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Os Contos de Beedle, o Bardo enquanto pseudotradução

As colunas do Potterish estão de volta, pessoal!

E para retornar com força total, nossa colunista Natallie Alcantara traz hoje uma análise sobre a abordagem de J.K. Rowling em “Os Contos de Beedle, o Bardo”, abordagem que prosseguirá na semana que vem em outra coluna! Não deixe de ler e registrar seu comentário!

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“A autora, ao transformar Hermione Granger em tradutora, assume o papel de mera editora do livro”

Por Natallie Alcantara

TRADUÇÃO E PSEUDOTRADUÇÃO

O conceito de tradução varia tanto de acordo com a polissemia do termo quanto de acordo com as diferentes perspectivas dos teóricos da tradução. Apesar do fato de que a atividade tradutória seja antiga, os estudos acadêmicos referentes à tradução são mais recentes.

Um estudioso muito conhecido dentro dos Estudos da Tradução, André Lefevere, aborda a tradução como reescrita, afirmando que ao traduzir uma obra literária, ela é reescrita e transformada em outro texto, já que a reescrita requer introduzir novos elementos. Ao se analisar um texto traduzido para se conhecer suas características, deve-se também observar a cultura na qual ela (a tradução) será introduzida. Gideon Toury, outro estudioso, nomeia o texto traduzido como “Assumed Translation”.

Dircilne Gonçalves, autora que aborda a questão da pseudotradução em alguns de seus trabalhos, afirma que esse o texto chamado Assumed Translation obedece a três postulados. O primeiro deles, o postulado do texto-fonte, pressupõe a existência de outro texto em outra língua, o qual serviu como ponto de partida para a tradução. Este primeiro texto pode ser uma ficção, ou uma pseudofonte. Assim, a tradução desta pseudofonte será uma pseudotradução, O conceito de tradução como parte de uma narrativa fictícia dá ao texto uma validação, o que é corroborado pelo fato de autores como Rowling recorrerem a pseudotradução como moldura para suas histórias.

‘OS CONTOS DE BEEDLE, O BARDO’ COMO PSEUDOTRADUÇÃO

Ao apresentar um texto original como sendo uma tradução, ocorre uma pseudotradução, cuja prática ocorre devido a objetivos variados: a inserção de um novo elemento em determinada cultura; o autor que se arriscar em um gênero diferente; o drible da censura; responder aos interesses editorias e comerciais; e conferir autoridade política e/ou religiosa para convencer o público e ganhar simpatizantes.

Kamyle Dinah Alcantara, em seu trabalho acadêmico sobre o “Conto dos Três Irmãos”, afirma que, dentre estes motivos, somente o último deles pode ser considerado quando se pensa no motivo de J.K. Rowling ter escrito Os Contos de Beedle, o bardo como pseudotradução. A autora, ao transformar Hermione Granger em tradutora, assume o papel de mera editora do livro. E ao deixar o foco narrativo no livro em terceira pessoa, a autora não dá o poder de ser onisciente a sua narradora-tradutora. Mas torna sua pequena obra mais especial, dando a sua série inteira um quê de tradição e de profundidade cultural.

A próxima coluna de Natallie Alcantara está pronta para ser publicada, mas por enquanto, só eu li e sei que você vai me invejar por isso.