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Entrevista a Jack Thorne: O escritor fala sobre a Operação Yewtree e transportar Harry Potter para a West End

O escritor Jack Thorne além de seus diversos trabalhos como os roteiros de “Skins”, “Glue” e “This is England” é agora conhecido dentre os fãs de Harry Potter por ser o responsável pela peça “Harry Potter and The Cursed Child”. Em uma entrevista ao Indepedent, o roteirista falou de Harry Potter, Operação Yewtree e sobre seu desejo de levar o bruxinho para West End. Atualmente, está trabalhando em uma peça da companhia de teatro de deficientes:

“É provavelmente a coisa mais importante que eu posso fazer”, diz ele. “É algo pela qual eu me sinto muito apaixonado; e ainda é a coisa mais difícil de conseguir personagens deficientes na TV.”

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Quanto a “Harry Potter and The Cursed Child”, Thorne se diz honrado ao ser o responsável por colocar palavras na boca de um Harry adulto.

Você pode conferir a entrevista completa no modo notícia completa.

Entrevista a Jack Thorne: O escritor fala sobre a Operação Yewtree e transportar Harry Potter para a West End.
Por Holly Williams
Traduzido por: Caroline Dorigon em 21/02/2016
Revisado por:Rodrigo Cavalheiro em 21/02/2016

Thorne escreveu roteiros para Skins, Glue, e This is England, entre outros, e é o cara que está colocando palavras na boca de um Harry Potter adulto para uma nova peça.

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Thorne confessa que sua mulher tem que ler seus e-mails para JK Rowling antes de enviá-los, “em caso de eu puxar muito o saco dela. Ela não quer me ver passando vergonha”

Seu rosto pode não ser familiar, mas há uma grande chance de você ter visto algum dos programas de TV de Jack Thorne – Skins, Glue, This is England ’86 (e ’88 e ’90, falando nisso), The Fades – ou talvez sua versão teatral de sucesso do filme de vampiros Deixa Ela Entrar, ou o drama de cortes orçamentais Hope, apresentado no Royal Court.

E se eu disser que ele é a nova JK Rowling? Neste verão (inverno no hemisfério sul), Harry Potter and the Cursed Child [Harry Potter e a Criança Amaldiçoada, em tradução livre] chega na West End, e Thorne é o cara que está colocando palavras na voz de um Harry adulto. Isso é, o homem de 37 anos diz, reconhecendo o peso da expectativa dos fãs, “uma honra”.

Tais expectativas já têm agitado com uma parte do elenco – Noma Dumeszweni, uma atriz negra, como Hermione. Isso colocou fogo na internet, mas para Thorne foi moleza: ela é uma atriz brilhante. E, de qualquer forma, ele é um escritor que gosta de ver coisas de formas diferentes – e escala suas peças diferentemente. Seu trabalho atual leva a companhia de teatro de deficientes Graeae ao National, e Thorne é um defensor confesso de grande diversidade nas artes. “É provavelmente a coisa mais importante que eu posso fazer”, diz ele. “É algo pela qual eu me sinto muito apaixonado; e ainda é a coisa mais difícil de conseguir personagens deficientes na TV.”

“Chegando no National esse mês depois de uma temporada de sucesso em Edimburgo e uma turnê, The Solid Lif of Sugar Water é uma desconcertante e indiscreta peça sobre um casal, Alice e Phil, que perderam um filho; os dois falam diretamente com o público sobre o natimorto, e suas dolorosas tentativas cômicas para se reconectarem através do sexo. Alice é interpretada por Genevieve Barr, que é surda, e Phil por Arthur Hughes, que tem um braço debilitado; a surdez dela é reconhecida, mas a deficiência não é um “tema” específico da peça.

A inspiração para a peça foi altamente pessoal. “Minha mãe teve um aborto muito tardio de gêmeos e teve que tê-los de parto normal”, diz Thorne quando nos encontrou em uma manhã cinzenta no National. “ Minha mãe é uma mulher muito valente, e ela teve quatro filhos depois disso – mas você ainda pode ver o que isso fez com ela, e com meu pai.”

Embora ele gagueje enquanto conta que “luta para articular emoções”, Thorne é notadamente aberto em relação ao seu trabalho e sua vida. “A outra coisa era, minha mulher e eu estamos lidando com problemas de fertilidade, e (escrever a peça) foi também uma tentativa de encontrar uma forma de falar sobre o que isso tem nos afetado como um casal.”

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“Arthur Hughes e Genevieve Barr na última peça de Jack Thorne, The Solid Life of Sugar Water.”

Quando seus pais assistiram à peça, acorreu “a mais emocionante” conversa que ele já teve com eles. “Particularmente com meu pai – nós apenas não temos essas conversas. Mas eu acho que foi uma coisa boa conversar com eles sobre isso, e eles sentiram que (a peça) era verdadeira de alguma forma à experiência deles, e é tudo o que você espera na verdade. “

Isso também provocou uma conversa profunda entre Thorne e sua mulher, a agente de comédia Racher Mason? Muito de The Solid Life of Sugar Water é sobre nunca realmente saber o que a outra pessoa na relação está pensando; há algumas partes que podem ser doces ou de comédia obcenamente explícitas de relatos contraditórios dos personagens sobre amor e sexo.

“Não, eu não falei conversei com a minha esposa sobre o que isso significa para nós, além de que ela é muito legal e eu sou meio idiota”, Thorne ri, identificando-se com Phil (“Claramente não o homem mais talentoso na cama”). Ele acha que é uma peça promissora, mas adiciona que críticos sugeriram que o casal está “condenado por causa de sua incapacidade de se comunicar corretamente; se este é o caso, talvez meu casamento esteja em mais em perigo do que eu pensei!”.

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The Solid Life of Sugar chega no National esse mês depois de uma temporada de sucesso em Edimburgo e uma turnê (Patrick Baldwin)

É a primeira vez, em seus 35 anos, que o Graeae se apresenta no National, em seu pequeno Temporary Theatre. E Thorne é rápido para sugerir que eles deveriam estar no palco principal: “Espero que nós estejamos apenas derrubando lentamente a porta. “ Ele mostra que a situação para pessoas deficientes, nas artes e além, está “tornando-se ainda pior com os cortes no Acesso ao Trabalho”. Aqueles recursos permitiam que empresas empregassem uma pessoa deficiente sem ter que arcar com os custos adicionais, criando condições de igualdade – em breve serão abandonos por cortes orçamentários.

Thorne tem experiência pessoal em viver com uma deficiência. Ele sofre de Urticária Colinérigica, uma alergia crônica ao calor – “Eu me tornei alérgico à temperatura do meu próprio corpo” – o que o deixou de cama por seis meses quando ele tinha 21 anos, e em dor quase constante na década seguinte. Naquela época, Graeae foi muito importante para ele: “(Eles) disseram: ‘Claro que você é uma pessoa deficiente.’ E foi o mais perto que eu já estive de um momento de sair do armário. Quando você está andando pelas salas dizendo, ‘Desculpe, eu não posso ficar nesta sala porque está muito quente’, ou ‘ Desculpe, eu não posso andar até tão longe’, ou ‘Desculpe, eu não posso trabalhar hoje porque estou com

dor’, você está constantemente tendo que explicar sua condição. No Graeae, eles não questionam isso.”

Hoje, Thorne não acha mais a condição tão debilitante para se considerar deficiente – embora ele ainda se desculpe muito. Ele pede desculpas infinitamente por estar atrasado; você percebe que esse homem alto e magro, que ainda parece comichar com energia nervosa, é uma pessoa preocupada. Ele é, com certeza, um batalhador – ele escreve todo dia, e costumava escrever durante as noites antes de se casar. Ele ainda acha que foi essa “compulsão” que causou sua doença – e é contra a romantização de estar doente. “Eu achava que as coisas que eu escrevi quando eu estava acamado seriam preciosas. Não eram. Foram as coisas mais auto-complacentes, as piores porcarias que você possa imaginar.”

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The Solid Life of Sugar Water uma desconcertante e indiscreta peça sobre um casal, Alice e Phil, que perderam um filho (Patrick Baldwin)

Ele pode ser auto-depreciativo, mas Thorne também confessa ser ambicioso. Ele era ainda mais quando era adolescente, morando em Berkshire – “Eu queria mudar tudo no mundo, e achava que podia”. Foi essa memória que inspirou seu programa de televisão mais recente, Glue, sobre adolescentes mal comportados, porém ambiciosos vivendo no interior. “Skins com vacas” foi uma descrição dela – apropriada, considerando que Thorne também era um escritor na série que se passava em Bristol com mais sexo entre menores e uso de drogas que um terrível pesadelo molhado de um leitor do Daily Mail.

Porque ele escreve tão frequentemente sobre adolescentes? “Eu me lembro o que era ser muito intenso – acho que é porque eu não era um adolescente particularmente bom, então eu sentei lá, assistindo…”

Ele não era nem de perto tão legal quanto os personagens dm Skins, ele me assegura: ele gostava mais de política do que de festas. “Eu era administrador do escritório da Juventude Trabalhista em Newbury, então eu fui para a conferência da Juventude Trabalhista em 1997. Foi a melhor época! ”

O que ele acha do Jeremy Corbyn? “Eu ainda não pensei nisso. Eu queria ele não tivesse (nomeado John McDonnel como chanceler sombra); você não dá aquele emprego para seu melhor amigo”. Ainda assim, Thorne acrescenta, o partido sempre foi mais sobre seus membros locais do que seus líderes para ele. “Eu fui secretário da minha divisão em Luton, e o Conselho de Luton tinha um monte de gente nele que eu pensava muito bem sobre. Enquanto aquele núcleo permancer, eu fico.“

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This is England ’86, que Thorne escreveu com Shane Meadows

Thorne trocou Luton por Londres há três anos, já que Mason trabalha aqui – ele se envolveu com política na capital? “Não – parcialmente porque eu não gosto muito de Londres. Eu estou procurando um jeito de ir embora!”

Esse verão, entretanto, com certeza será útil estar na cidade: Harry Potter and the Cursed Child estreia em julho, o ingresso mais desejado do ano. Thorne está ciente da pressão – e

dos olhares minunciosos – em cima dele e do diretor John Tiffany. “John diz que isso irá nos definir, seja bom ou não, e é verdade. (Mas) nós temos a oportunidade de alcançar uma plateia que nunca foi ao teatro e dizer, ‘Olhe a história que nós podemos contar.’ E isso é um verdadeiro privilégio. Então vamos esperar que nós acertemos.”

Já tem sido um escândalo que a peça tenha sido dividida em duas, ambas com preço padrão da West End. Thorne insiste que foi por razões artísticas, um desejo de criar um mundo mágico completo – apesar da sugestão ter vindo da produtora, Sonia Friedman. Então, houve a notícia de que Hermione seria interpretada por Noma Dumezweni. Rowling foi rápida em expressar seu total apoio, destacando que ela nunca disse que Hermione fosse branca.

Era como uma conquista animadora, eu sugeri, pensando que uma geração pode ter sua primeira introdução ao teatro com uma peça que diz, sim, um de seus personagens fictícios preferidos pode ser negro. “Sim, isso é importante. É todo um outro (lado da escolha de elenco). É interessante, toda discussão sobre diversidade e #Oscarssowhite [#Oscarstãobrancos]… é uma longa, longa jornada.“

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Glue tem adolescente mal comportados, mas ambiciosos que vivem no interior.

Um “grande fã de Harry Potter”, Thorne é mais que um apaixonado pela criadora do bruxo. “Jo é incrível, uma dama adorável. Ela é muito segura da pessoa que ela quer ser. Isso me ensinou horrores sobre como você se comporta.” De um jeito profissional ou pessoal? “Os dois. O simples ato de deixar outra pessoa escrever uma palavra que Harry diz é um gesto incrivelmente generoso. Ela é muito confiante, e está preparada para dizer, ‘Não, você entendeu isso errado.’ E então, como uma pessoa, ela está preparada para se arriscar em questões importantes. Eu a admiro.”

Ele parece um pouco encabulado, e confessa que sua mulher tem que ler seus e-mails para JK Rowling antes dele enviá-los, “em caso de eu puxar muito o saco dela. Ela não quer me ver passando vergonha. ”

O outro projeto de Thorne para 2016 não segue nem de perto a mesma linha de entretenimento familiar: National Treasure é um drama do Canal 4 que examina o impacto de alegações de crimes sexuais históricos, estrelado por Robbie Coltrane, Julie Walters e Andrea Riseborough. Naturalmente, foi inspirado pela Operação Yewtree e a onda de casos desde Jimmy Savile, mas National Treasure tem uma pegada menos preto-no-branco, e o drama é movido pela dúvida. “É tão frequente, ‘ele disse, ela disse’. É sobre a dúvida de alguém acreditar em você – o que faz um drama realmente intrigante.”

O programa também explora questões morais complicadas que Yewtree tem levantado. “Nós estamos certos em fazer tanto isso sob a luz pública? A polícia está certa em espalhar o nome de alguém porque se eles não o fizerem, outras vítimas não irão se apresentar? É uma área complicada”.

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Versão teatral do filme Deixe ela entrar (Idil Sukan)

A estrear mais tarde neste ano, National Treasure tem quatro partes, mas outro recente projeto de TV era um caso mais duradouro. This England ’90 – uma das três minisséries This is England que ele escreveu com Shane Meadows – foi promovida como a parte final quando ela foi transmitida no outono [primavera no Brasil]. Fãs desolados – sem mencionar o elenco – iram adorar mais.

“É com o Shane, “ diz Thorne, resignadamente. Ele tem apenas boas palavras para Meadows, observa: “Sentar em uma sala com Shane é uma experiência muito legal.“ É assustador escrever para ele? “Não, ele é tão descontraído – o homem já tirou sonecas na sala dos escritores… ele é adequadamente umbom sujeito.”

This is England tem sido um grande negócio para Thorne, que ama o filme original de Meadow, e ele compara começar a trabalhar nele à aproximação do amado Harry Potter. “Foi assumir essa coisa que era muito preciosa para mim, tipo, ‘Você tem que escrever para Woody, para Lol’… aquele sentimento que eu posso destruir alguma coisa que eu amo. Eu estou muito consciente de não querer estragar para mim, ou para outra pessoa.“

“The Solid Life of Sugar Water” está no National Theater, Londres, SE1 (nationaltheatre.org.uk) de sexta à 19 de março.