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A Varinha das Varinhas

Você decerto gostaria de possuir uma série de objetos mágicos, correto? Talvez uma capa da invisibilidade? Ou que tal um relógio que indica onde seus familiares estão, como o dos Weasley? Também creio que seria muito útil uma vassoura de corrida, para que você possa se locomover rapidamente, e digamos, com muita emoção.

Stefano Sant´Anna, um dos novos colunistas Potterish, nos fala na coluna de hoje sobre o objeto mágico mais cobiçado de todos: a varinha. Amada e temida, ela possui o poder da vida e da morte. E você possui o poder de ler e comentar!

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“Quando um mero mortal denominado leitor pega um livro de fantasia para ler, já espera que seja transportado para outro mundo, onde coisas sobrenaturais ganham a maior normalidade possível no mundo natural. Em Harry Potter, tudo isso pode acontecer na vida de uma pessoa comum desde que ela possua uma varinha. Que, por sinal, escolhe a pessoa.”

Por Stefano Sant´Anna

Quem nunca pensou em ter uma varinha de condão capaz de resolver problemas? Melhor: que potterhead nunca se viu diante de uma situação e, por poucos segundos, imaginou que se tivesse uma varinha do Sr. Olivaras em mãos, tudo seria resolvido em instantes?

Estou falando daquele troço que estava ali, há poucos segundos atrás, e agora você não sabe onde foi que enfiou. Accio. Ou talvez daquela mobília gigante que não se encaixa na arrumação desejada. Reducto. Aquele momento em que você falou uma besteira indizível ou revelou para alguém um segredo que deveria ter sido mantido a sete chaves. Obliviate. Poderíamos citar infinitas situações e palavras mágicas.

Até hoje, com mais de uma década após o boom de Harry Potter, as pessoas ainda teorizam sobre que razões levaram J.K. Rowling ao sucesso estupendo. As especulações e estudos parecem nunca acabar. E dentre os mais simples está um dos pontos mais interessantes: o simbólico que a varinha mágica (ou nos contos de fada, a varinha de condão) carrega consigo.

Quando um mero mortal denominado leitor pega um livro de fantasia para ler, já espera que seja transportado para outro mundo, onde coisas sobrenaturais ganham a maior normalidade possível no mundo natural. Em Harry Potter, tudo isso pode acontecer na vida de uma pessoa comum desde que ela possua uma varinha. Que, por sinal, escolhe a pessoa.

É um pouco mais do que aquela antiga história de que a espada escolhe o lutador, porque, teoricamente, um bruxo só pode ser um bruxo se puder dominar uma varinha. O que acontece é que roteiro de Harry Potter é tão envolvente que, quando mergulhamos nele, acabamos nos esquecendo de que tudo gira em torno, o tempo todo, da varinha. Sim, ela mesma. Instrumento poderoso que detém, inclusive, a vida ou a morte de um oponente. O que seria de todo o roteiro sem ela?

O ponto principal é óbvio. A varinha mágica parece convincente e atraente para o leitor porque todos desejamos realizar tudo o que queremos. Arrisco dizer que ninguém estuda por estudar, ou escolhe amigos por nada, trabalha por motivo algum… Como seres humanos e sociais, temos propósito na vida. Ainda que sejam mesquinhos ou, às vezes, pequenos demais, queremos que se tornem realidade. E logo!

Por isso, acho que o que faz de Harry Potter uma série diferente de muitas por aí é que a varinha que J.K. Rowling criou é bem mais do que uma arma letal como uma arma de fogo qualquer. Muito mais do que o arco-e-flecha de Katniss ou os dentes afiados de um vampiro, a varinha mágica tem o poder de criar.

As criações mais inimagináveis possíveis! Ela cria, transforma, intensifica, reduz, apaga, reitera, desconstrói o que não se pode construir, arruma e desarruma, veste, manipula, seduz, dá escape, faz sentir dor, e mata. A varinha é um objeto que eu e você gostaríamos de ter em casa. Talvez ela seria capaz de dar fim ao medo que sentimos, à ansiedade, à fome e também aos desejos mais cabulosos possíveis. Não sei dizer se o mundo seria pior ou melhor.

No final da história escrita, mesmo de posse da mais poderosa entre todas as varinhas, a que mais gerou transtorno, vinganças e perdas, Harry a desfaz. E com isso, deixa um pensamento. O de que, muitas vezes, aquilo que mais desejamos na vida pode ser aquilo que mais irá nos afastar de tudo o que é bom. Acontece sem que a gente perceba. O desejo pelo poder é sutil. Ter inveja se torna normal, a soberba serve para nos fazer adoráveis cócegas, a vingança é como um prato que degusta aos poucos. Nos contamina, suga nossa energia e estipula um preço alto por cada partícula de prazer.

E talvez você pense que eu esteja indo longe demais, mas, no fundo, acho que foi exatamente isso que J.K. Rowling tentou mostrar para todos, se aproveitando das formas mais incríveis do mundo.

Resta saber se seus ávidos leitores continuam pensando a respeito, ou se sequer perceberam os valores morais. Porque enquanto estivermos buscando a varinha das varinhas para satisfazer nossos próprios benefícios, estaremos todos correndo o risco de ganhar diversas batalhas, mas, no fundo, no fundo, perder a vida.

Stefano Sant´Anna me pediu para não contar a ninguém, mas ele usou uma varinha para escrever esta coluna incrível.