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A jornada do herói

Desde o lançamento de Harry Potter e a Pedra Filosofal, em 1997, não faltam críticos e especialistas a arriscar palpites quanto às razões de tamanho sucesso. Seria a história em si? A estrutura? Os personagens?

Nossa colunista Nilsen Silva decidiu se debruçar sobre um desses possíveis motivos na coluna deste domingo. Você concorda com ela? Leia e deixe seu comentário.

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Por Nilsen Silva

Os números não desmentem. Com mais de 400 milhões de livros vendidos e bilheterias mundiais superiores a R$ 9 bilhões, Harry Potter é um dos maiores fenômenos do mercado editorial – e do cinematográfico também. J.K. Rowling, por sua vez, continua firme e forte na lista da Forbes dos autores mais bem pagos. Ainda duvida do sucesso? É só digitar o nome do nosso bruxo preferido no campo de busca do Google e se espantar com o número de resultados que vão aparecer.

Mas por que a saga de J.K. Rowling faz tanto sucesso? Por que uma série sobre um garoto de onze anos que descobre um mundo mágico é capaz de fazer crianças devorarem centenas de páginas? Por que adultos consomem essa literatura em casa, no trabalho, no metrô, a cada minuto, sendo que a história possui tantos clichês (sendo o maior deles o que tantos outros autores já usaram em seus textos, o amor?).

Há algum tempo, li uma matéria na revista Superinteressante que citava sete motivos para a série cativar tantas pessoas diferentes no mundo todo. No geral, concordei com todos os pontos apresentados, mas um, em especial, chamou mais a minha atenção. A jornada do herói.

A jornada do herói é um conceito criado pelo antropólogo Joseph Campbell. O termo aparece pela primeira vez em 1949, no livro de Campbell “O Herói de Mil Faces”. Basicamente, a jornada consiste em três elementos principais: a partida, a iniciação e o retorno.

Em Harry Potter, temos a partida de Harry da casa dos Dursley, o momento em que ele, por acaso, se depara com um mundo novo – um mundo mágico que ele nem sonhava que existia. Apesar dos receios, Harry aceita o convite e sai em busca de seu “lugar ao sol”. Um lugar que fará com que ele se sinta em casa e que não tenha absolutamente nada a ver com a sua vida medíocre e tediosa de antes.

A partir disso, ele começa a entrar em contato com esse universo e a se familiarizar com ele. É a iniciação, o momento em que Harry começa a aprender magia e as regras desse mundo especial. Logo, ele faz aliados e enfrenta perigos. Apesar de todo o apoio, chega um momento em que ele percebe que deve realizar sua missão sozinho. Porque o fardo é dele (alguém já lembrou do Frodo e o fardo do Um Anel aí?).

Passar por provações (e provações difíceis e traumáticas, que colocam sua vida em risco) é algo necessário, mas existem recompensas no fim deste caminho tortuoso: o amadurecimento e a experiência. É nesse momento da história que o herói vence a morte e passa por cima dos seus medos, começando a sua jornada de volta – agora como um herói que tem a posse de dois mundos.

Complicado? Um pouco. Mas faz todo o sentido depois que você tira um tempinho para analisar a série. A melhor parte é que a jornada do herói é algo com o qual milhares de leitores podem se identificar. Na minha opinião, é por isso que a série é tão aclamada. Porque, por mais que a história fale sobre um universo ficcional e mágico, ela se aproxima, ao seu modo, de conceitos e sentimentos que nós, trouxas, temos e sentimos.

E só trazer isso para a nossa própria realidade. Harry, no fim das contas, é “tão gente como a gente”. Ele também sente medo, hesita, tem fraquezas. Ele também enfrenta mil dificuldades e precisa de aliados para se firmar. Mas ele também tem ética – uma ética que é botada à prova a cada aventura – e virtudes. Trapacear ou não no Torneio Tribruxo? Colar ou não na prova de matemática? Ajudar apenas os nossos amigos? Ou devemos dar uma chance para nossos inimigos também?

Harry, não importa o que aconteça, sempre caminha na direção da sabedoria. Com astúcia, sangue-frio, solidariedade, amizade, coragem e amor, ele é capaz de batalhar contra tudo o que há de mal em seu mundo. E não é o que todos fazemos, cada um a seu modo? No fim, talvez todos nós sejamos heróis. A única diferença é que Harry sabe fazer magia, enquanto nós aprendemos a mexer no computador e, sei lá, trocar a resistência do chuveiro. Reparo!

Nilsen Silva me confessou: ela ainda não sabe trocar a resistência do chuveiro, mas escreve colunas como ninguém.