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Em quais objetos você confiaria a sua alma?

Nossa colunista Nilsen Silva faz hoje um exercício de imaginação: e se as tão temidas horcruxes não fossem um objeto de magia negra? E se elas pudessem ser, afinal, um refúgio para que cada um de nós conseguisse reservar um pedacinho da alma e passar mais um tempo por aqui?

Na coluna de hoje, Nilsen nos fala um pouco sobre quais objetos ela escolheria caso as coisas funcionassem dessa forma. E após a sua leitura, mate a nossa curiosidade: qual seria o seu objeto escolhido?.

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Por Nilsen Silva

A vida eterna é um dos temas mais abordados no mundo da ficção, principalmente no da literatura de entretenimento. Isso acontece justamente por ser uma opção tentadora para quem tem os dias contados – mesmo que não saibamos exatamente quanto tempo nos resta.

Viver mais cem anos, acompanhar os costumes da sociedade se alterando pouco a pouco, ver, tocar e utilizar máquinas e tecnologias que ainda não foram nem inventadas, admirar pessoas que ainda nem nasceram, ter literalmente todo o tempo do mundo para fazer planos e não se chatear se eles não derem certo na primeira tentativa…

Em Harry Potter e o Enigma do Príncipe, tivemos o primeiro vislumbre de como cada pecinha da saga de J.K. Rowling foi exatamente planejada para se encaixar em um determinado momento da trama. Nunca fui uma leitora de formar muitas teorias mirabolantes, e quando li pela primeira vez sobre as horcruxes e o que elas representavam na história, eu não poderia ter ficado mais surpresa.

De repente, tudo fez sentido. Era por isso, então, que o Voldemort ficava fraco… mas nunca morria. Não era apenas porque ele era um exímio bruxo, mas porque, em sua sede de poder e ânsia por ser reconhecido como o maior bruxo de todos os tempos, ele decidiu cruzar a linha e fazer a magia mais negra de todas para nunca mais desaparecer da memória da comunidade bruxa, para estar sempre ali presente como uma sombra negra. Utilizando o tolo e ingênuo professor Slughorn para obter informações de difícil acesso, ele deu início, ainda jovem, a um plano detalhadamente orquestrado para não perecer.

É neste flashback que vemos como Voldemort, ainda então conhecido como Tom Riddle, tinha a alma tintada e suja pela maldade – mesmo quando ainda era um estudante de Hogwarts como todos os outros. Dividir a alma em sete partes e ligá-la a objetos de valor sentimental é certamente uma atitude ousada e até, de certo modo, desesperada. Porém, ouso dizer que, com o passado cruel de Voldemort, é até compreensível, dentro dos limites invisíveis e vastos da ficção, que ele tenha tomado uma decisão tão radical.

Mas… e se a magia das horcruxes não fosse tão negra e poderosa como é retratada na saga? E se todos nós pudéssemos dividir as nossas almas em dois, três ou sete pedaços para ficarmos mais um tempinho aqui na Terra? Para reler mais uma vez a saga de J.K. Rowling, quem sabe. Ou para dar chance a outros livros de fantasia, como O Senhor dos Anéis, As Brumas de Avalon, Coração de Tinta ou Fronteiras do Universo. Talvez até arriscar a leitura de mais alguns clássicos da literatura; juntar coragem para ler Tolstói e Hermingway. Ou para estudar mais um pouquinho, ter mais tempo de conquistar nossos objetivos; ir devagar, sem pressa, em uma estrada que nos levaria rumo ao emprego dos sonhos.

Eu não sei em quais objetos eu confiaria a minha vida se eu pudesse criar horcruxes e viver para sempre. Talvez um dos meus diários, que possuem confidências sobre vários dos acontecimentos mais importantes da minha vida. Talvez um livro que me marcou muito. A minha primeira boneca, que eu recebi logo depois que nasci, de presente da minha avó. O botão do antigo casaco do meu avô, que eu guardo em um porta-jóias como se fosse a minha vida. A primeira carta que recebi do meu namorado. Uma foto antiga e desbotada de família. O manuscrito do livro que terminei de escrever. Tem tanta coisa… às vezes nem parece que ligamos nossos momentos mais especiais a objetos. Porque não basta apenas guardá-los dentro de nós; também precisamos tocar e sentir coisas que nos levam até o passado.

Então eu termino esta coluna com uma pergunta: se você pudesse dividir a sua alma em sete pedaços e conectá-la a objetos de valor, quais objetos você escolheria?

Nilsen Silva não perguntou a mim, mas eu sugeriria a ela que guardasse um pedacinho da alma nesta coluna brilhante.