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Acordando com dementadores

A depressão é uma doença que afeta milhões de pessoas no mundo todo – e o número só aumenta. Como se não bastasse o mal que causa às suas vítimas, a depressão é negligenciada e os que dela sofrem, geralmente são alvo de preconceito. As pessoas tendem a julgar os depressivos como pessoas preguiçosas, indispostas ao trabalho, o que não é apenas uma ignorância a respeito da doença, mas também uma crueldade com as pessoas que padecem dela.

Nossa colunista Luciana Barbosa resolveu, de maneira sensível e brilhante, traçar na coluna desta sexta um paralelo entre a depressão e o mal causado pelos dementadores, algo que a própria J.K. Rowling já havia mencionado em outras oportunidades. Trata-se de um texto imperdível, e eu se fosse você não deixaria de ler e comentar!

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“Assim como ocorreu com Rowling, esse mal atinge homens, mulheres e até crianças por todo o mundo, embora poucos entendam suas causas e sintomas corretamente. Por isso a autora inseriu essa vilã na saga e fez questão de abordar o seu caso de maneira pública em entrevistas, chamando assim atenção para um problema que tantas vezes é tratado com preconceito e despreparo. Depressão não é preguiça; depressão não é loucura.”

Por Luciana Barbosa

Às vezes, a realidade dolorosa te atinge e afeta mais do que deveria, deixando as coisas todas sem sentido, enquanto você, mais solitário que nunca, encara nada disposto o fato de que o mundo se tornou um lugar frio e em tons de cinza. É claro que estou falando dos efeitos que os dementadores nos causam, certo? Talvez. Hoje eu acordei desesperançada e não enxerguei os vultos encapuzados de três metros a sugar minha felicidade.

Como potterhead, você deve saber que trouxas não veem os dementadores, embora sintam seus efeitos negativos como qualquer bruxo. Quando Joanne Rowling criou essas criaturas das trevas no mundo mágico de Harry Potter, falava de uma dor que ela mesma sentiu.

Dementadores são a representação fantástica da depressão, doença que altera o humor, gerando uma tristeza profunda e recorrente. A depressão não te deixa sentir mais alegria ou prazer nas coisas que antes te deixavam feliz. Ninguém melhor que Joanne para falar desse mal, uma vez que o sentiu na pele, quando se encontrou divorciada, pobre, com um bebê de colo e sozinha. A escritora, que enfrentou a depressão antes de escrever a saga do menino bruxo, pensou em cometer suicídio e precisou de ajuda médica para se recuperar.

A depressão materializada nos dementadores brota nos lugares mais sombrios e úmidos da terra, tendo o aspecto mais hediondo e desolador de todas as criaturas da saga. Envoltos em capas escuras e com corpos putrefatos, causam efeito mais devastador sobre Harry Potter do que qualquer outra criatura ou vilão existente nos livros. Eles se espalham pela terra causando a falta de esperança e autoestima que faz as pessoas acharem que jamais serão felizes outra vez. O ápice da violência de um dementador é sugar a alma do ser, o que faz da vítima vazia e condenada a uma existência praticamente vegetativa.

Assim como ocorreu com Rowling, esse mal atinge homens, mulheres e até crianças por todo o mundo, embora poucos entendam suas causas e sintomas corretamente. Por isso a autora inseriu essa vilã na saga e fez questão de abordar o seu caso de maneira pública em entrevistas, chamando assim atenção para um problema que tantas vezes é tratado com preconceito e despreparo. Depressão não é preguiça; depressão não é loucura.

Quando nos faltar o riso e a energia para encarar as adversidades, lembre-se de Joanne Rowling. Um bom pedaço de chocolate e ter os que o amam por perto é o primeiro passo para se recuperar dos efeitos de seus próprios dementadores. Se o quadro é recorrente, fortaleça-se sempre e procure ajuda médica, até que possa conjurar um patrono e viver livre dos efeitos dessa doença.

Luciana Barbosa estava triste quando escreveu esta coluna, mas me contou que recuperou a alegria ao ler uma passagem de Pirraça na série.