Artigos

Sirius Black: culpa e castigo

As nossas colunas estão de volta, pessoal! Nossa equipe agora conta com membros novos, cujas colunas você poderá acompanhar a partir da semana que vem, todas as sextas-feiras!

E para retornar com todo o gás, nossa veterana Juane Vaillant escolheu analisar a fundo um dos personagens mais queridos dos fãs: Sirius Black. Nossa colunista buscou elementos ao longo de toda a série para compor o texto que você vai ler hoje. Aguardamos os seus comentários!

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

“O julgamento é o caminho mais fácil. E Sirius é um prato cheio. Imprudente, arrogante, com fortes tendências a quebrar as regras. Quem vai duvidar? Até que lhe dão voz, para ele sair do posto de vilão e se tornar um dos personagens mais amados da saga. Alguém que passou doze anos preso por um crime que não cometeu. E suas características de ‘vilão’, logo passam a ser vistas como as de alguém que está quebrado por dentro.”

Por Juane Vaillant

Você começa a ler Harry Potter. A figura de um menino deslocado, magricela e órfão te pega pelo braço. Você torce por ele. Vibra quando começa a entender o rumo da história, se choca ao saber que seu passado foi ainda mais perturbador que o presente. Antes da página cem você já se envolveu demais para simplesmente deixá-lo ali.

No meio do caminho dele – que a esse ponto já virou o seu – surgem pessoas que você aprende a amar e a odiar e, na maioria das vezes, faz isso através dos olhos de Harry. Sirius aparece como mais um que você quer odiar, porque esteve envolvido com a tragédia central dos livros, a morte de Lílian e Tiago.

“O Prisioneiro de Azkaban” é um livro maroto. Não só por nos apresentar essa turminha do barulho, mas principalmente por ser um fingidor. Finge contar a história de um traidor, assassino em massa, comensal da morte… Mas nos conta a história de um injustiçado. Ele mostra todos os horrores de Azkaban, fala sobre a infância de Sirius, sua amizade com Tiago… Você deve odiá-lo, sim, porque ele é um traidor. E ao longo do livro, percebe que o traidor é você. Você mesmo, que leu o livro, assim como todos os amigos de Lílian e Tiago, não deu uma chance para ele. Acreditou na versão antes mesmo de ouvi-la por inteiro. Não que você tivesse escolha. Mas a narrativa te põe nesse lugar, para te perguntar, o que você faria?

O julgamento é o caminho mais fácil. E Sirius é um prato cheio. Imprudente, arrogante, com fortes tendências a quebrar as regras. Quem vai duvidar? Até que lhe dão voz para ele sair do posto de vilão e se tornar um dos personagens mais amados da saga. Alguém que passou doze anos preso por um crime que não cometeu. E suas características de “vilão”, logo passam a ser vistas como as de alguém que está quebrado por dentro.

Mas por que amamos Sirius? Simples. Ele é uma pessoa palpável. Até demais. Ao mesmo tempo em que foi terrivelmente julgado, ele também é um grande julgador. Cria seus desafetos e leva isso até as últimas consequências. Mesmo dizendo que todos têm um pouco de luz e trevas, ele não vê luz em quem ele não quer ver. Como fez com Snape e Régulo, por exemplo, que no final das contas, também foram mal interpretados.

Nesse ponto, o(a) leitor(a) sabe que Sirius está errado, mas se não toma partido, ao menos consegue entendê-lo. Porque já sentiu na própria pele, como é tentar muito perdoar alguém, mas por muito tempo não conseguir. É algo que não desce na garganta, um sangue quente que sobe. Um sentimento tão humano quanto o de sobrevivência.

E foi, afinal, o que o fez conseguir sair de Azkaban. Mas você já se perguntou o que o fez ficar? O que fez ele suportar os primeiros anos, sem saber de nada, sem a menor chance de vingança? Sabemos, ao certo, que não foram sentimentos felizes. Na minha humilde opinião, foi outro sentimento tão amargo quanto vingança. Culpa.

Mesmo que não tenha cometido o crime pelo qual foi preso, ele se culpa pela morte dos amigos, como disse a Harry, Rony e Hermione. Mas não só por isso. Sirius cresceu em um ambiente hostil e quando sua vida parecia boa ao lado dos amigos, ele se vê dentro de uma guerra. Como é perceptível, ele não teve tempo de amadurecer. Os sentimentos dentro dele são sempre conflituosos e efusivos. Sirius é, no fim das contas, o maior inimigo de si mesmo. Sendo um julgador, julga mais a si mesmo do que qualquer um.

A impressão que temos, ao ler “A Ordem da Fênix” pela primeira vez, é que Sirius teve um final trágico. Que não teve tempo. Mas ao encontrá-lo, com a ajuda da pedra da ressurreição, vemos que está tudo bem. Ele cumpriu sua missão ao deixar Azkaban. Foi um dos responsáveis por não deixar Harry de desviar do seu caminho. Ele perdoou a si mesmo, afinal.

Juane Vaillant esclarece que já releu “O Prisioneiro de Azkaban” oito vezes para se redimir da culpa de ter um dia visto Sirius como vilão.