Animais Fantásticos e Onde Habitam ︎◆ Filmes e peças

David Heyman fala sobre “As Aventuras de Paddington” e “Animais Fantásticos e Onde Habitam”!

David Heyman, produtor dos oito filmes da série “Harry Potter” e também de “Animais Fantásticos e Onde Habitam”, recentemente foi entrevistado pelo portal Crave Online, onde conversou sobre o sucesso de seu novo filme “As Aventuras de Paddington” e de seu trabalho com J.K. Rowling em “Animais Fantásticos”, entre outros assuntos.

O filme, adaptação dos romances infantis de Michael Bond, não é só para crianças, assim como os livros, como explica Heyman:

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“Eles são ótimos! São muito engraçados e eu estava maravilhado que havia humor que eu gostasse, e não só as crianças. Quando nós estávamos fazendo o filme, essa foi uma decisão muito consciente…”

Sobre a mensagem que o filme traz, Heyman diz:

“eu acho que a mensagem é a bondade com estranhos, o que um estranho pode trazer para você…”

Quando questionado se “As Aventuras de Paddington” poderia se tornar uma franquia de filmes, Heyman admite:

“É tão engraçado. Eu nunca vi Harry Potter como uma franquia em potencial, e acho que isso é uma coisa muito perigosa, olhar para qualquer filme como uma franquia. Eu acho que o que fizemos no Potter e o que fizemos nesse filme é tentar fazer o melhor filme possível. Se fizermos um bom filme e se há audiência o bastante, então há a possibilidade de fazer mais um. Se fizermos outro, nós teremos que fazer melhor que este, e assim por diante. Porque você não pode encará-la como um objeto, e eu espero que você sinta quando assistir o filme, que ele não é um produto.”

E ainda responde à pergunta: “Porque eu acho que nos livros que você conseguia adaptar as coisas, mas agora que está no script você pode mudá-lo? Afinal, foi J.K. Rowling quem escreveu…”.

“As Aventuras de Paddington”, adaptação do romance infantil de Michael Bond, traz em seu elenco alguns rostos familiares de “Harry Potter”, como Imelda Staunton (Dolores Umbridge), Michael Gambon (Alvo Dumbledore a partir de Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban), Julie Walters (Molly Weasley), e Jim Broadbent (Horácio Slughorn), todos na dublagem do longa metragem, já que este se trata de uma animação.

Vele lembrar que algumas artes conceituais deste filme foram feitas por Jim Kay, ilustrador da nova edição de “Harry Potter e a Pedra Filosofal”, como informamos anteriormente.

Para conferir a entrevista traduzida na íntegra, vá ao modo notícia completa!

DAVID HEYMAN
As Aventuras de Paddington: David Heyman sobre “Animais Fantásticos” & Colin Firth

Crave Online ~ William Bibbiani
13 de janeiro de 2015
Tradução: Carolina Portela
Revisão: Luly Miranda

CraveOnline: Eu cresci com uma leve noção sobre Paddington. Acho que li um pouco dos livros, mas eles não foram parte de minha infância.

David Heyman: Sim, sim. De fato. Onde você cresceu? Aqui, certo?

Cresci aqui. Porém li muito material britânico na minha infância.

É provavelmente por isso.

E você? Paddington fez parte da sua infância?

Definitivamente. Eu li Paddington quando era criança. Provavelmente foi um dos primeiros livros que eu li, e minha mãe me deu um boneco do Paddington. Na verdade, quando foi anunciado, quando eu contei a ela que nós íamos fazer o filme, ou desenvolver o filme, ela trouxe o urso do lugar em que estava guardado. [Risos.] O urso de brinquedo tinha botas de chuva…

“Acho que a polemica é perigosa nos filmes”

Ele tinha as botas para poder ficar em pé, certo?

Exatamente. Essa era a razão das botas estarem lá. Elas não era parte do desenho original. Era uma acomodação de produto. Logo, eu tinha noção disso na época. E aí ele desapareceu para mim. Você sabe, eu cresci. Então, uma pessoa do meu escritório disse que eu devia dar uma olhada nos livros, relê-los, e foi o que eu fiz. Ela me deu um resumo. Eles são ótimos! São muito engraçados e eu estava maravilhado que havia humor que eu gostasse, e não só as crianças. Quando nós estávamos fazendo o filme, essa foi uma decisão muito consciente e uma das razões pelas quais contratamos Paul [King, o diretor], na verdade.

Você era fã de “Mighty Boosh” (grupo de comédia britânico)?

Um grande fã de “Mighty Boosh”, e eu tinha visto seu filme O Coelho e o Touro, que era um filme artístico, mas tinha essa sequência em que os sets foram projetados com traços de desenho. Eles são feitos inteiramente de traços de desenho, que era o programa de TV Urso Paddington. Então eu descobri que ele sabia mais sobre Paddington do que eu, que ele era tão apaixonado por ele como eu era, e seu humor subversivo era realmente ótimo para Paddington, porque você quer que o Paddington seja ele próprio, e isso é: um imigrante inocente, decente, direto, com bons valores […] Porque é o que ele é: um imigrante. Ele é uma metáfora para todos os imigrantes que vêm para o Reino Unido pós-Guerra Mundial.

Bom de sua parte falar sobre isso diretamente. Acho que é algo que passaria batido para muitas crianças.

Sim, o que eu gosto bastante sobre isso é que eu acho que a polêmica é perigosa nos filmes. Geralmente, quando se faz filmes com uma mensagem por trás, você está pregando para os já convertidos, porque são eles que estão indo assistir aos filmes.

É tão óbvio que a mensagem está justamente no filme do qual você passará longe se não concordar.

Sim, exatamente! Então, o que eu amo sobre Paddington e a maneira que Paul lidou com isso é que, na verdade, eu acho que a mensagem é a bondade com estranhos, o que um estranho pode trazer para você… tanto a banda, a banda de calypso, que é uma forma de música que era muito grande na área de Notting Hill, o calypso britânico está enraizado lá na comunidade Indiana Ocidental, que é onde os Browns realmente viviam nos livros de Michael Bond. Mas esse sentido da bondade de estranhos, a bondade com estranhos e o imigrante chegando, o intruso. Nós todos nos sentimos como intrusos. Senti que isso é tão pertinente hoje quanto na primeira vez que foi [escrito].

Sinto que muita gente vai olhar para Paddington de fora, independente de estarem familiarizados com o livro ou não…

Sim…

… E ver um filme com uma criação de CGI interagindo com uma família real. Todos já vimos coisas como Alvin e os Esquilos e Os Smurfs. Eu não acho que eles tenham o propósito de serem muito bons, acho que é a ideia. As pessoas vão dizer “Então, ele vai soltar muitos puns, né? E vão ter muitos produtos relacionados a ele?”.

Sim.

Havia algum diálogo sobre comercializar Paddington a essa extensão?

Não. Quer dizer, uma das coisas agradáveis sobre se trabalhar com uma empresa francesa – porque era uma empresa francesa que financiou o filme, Studio Canal – é que eles acreditam no produtor e no diretor, e os permitem fazer o filme que eles quiserem fazer. Eles não nos dão uma única opinião. Não havia uma única demanda. E quando, por exemplo, tivemos que reformular a parte de Paddington, porque inicialmente ele era interpretado por Colin Firth, isso exigiu um compromisso financeiro da parte deles. Porque nós já tínhamos começado a animar, tivemos que começar de novo.

“Não foi tipo, ‘Colin, venha para a sala do diretor.’”

Foi só reanimar a boca ou vocês tiveram que refazer…?

Ah, tudo, porque altera o desempenho. Não é apenas [faz mímica de uma boca mexendo] isso. É tudo. Toda a personalidade do urso mudou.

Colin estava fazendo alguma captura de movimentos para o urso?

Nada disso foi com captura de movimento. Houve referência de movimento. Então ele dizia as falas e houve um pouco do uso da câmera aqui, de modo que os animadores tinham referência. Pequenas câmeras. Mas não, não havia nenhuma captura [de movimento]. Porque, e eu sei que há diferentes atitudes sobre isso, mas Paddington não é um humanoide. As proporções não são humanas. Portanto, é difícil extrapolar de uma forma literal. É uma coisa fazer Gollum, então eu posso ver que faz sentido, mas se você está fazendo algo que não é humanoide é um pouco mais difícil. Por isso, foram basicamente informações que os animadores brilhantes da Framestore, que fizeram Gravidade, o Pablo Grillo, que eu acho que é um animador genial, fez.

Falando de Colin Firth, eu estava assistindo o filme e vendo o desempenho de Ben Whishaw, e eu entendo totalmente porque Paddington precisava ser mais jovem do que Colin Firth. Quando você tinha Colin Firth fazendo o papel inicialmente, ele estava atuando mais jovem ou estava sendo um pouco mais erudita?

Você sabe, quando consegue um ícone para reproduzir um ícone você acha que já encontrou a mosca. Encontrou o ouro, quero dizer. Opa! Encontrou o ouro. E Colin é um dos grandes atores…

“Nós tentamos alterar a voz digitalmente, mas pareceu como se ele estivesse falando com um balão de gás hélio.”

“Acertou na mosca.” Isso é o que você quis dizer.

Acertar na mosca. Obrigado. Obrigado por traduzir. Você acertou na mosca! Eu sabia que havia algo… não foi completamente errado! [Risos.]

Eu não quero você mal citado nesta entrevista. “David Heyman diz que Colin Firth está às moscas!”

[Risos.] Mas o que acontece é… Não, ele estava fazendo o trabalho e tendo dificuldades com ele, o processo, e nós fizemos alguns ensaios e em seguida começamos a animar. Aí ele fez a voz até o corte de cena, mas sem um urso, e então ele faria para valer e começamos a animá-lo. E não parecia certo. Nós tentamos alterar a voz digitalmente, mas pareceu como se ele estivesse falando com um balão de gás hélio e ele simplesmente não se sentia bem. Então acabamos… foi uma decisão mútua. Não foi tipo, ‘Colin, venha para a sala do diretor’.” Não, foi mútuo, e, na verdade, a decisão foi dele. Ele disse: “Tem certeza que isso está certo?” Ele estava à frente de nós.

A maneira como você descreve faz parecer o fim de um relacionamento.

Na verdade, é o início de um novo relacionamento. Sim, quando ambos os lados concordam que acabou, mas você quer continuar como amigos.

Exatamente. Isso deve ter sido difícil. Vocês ainda são amigos? Colin Firth viu o filme?

Eu não sei se ele viu o filme, mas eu tenho que dizer, ele tem sido um grande apoio. Ele foi ótimo durante todo o processo, e mandou um e-mail quando Ben [foi escolhido], com “Ótimo, estou muito animado.” Ele tem sido fantástico.

Você está olhando para isso como se fosse uma franquia em potencial? Sei que muita gente iria olhar para ele assim.

É tão engraçado. Eu nunca vi Harry Potter como uma franquia em potencial, e acho que isso é uma coisa muito perigosa, olhar para qualquer filme como uma franquia. Eu acho que o que fizemos no Potter e o que fizemos nesse filme é tentar fazer o melhor filme possível. Se fizermos um bom filme e se há audiência o bastante, então há a possibilidade de fazer mais um. Se fizermos outro, nós teremos que fazer melhor que este, e assim por diante. Porque você não pode encará-la como um objeto, e eu espero que você sinta quando assistir o filme, que ele não é um produto.

Ele não parece ser um produto, e eu ouvi um monte de gente dizer que você apenas tenta se concentrar em fazer um filme bom e, se houver uma sequência, haverá uma sequência, mas… Paddington pode ser um mau exemplo, Harry Potter pode ser um melhor, onde você sabe que há uma narrativa seriada envolvida. Certamente você tem que ter em mente que precisa encontrar uma maneira de estender organicamente esta história e ao mesmo tempo fazer um filme independente satisfatório?

Vou abordar ambos os filmes. Paddington foi uma série de histórias curtas, onde o trabalho era muito diferente. Foi sobre a expansão para que se ajustasse a uma hora e meia, em oposição a cinco ou dez minutos. Por isso, exigiu muita invenção, trazendo diferentes histórias juntas, criando nossas próprias narrativas. Nunca houve um vilão nos livros Paddington como Nicole [Kidman].

“Eu nunca tinha pensado que iriamos chegar no fim até o quarto filme [de Harry Potter] sair.

Eu gostei que você foi capaz de encaixá-la organicamente na história.

Isso não fazia parte dos [livros]. Não havia uma banda calypso. Essa parte da trama no Museu de História Natural foi toda rústica, por assim dizer. Potter é um animal diferente. Eu nunca tinha pensado que iriamos chegar no fim até o quarto filme [de Harry Potter] sair. Talvez eu fosse ingênuo. Eu sabia que estávamos indo para fazer os dois primeiros, mas quando fizemos o quarto filme e ele começou a subir de novo, eu pensei que talvez …

O terceiro foi baixo?

Um [gesticula], dois [gesticula para cima], três [gesticula para baixo], quatro [gesticula de volta para cima]. O do Alfonso [Cuarón] foi o menos bem sucedido de todos eles, financeiramente. [Risos.]

Foi esse filme que me fez gostar da série.

Obviamente, o filme tem um lugar especial no meu coração, uma vez que eu tenho continuado a trabalhar com ele. Ele é um dos meus melhores amigos e padrinho de meu filho.

Mas também na série Harry Potter você está trabalhando com a escritora bem de perto.

Jo Rowling evitou fazer muitas intervenções.

Mas você teve o apoio dela.

Mas do Michael Bond também, sabe. Ele está vivo. Paul disse uma coisa hoje, “Em relação ao tom, Michael foi muito útil.” Porque ele viveu com isso por 50 anos, ele é muito consciente do tom dele. Jo era muito favorável, muito compreensiva do fato de que era um animal diferente, um filme de um livro, e deu muito apoio a cada um dos diretores conforme eles foram e fizeram os filmes.

Mas com Potter, como eu estava dizendo, eu não sabia que ia ser uma série. Eu juro a você que tudo o que eu estava tentando fazer era fazer o melhor filme [possível]. A boa notícia [é], cada diretor era competitivo com o anterior, e com eles próprios. Queriam fazer um filme melhor do que o anterior. Então isso foi um pouco da energia provocada por Alfonso substituindo Chris Columbus e Mike Newell substituindo Alfonso e David Yates substituindo [Michael]. E, quando dirigiram mais de um, como Chris e David, eles eram competitivos com eles mesmos e determinados a fazer algo melhor do que o último, para justificar fazer outro.

“Somos todos muito valentes e corajosos em nossa abordagem do que estamos criando.”

Foi por isso que você trouxe David Yates de volta? Ele disse, “Relíquias da Morte foi ruim, eu posso fazer muito melhor com Animais Fantásticos?”

[Pensa]. Não, ele apenas é um grande diretor. Ele conhece o universo muito bem. Ele pode lidar com o humor e o drama do filme, e eu acho que ele vai ser ótimo.

Acho que ele vai ser muito bom, mas é interessante que ele fez muitos dos filmes anteriores, e agora que você está indo em… Eu não sei os detalhes, mas uma direção diferente, período de tempo diferente, diferentes personagens, parece que você pode o estar mantendo como uma espécie de linha de continuação. É assim que parece visto de fora.

Você também pode argumentar que Steve Kloves, eu mesmo, Jo [risos] somos também linhas de continuação.

Sim, eu acho que parece muito rústico, para usar sua palavra.

Sim, mas somos todos muito valentes e corajosos em nossa abordagem do que estamos criando.

J.K. Rowling está escrevendo este, certo?

Uhum.

Como é isso? Você disse que ela evitou grandes intervenções porque foi um processo diferente antes. O processo é diferente, agora que ela está escrevendo o roteiro?

Não. Quero dizer, sim, ela está… não, não realmente. Assim como nos filmes de Harry Potter você procura a Jo [para perguntar] “Qual é o sétimo uso de sangue de dragão?” Ou “Qual é o terceiro?” Ou “Quais são os nomes para isso e aquilo? Você só nos deu dez, precisamos de uma centena.” Ela teria isso. Assim como sobre este assunto. O que quer que você leia é apenas o começo do conhecimento dela sobre isso. Ela tem muito mais conhecimento do que você poderia imaginar.

Então são os primeiros passos, e eu não sei como isso vai continuar ao longo do processo, mas o papel dela – ela é uma produtora, mas ela também era nos últimos Potters – é como uma escritora, e uma criadora. Ela sabe que David Yates vai dirigir o filme e ela respeita isso, e o apoia, apoia a mim mesmo e à equipe de produção. Mas ainda é cedo.

Eu não estou pescando, estou apenas interessado.

Sim, entendo, eu estou interessado também!

“O que quer que você leia é apenas o começo do conhecimento dela JK Rowling sobre isso.”

Porque eu acho que nos livros que você conseguia adaptar as coisas, mas agora que está no script você pode mudá-lo? Afinal, foi J.K. Rowling quem escreveu…

Mas mesmo dentro dos livros havia mais mudanças. Steve Kloves adaptou muito mais do que as pessoas perceberam…

Ele os adaptou muito!

E eu não sei se ele tem crédito suficiente pelo trabalho que fez, porque é Jo Rowling, por isso é quase como se ele fosse um cifrador. Mas ele é muito mais. Um, para capturar o espírito. Dois, fazer as mudanças para que haja uma coesão, uma coesão cinematográfica dentro de uma história de duas horas e meia. Quando você está trabalhando com material que é tão amado, e que as pessoas têm problemas e opiniões sobre cada pedaço dele, ser realmente tão decisivo e criar algo tão completo como ele fez… Quero dizer, ele é… Tivemos muita sorte.

Vamos voltar para Paddington.

Vá em frente.

Por favor.

[Risos.]

Eu não sei a origem dele nos livros. Vemos a origem de Paddington, a fundação de Paddington, eu sei que teve um primeiro livro de Paddington …

Então, o pedaço do Peru foi inventado. Sabemos que ele veio do Peru, mas nunca foi realmente escrito sobre isso. Sabíamos que havia uma tia Lucy e tio Pastuzo, mas a narrativa – o terremoto, a casa – foi algo que inventaram. Paul inventou. Vindo para Londres, tudo isso, de conhecê-lo na estação de trem, é como nos livros, mas eu não tenho certeza de que Jonathan está lá naquele pedaço. Eu não tenho certeza.

A cena que ia ser cortada era a cena na sala de chá. Isso não estava no roteiro, mas Michael [Bond] leu e foi uma de suas coisas favoritas, ele sentiu que era importante. Assim, Paul a escreveu e é uma das minhas cenas favoritas, a cena com Hugh [Bonneville] e Paddington falando em urso…

Isso foi realmente fofo.

Isso aí. O Sr. Gruber, o Sr. Curry, esses são personagens dos livros. Nicole [Kidman] não é, nem o taxista, nem o ladrão ou qualquer coisa assim. Nem voar atrás do ônibus, não.

Uma das coisas que mais me impressionou foi a atitude em relação aos ursos.

Que ninguém comenta que é um urso.

Esse urso é, no máximo, uma classe social mal vista. “Há um urso ali, ele provavelmente quer dinheiro…”.

Nós pensamos assim, você sabe aqueles… Eu sei que vocês também têm, nem tanto aqui, mas mais na Inglaterra e eu sei que existem em Nova Iorque, mas os músicos peruanos que sentam no metrô.

Ah, sim!

É como se fosse isso. É como nós vemos Paddington. Paddington é um urso, mas ele é na realidade um imigrante. Ele é alguém vindo de um outro país que pode ter uma joia meio esquisita e faz você pensar, “Nossa, isso é um pouco estranho”, ou talvez chapéus coloridos. Não é como a gente, mas não é como se ele fosse um… [pensa] urso.

“Pessoas de outros países vêm aqui. Nós devemos ser respeitosos, generosos e prestativos com eles.”

Não é como se fosse “Corram! Urso!”, é tipo “Ah, outro urso”.

Novamente, é uma metáfora para a Inglaterra dos anos 50, mas ainda é relevante hoje. O problema é, acho que nesses tempos, nesse país, no Reino Unido e França, particularmente hoje, no mundo todo, essa mensagem de gentileza com estranhos. De “não se assuste com o outro,” é… é engraçada. Alguém me fez essa pergunta hoje. Nós estávamos falando sobre livros e ele me perguntou, porque Paddington é um viajante e a família Brown o acolhe, me perguntaram, “Qual a coisa mais gentil que alguém fez para você nas suas viagens?”

Awn…!

E isso me fez pensar. Parte da minha imagem de um país são as pessoas que você conhece, e também nesse país e na Inglaterra, nós representamos nosso país. Pessoas de outros países vêm aqui. Nós devemos ser respeitosos, generosos e prestativos com eles. É isso que a família Brown é. E não só com estrangeiros. São pessoas que são outros. Nós todos somos outros. Você é um intruso, eu sou um intruso, independentemente de quão “dentro” nós estamos. Todos nos sentimos sozinhos e intrusos em algum ponto.

Na maior parte do tempo.

Na maior parte do tempo. Nós nos sentimos! Você não é único. Eu não sou único. Todos nos sentimos assim. Para mim, é por isso que Paddington tem um lugar. Ele é a gente, e de certa forma ele está procurando pertencer a algum lugar. Na verdade uma das coisas que eu amo sobre esse filme é a celebração. Uma das lições que ele aprende é ser ele mesmo. “Eu sou um urso. Sou um urso chamado Paddington”. Então ele tem uma casa, ele não está tentando se encaixar para… Ele está tentando se encaixar, mas na verdade…

Não é nada como o Pinóquio.

“Eu tenho que ser eu”

É muito doce.

Essa é, por fim, a jornada que eu acho que é relevante e atemporal.