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Entrevista com Ryta Vinagre, a tradutora dos livros policiais de J. K. Rowling

Tradutora dos livros de J. K. Rowling sob pseudônimo de Robert Galbraith no Brasil, Ryta Vinagre conversou com o POTTERISH sobre os bastidores da tradução de O chamado do Cuco e O bicho-da-seda.

Os livros são os dois primeiros volumes da série policial Detetive Cormoran Strike, publicados no Brasil pela Editora Rocco, que também editou Harry Potter.

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A Rocco comprou os direitos de publicação do primeiro livro antes de saber que ele havia sido escrito por J. K. Rowling. Quando foi contratada, você já sabia? Isso ajudou ou atrapalhou, em virtude das expectativas que os fãs teriam?
Fui informada pela Rocco, no ato da contratação, que o livro era de J. K. Rowling. Antes disso, pediram-me informações de currículo em inglês, sem que eu soubesse do motivo, sondando minha disponibilidade. A revelação à imprensa e ao público em geral de que a Rocco adquirira os direitos do livro sem saber da verdadeira autoria, se não me falha a memória, viria poucos dias depois de minha contratação. É claro que saber que por trás da autora havia uma legião de fãs ansiosos criou uma certa tensão, talvez tivesse sido melhor se eu ignorasse quem era o verdadeiro autor do livro.

Você estudou as traduções dos outros livros da autora, principalmente as de Harry Potter, para se preparar para traduzir Cormoran Strike?
Não. Já havia lido três volumes da série Harry Potter muito tempo antes e confesso que não fixei o estilo; mesmo que tivesse fixado, eu procuro ser fiel ao original, e não a traduções anteriores do mesmo autor. Às vezes, a leitura de outras traduções me confunde mais do que auxilia. Quando da contratação do primeiro volume, O chamado do Cuco, eu nem teria tempo para ler absolutamente nada: o prazo era irrisório e tudo foi feito com muita rapidez. Alguém pode argumentar que do primeiro para o segundo volume tive tempo suficiente para estudar pelo menos superficialmente a obra de Rowling no original, e de certo modo teria razão. Mas foi um ano de muitos trabalhos urgentes e não consegui ler nada além dos livros em que trabalhei na época.

Voltando à pergunta, a “inspiração” para qualquer tradução que pego é o original em que trabalho, sempre, salvo instrução em contrário da editora e, neste caso, não houve nenhuma neste sentido.

Qual é sua rotina de tradução?
O processo que adoto é sempre o mesmo: não leio antes o livro porque quero ter a sensação do leitor, tentar ler com os olhos dele, envolver-me na história como o leitor que pega o texto pela primeira vez. Na única ocasião em que li o livro antes de começar sua tradução, todo o encanto do livro foi para o ralo quando comecei a trabalhar nele. Prefiro ter o encantamento da primeira leitura fresco no ato da tradução.

De modo geral, a tradução é feita em três etapas. Na primeira, que chamo de “texto sujo”, a tradução é digitada à medida que leio e deixo no original tudo que penso poder melhorar depois, com base numa pesquisa mais acurada. A segunda etapa é a limpeza desse texto: o livro passa por uma primeira revisão, tudo que ficou por resolver é solucionado, os erros de digitação e de redação devem ser corrigidos, a tradução é confrontada com o original, linha por linha. Depois disso, faço uma última leitura de todo o livro, que chamo de ajuste fino, em que procuro refinar a redação e pegar qualquer besteira que eu tenha deixado.

Quanto tempo você teve para traduzir estes livros?
Tivemos, eu e a preparadora de originais, dois meses para concluir o trabalho. Dois meses para que mais de 400 páginas fossem traduzidas e sua tradução revisada. No período, eu vivi apenas para isso e mais nada. Acordava Rowling, almoçava Rowling, jantava Rowling, dormia Rowling.

Para o segundo volume, O bicho-da-seda, havia a expectativa de que o prazo para trabalhar seria maior, mas esta não se confirmou, porque o original foi enviado pela editora britânica em cima da hora, bem no laço mesmo; mais uma vez, tínhamos dois meses, eu e a preparadora de originais, para liquidar uma tradução e copidesque de mais de 400 páginas. A diferença é que não havia mais o faniquito da Grande Revelação e o processo, para todos, imagino, acabou sendo mais tranquilo. De qualquer modo, um livro complexo de 400 páginas exige pelo menos quatro meses para uma tradução impecável. Só para a tradução. Mas tivemos todos – tradução, preparação de originais, editoria, marketing, produção, revisão, composição, gráfica, vendas, distribuição, todos –, de fazer o melhor possível neste mesmo período de tempo.

(Imagens: Editora Rocco/Divulgação)

Você encontrou algo que tenha sido particularmente difícil de adaptar ao português?
De adaptação complicada foi o linguajar de vários personagens em O chamado do Cuco: um jamaicano, uma mulher positivamente ignorante, uma doente mental, em que Rowling reproduz por escrito o modo como falam. Transpor isto para outra língua, qualquer que seja, é um desafio. Além disso, J. K. Rowling tem um texto complexo, cheio de elipses. Não é uma tarefa fácil.

Um dos fatores que contribuem para uma boa tradução é a experiência do tradutor com o gênero literário em questão. Você costuma trabalhar com romances policiais?
Tenho experiência [com romances policiais], em particular nos últimos cinco anos. É um gênero que me agrada muito. Para a Rocco, mesmo, traduzi e ainda traduzo policiais. Sou muito fã de Ruth Rendell, Patricia Highsmith e dos contos do argentino Roberto Arlt. Não traduzi nenhum destes – infelizmente. Dos livros em que trabalhei, gosto muito do Bruce DeSilva: é de outra vertente, do gênero criminal/jornalismo investigativo, às voltas com mafiosos de Rhode Island e as agruras de um jornal à beira da falência, repleto de personagens singulares e um humor muito fino.

Qual é seu gênero favorito para traduzir?
O gênero de minha preferência de trabalho… pergunta complicada. Acho que gosto mais de trabalhar em romances narrados em primeira pessoa, de preferência na voz de alguém com alguma peculiaridade que o difere muito dos que o cercam. Foi ótimo, por exemplo, trabalhar com o texto de As vantagens de ser invisível e de A menina que tinha dons, um livro ao mesmo tempo perturbador e encantador. Onde a lua não está foi outro trabalho que me deu muito prazer. Os três têm em comum a narração em primeira pessoa de um protagonista que se sente deslocado no mundo.

A tradução ao pé da letra de uma língua para outra pode tornar-se confusa, pelas diferentes culturas dos países. Nos livros de Cormoran Strike, há elementos tipicamente britânicas, por exemplo. Como lidar com isso?
Respeitando as idiossincrasias daquela cultura ao mesmo tempo em que se adapta o que seria incompreensível para o leitor de língua portuguesa. Não há outra solução. Mantenho sempre os topônimos no original, porque creio que ajuda na ambientação da história – não imagino um Sherlock Holmes, por exemplo, morando numa “rua Baker” ou, pior, numa “rua do Padeiro”. Quando leio Baker Street, caio em Londres. Topônimos e nomes ficam no original, sempre. Quanto às questões linguísticas e de especificidades culturais do país, a única saída que tem um tradutor consciencioso é respeitar o original até o limite da incompreensão e então adaptar, tentando transpor – com a maior fidelidade possível à intenção do autor – qualquer expressão que não tenha correlato imediato no português, com o mínimo de interferência no texto, sem descaracterizar a narrativa, procurando não “embaçar” as imagens criadas pelo autor e, nunca, jamais subestimar a capacidade de compreensão do leitor. O original é rei, o autor é soberano, mas a tradução precisa ter algum espaço de manobra, ou o resultado será de leitura impossível. E, claro, é preciso ter muita atenção e calma para não cair na pegadinha das expressões idiomáticas.

Na internet há críticas negativas à tradução destes livros. Você chegou a lê-las? Como lida com críticas?
Não li, mas agora que você falou nisso, talvez eu procure. Se a crítica é fundamentada, é muito bem-vinda. Não tenho como saber onde estou errando se ninguém me apontar o erro. E se ninguém me apontar o erro, corro o risco de, por ignorância, continuar a cometê-lo. O que me desagrada é que muitos leitores bastante desinibidos nas críticas são justo aqueles que praticamente exigiram o livro para ontem e não consideram, em suas críticas, que toda a pressa só pode produzir um texto com problemas.

Não quero, com nada disso, afirmar que a “culpa” ou responsabilidade pelos problemas localizados nos livros seja do leitor; longe de mim fazer afirmação tão estapafúrdia. A realidade é que nos “livros-coqueluche” todo o processo de produção parece começar pela demanda e vive em função dela. Se a demanda é ansiosa, toda a cadeia é contaminada. Tradução, copidesque, revisão são trabalhos que exigem raciocínio, pesquisa e reflexão. Requerem calma. É impossível refletir, pesquisar e raciocinar a jato, e ainda por cima o tempo todo.

Também me desagrada muito ler “críticas” do tipo “Eu odeio Ryta Vinagre” de pessoas que não me conhecem nem dizem por que me odeiam. Certa vez, procurando não me lembro o que no Google, dei com um “A editora entregou a tradução praquela vaca da Ryta Vinagre”, o que me fez rir muito, em especial pela construção da frase, mas foi um riso amargo – “vaca” por quê? Um nome que aparece no crédito de um livro não é só um nome, ele pertence a alguém. Também não entendo um “Eu amo Ryta Vinagre” com a mesma ausência de motivos, mas pelo menos este não fere. Atualmente, não procuro mais as críticas dos leitores. Ninguém precisa aturar trollagem! E, entremeando a crítica fundamentada, aparecem uns “trocentos trolls”; na internet, é praticamente impossível ler um sem ter conhecimento do outro.

Você notou diferenças no texto de O bicho-da-seda comparado com o de O chamado do Cuco?
Sim, notei. Pode ser só impressão minha, mas me parece que n’O chamado do Cuco Rowling estava mais insegura na redação, enfeitava demais, beirava o barroquismo. Afinal, era a estreia de Robert Galbraith e mesmo uma escritora experiente como J. K. Rowling deve ter sentido seu friozinho na barriga quando trabalhou nele – para o mundo, era o livro de um escritor desconhecido que se atiraria no mercado sem nenhuma referência anterior. Em O bicho-da-seda já noto uma narrativa mais solta e mais segura, embora preserve o estilo da autora – e, para meu agrado, o crescimento de Robin Ellacott, personagem que acho que ainda pode engolir Strike, se Rowling deixar (mas não vai, né?).

J. K. Rowling disse que planeja mais de sete livros para esta série e, muito provavelmente, o lançamento do terceiro será nos próximos meses. Você continuará traduzindo as histórias do detetive Cormoran Strike?
Enquanto a Rocco quiser, continuarei a fazer a tradução da série. A decisão é da editora.

Para finalizar, você tem alguma especulação particular sobre os personagens e, talvez, sobre o enredo?
Enredo, não. A diferença na trama dos dois livros é muito grande, não deixa pistas do que pode vir por aí. Nem imagino. Quanto aos personagens e como disse antes, pressinto uma Robin muito maior, capaz de amarrar mais o leitor do que Strike.