J. K. Rowling

J.K. explica por que é contra o Boicote Israelita usando Dumbledore como exemplo

Na tarde de ontem (27) J.K. Rowling, por meio de sua conta no Twitter, utilizou-se de uma atitude de Alvo Dumbledore para explicar sua posição contrária ao boicote as universidades israelenses.

Mas antes de tudo vamos explicar o que é o Boicote Israelense. Ontem, um manifesto assinado por vários professores e pesquisadores britânicos foi divulgado. No manifesto, as universidades Britânicas propunham um boicote as universidades Israelenses. O motivo por trás do boicote seria a afirmação de que as universidades de Israel estariam de acordo com a violência que assola a faixa de gaza e Israel. Assim, por meio do manifesto, a maioria das universidades britânicas cortariam laços com universidades israelitas de forma a não mais desenvolver pesquisas ou travar qualquer tipo de relação acadêmica com elas.

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O manifesto, publicado com o Titulo de “A Commitment by UK Scholars to the Rights of Palestinians.” (Um comprometimento das escolas Britânicas com os direitos dos palestinos, em tradução livre), foi assinado por 345 professores universitários e pesquisadores e divulgado pelo Jornal The Guardian.

Contraria a essa posição, Jo, utilizou-se novamente de sua conta no Twitter para explicar as razões pelas quais ela crê que tal atitude não melhorará de forma alguma a situação daqueles que sofrem com a violência.

“Porque Dumbledore foi para a Colina”

Como no Twitter podemos apenas utilizar 128 caracteres para expressar nossas ideias, JK utilizou o TwitLonger para melhor expressar o que pensava sobre o assunto.

Você pode conferir o texto completo, traduzido para o português, de J.K. no modo noticia completa. E pode visualizar o Tweet em inglês, clicando aqui.

J.K. Rowling explica porque é contra o Boicote Israelense
POR QUE DUMBLEDORE FOI PARA A COLINA
Twitter – J.K. Rowling
27/10/2015
Tradução: Julianna Martins
Revisão: Bruna Lopes

Eu recebi várias mensagens nos últimos dias que usam os meus personagens fictícios para apoiar o boicote cultural Israelense. Isso não é uma reclamação: esses personagens pertencem aos leitores tanto quanto pertencem a mim, e cada um tem a sua própria vida na cabeça daqueles que os tenham lido. Algumas vezes a vida dos personagens imaginadas pelos leitores não é a que eu imaginei para eles, mas a graça dos livros é que cada um de nós fazemos o nosso próprio elenco mentalmente. Eu sempre gostei de ouvir sobre versões dos personagens de Potter que existem nas cabeças além da minha.
Muitas das mensagens que eu recebi nos últimos dias incluíam variações do tema “uma conversa não teria terminado a Guerra Bruxa” e em certas medidas, é verdade. Uma conversa por si só não teria parado a Guerra Bruxa e não parou. Voldemort acreditava que os não-bruxos eram sub-humanos, então é válido criar comparações entre Voldemort e qualquer ser humano real que vê as outras raças, religiões ou sexualidades como inferiores. Seria tolice tentar conversar com Voldemort ou Belatriz Lestrange para abaixarem suas varinhas pelo amor a seus companheiros humanos. Eles não têm amor à humanidade e queriam dominação, não paz.

Eu disse acima, e mantenho, que cada leitor tem o direito a sua própria versão dos meus personagens. Entretanto, existe um ponto central sobre a história do Potter que não é negociável: não podemos fingir que não está lá, ou que não importa, já que é um ponto crucial da história dos livros e de várias formas a chave da história. É também um ponto que o meu conhecimento (eu recebo várias mensagens, então não posso jurar) ficou perdido dentre as várias comparações de Israel com os Comensais da Morte.

No último livro, Relíquias da Morte, quando várias coisas secretas vêm à tona, tem uma cena numa colina ventosa. Dumbledore tinha sido convocado por um Comensal da Morte, Severo Snape. Naquele ponto, Snape é um contribuinte da filosofia desumana de Voldemort. Ele é provavelmente um assassino, certamente um traidor de duas das pessoas que Dumbledore mais amava, e o homem que mandou Voldemort atrás de uma criança inocente sabendo que ele o mataria.

De novo, que eu me lembre (minha memória não é infalível, então me perdoe se você perguntou isto) ninguém nunca me perguntou: por que Dumbledore foi [na colina ventosa] quando Snape o pediu para ir, e por que ele não o matou no momento em que chegou lá?

Eu acho que os leitores assumem que Dumbledore é esperto, inteligente e compassivo o suficiente para sentir que Snape, embora tenha levado uma vida adulta desprezível, ainda tinha algo humano dentro dele, algo que podia ser recuperado. Mesmo assim, independente de quão inteligente e presciente Dumbledore seja, ele não é um vidente. No momento em que ele atende o chamado de Snape, ele não tinha como saber se Snape iria tentar matá-lo. Ele não tinha como saber que Snape ia ter a coragem moral ou física para mudar de rumo, muito menos ajudar alguém a deter Voldemort. Ainda assim, Dumbledore vai para a colina.

Vou divagar muito levemente aqui, mas há um ponto relacionado que vale dizer. Dentre as mensagens fazendo paralelos entre os livros de Harry Potter e Israel tem muitos dizendo que “Harry estaria decepcionado” ou “Harry não entenderia” minha posição. Essas pessoas estão certas, mas apenas até um certo ponto bem claro. O Harry de seis livros e meio poderia não entender. Harry é descuidado e nervoso em uma parte considerável desses seis livros e meio e ele tem toda a minha compaixão. Ele perdeu a família, teve responsabilidades sobre ele que ele nunca quis, e foi estigmatizado por toda a sua adolescência por carregar em si uma cicatriz deixada nele por um assassino.

Chega um momento no último livro, entretanto, quando Harry – cujo primeiro pensamento é lutar, correr para a ação, assumir a liderança – é forçado a parar e considerar a mensagem enigmática que Dumbledore morto o deixou. Infelizmente, essa mensagem vai contra tudo que Harry acredita ser necessário para vencer a guerra. Ele quer correr até Voldemort com uma arma mortal, mas Dumbledore ajeitou as coisas de forma que, quando Harry soubesse da existência da arma, ele também iria suspeitar que pegar essa arma é a coisa errada a se fazer. Harry não consegue entender porque usar essa arma seria prejudicial, entretanto – de má vontade – ele decide agir de forma contrária ao seu próprio instinto, e de acordo com o que acredita ser o desejo de Dumbledore. Essa decisão não é confortável para ele. Ele continua com dúvidas sobre isto até perto do ponto onde ele fica cara-a-cara com Voldemort em seu encontro final.

Diferente de Harry, Dumbledore não estava indo contra sua própria natureza quando ele escolheu encontrar Snape na colina. Dumbledore, lembre-se, não é um político; o Ministério é fraco e corrupto, permitiu a ascensão de Voldemort e agora faz um trabalho porco em lutar contra ele. Dumbledore é um acadêmico e ele acredita que alguns canais de comunicação devem sempre permanecem abertos. Foi verdade nos livros de Harry Potter e é verdade na vida que uma conversa não vai mudar deliberadamente mentes fechadas. Entretanto, o curso da minha guerra fictícia foi mudado para sempre quando Snape escolheu abandonar o caminho que vinha percorrendo, e Dumbledore o ajudou a fazer isso. Sem a parceria deles a vontade de lutar do Harry seria inútil.

A comunidade Palestina tem sofrido incontáveis injustiças e brutalidades. Eu quero ver o governo Israelense prestar contas sobre estas injustiças e brutalidades. Boicotar Israel de todas as formas possíveis tem o seu charme. Isso satisfaz a vontade humana de fazer algo, qualquer coisa, em frente ao sofrimento humano.

O que me deixa inconfortável é que cortar contatos com a comunidade acadêmica e cultural Israelita significa recusar se envolver com alguns dos israelenses que são os maiores pró-Palestina e críticos do governo de Israel. Essas são vozes que eu gostara de ouvir amplificadas, e não silenciadas. Um boicote cultural cria barreiras impassíveis entre os artistas e acadêmicos que querem conversar entre si, entender um ao outro e trabalhar lado-a-lado pela paz. Eu acredito no poder de projetos como esses (http://ow.ly/TSYCp ; http://ow.ly/TSZYx ; http://ow.ly/TSYik). Eu acho uma tragédia quando pesquisas médicas como essa http://ow.ly/TSYoD são impedidas.

Eu realmente não levo a mal quando vocês me enviam contra-argumentos baseados nos termos dos livros de Harry Potter. Todos os livros que lidam com a moral podem ser tirados do contexto e colocados nos temas que melhor servem a perspectiva de quem está argumentando. Eu só posso dizer que uma discussão completa sobre moralidade dentro da série é impossível sem examinar as ações de Dumbledore, porque ele é a parte moral dos livros. Ele não considerava todas as armas iguais e ele estava preparado, sempre, para ir para a colina.