Artigos

Senhor da vida e da morte

A paixão pelos nossos personagens mais amados nos move! Isso é fato. Regado à admiração que nutre, nosso colunista Bruno Contesini nos presenteia hoje com uma abordagem a respeito de Alvo Dumbledore, o melhor bruxo da história e uma das mais carismáticas figuras em Harry Potter.

Quem foi Dumbledore? Em que baseava seus pensamentos? Por que agia de determinados modos? Não deixe de ler a coluna de hoje e de registrar, você também, a sua opinião sobre esse personagem tão fascinante!

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Por Bruno Contesini

Em toda grande história de magia existe o velho sábio, quase sempre de barbas longas e aparência cansada pelo tempo, em Harry Potter não é diferente, Alvo Percival Wulfrico Brian Dumbledore assume este papel! Fiz questão de adicionar o nome completo de meu personagem favorito, com a intenção de manter o foco no homem, munido de todas as características humanas.

Antes que possamos compreender Alvo, precisamos analisar sua trajetória, um homem que viveu desde a adolescência cercado de honrarias por seu extraordinário talento, talvez fosse natural que se deslumbrasse diante de tamanha repercussão de suas habilidades sendo tão jovem, entretanto, tal deslumbramento, fez com que o mago mudasse para sempre sua história e mentalidade.

Se a habilidade mágica o fez ter algum distanciamento da irmã desprovida de habilidades mágicas, ou ainda, se fez de Alvo um amigo de um bruxo das trevas, cujas convicções causaram talvez milhares de mortes, foram estas mesmas habilidades que ajudaram o humilde Dumbledore a reconduzir o mundo mágico no caminho da paz!

É neste momento que temos muito claramente a primeira grande lição que este personagem representa, a idealização de Dumbledore é interrompida por ele próprio, no ponto em que, honrosamente, assume e se arrepende de seus erros, por conhecer a si próprio, aceita seu papel de educador e rejeita qualquer posição de poder, que certamente estaria em boas mãos.

Vivemos em uma conjuntura atual, onde as pessoas normalmente buscam o poder, creem que este está intimamente ligado às recompensas financeiras, das quais o capitalismo se alimenta. Aqui convém citar algumas citações do nosso personagem exemplar:

“Embora falemos línguas diferentes e venhamos de lugares diferentes, nossos corações batem como um só!”.

“É possível encontrar a felicidade mesmo nas horas mais sombrias se a pessoa se lembrar de acender a luz!”.

“Acho impressionante, Harry, como as pessoas com maior talento para a liderança são justamente aquelas que não a desejam!”.

Isso mesmo, caro leitor, essas frases exemplificam muito bem o que as palavras anteriores buscavam explicitar, a recusa ao poder e ao potencial monetário que, eventualmente, tal posição poderia lhe conferir, aliada à exaltação da felicidade como ideal supremo, amparado pelo respeito e pela satisfação pessoal como educador, tudo isso, é capaz de transformar fama em importância, respeito em idolatria e admiração!

O aluno Alvo pertenceu à Grifinória, lar tradicional dos destemidos e corajosos, no entanto, ele jamais deixou de ter medos e de, como qualquer pessoa normal, evitar o confronto direto com aquilo que temia.

Vou ressaltar, como em outras ocasiões, que a coragem não é a ausência de medo, mas sim a capacidade de enfrentar o medo. A grandeza de não temer a morte, bem como a sabedoria em temer a verdade são singulares.

Quantas verdades lhe passaram despercebidas ao longo de sua vida? Quantas delas poderiam e podem machucar-te? Sem qualquer dúvida, bem mais do que qualquer um de nós é capaz de mensurar, já a morte é única e intransponível, provavelmente a mais cruel das interpretações da vida, da qual é impossível escapar.

“Há meios piores do que a morte de se ferir um homem!”.

“Não tenha pena dos mortos, Harry, tenha pena dos vivos, acima de tudo dos que vivem sem amor!”.

“A verdade é uma coisa bela e terrível, por isso deve ser tratada com grande cautela!”.

O temor que muitos de nós têm da morte, origina-se a partir da concepção de que ela seja o oposto da vida, sem avançar pelo terreno dogmático e pouco tangível da religiosidade, isso não seria uma verdade, pois a morte não carrega uma ideia de oposição e sim de fechamento de um ciclo.

Como em todo ciclo, onde pode ser inserida a noção de vida, o fechamento não necessariamente signifique o fim, algo que fica extremamente evidente no último encontro entre Harry e seu diretor, naquele momento, é claro que as lembranças ocupam a mente do protagonista, mas porque mesmo isso significa que não pode ser real?

A verdade! O que é a verdade? Simplesmente aquilo na qual nossas convicções nos fazem crer e defender, e que inspiradora e importante lição foi a declaração de Rowling: “Dumbledore é homossexual!”. Em uma sociedade regada a preconceitos e precipitações por conta de raça, condição social, crença, ou orientação sexual, a autora coloca nosso ídolo em uma posição que tão bem cumpriu por tantos anos, a de ensinar! Ensinar a bilhões de alunos, trouxas e bruxos, ao mundo todo, o quão importante é respeitar e amar o próximo.

E por falar em amor… A solução favorita de Dumbledore! É sim! E que bom que seja assim! Não foi este o papel central que teve na vida de Harry? Amá-lo! O garoto órfão, que conheceu pouco ou nada do afeto familiar, teve no antigo mestre aquilo que o fez sentir-se amparado em muitos momentos, aquele que lhe conferiu proteção, que sentiu suas dores, buscou compreendê-lo.

Convém finalizar esta abordagem esclarecendo o que de fato é amar? A sociedade atual acostumou-se a viver algumas “caricaturas” do amor, de tal forma prejudicial, que este substantivo abstrato vem sendo muito mal usado pela grande maioria dos indivíduos.

Com uma pequena parcela de sociologia e psicologia, essa é uma das possíveis razões para que tantos relacionamentos não resistam ao tempo, nenhum de nós pode dar-se o luxo de confundir paixão com amor, o primeiro é meramente emocional, ao passo que o segundo jamais pode estar completo se não unir harmoniosamente a razão à emoção.

Então o verdadeiro amor, só é por nós compreendido quando deixamos de procurar satisfazer-nos, e passamos a procurar apenas completar, fazer ou trazer o bem ao outro, seja este o amor da nossa vida, nosso parente ou alguém que nos é especial. Assim sendo, amar também é abdicar de si mesmo, entregar-se, mesmo que seja nas garras da própria morte! Amar é o que faz de nós, senhores da vida, e da morte!

Bruno Contesini me contou um segredo: pretende, quando mais velho, usar uma longa barba branca.