poderia ser diferente: passa-se nos anos 50, na época de ouro dos estúdios de Hollywood, que faziam diversas produções por ano e tinham os melhores atores e diretores a seu dispor. Um pretexto para filmar gêneros cinematográficos mais raros hoje em dia? Falaremos disso mais tarde.

Acompanhamos no longa o produtor Edward Mannix (Brolin), que se dedica a garantir que todos os filmes sejam feitos da melhor forma possível, inclusive sendo babá de várias celebridades para evitar escândalos. Quando o ator Hail (Clooney) é sequestrado, em meio a problemas de casting e propostas de emprego, Brolin tem de decidir se ainda quer salvar o dia.

O filme conta com histórias paralelas à principal, que nem sempre se relacionam com ela. Se não adicionam à narrativa necessariamente, ao menos têm importância de jornada pessoal. Uma delas é a de Hobie Doyle (Ehrenreich), um ator de faroeste que é subitamente escalado para participar de um drama e se vê despreparado para o desafio de, veja só, ter falas! Ralph Fiennes, como o diretor de drama Laurence Laurentz, é a figura imaculada de um sujeito estabelecido em sua profissão, mas ainda tendo de ceder aos desejos nem sempre sensatos do estúdio. O desenrolar do primeiro momento de Doyle tentando atuar seriamente – com Laurentz desesperado pela falta de jeito do garoto, mas tentando ser gentil – até o corte final do filme em que participa é certamente um dos momentos mais engraçados do longa.

A comédia, aqui, é muito forte. A ponto de concluir-se que o filme não passa de uma grande sátira que não se leva a sério exceto nos momentos com o protagonista. Os Coen utilizam-se de números musicais, aquáticos e afins bem mais como uma experimentação, uma vontade de utilizar gêneros que normalmente não caberiam em sua filmografia, e isso acaba diminuindo a questão central e trazendo a velha pergunta: essa cena serviu para quê?

É engraçado, claro, ver Channing Tatum dançando com marinheiros e falando sobre como sentirá falta de mulheres quando estiver ao alto mar. Mas, além do mérito de terem escolhido o ator justamente por ser conhecido e pelo choque que o público sente ao vê-lo num filme de diretores renomados (mesmo caso de sua ponta em “Os 8 Odiados”, de Quentin Tarantino), qual o objetivo narrativo? Mais problemática que ele, Scarlett Johansson tem uma pequena história que você vê, pouco se importa e logo esquece. Não é à toa que eu nem sei o nome dos personagens.

Há de se dar mérito acerca da sátira, principalmente ao brincar com o medo do comunismo que pairava nos Estados Unidos nos anos 50. Os comunistas são a piada destacada, mas nota-se que no fundo a grande piada é a forma que são vistos, não como são.

Deixei para o final o aspecto mais acertado e memorável do filme, ainda bem: Edward Mannix. Sempre de terno impecável, mas de uma expressão eternamente cansada, ele carrega o peso de uma indústria que tem regras demais e pouco espaço para deslize. Não vê a esposa e os filhos direito, o que o entristece, pois claramente demonstra interesse pela vida deles. Também confessa a um padre praticamente todo dia – ironicamente é um dos personagens que menos peca. É o único que no fim das contas tem controle sobre o que fazer da vida, e esse poder o desorienta na hora de fazer decisões que afetam sua esfera familiar.

Basicamente, Ave, César! é um filme engraçado, inteligente e que, quando acerta, acerta muito bem. Quando erra… Você está rindo tanto que só vai se questionar quando o longa-metragem acaba. Talvez não seja mais uma obra-prima dos Coen, mas, como é enfatizado diversas vezes pela política de estúdio, às vezes só uma boa história basta.

Direção: Joel Coen e Ethan Coen.
Roteiro: Joel Coen e Ethan Coen.
Duração: 140 minutos.
Estreia: 14 de abril de 2016.

Marina Anderi é estudante de Cinema na Universidade Federal de Pernambuco e Webmistress do Potterish.