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Proibir ou permitir, eis a questão

Num período em que o extremismo religioso se faz presente e cresce nos quatro cantos do mundo, inclusive no Brasil, obras literárias e artísticas fantásticas são renegadas e até mesmo destruídas em atos de fanatismo. E com Harry Potter, tanto em épocas de lançamento de novos livros como agora, foi uma das obras que não passaram ilesas a essa movimentação.

Quem não se lembra dos livros queimados, dos longos tutoriais da internet orientando pais a não permitir o contato de seus filhos com a série, sob interpretações tortas de livros sagrados? Na coluna desta sexta nossa colunista Natallie Alcantara novamente nos brinda com sua costumeira inteligência, em mais um texto interessante e coerente. Não deixe de ler e comentar!

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“Eu, não somente como fã da série, mas como profissional bibliotecária e uma pessoa que passou a vida inteira com um livro enfiado debaixo do nariz (e eu não quero ser nojentamente metida, mas sim, eu já li de tudo um pouco), acho que banir uma obra literária é a maior asneira que alguém pode fazer. Será que aqueles que decidem banir um livro de uma biblioteca conhecem o ditado ‘Tudo que é proibido é mais gostoso’?”

Por Natallie Alcantara

Harry Potter é comprovadamente uma série de sucesso. Tanto seus livros que vendem milhões de cópias pelo mundo todo, quanto seus filmes que renderam uma quantidade imensa de produtos variados e um parque temático, apontam para o prestígio da ideia de um menino bruxo embarcando em um trem em direção a uma escola de magia.

Apesar de tanto sucesso e popularidade, a série também é controversa. Enquanto alguns veem nos livros questões morais importantes que chamam atenção até mesmo para problemas mais atuais, outros só conseguem enxergar a obra de Rowling como uma peça de enganação satânica.

Em muitos lugares do mundo, os livros foram queimados ou banidos de escolas e bibliotecas. As justificativas (ou desculpas mais esfarrapadas) para esses atos têm, na maioria das vezes, a ver com religião. Outras vezes, professores e bibliotecários só querem evitar problemas e questionamentos aos seus métodos de trabalho. De qualquer forma, os banimentos ainda acontecem.

Eu, não somente como fã da série, mas como profissional bibliotecária e uma pessoa que passou a vida inteira com um livro enfiado debaixo do nariz (e eu não quero ser nojentamente metida, mas sim, eu já li de tudo um pouco), acho que banir uma obra literária é a maior asneira que alguém pode fazer. Será que aqueles que decidem banir um livro de uma biblioteca conhecem o ditado “Tudo que é proibido é mais gostoso”?

Harry Potter, com sua história sobre magia, apresenta em seus personagens e temas três qualidades presentes em grandes livros de literatura infantis.

Livros literários infantis devem ter elementos apelativos à atenção de crianças. Elas devem querer ler. No caso de Harry Potter, as crianças não somente são atraídas por esses livros, mas são fascinadas por eles. Isso é claramente demonstrado em filmagens e fotos dos momentos dos lançamentos dos livros, quando crianças e jovem formavam filas quilométricas durante um longo tempo somente pela chance de ter em mãos o lançamento antes do público em geral.

Outra característica de um bom livro infantil tem a ver com sua qualidade literária. O livro não deve ser somente interessante (tanto no aspecto visual quanto no enredo), mas deve ter algum valor no mundo da literatura. Considerando a quantidade de prêmios literários que a série vêm ganhando, percebe-se seu valor. Vale falar também que Harry Potter foi medido de acordo com os mais altos padrões no campo da literatura infantil.

Finalmente, a mais importante característica de um bom livro infantil: a história deve levantar questões de profundo significado para o desenvolvimento ético da criança. A história de Harry Potter gira em torno da luta do bem contra o mal. Mais do que isso, o enredo mostra como as escolhas de alguém podem afetar a vida de muitos, de várias formas (boas ou não). Voldemort é a personificação do mal não somente quando adulto, mas desde sua juventude. A pena que o jovem Riddle pode despertar nos leitores (quando lembramos que a mãe morreu quando ele nasceu, que o pai não quis saber dele, etc) se choca com a percepção das escolhas erradas que ele fez (quando reconhecemos em quais momentos ele poderia ter agido diferente). Então vemos Harry, que de certa forma é semelhante a Voldemort, por ter crescido em um local sem amor, por considerar Hogwarts um lar de verdade, e por ter se tornado órfão em função de ações alheias, mas que, quando chega o momento, faz escolhas totalmente diferentes. Aqui é válido salientar que, apesar da semelhança existente no fato de Harry e Voldemort terem crescido sem suas mães, enquanto a mãe de Riddle não quis viver para ele, Lilian Potter optou por morrer pelo filho.

Assim, percebe-se muito mais bem do que mal em Harry Potter. Livros como estes, além de ajudarem os leitores a aprenderem a reconhecer a boa escrita, também os apresenta a questões morais que nos deparamos no dia a dia.

Natallie Alcantara promete jamais queimar livros nem mesmo em caso de nova era glacial.