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A história que marcou uma geração

Pobres daqueles que desconhecem o prazer de ler um bom livro. O virar das páginas, o desdobrar da história, o cheiro do papel, nada passa despercebido à mente, tudo é extremamente enriquecedor àquele que lê.

Nossa colunista Nilsen Silva, como se sabe, é uma leitora voraz, e tem especial amor por Harry Potter – assim como todos nós, creio eu. Na coluna de hoje ela fala um pouco mais dessa paixão avassaladora que persiste até hoje e, como bem sabemos, marcou a nossa geração para sempre.

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Por Nilsen Silva

Não é sempre que isso acontece, mas toda vez que me deparo com alguém que diz que odeia ler eu nunca acredito de primeira. Sei lá, odiar é uma palavra tão forte; é claro que existem várias coisas das quais eu não gosto, mas não acredito que eu deteste algo com tanta força para poder usar esta palavra sem me questionar. Para mim, quem diz que não suporta ler é porque ainda não encontrou o livro certo.

Falar é fácil, mas eu sei que dei sorte. E muitos leitores do Ish também. Fui uma das almas felizardas que cresceu junto com Harry Potter e teve a história do bruxinho (já comentei por aqui como eu odeio, digo, não gosto dessa palavra?) como a primeira que já li. Bem, a primeira de verdade, que me marcou, que me ensinou esse conceito de acompanhar uma série para ver como ela vai terminar.

Verdade seja dita: foi uma época tão… mágica. Acompanhar os lançamentos, inventar teorias, procurar pistas entre os capítulos, comentar os principais acontecimentos com o pessoal da escola. Disputar para ver quem terminava de ler primeiro. Ameaçar soltar spoilers. Ir à livraria e me deparar com caldeirões cheios de livros, falsas teias de aranha, chapéus de bruxo enfeitando as prateleiras… e, é claro, a interminável fila no caixa. Na maioria das vezes era preciso até ligar para a livraria a deixar um exemplar reservado. E quando eu chegava para buscar o livro, então? Poucas coisas me faziam mais feliz. Em retrospecto, vejo que foi o jeito mais fácil que encontrei para fugir da realidade. E o melhor também.

Quando o último volume foi lançado, fiquei com aquela dúvida de ler o livro depressa para saber como terminava ou ler devagar para saborear cada parágrafo. Optei por ler rápido. Virava as páginas o mais rápido que eu podia, simplesmente devorando a história, correndo os olhos pelas linhas e parágrafos. E, quando tudo ficou bem com Harry… não ficou nada bem comigo. Certo, eu não entrei em depressão, não fiquei com vontade de nunca mais levantar da cama. Mas algo dentro de mim se apagou. Perdeu o brilho e esfriou. Por mais que J.K. Rowling fosse escrever outros livros em breve, a saga que me acompanhava desde a infância havia acabado.
E parecia que eu nunca mais encontraria outra série tão boa quanto aquela.

Entre todas as coisas que Harry Potter me ensinou, a maior delas foi que ler por prazer é uma coisa incrível. Eu posso ter outros hobbies; posso ver séries, testar minha criatividade em DIYs, atualizar o meu blog, escrever no meu diário, ir ao cinema… mas nada se equipara a ler porque eu tenho vontade, porque algo dentro de mim necessita, implora por uma história nova. É por isso que praticamente toda semana eu começo um livro diferente.

Eu já li vários volumes únicos desde então. Mas começar uma série é algo mais complexo. Um autor estranho, uma narrativa desconhecida, personagens dos quais nunca ouvi falar. É quase como fazer amigos novos. Você precisa se ajustar àquela realidade, se desprender de qualquer expectativa adicional e estar disposto a aceitar um universo inteiramente novo – e evitar, ao máximo, fazer comparações. Eu sempre penso muito antes de começar a ler uma série porque rola aquele sentimento de: será que vai valer o meu tempo? Será que esses personagens vão conseguir me cativar? Será que eles vão ser bem construídos? E a história, será que vai ter profundidade, ser encorpada e se desenvolver no compasso certo?

É difícil encontrar outra série que marque tanto, tanto é que até agora eu não achei – e olha que minhas prateleiras aqui em casa já estão abarrotadas. Mas é bom saber que, mesmo com tantos livros meia-boca no caminho, séries esquecíveis e trilogias dispensáveis, ainda existem histórias capazes de mexer com seus sentimentos, com a fã dentro de mim. Repito: nunca vai ser igual ao que foi com Harry Potter. Mas, mesmo assim… o alívio ao me deparar com uma história capaz de me atingir, mesmo que de um jeito diferente, é indescritível. Demorou um pouco, mas encontrei.

No fim das contas, acho que a gente só encontra uma série com a qual se identifique tanto, que marque um período de tempo e represente uma geração, uma vez na vida. A minha, sem dúvida alguma, foi Harry Potter. E a sua, também?

Eu não disse isso à minha amiga Nilsen, mas também não consegui encontrar uma série igual até hoje.