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Tintas da pele e da alma

Marcar a própria pele com o símbolo de algo que amamos e que representa uma coisa especial em nossas vidas é uma decisão que, obviamente, precisa ser pensada várias vezes para evitar arrependimentos. Uma tatuagem é muito desejável quando representa algo intrínseco e profundo da alma; fora disso, pode representar uma dor de cabeça mais tarde.

Na coluna de hoje, Nilsen Silva demonstra sua paixão e admiração pelos desenhos na pele, algo que tem, afinal de contas, tudo a ver com a nossa série preferida. Quer saber como? Basta ler o texto que nossa colunista preparou, sem esquecer, é claro, de deixar seu comentário.

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Por Nilsen Silva

Injetar um pigmento sob a pele para homenagear ou preservar um rito ou símbolo é um costume antigo. Múmias egípcias do sexo feminino, entre elas a de Amunet, que viveu entre 2160 e 1994 a.C, apresentam traços e pontos marcados na pele, possivelmente relacionados com cultos à fertilidade. Registros ainda mais antigos foram descobertos em uma múmia conhecida como Homem de Gelo, que tem cerca de 5.300 anos.

Com a invenção da máquina elétrica de tatuar, em 1891, o costume se espalhou ainda mais pela Europa e pelos Estados Unidos. O hábito foi se popularizando de tal modo que colorir a pele com tinta indelével, antes uma característica praticamente exclusiva a marinheiros e presidíarios, tornou-se moda entre os jovens do século XX. Até que chegamos aos dias de hoje, em que diversos profissionais são tatuados e nem por isso deixam de ser menos capazes ou instruídos, muito obrigada.

De fato, pigmentar a pele para o resto da vida parece um pouco drástico. Quem é que garante que a vontade de tatuar o símbolo do infinito, que parece fazer tanto sentido agora, vai permanecer infinita pelos anos a seguir? E o arrependimento, tem espaço para ele? Principalmente quando levamos em conta a palavra “moda”, coisa passageira, do momento, que vai tão fácil como chegou.

Por essa perspectiva, tatuar só porque deu vontade realmente parece algo tolo de se fazer. Já não dizia o poeta que o que vem fácil vai fácil? Pois é. Com tatuagem não é bem assim. Tatuar sem pensar duas vezes pode ser feito em dez minutos na cadeira do estúdio, um lugar bacana com ar-condicionado, bem decorado e boa música. Mas apagar o desenho feito na agulha é mais complicado. Leva junto não só o dinheiro nas sessões a laser, mas alguma coisa dentro de você que vai morrer um pouquinho.

Quem leu este texto até aqui provavelmente deve estar se perguntando se eu sou contra tatuagem. E eu respondo: de jeito nenhum! Por enquanto tenho três, mas mantenho um bloquinho de vontades e ideias constantemente atualizado. O meu ponto – e admito que talvez demorar quatro parágrafos tenha sido muito enrolado da minha parte… – é que tatuar só porque deu vontade é inadmissível. Se for para marcar o seu corpo, faça por algo que valha a pena. Aquela coisa que te dá comichão, frio na barriga, que te tira o sono ou te faz sonhar. Ou que seja a representação perfeita de algo que você quer carregar consigo todos os dias, como um lembrete. Tatue pela sua fé. Pela família. Pelo que você acredita. Se significar algo e ainda for bonito de se ver, melhor ainda. Porque, vamos combinar, tatuagem tem que ficar bonita.

Das minhas três tatuagens (que provavelmente vão somar 30 até eu ficar velhinha), uma delas é um singelo Expecto Patronum na perna direita. Logo abaixo da dobra da perna, em tinta preta, com uma fonte cujo nome eu nem lembro mais. Por muito tempo eu quis fazer uma homenagem à minha série preferida… mas, antes de me decidir, eu pensei, e muito, sobre o que HP representa para mim. E a minha conclusão?

Tudo. Mesmo que indiretamente.

Foi com Harry Potter que comecei a pegar o gosto pela leitura. Os livros infantis que eu lia eram legais, divertidos, mas só a história de J.K. Rowling me fez entender o que era ansiar pela continuação de uma história. Do amor pela leitura veio o amor pela escrita. Horas e mais horas me dedicando a contos, crônicas, livros… e a textos da faculdade, é claro. Amar HP também afetou, de um jeito ou de outro, a minha escolha profissional. Virei jornalista (com diploma!). Também espero, um dia, publicar minhas histórias e ter o prazer de cativar alguém com meus personagens.

HP também me ensinou que ter um pézinho na ficção nunca fez mal a ninguém. Mas que aceitar a realidade é importante. Aprendi a dar mais valor às pessoas queridas a mim, que o amor vence tudo, que enfrentar meus medos é sempre possível e que não importa se eu cair e me decepcionar – tudo vai ficar bem. Infelizmente não posso levar um tombo de vassoura, mas não tem problema.

Comer até a barriga doer, desde que seja uma comida gostosa, também pode. E passar a perna nos professores chatos  – desde que minha fibra moral permaneça a mesma – não tem problema. Descobri que não posso silenciar os meus problemas e que me abrir com pessoas nas quais confio é necessário. Confiança. Coragem. Amizade. A lista é longa, e eu tenho certeza de que poderia trabalhar nela até amanhã de manhã. Mas acho que consegui me fazer entender.

Não é sempre, mas tem vezes em que olho para a minha tatuagem e lembro de tudo isso e mais um pouco. E, mesmo que o meu amor pela série diminua com o passar dos anos (não acho que seja possível, mas, ei, nunca diga nunca, certo?), eu vou me lembrar disso para sempre. E vou ser grata por ter tido essa percepção e manter esse sentimento dentro de mim.

No fim das contas, acho que nem importa se a tatuagem for feita no calor do momento, só porque deu vontade. Desde que você saiba que ela ainda vai representar algo em muito tempo. Não dizem que as melhores ideias vêm quando a gente menos espera? Afinal de contas, a melhor série do mundo surgiu em uma viagem de trem a Londres, num vagão lotado e quando a autora não tinha papel nem caneta…

Nilsen Silva escreveu a coluna e percebeu que precisa retocar a tinta das três tatuagens.