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Harry Potter e as lições de igualdade

Vivemos um momento de recrudescimento de ideais de extrema-direita em vários países do mundo, especialmente em algumas regiões da Europa. Hoje existem, inclusive, partidos que propagam as ideias do nazismo e que têm ganhado força nas últimas eleições. É sempre fundamental lembrar e repudiar os horrores que ocorreram durante a Segunda Guerra Mundial para impedir que tais fatos ocorram novamente em algum lugar.

Na coluna deste domingo Monique Calmon faz uma pertinente ligação entre os ideais nazistas e algumas das ideias que circularam entre os personagens mais horrorosos dos livros de Harry Potter. Os ideais horríveis de “pureza de raça” não passaram despercebidos ao olhar brilhante de J.K. Rowling, que como sempre, tem uma lição a nos ensinar.

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Por Monique Calmon

Alguns dias atrás, me deparei com um documentário sobre o nazismo na TV. Comecei a assistir esperando ouvir sobre a história geral de como se sucedeu a ascensão e queda do regime, mas me surpreendi ao falarem sobre o ocultismo por trás das crenças de Hitler e demais líderes nazistas. Em especial, comentava-se sobre um pacto que Hitler supostamente realizara utilizando uma mandrágora, aquela mesma planta mágica do universo de Harry Potter utilizada para curar pessoas que foram petrificadas. Parei para refletir sobre outros elementos comuns às duas realidades, e percebi que são muitas as influências do nazismo na escrita de JK Rowling, como ela mesma afirma.

A principal semelhança nos livros de Harry Potter com o nazismo, que praticamente guia a trama, é a idealização de um grupo superior e seleto, os bruxos de famílias inteiramente mágicas, que poderíamos comparar com a suposta “raça ariana” que Hitler tanto almejava. Esse tipo de preconceito surge em Hogwarts com um de seus fundadores, Salazar Slytherin, que buscava “purificar” a escola, aceitando apenas educar bruxos puro-sangue, considerando os nascidos trouxas indignos da magia, crença que se assemelha muito ao antissemitismo pregado pelo partido nazista na Alemanha.

Muitos anos depois, Grindelwald e Dumbledore começam a compartilhar de um pensamento semelhante. Acreditavam que, como os bruxos eram mais poderosos que os trouxas, naturalmente teriam o direito de governar sobre o mundo trouxa. Para ascender ao poder, planejavam convencer a todos de que suas intenções eram em prol da sociedade, a partir do slogan “Para um Bem Maior”. Também Hitler se utilizou da propaganda para convencer a população alemã a buscar a “purificação social”, através de slogans e campanhas que tiravam de foco as crueldades de seu regime ao aclamarem seus supostos benefícios. Além disso, Grindelwald foi derrotado em 1945 por Dumbledore, mesmo ano da morte de Hitler, fato que, de acordo com a própria JK Rowling, não foi mera coincidência.

“As pessoas gostam de se sentir superiores e, se não podem se orgulhar de nada mais, se apegam a uma suposta pureza.” – JK Rowling

Anos depois, nasce Voldemort, que assim como Hitler, passa por uma infância de dificuldades e sofrimento. Hitler vive boa parte de sua vida em uma região pobre povoada por judeus, e Voldemort cresce num orfanato trouxa. Ambos se sentem superiores às pessoas ao redor e infelizes com suas vidas. Essas situações certamente levaram ao desenvolvimento do caráter e da personalidade dos futuros ditadores que se tornariam através da persuasão e de violência. Mais à frente, enquanto Hitler adotaria a suástica como símbolo de sua liderança, Voldemort se utilizaria da marca negra para identificar seus mais importantes seguidores.

Olhando então para as semelhanças entre a infância de Voldemort e Hitler, o preconceito contra os judeus e os trouxas e o modo como conduziram suas vidas, podemos concluir que, sem dúvidas, Rowling, ao escrever “Harry Potter”, deixa nas entrelinhas um paralelo entre o período do mundo mágico que descreve e os eventos da Segunda Guerra Mundial. Mas é através da luta contra a crueldade dos pensamentos extremistas e preconceituosos que ela constrói personagens únicos como Harry, Ron e Hermione, que nos inspiram e nos ensinam grandes lições sobre amor e coragem.

Todos somos iguais independentemente de credo, cor da pele, ideologia política ou orientação sexual e sabemos disso. Mas como diria Olho-Tonto Moody, “vigilância constante”.