Série Cormoran Strike

Editora Hachette entrevista o narrador dos audiolivros da série “Cormoran Strike”

Em uma recente entrevista, o narrador dos audiolivros britânicos da série “Cormoran Strike”, Robert Glenister, falou sobre a experiência de narrar os livros que J.K Rowling escreveu sob pseudônimo e de sua fascinação com O Chamado do Cuco muito antes da revelação da identidade de Robert Galbraith.

“Eu sinceramente pensei que tinha sido escrito por um veterano militar, alguém que soubesse o que estava falando, porque ele passou por isso de alguma forma. Claro que se aposentou do serviço militar e aí pensou que agora iria escrever e, sabe, embarcar em uma carreira que ele sempre quis ter.”

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

A entrevista trouxe um olhar do ator sobre a série e foi conduzida por Mark Billingham, autor conhecido por seus romances de mistério e suspense. Glenister falou sobre como ficou animado com a leitura de “O Chamado do Cuco” e imediatamente sabia que gostaria de narrar o audiolivro de Robert Galbraith.

Faltando apenas alguns dias para o lançamento do terceiro livro da série, “Career of Evil” (Carreira do Mau, em tradução livre) também será narrado por Robert Glenister, que mal pode esperar pelo lançamento que acontece em 20 de outubro nos EUA e dois dias depois no Reino Unido.

O áudio original da entrevista, assim como a tradução feita pela nossa equipe, pode ser conferido no modo notícia completa.

Mark Billingham entrevista Robert Glenister
Hachette Audio UK
23 de setembro de 2015
Tradução: Bruna Lopes
Revisão: Aline Michel

Mark Billingham [MB]: Olá, sou Mark Billingham, sou escritor de romances policiais e às vezes leitor de audiolivros. Estou aqui entrevistando Robert Gleninster, que é a voz de Cormoran Strike. Ele leu “O Chamado do Cuco” para áudio, e acabou de gravar o novo romance de Robert Galbraith, “O Bicho-de-Seda”.

Robert Glenister [RG]: Isto mesmo. E alguns de seus livros também.

MB: Isso, você já fez vários audiolivros não é?

RG: Sim, sim. Acho que estou fazendo menos agora do que eu fazia antes, mas certamente acho que já li… Quantos dos seus eu já li?

MB: Seis, sete…

RG: Acho que li seis, deve ter sido seis. Mas aí fui deserdado pelo autor.

MB: Que está cometendo um erro terrível, devo dizer

RG: É mesmo?

MB: Bem, uma das coisas que acho muito difícil, e obviamente você sabe muito melhor sobre isto do que eu, é que quando Galbraith escreve, ele era galês, ela era galesa. Ele era do Sul da Galícia e ela do Norte. De repente eles estão todos juntos em uma sala. Eu tenho que ler, mas não vou diferenciar homem de mulher, pessoas velhas de pessoas jovens, mas os sotaques são tão difíceis.

RG: Tenho certeza que isso é falso. Tem uma história de alguém que estava lendo um audiolivro, era um trabalho de cinco dias, e eles leram completamente sem sotaque, e no final do último parágrafo tinha algo tipo ela ou ele disse “Naturalmente!”, uma linda expressão do dialeto galego ou algo assim. E eles não previram isto, então eles tiveram que gravar o livro inteiro novamente.

MB: Quais são os desafios de ler um audiolivro? O que faz deste trabalho diferente de atuar num palco, ou atuar na televisão?

RG: Acho que o andamento fica bem simples a partir do momento que você entende o ritmo da história. Você começa a ler na velocidade que seu cérebro está trabalhando, como se você estivesse lendo normalmente para si mesmo. Por isto precisamos voltar de vez em quando, porque fica fácil de atropelar as frases. E outra coisa é o que você acabou de falar, o fato de lembrar dos personagens. Pois certamente numa série de livros, como nos seus romances sobre Thorne, pode haver um ano inteiro entre as leituras e gravações. Então eu sempre ouço o livro anterior antes de narrar o próximo, porque… e como você disse, se você tem cinco ou seis personagens em uma sala, e eles são de gêneros diferentes, você tem que… É um pouco como se ouvíssemos as histórias de Shakespeare no rádio. Temos a época tal, o rei fulano, o lorde ciclano. É muito difícil identificar de quem estamos falando pelo som. Então você tem que ser muito específico, e dar a eles uma pequena peculiaridade, uma peculiaridade vocal, um suave tom de sotaque, talvez uma leveza, uma oitava acima ou uma outava abaixo. Então você sempre tem que ter em mente o ouvinte, pois também é muito fácil exagerar, principalmente se você consegue imitar vários sotaques. De repente você se torna cosmopolita demais.

MB: Mas quando você faz isto de maneira correta, você contraria aquele velho problema dos rádios de que a história desenhada é melhor, imagens são melhores. E quando eu converso com pessoas que ouvem audiolivros, elas se imergem de uma maneira que é muito mais profunda, às vezes, do que quando elas leem algo nas páginas.

RG: Sim.

MB: Eles podem ouvir sentados em seu carro, ou enquanto andam de metro, e por aí vai. E eles se distraem totalmente, sabe, perdem o ponto de descida.

RG: Ah sim, sim.

MB: Isso é algo bom de se ouvir, não é?

RG: Bem, eu espero que sim. Eu acho que isso também depende da escrita. Você não consegue fazer um material mais ou menos se tornar bom só por lê-lo bem. Então se você tem qualidade nas suas coisas, no “O Bicho-da-Seda” também, e “O Chamado do Cuco”, existe um prazer que uma pessoa tem como leitora em proporcionar as palavras de uma página para um ouvinte. Conheço pessoas que de repente começaram a ouvir pensando… enquanto estavam fazendo outras coisas, passando roupa, dirigindo. E de repente, eles ficam completamente imersos no livro.

MB: Eles queimam a roupa com o ferro.

RG: Eles queimam a roupa, batem o carro. E este é o prazer da coisa, quando as pessoas têm esta sensação de que tem de parar o que estava fazendo por alguma razão.

MB: Quando você foi apresentado pela primeira vez à Cormoran Strike em “O Chamado do Cuco”, você leu o livro e imergiu nele. No que você pensou sobre como trazer este personagem à vida?

RG: Bem, eu pensei sobre… Quer dizer, ela é bem específica no que se refere… foi dito bem no começo que ele tem uma voz profunda, mas eu não tenho particularmente uma voz profunda. Então tive que parar de fumar também, que muitas vezes ajuda…

MB: Sim.

RG: …a desenvolver uma voz profunda. Então houveram coisas como esta que eu me prendi, isto foi tipo um ponteiro de onde ele deveria ir. O fato dele também ser um veterano de guerra, o fato de que ele teve uma perna que foi cortada fora por um ataque, então acho há um tipo de pessoa danificada ali. É alguém tentando dar um jeito em sua vida, e de certa forma sendo bem-sucedida.

MB: Sim.

RG: Mas há sempre aquela lembrança de, sabe, o fato dele ter aquela prótese de perna, o fato de ele não poder fazer algumas coisas que um detetive normal pode fazer, como perseguir.

MB: Certo.

RG: Subir ou descer escadas correndo, ele não pode fazer isto. E se ele tentar fazer isto, ele vai falhar.

MB: Sim, é interessante que você disse “ela”. É claro que sabemos que “O Chamado do Cuco” e “O Bicho da Seda” foram escrito por uma mulher, mas não sabíamos disto quando você disse…

RG: Não, no ano passado eu não fazia ideia disto. Não, eu li… quer dizer, me mandaram este livro e perguntaram se eu gostaria de ler, disseram que foi escrito por alguém chamado Robert Galbraith, alguém que eu nunca tinha ouvido falar. Eu li e pensei “É bom demais para um primeiro romance”.

MB: Eu tive este mesmo pensamento, foi a citação que eu dei ao livro quando eu o li, achei fantástico, é difícil de acreditar que isto é um romance de estreia. E eu disse isto como um elogio para o romance. Mas não, eu absolutamente não fazia ideia, fiquei absolutamente chocado quando descobri.

RG: Eu sinceramente pensei que tinha sido escrito por um veterano militar, alguém que soubesse o que estava falando, porque ele passou por isso de alguma forma. Claro que se aposentou do serviço militar e aí pensou que agora iria escrever e, sabe, embarcar em uma carreira que ele sempre quis ter.

MB: O que tendemos ver acontecer numa série de livros que tem um protagonista que está em todos eles é que este protagonista cresce e se desenvolve.

RG: Sim.

MB: E geralmente isto pode levar alguns livros até este personagem se sentir totalmente desenvolvido, mas Cormoran Strike simplesmente “Boom”, instantaneamente.

RG: É isto mesmo, sim.

MB: Absolutamente saiu das páginas, e eu quis ler mais sobre ele.

RG: Sim. Quando você começou a escrever os romances de Thorne, você tinha alguma ideia de onde Thorne estava indo a cada romance, dado o fato que você previu que iria ser uma série de romances?

MB: Não, de verdade eu não sabia. Acho que você pode levar um personagem de uma série de livros de duas maneiras, não é? Você pode falar que é um dossiê dele ou dela, sabe, aqui é onde eles foram na escola, aqui quando tiveram um café da manhã, aqui é a árvore genealógica, sei tudo sobre eles. Ou você pode não fazer isso. Se você fizer isto, pode ser útil de alguma forma, mas eu vi que cria uma certa limitação ao fazer isto, então eu prefiro não saber. O que te coloca em apuros, porque aí eu ia sentar e pensar “quais eram as cores dos olhos dele mesmo?”, “qual o nome do seu primo?”, ou, sabe… E eu me pergunto como Robert Galbraith fez isto com Cormoran Strike, me perguntei se havia uma trama para Cormoran Strike, um plano para uma série de livros, eu não fazia ideia.

RG: Eu sei. É interessante a maneira que entre “O Chamado do Cuco” e o “O Bicho da Seda”, o que me chama a atenção, especialmente no segundo livro, é o desenvolvimento do relacionamento entre Cormoran e Robin, porque acho que ela se torna um personagem muito mais importante do que no primeiro livro, ela nos mostra que é uma pessoa muito mais determinada do que ela era. Então você consegue ver aquele relacionamento se desenvolver de forma bem estabelecida, eu acho, do que no segundo livro.

MB: Bem, uma dupla de protagonistas é uma coisa muito popular nos romances policiais da ficção. Do Holmes e Watson até Cormoran Strike e Robin.

RG: É sim.

MB: É ótimo ver este tipo de ficção.

RG: E Thorne e Hellen. Sabe, esta relação.

MB: Sabe, não é só sobre um detetive e um sócio. Pode ser um detetive e um amigo, ou um marido e mulher, o que quer que seja. É muito legal ver personagens se desenvolvendo juntos.

RG: Sim.

MB: E ver certa hostilidade, às vezes.

RG: Sim, hostilidade, e também ver um leitor ou ouvinte aprender sobre os personagens assim como eles estão aprendendo sobre um ao outro, o que eu acho que deixa isso muito… Acho que enriquece toda a jornada destas pessoas.

MB: E outro personagem principal do livro, claro, é Londres.

RG: Correto.

MB: Que precisa ser um personagem forte, se desenvolve, e nós vemos vários aspectos deste personagem em “O Chamado do Cuco” e “O Bicho-da-Seda”.

RG: Sim, e acho que o fato do escritório de Strike ser na Denmark Street, que é tipo um beco dos músicos populares. Ela é inteligente, porque ela simplesmente faz uma referência muito discretamente, como a garota que trabalha na loja de música no andar de baixo, coisas assim. E ainda há muito daquele sentimento evocador de lugares, sabe. Você sabe absolutamente onde está, e como você disse, Londres se torna um outro personagem na história.

MB: Londres é um lugar perfeito para se passar um romance policial.

RG: Sim.

MB: Porque tem o glamour, tem aquela percepção da história, aquela pompa e a beleza disto, mas por baixo dos panos, sabe? O que está acontecendo por trás da cortina? O que está acontecendo por baixo superfície? É um perfeito tipo de cidade de Jekyll e Hyde para se escrever, e ele/ela faz isto muito bem.

RG: Quando você começou a escrever os romances de Thorne, o departamento que ele estava trabalhando, que na verdade era em Colindale, foi algo que você disse por algum motivo?

MB: Não, era sim, e ainda está lá.

RG: Ainda está lá.

MB: Isto é uma daquelas coisas quando você escreve um procedimento policial, que felizmente é algo que Robert Galbraith não precisa se preocupar, porque ele é um personagem que trabalha como detetive particular. O nome de tudo muda a cada 6 meses, sabe? O departamento que Thorne trabalha muda de nome 6 vezes em 5 anos, e eventualmente você pensa “Quer saber? Vou chamar de Esquadrão do Assassinato”. E os leitores sabem o que isso significa, eu não quero dar a isto um acrônimo em particular. Acho que as vezes escritores, especialmente escritores de romances policiais, ficam meio perfeccionistas com pesquisa. Pode se tornar um fetiche, tudo tem que ter um nome verdadeiro, helicópteros da polícia, barcos da polícia, e as vezes eu penso “só continue com o livro, é a história que vale no final”.

RG: Sim, absolutamente. E acho que, já que eu sou londrino, e conheço Londres bem, e eu meio que conheço o Hendon na Colindale porque eu cresci em Harrow, e eu tinha muitos amigos que moravam na Edgeway, que é bem próximo de Hendon da Colindale. E eu também tinha vontade de ser um policial quando tinha meus 15 ou 16 anos, e fui para a Faculdade de Polícia de Hendon para um dia aberto de aulas, só para ver mais ou menos. E eu fui junto com um colega de escola, e ele conseguiu entrar na faculdade, e acho que agora ele provavelmente já está aposentado e se tornou, sei lá, um detetive ou um delegado em algum lugar e eu não. Eu pensei que talvez eu não daria um ótimo policial. Ao ler os romances de Thorne, foi interessante porque eu conhecia toda aquela área. Acho que como um leitor, se você conhece os lugares que você está descrevendo…

MB: Nossos leitores são assim, você acabou de me lembrar disto, “Detetive Thorne e Glenister, vocês vão ali”.

RG: Absolutamente.

MB: Quando você estava lendo “O Bicho-da-Seda” ou “O Chamado do Cuco”, aqueles personagens londrinos, você foi capaz de perceber se algum personagem tinha um sotaque do noroeste de Londres, ou este é um sotaque do Sul? Acho isso extremamente difícil.

RG: Não, eu não consigo fazer isso. Eu só uso um sotaque comum de Londres, com um tom maior ou menos quando necessário. Mas veja, eu não acho que um leitor necessariamente saberia a diferença entre sotaques do norte e do sul de Londres. Não sei nem se eu consigo, sério. Quer dizer, tenho certeza que há uma diferença, e eu moro no sul de Londres, mas acho que a diferenciação é tão pequena que você tem que ser muito audaz em termos de definição de personagens, em termos de sotaque. E como eu disse mais cedo, acho que… há certas coisas que são bem específicas. Havia um personagem, um personagem fantástico em um dos romances de Thorne que era o… Thorne o encontrou perto da bandeira do limão. Ah, esqueci o nome dele agora…

MB: Ah, o Betho.

RG: Betho! Betho! Isso mesmo! E ele era ótimo. Sempre me lembro dele por que ele era… de repente eu li sobre ele e já sabia como fazê-lo.

MB: Isso é uma das coisas que só os audiolivros tem, não é? Porque este personagem em particular é um velho gigante e bombado, mas…

RG: Com uma vozinha fina.

MB: Com uma voz de Mickey Mouse. Você agora é a voz de Cormoran Strike. E, claramente, estes livros são gigantes, e eles vão se tornar cada vez maiores. Você sente algum tipo de responsabilidade neste sentido? Que você é, para os leitores que apreciam seus livros em áudio, tanto aquelas que gostam de audiolivros quanto aquelas que têm problemas de visão, você é Cormoran Strike, e você sabe que nos próximos anos será o Cormoran Strike de novo. Isto é uma responsabilidade, você não acha?

RG: Sim, é mesmo. E é uma responsabilidade agradável de se ter. Fiquei muito feliz por ter sido convidado para fazer isto. Porque quando fui convidado para fazer, não fazia ideia que Robert Galbraith era J.K. Rowling. E fico me perguntando se eu tivesse este conhecimento, talvez poderia ter me adicionado uma pressão maior. Então eu acho que foi bom eu não saber disso.

MB: E você gostou de fazer o “O Bicho-da-Seda”?

RG: Claro, e estou animado para narrar o resto.

MB: Obrigado Robert.

RG: O prazer foi meu.